terça-feira, 21 de abril de 2026

HOMENAGEM DE LEAL KOSTAV A FLORISVALDO MATTOS

    O gado do tempo chifra a eternidade na poesia de Florisvaldo Mattos. Aos 94 anos, o imortal da Academia de Letras da Bahia nos conduz por rios que sangram e estações de trem perdidas entre o ouro do cacau e o silêncio do asfalto. (L. K)


ARQUITETURA DO ABANDONO

 

 ✍️Leal Kostav

 

(O relógio de pulso marca sempre a hora do cacau)

 

A ponte estala sob o peso do que ficou para trás. Debruçar-se nela constitui um exercício de risco; o rio que corre lá embaixo não transporta apenas água, mas o fluido vital de uma meninice que insiste em não secar. “Água Preta: debruço-me na ponte, / olho o rio que sangra minha infância”, escreve o poeta baiano, hoje aos 94 anos, com a lucidez de quem lapidou o próprio soluço até transformá-lo em caligrafia solar. Florisvaldo Mattos, imortal da Academia de Letras da Bahia e mestre da Geração Mapa, não faz versos para decorar salões. Sua dicção, forjada entre o rigor do jornalismo e a alta expressividade lírica, é um organismo vivo que pulsa no Recôncavo e deságua no absoluto. Ele carrega consigo o DNA de uma Bahia que não se entrega ao cartão-postal fácil; sua terra é feita de lama, suor de tropeiro e o brilho frio da casimira.

O mundo agora se apresenta sob a ótica de um cronista que vê a alma desintegrar-se na Rua do Apertucho. “Me despeço de mim — lá, do que fui, / do que somente fui, não mais serei”. Há uma melancolia seca aqui, uma despedida que se renova a cada estrofe. O destino surge como um traço imperceptível, palavras que resistem ao lodo das paredes enquanto a chuva açoita os gramados sob o olhar atento de tia Dasdores. Do necessário roxo dos telhados, desce a procissão da finitude. É o gado das eras que surge, manso, ruminando os dias, rumo ao fundo do leito onde a ausência é a única pastagem disponível. O tempo aqui, círculo de chifres e sombras, devora a paisagem, alheio a qualquer linha. O substantivo "gado" neste contexto se desveste da pecuária para assumir uma função metafísica: ele pasta o nosso esquecimento.

Nascido em 1932, o homem que caminhou ao lado de Glauber Rocha e integrou o grupo que revolucionou a estética baiana traz na pele a poeira das estradas e o brilho das "sensações bucólicas" que o progresso insiste em sufocar. A vila agita-se. O comércio estala o chicote do consumo sobre o paralelepípedo frio. “Aqui, o recanto da veneração, / que se reserva às tropas de cacau”. A transição do idílio para o lucro é narrada com uma ironia quase imperceptível. O sol do dinheiro brilha com um riso cínico. As tabuletas retumbam o anúncio da seda, da casimira, do brim. É o império da mercadoria, onde caixeiros de manga curta cantam o evangelho dos estoques. A alma, velha conhecida das novenas de maio, observa de esguelha, sentindo o peso do asfalto mudo que engole os passos. Não há espaço para o sagrado onde o preço da saca de cacau dita o ritmo da prece.

As velhas estações de trem repousam no chão como carcaças de baleias de ferro. O abandono lhes confere uma dignidade espectral. “Ó trilhos dispersados na saudade, / curvas que a mão dos anos enferruja!”. O poeta mira as paredes gastas e sente a doçura de um tempo sem mãos sujas, uma época onde a dignidade do trabalho — do maquinista, do guarda-freios, do foguista — ainda alimentava a lenha da memória. A história ali se conta em réis e suor, uma narrativa que junta o fruto de ouro com a força bruta dos coronéis. O trem partiu, mas o apito ainda vibra no peito de quem sabe que o progresso, muitas vezes, é apenas o nome polido da ruína. Florisvaldo olha para esses trilhos não com o saudosismo barato dos colecionadores de antiguidades, mas com o rigor de quem entende que a ferrugem é a caligrafia do descaso.

A arquitetura do texto flerta com o rebuscamento das formas, uma espécie de luxo dos escombros onde a metalinguagem se faz presente no espelhamento entre o eu e a obra. O poema olha para si mesmo e se reconhece incompleto, como o menino ao pé do padre Luís Sanjuan. “O padre olha-me. Sou um rude, sei, / incapaz de encantar-me com o sermão”. O fascínio não reside na "vã filosofia" ou na doutrina rígida, mas no som cristalino das palavras. A revelação se dá pelo ouvido. O encantamento vem das ladainhas, da voz das moças, do desejo que é um macaco cauteloso que não quebra louças. É o sagrado que esbarra no desejo humano, a transcendência que se esconde na rima e não no dogma. Florisvaldo, o ensaísta que decifra Sosígenes Costa, sabe que a sensualidade é uma forma de oração, e que o corpo é o primeiro altar onde a palavra se sacrifica.

“Dias virão sob um céu pálido / e seguirão sobre chão cálido / e voltarão num sonho válido”. O ritmo aqui possui um rigor de ourives, frases curtas que golpeiam a consciência com a força de um martelo sobre a bigorna. A palpação da realidade exige mãos calejadas. O ser inválido que se perde no verde das alegrias urbanas busca, desesperadamente, o sonho que resume a totalidade da existência. Florisvaldo colhe o trauma das transformações sociais — a transição da Bahia agrária para a febre urbana — e o transforma em joia bruta. O rigor formal da Geração Mapa funciona como uma contenção necessária para uma lírica que, de outra forma, transbordaria em chaga aberta. Ele não escreve para explicar o mundo; escreve para suportar o peso da sua beleza e do seu horror simultâneos.

A linguagem funciona como um bisturi de seda. Corta sem que percebamos a perda de sangue. O texto se desconstitui para se tornar carne. Sinto o peso de um calendário que não admite devolução. A angústia de quem se perde no fluxo da mercadoria e busca o cristal da palavra no meio do lodo comercial. O menino ainda ri da autoridade do padre. O homem chora o rio que passou e que, no fundo, nunca parou de sangrar. A maturidade dos 94 anos não trouxe o conformismo, mas uma agudeza de visão que transforma cada estação de trem em um altar de resistência contra o apagamento da nossa identidade mais profunda.

O sol do dinheiro continua risonho, alheio à melancolia do poeta. O comércio agita-se, frenético, ignorando a água quieta do rio Água Preta. A infância sangra na ponte do agora. O destino escreve nas paredes palavras que as gerações do asfalto já não conseguem ler. O gado dos séculos segue seu rumo, chifrando nossas ausências com paciência bovina. O silêncio da cidade guarda o segredo de quem se perdeu nos dias verdes. Sonhar, de fato, constitui a única estrutura sólida que nos resta. Florisvaldo Mattos, com sua mão imortal, continua a acender a lenha dessa memória, provando que a poesia é a única mercadoria que o dinheiro não consegue comprar, pois seu valor é medido em eternidade e não em réis.

A compreensão final não necessita de nomes difíceis. Ela se esconde no detalhe de uma calça de brim ou no brilho de uma tabuleta de vila. O cotidiano revela sua face de esfinge para quem tem olhos de ver. A beleza dói pela precisão com que nos aponta o vazio. O verso de Florisvaldo não descreve o mundo; o inventa a partir dos destroços do que fomos. A travessia do oásis continua, e o poeta baiano segue sendo nosso guia mais fiel, segurando a caligrafia do soluço com a firmeza de quem conhece todos os caminhos do mar, da terra e do coração humano. Que a Bahia o guarde, pois ele guarda a Bahia dentro de cada sílaba.

*(21/04/2026)

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MINI-BIO DO AUTOR

 

Leal Kostav é o pseudônimo literário de Edevaldo Leal, delegado de polícia, poeta, cronista e contista paraense, com relevantes incursões no ensaio. Com uma trajetória de dez anos no jornalismo, descobriu na escrita, ainda na adolescência, há mais de quatro décadas, um meio singular para decifrar as emoções do cotidiano e traduzir a complexidade da experiência humana. Embora não possua obras publicadas em livro nem participações em antologias, dedica-se com rigor e sensibilidade à busca da simplicidade expressiva, que lhe serve de refúgio criativo e instrumento de reflexão. Atualmente, concentra seus esforços na produção de crônicas-ensaios sobre autores literários e no estudo aprofundado da obra-prima Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, cuja publicação completa 70 anos neste ano, rendendo-lhe textos que dialogam com a riqueza e a profundidade do clássico. Reside em Belém, onde sua produção literária é regularmente divulgada em seu perfil no Facebook, conquistando leitores atentos à autenticidade e à profundidade de sua escrita.


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