sábado, 31 de outubro de 2026

Antonio Lins, ensaio sobre FM, poeta e prosador

            Oxóssi, arte de Carybé (Argentina, 1911-Salvador, 1997) 

 
Compartilhado com: Público
DESDE SÃO PAULO, UMA FIEL PROVA DE BAIANIDADE

O brilhante escritor baiano Antonio Lins (poeta, epigramista de proa, ficcionista, jornalista, cronista, ensaísta e internauta de expressivos e variados conteúdos, que vive em São Paulo, há muitíssimas décadas, postou no WhatsApp um artigo sobre o primeiro edifício, que se construiu em Salvador, dentro da estética arquitetônica da modernidade, justamente o Oceania, localizado defronte do Farol da Barra, inaugurado em 1943, levando-me a recordar o tanto que registrei em meu livro intitulado "Academia dos Rebeldes e outros exercícios redacionais", lançado em 2023, sobre este avanço urbanístico baiano, para situar a Bahia nos patamares da modernidade, a partir das reformas introduzidas pelo governador Seabra, em sus dois mandatos (1912-1916 e 1920-1924), assim como o que escrevi sobre o poeta feirense Eurico Alves, na análise de seu conjunto intitulado "Poemas metálicos", de típica e claríssima visão futurista, que sairá no novo número da Resvista da Academia de Letras da Bahia, com lançamento previsto para os inícios de novembro.
Pois não é que, quando emiti um forte elogio ao ensaio de Lins, sou surpreendido com memorável elocução dele sobre mim, Florisvaldo Mattos, como poeta e prosador, o que me fez mergulhar num mar de forte e agradecida emoção. Tanto me tocou esta sua grandiosa redação, que assumo a ousadia de transcrevê-la. Vai abaixo, desculpem a ainda juvenil afoiteza.

A OBRA POÉTICA E A PROSA DE FLORISVALDO MATTOS

 

Antônio Lins

 

Há escritores que passam pela literatura como quem atravessa uma praça; outros, mais perseverantes, deixam nela suas pegadas, seus pensamentos e, sobretudo, a memória de seu tempo. Florisvaldo Mattos pertence a esta segunda categoria.

Poeta, jornalista, professor, ensaísta e homem de letras, nasceu em 1932, na região de Uruçuca, no sul da Bahia. Fez-se intelectual numa terra onde a literatura nunca foi apenas exercício de palavras, mas também uma maneira de interpretar a vida, a sociedade e as contradições de seu povo.

Sua trajetória intelectual é marcada pela poesia e pela prosa, pela investigação histórica e pela crítica literária. Bacharel em Direito, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia, construiu também uma respeitável carreira no jornalismo, tendo passado pelo Jornal da Bahia, Diário de Notícias, Jornal do Brasil e A Tarde, onde dirigiu o suplemento Cultural.

Mas é na literatura que encontramos uma das dimensões mais interessantes de sua personalidade.

Sua poesia revela um escritor atento à linguagem, às imagens e às inquietações humanas. Livros como Reverdor, Fábula Civil, Mares Anoitecidos e A Caligrafia do Soluço e Poesia Anterior demonstram uma trajetória construída com rigor e sensibilidade.

Na prosa, particularmente nos ensaios, Florisvaldo demonstra outra qualidade: a capacidade de transformar lembranças e acontecimentos em documentos de uma época.

É o que encontramos em A Academia dos Rebeldes e Outros Exercícios Redacionais, obra de mais de quinhentas páginas, reunindo 27 ensaios sobre literatura, artes plásticas, escritores, artistas e a vida cultural da Bahia.

A Academia dos Rebeldes merece um capítulo especial nessa história.

Fundado em 1928, o movimento reuniu jovens intelectuais que desejavam sacudir a literatura baiana, afastando-a da retórica envelhecida e do conservadorismo que dominavam boa parte da vida cultural daquele período.

Entre seus participantes estavam Jorge Amado, Clóvis Amorim, Edison Carneiro, Sosígenes Costa, Dias da Costa, Alves Ribeiro e Walter da Silveira, entre outros. Pinheiro Viegas foi uma de suas figuras inspiradoras.

Eram jovens que pretendiam modificar não apenas a literatura, mas também a maneira de pensar a Bahia e o Brasil.

Salvador tinha seus cafés, seus encontros, suas conversas intermináveis, sua boemia e seus personagens populares. A cidade era um extraordinário laboratório de ideias. Nas ruas, nos bares e nas mesas de discussão, fervilhavam as inquietações de uma geração que não aceitava permanecer prisioneira do passado.

Florisvaldo Mattos recupera essa atmosfera com a atenção de quem compreende que a história cultural de uma cidade não está somente nos livros oficiais, mas também nas conversas, nos encontros, nas amizades e nas pequenas rebeldias de seus personagens.

Sua interpretação da Bahia não se limita aos monumentos, às igrejas ou às datas comemorativas. É uma Bahia de homens e mulheres, de artistas, jornalistas, poetas, intelectuais e boêmios. Uma Bahia que pensa, escreve, discute e, vez por outra, briga com suas próprias tradições.

Há nisso uma contribuição extraordinária para a preservação da memória cultural baiana.

Florisvaldo também pertence à geração que viveu a efervescência cultural posterior, a chamada Geração Mapa, da qual participaram Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro e outros jovens que ajudaram a renovar as artes e o pensamento na Bahia.

Foi presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia e tornou-se membro da Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira número 31.

Não é pouca coisa para um homem que fez da palavra seu instrumento de trabalho e da cultura sua permanente preocupação.

Machado de Assis talvez observasse que a posteridade é uma senhora caprichosa: às vezes esquece os que muito fizeram e conserva aqueles que melhor souberam contar o que fizeram os outros.

Florisvaldo Mattos realiza justamente esse trabalho de preservação.

       Arte Digital, de Mário Cravo Jr., membro do grupo Caderno da Bahia (1948-1955)

OS ARTISTAS PLÁSTICOS DA BAHIA

 

Antônio Lins

 

A Bahia sempre foi uma terra de artistas. Sua luz, suas igrejas, seus santos, seus mercados, suas ladeiras e, sobretudo, seu povo parece ter sido feito para inspirar pintores, escultores e homens de sensibilidade.

Na década de 1940, Salvador começou a experimentar uma verdadeira revolução nas artes plásticas. Uma geração de artistas ousados rompeu com os padrões acadêmicos e resolveu pintar a Bahia com outros olhos. Era uma gente que não queria apenas reproduzir a paisagem, mas revelar a alma de uma terra.

Entre os grandes nomes dessa renovação estavam Mário Cravo Júnior, Carlos Bastos e Genaro de Carvalho, aos quais se juntaram Jenner Augusto, Carybé, Rubem Valentim e tantos outros.

Mário Cravo era um escultor extraordinário. Suas obras pareciam conversar com a madeira, o bronze e o metal. Havia nelas uma força quase primitiva, uma ligação profunda com as raízes populares e religiosas da Bahia. Era um artista que sabia transformar matéria em emoção.

Carybé, argentino de nascimento, mas baiano por escolha e sentimento, fez da Bahia seu universo. Seus desenhos, pinturas e murais retrataram pescadores, capoeiristas, baianas, saveiros, orixás e cenas do cotidiano. Ninguém como ele soube traduzir em imagens a extraordinária mistura de culturas que formou o povo baiano.

Genaro de Carvalho foi um mestre das cores e das tapeçarias. Seus trabalhos, de grande riqueza ornamental, levaram a natureza brasileira para os tecidos, criando composições de beleza singular. Foi um dos pioneiros da tapeçaria artística moderna no Brasil.

Jenner Augusto, sergipano que encontrou na Bahia uma segunda pátria, deixou uma obra marcada pela sensibilidade. Pintou Salvador, seus moradores, suas paisagens e, especialmente, os Alagados, registrando uma cidade de contrastes, de pobreza, de resistência e de esperança.

Carlos Bastos trouxe para a pintura baiana uma linguagem moderna, pessoal e inquieta. Sua produção revelou um artista de grande domínio técnico e imaginação, que ajudou a abrir caminhos para as novas gerações.

Zé de Dome também merece um lugar especial nessa história. Sua produção artística integrou o ambiente de renovação cultural que fez da Bahia um importante centro das artes brasileiras.

Floriano Teixeira, pintor, desenhista e ilustrador, deixou uma contribuição expressiva, marcada pela representação da cultura nordestina, de seus personagens, de suas paisagens e de suas tradições.

Não podemos esquecer Rubem Valentim, com sua linguagem geométrica e sua extraordinária ligação com os símbolos da religiosidade afro-brasileira, nem outros artistas que ajudaram a construir esse movimento.

Era uma época em que artistas, escritores, jornalistas e intelectuais se encontravam, discutiam, criavam e sonhavam. A Bahia respirava cultura. Jorge Amado, Carybé, Mário Cravo e tantos outros pertenciam a esse universo de amizade e criação.

A cidade era um grande ateliê. O Pelourinho, o Mercado Modelo, o Rio Vermelho, a Ribeira e as praias ofereciam motivos inesgotáveis para quem tinha olhos de artista.

Essa geração não pintou apenas a Bahia. Ela ajudou a inventá-la para o Brasil e para o mundo.

Hoje, quando contemplamos essas obras, percebemos que não estamos diante de simples quadros, esculturas ou tapeçarias. Estamos diante de um patrimônio de nossa identidade.

Os artistas passam, mas suas obras permanecem. E a Bahia, que sempre teve vocação para a beleza, continua devendo a esses homens uma homenagem à altura de sua grandeza.


 Antônio Lins é poeta, agudo epigramista, escritor, jornalista, cronista, articulista e dramaturgo baiano, residente há muitas décadas em São Paulo, que exerceu a presidência da Fundação Gregório de Mattos (FGM), órgão responsável pela gestão da política cultural do município do Salvador, durante anos iniciais do século XXI.

domingo, 24 de maio de 2026

FM: POESIA ERÓTICA, COMO SENTIMENTO AMOROSO



POESIA,SEMPRE

A TARDE, , CADERNO 2+, CAPA.  



Literatura baiana: 

Florisvaldo Mattos 

lança livro de poemas sensoriais

Ex-editor de A TARDE e imortal da ALB, Florisvaldo Mattos lança livro na próxima quinta, 21/05/2026

Por Eugênio Afonso