A OBRA POÉTICA E A PROSA DE FLORISVALDO MATTOS
Antônio Lins
Há escritores que passam pela literatura como quem atravessa
uma praça; outros, mais perseverantes, deixam nela suas pegadas, seus
pensamentos e, sobretudo, a memória de seu tempo. Florisvaldo Mattos pertence a
esta segunda categoria.
Poeta, jornalista, professor, ensaísta e homem de letras,
nasceu em 1932, na região de Uruçuca, no sul da Bahia. Fez-se intelectual numa
terra onde a literatura nunca foi apenas exercício de palavras, mas também uma
maneira de interpretar a vida, a sociedade e as contradições de seu povo.
Sua trajetória intelectual é marcada pela poesia e pela
prosa, pela investigação histórica e pela crítica literária. Bacharel em
Direito, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia,
construiu também uma respeitável carreira no jornalismo, tendo passado pelo
Jornal da Bahia, Diário de Notícias, Jornal do Brasil e A Tarde, onde dirigiu o
suplemento Cultural.
Mas é na literatura que encontramos uma das dimensões mais
interessantes de sua personalidade.
Sua poesia revela um escritor atento à linguagem, às imagens
e às inquietações humanas. Livros como Reverdor, Fábula Civil, Mares
Anoitecidos e A Caligrafia do Soluço e Poesia Anterior demonstram uma
trajetória construída com rigor e sensibilidade.
Na prosa, particularmente nos ensaios, Florisvaldo demonstra
outra qualidade: a capacidade de transformar lembranças e acontecimentos em
documentos de uma época.
É o que encontramos em A Academia dos Rebeldes e Outros
Exercícios Redacionais, obra de mais de quinhentas páginas, reunindo 27 ensaios
sobre literatura, artes plásticas, escritores, artistas e a vida cultural da
Bahia.
A Academia dos Rebeldes merece um capítulo especial nessa
história.
Fundado em 1928, o movimento reuniu jovens intelectuais que
desejavam sacudir a literatura baiana, afastando-a da retórica envelhecida e do
conservadorismo que dominavam boa parte da vida cultural daquele período.
Entre seus participantes estavam Jorge Amado, Clóvis Amorim,
Edison Carneiro, Sosígenes Costa, Dias da Costa, Alves Ribeiro e Walter da
Silveira, entre outros. Pinheiro Viegas foi uma de suas figuras inspiradoras.
Eram jovens que pretendiam modificar não apenas a
literatura, mas também a maneira de pensar a Bahia e o Brasil.
Salvador tinha seus cafés, seus encontros, suas conversas
intermináveis, sua boemia e seus personagens populares. A cidade era um
extraordinário laboratório de ideias. Nas ruas, nos bares e nas mesas de
discussão, fervilhavam as inquietações de uma geração que não aceitava
permanecer prisioneira do passado.
Florisvaldo Mattos recupera essa atmosfera com a atenção de
quem compreende que a história cultural de uma cidade não está somente nos
livros oficiais, mas também nas conversas, nos encontros, nas amizades e nas
pequenas rebeldias de seus personagens.
Sua interpretação da Bahia não se limita aos monumentos, às
igrejas ou às datas comemorativas. É uma Bahia de homens e mulheres, de
artistas, jornalistas, poetas, intelectuais e boêmios. Uma Bahia que pensa,
escreve, discute e, vez por outra, briga com suas próprias tradições.
Há nisso uma contribuição extraordinária para a preservação
da memória cultural baiana.
Florisvaldo também pertence à geração que viveu a
efervescência cultural posterior, a chamada Geração Mapa, da qual participaram
Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro e outros jovens que ajudaram a renovar as
artes e o pensamento na Bahia.
Foi presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia e
tornou-se membro da Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira número 31.
Não é pouca coisa para um homem que fez da palavra seu
instrumento de trabalho e da cultura sua permanente preocupação.
Machado de Assis talvez observasse que a posteridade é uma
senhora caprichosa: às vezes esquece os que muito fizeram e conserva aqueles
que melhor souberam contar o que fizeram os outros.
Florisvaldo Mattos realiza justamente esse trabalho de
preservação.
Arte Digital, de Mário Cravo Jr., membro do grupo Caderno da Bahia (1948-1955)
OS ARTISTAS PLÁSTICOS DA BAHIA
Antônio Lins
A Bahia sempre foi uma terra de artistas. Sua luz, suas
igrejas, seus santos, seus mercados, suas ladeiras e, sobretudo, seu povo
parece ter sido feito para inspirar pintores, escultores e homens de
sensibilidade.
Na década de 1940, Salvador começou a experimentar uma
verdadeira revolução nas artes plásticas. Uma geração de artistas ousados
rompeu com os padrões acadêmicos e resolveu pintar a Bahia com outros olhos.
Era uma gente que não queria apenas reproduzir a paisagem, mas revelar a alma
de uma terra.
Entre os grandes nomes dessa renovação estavam Mário Cravo
Júnior, Carlos Bastos e Genaro de Carvalho, aos quais se juntaram Jenner
Augusto, Carybé, Rubem Valentim e tantos outros.
Mário Cravo era um escultor extraordinário. Suas obras
pareciam conversar com a madeira, o bronze e o metal. Havia nelas uma força
quase primitiva, uma ligação profunda com as raízes populares e religiosas da
Bahia. Era um artista que sabia transformar matéria em emoção.
Carybé, argentino de nascimento, mas baiano por escolha e
sentimento, fez da Bahia seu universo. Seus desenhos, pinturas e murais
retrataram pescadores, capoeiristas, baianas, saveiros, orixás e cenas do
cotidiano. Ninguém como ele soube traduzir em imagens a extraordinária mistura
de culturas que formou o povo baiano.
Genaro de Carvalho foi um mestre das cores e das tapeçarias.
Seus trabalhos, de grande riqueza ornamental, levaram a natureza brasileira
para os tecidos, criando composições de beleza singular. Foi um dos pioneiros
da tapeçaria artística moderna no Brasil.
Jenner Augusto, sergipano que encontrou na Bahia uma segunda
pátria, deixou uma obra marcada pela sensibilidade. Pintou Salvador, seus
moradores, suas paisagens e, especialmente, os Alagados, registrando uma cidade
de contrastes, de pobreza, de resistência e de esperança.
Carlos Bastos trouxe para a pintura baiana uma linguagem
moderna, pessoal e inquieta. Sua produção revelou um artista de grande domínio
técnico e imaginação, que ajudou a abrir caminhos para as novas gerações.
Zé de Dome também merece um lugar especial nessa história.
Sua produção artística integrou o ambiente de renovação cultural que fez da
Bahia um importante centro das artes brasileiras.
Floriano Teixeira, pintor, desenhista e ilustrador, deixou
uma contribuição expressiva, marcada pela representação da cultura nordestina,
de seus personagens, de suas paisagens e de suas tradições.
Não podemos esquecer Rubem Valentim, com sua linguagem
geométrica e sua extraordinária ligação com os símbolos da religiosidade
afro-brasileira, nem outros artistas que ajudaram a construir esse movimento.
Era uma época em que artistas, escritores, jornalistas e
intelectuais se encontravam, discutiam, criavam e sonhavam. A Bahia respirava
cultura. Jorge Amado, Carybé, Mário Cravo e tantos outros pertenciam a esse
universo de amizade e criação.
A cidade era um grande ateliê. O Pelourinho, o Mercado
Modelo, o Rio Vermelho, a Ribeira e as praias ofereciam motivos inesgotáveis
para quem tinha olhos de artista.
Essa geração não pintou apenas a Bahia. Ela ajudou a
inventá-la para o Brasil e para o mundo.
Hoje, quando contemplamos essas obras, percebemos que não
estamos diante de simples quadros, esculturas ou tapeçarias. Estamos diante de
um patrimônio de nossa identidade.
Os artistas passam, mas suas obras permanecem. E a Bahia,
que sempre teve vocação para a beleza, continua devendo a esses homens uma
homenagem à altura de sua grandeza.
Antônio Lins é poeta, agudo epigramista, escritor, jornalista, cronista, articulista e dramaturgo baiano, residente há muitas décadas em São Paulo, que exerceu a presidência da Fundação Gregório de Mattos (FGM), órgão responsável pela gestão da política cultural do município do Salvador, durante anos iniciais do século XXI.

