ARQUITETURA DO ABANDONO
Leal Kostav
(O relógio de pulso marca sempre a
hora do cacau)
A ponte estala sob o peso do que
ficou para trás. Debruçar-se nela constitui um exercício de risco; o rio que
corre lá embaixo não transporta apenas água, mas o fluido vital de uma meninice
que insiste em não secar. “Água Preta:
debruço-me na ponte, / olho o rio que sangra minha infância”, escreve o
poeta baiano, hoje aos 94 anos, com a lucidez de quem lapidou o próprio soluço
até transformá-lo em caligrafia solar. Florisvaldo Mattos, imortal da Academia
de Letras da Bahia e mestre da Geração Mapa, não faz versos para decorar
salões. Sua dicção, forjada entre o rigor do jornalismo e a alta expressividade
lírica, é um organismo vivo que pulsa no Recôncavo e deságua no absoluto. Ele
carrega consigo o DNA de uma Bahia que não se entrega ao cartão-postal fácil;
sua terra é feita de lama, suor de tropeiro e o brilho frio da casimira.
O mundo agora se apresenta sob a
ótica de um cronista que vê a alma desintegrar-se na Rua do Apertucho. “Me despeço de mim — lá, do que fui, / do
que somente fui, não mais serei”. Há uma melancolia seca aqui, uma
despedida que se renova a cada estrofe. O destino surge como um traço
imperceptível, palavras que resistem ao lodo das paredes enquanto a chuva
açoita os gramados sob o olhar atento de tia Dasdores. Do necessário roxo dos
telhados, desce a procissão da finitude. É o gado das eras que surge, manso,
ruminando os dias, rumo ao fundo do leito onde a ausência é a única pastagem
disponível. O tempo aqui, círculo de chifres e sombras, devora a paisagem,
alheio a qualquer linha. O substantivo "gado" neste contexto se
desveste da pecuária para assumir uma função metafísica: ele pasta o nosso
esquecimento.
Nascido em 1932, o homem que caminhou
ao lado de Glauber Rocha e integrou o grupo que revolucionou a estética baiana
traz na pele a poeira das estradas e o brilho das "sensações
bucólicas" que o progresso insiste em sufocar. A vila agita-se. O comércio
estala o chicote do consumo sobre o paralelepípedo frio. “Aqui, o recanto da veneração, / que se reserva às tropas de cacau”.
A transição do idílio para o lucro é narrada com uma ironia quase
imperceptível. O sol do dinheiro brilha com um riso cínico. As tabuletas
retumbam o anúncio da seda, da casimira, do brim. É o império da mercadoria,
onde caixeiros de manga curta cantam o evangelho dos estoques. A alma, velha
conhecida das novenas de maio, observa de esguelha, sentindo o peso do asfalto
mudo que engole os passos. Não há espaço para o sagrado onde o preço da saca de
cacau dita o ritmo da prece.
As velhas estações de trem repousam
no chão como carcaças de baleias de ferro. O abandono lhes confere uma
dignidade espectral. “Ó trilhos
dispersados na saudade, / curvas que a mão dos anos enferruja!”. O poeta
mira as paredes gastas e sente a doçura de um tempo sem mãos sujas, uma época
onde a dignidade do trabalho — do maquinista, do guarda-freios, do foguista —
ainda alimentava a lenha da memória. A história ali se conta em réis e suor,
uma narrativa que junta o fruto de ouro com a força bruta dos coronéis. O trem
partiu, mas o apito ainda vibra no peito de quem sabe que o progresso, muitas
vezes, é apenas o nome polido da ruína. Florisvaldo olha para esses trilhos não
com o saudosismo barato dos colecionadores de antiguidades, mas com o rigor de
quem entende que a ferrugem é a caligrafia do descaso.
A arquitetura do texto flerta com o
rebuscamento das formas, uma espécie de luxo dos escombros onde a metalinguagem
se faz presente no espelhamento entre o eu e a obra. O poema olha para si mesmo
e se reconhece incompleto, como o menino ao pé do padre Luís Sanjuan. “O padre olha-me. Sou um rude, sei, /
incapaz de encantar-me com o sermão”. O fascínio não reside na "vã
filosofia" ou na doutrina rígida, mas no som cristalino das palavras. A
revelação se dá pelo ouvido. O encantamento vem das ladainhas, da voz das
moças, do desejo que é um macaco cauteloso que não quebra louças. É o sagrado
que esbarra no desejo humano, a transcendência que se esconde na rima e não no
dogma. Florisvaldo, o ensaísta que decifra Sosígenes Costa, sabe que a
sensualidade é uma forma de oração, e que o corpo é o primeiro altar onde a
palavra se sacrifica.
“Dias virão sob um céu pálido / e seguirão sobre
chão cálido / e voltarão num sonho válido”. O ritmo aqui possui um rigor de ourives, frases curtas que golpeiam a
consciência com a força de um martelo sobre a bigorna. A palpação da realidade
exige mãos calejadas. O ser inválido que se perde no verde das alegrias urbanas
busca, desesperadamente, o sonho que resume a totalidade da existência.
Florisvaldo colhe o trauma das transformações sociais — a transição da Bahia
agrária para a febre urbana — e o transforma em joia bruta. O rigor formal da
Geração Mapa funciona como uma contenção necessária para uma lírica que, de
outra forma, transbordaria em chaga aberta. Ele não escreve para explicar o
mundo; escreve para suportar o peso da sua beleza e do seu horror simultâneos.
A linguagem funciona como um bisturi
de seda. Corta sem que percebamos a perda de sangue. O texto se desconstitui
para se tornar carne. Sinto o peso de um calendário que não admite devolução. A
angústia de quem se perde no fluxo da mercadoria e busca o cristal da palavra
no meio do lodo comercial. O menino ainda ri da autoridade do padre. O homem
chora o rio que passou e que, no fundo, nunca parou de sangrar. A maturidade
dos 94 anos não trouxe o conformismo, mas uma agudeza de visão que transforma
cada estação de trem em um altar de resistência contra o apagamento da nossa
identidade mais profunda.
O sol do dinheiro continua risonho,
alheio à melancolia do poeta. O comércio agita-se, frenético, ignorando a água
quieta do rio Água Preta. A infância sangra na ponte do agora. O destino
escreve nas paredes palavras que as gerações do asfalto já não conseguem ler. O
gado dos séculos segue seu rumo, chifrando nossas ausências com paciência
bovina. O silêncio da cidade guarda o segredo de quem se perdeu nos dias
verdes. Sonhar, de fato, constitui a única estrutura sólida que nos resta.
Florisvaldo Mattos, com sua mão imortal, continua a acender a lenha dessa
memória, provando que a poesia é a única mercadoria que o dinheiro não consegue
comprar, pois seu valor é medido em eternidade e não em réis.
A compreensão final não necessita de
nomes difíceis. Ela se esconde no detalhe de uma calça de brim ou no brilho de
uma tabuleta de vila. O cotidiano revela sua face de esfinge para quem tem
olhos de ver. A beleza dói pela precisão com que nos aponta o vazio. O verso de
Florisvaldo não descreve o mundo; o inventa a partir dos destroços do que
fomos. A travessia do oásis continua, e o poeta baiano segue sendo nosso guia
mais fiel, segurando a caligrafia do soluço com a firmeza de quem conhece todos
os caminhos do mar, da terra e do coração humano. Que a Bahia o guarde, pois
ele guarda a Bahia dentro de cada sílaba.
*(21/04/2026)
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