terça-feira, 12 de maio de 2026

FM, ENTREVISTA A A TARDE. NOVO LIVRO

 FLORISVALDO MATTOS

PONTEIO COM TERCETOS SENSORIAIS

 

ENTREVISTA PARA JORNAL “A TARDE”.

Jornalista: Eugenio Afonso.

 

PERGUNTAS:

 

Qual o propósito do livro?

. Fale um pouco sobre ele. O que o leitor vai encontrar no livro?

. É um romance? É ficção? Descreva o livro.

. Por que um livro de poesia erótica?

. Como o senhor classifica o erotismo?

. Há uma linha tênue entre erotismo e vulgaridade? Como lidar com ela?

. O que te faz tão ativo aos 94 anos de idade?

. Que legado quer deixar, sobretudo para a nova geração de escritores?

. O que quer a sua obra?

Mais uma pergunta: 

. De onde veio a inspiração para esse livro?

 

PERGNTAS E RESPOSTAS


 FLORISVALDO MATTOS

PONTEIO COM TERCETOS SENSORIAIS

 

ENTREVISTA PARA JORNAL “A TARDE”.

Concedida ao jornalista: Eugenio Afonso.

 

FM – Ponteio com tercetos sensoriais compõe-se de um longo poema, que reúne180 versos, de estrutura em decassílabos, distribuídos em sessenta estrofes de três dessas unidades, cada, com rimas sequenciais, de uma mesma tônica, atrelando-se a um gênero que possui alta dimensão na história da poesia, desde a antiguidade, o erotismo, desconhecendo-se idiomas, que não o tivessem cultivado, movidos por sensações infinitas na esfera humana dos desejos. Trata-se de um livro em capa dura, que traz ainda um ensaio-crítico do escritor Paulo Martins, ilustrado com a arte maior do saudoso alto desenhista Ângelo Roberto, que pertenceu à Geração Mapa, como um de seus destaques, com prólogo do poeta Ruy Espinheira Filho e minibiografias dos autores que formam o seu conteúdo, como também um acréscimo. À guisa de glossário, reportando-se a nomes vários de figuras nele citadas.

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Trata-se de uma poesia envolvendo o erotismo, porém distante da poesia erótica propriamente dita, de expressão concentrada no sexual, dominada pela relação física, pelo sexo, aproximando-se mais de um sentimento amoroso, sem apelar para a pornografia e a obscenidade. Nos versos deste poema não há cenários e tampouco relações obscenas, nada de fescenino e licencioso, firmados em modelos, latinos, saídos da pena de Ovídio, e gregos, também antigos, pelo que legou à história a ilha de Safo; no Brasil, a prática exaltadora do físico, como em Gregório de Matos, assim como em Portugal, com os versos quase também de erotismo físico dos sonetos de Bocage, ecoando entre nós na fartura das elocuções professadas pelo paulista Glauco Mattoso, já no século XX, e até, para surpresa e espanto geral, num soneto de sexo e pornografia à larga, de um dos mais admirados ícones do Modernismo, o pernambucano Manuel Bandeira.

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Sendo eu um poeta, cujo exercício na poesia começou na adolescência e seu desenvolvimento desaguou na publicação de poemas em meios de comunicação e livros, a criação de Ponteio com Tercetos Sensoriais, considerando a sobrevivências de redutos de leitores, que mantêm postura conservadora, quanto à poesia de lastro erótico, levou-me a guarda-lo, silencioso, em arquivo digital, sob pseudônimo, até que, passado um bom tempo, desejei conhecer a opinião de amigos e amigas, inclusive a minha mulher. Foi então que me veio a surpresa de todos o admirarem, aconselhando a publicá-lo, com autoria pessoal, sem pseudônimo. O susto me chegou, quando recebi do escritor Paulo Martins um ensaio-crítico, levando o poema às alturas, com sua elocução justificativa de publicação e me aconselhando a optar pela editora que já havia editado romances de sua autoria, o que resultou em inesperada decepção, quando o editor, depois de reter os originais por meses em suas mãos, devolveu-os, alegando não poder editá-lo, por contradição aos conteúdos, com que costumava lidar, entre os quais de livros infantis, o que lhe causaria má repercussão. Tal decepção nos levou a buscar outra editora. Foi aí que sugeri a P55 Edição, por já haver editado mais de um livro meu. É este que está neste lançamento, em capa dura, grandiosa programação gráfica e alto visual ilustrativo.

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Na verdade, a poesia de conteúdo erótico nunca esteve presente nas minhas criações dentro do universo desta arte na literatura de múltiplos países ocidentais. A opção por redigir o que consta deste livro é claramente fruto da maturidade, centrado em múltiplas experiências, que vêm da mocidade, onde as sensações se aglutinavam, despertando vivências em cenários de múltiplos sentimentos festivos. Nesses versos, não há nada que reporte à obscenidade e à indecência. Traduz-se até, na floração da linguagem e dos signos, num cardápio de lirismo respeitoso. É o que o leitor, suponho, vai encontrar neste exercício redacional. Com convicção, sigo um princípio de que, concluída e disponibilizada para o público, a obra poética abandona quem a criou e passa a pertencer ao leitor, que a lerá e relerá, quase sempre divisando algo novo, como dizem muitos pensadores, inclusive o argentino Jorge Luis Borges.

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Por que um livro de poesia erótica, pergunta-me. Sem a empáfia de nutrir teoria própria, satisfaço-me com a definição do crítico baiano Afrânio Coutinho: “É um tipo de poesia em que predomina o motivo amoroso ou sexual, mediante o uso de alusões, situações ou experiências, em que o sentimento é elemento de excitação ou interesse, variando a ênfase ou intensidade no desejo ou impulso sexual”. É o que, suponho, de mente clara sem presunção, sugerem ou explicitam os decassílabos que serão lidos, constantes dos tercetos deste livro, em que o objeto central é exprimem, sem recorrer a detalhes do amor físico, preferindo manifestar-se mais nobremente, sem palavrões ou gestos visualmente condenáveis. Creio que o leitor marchará por esta senda sensual e humanista. E por isso é um livro sem qualquer outro propósito, porque não tenho qualquer classificação pessoal para o erotismo, nem o tomo como seu tema essencial. Principal é o sentimento amoroso, sem alimentar a sua junção com a vulgaridade.

 

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. O que te faz tão ativo aos 94 anos de idade?

FM – Nasci no interior da região cacaueira, sobre solo grandemente fértil de folhas secas e sob verdejantes frondes de roças de cacau, transitei por campinas e cavalguei por estradas com ladeiras de barro vermelho; nadei em rios, bebi água fresca de riachos, pesquei piabas; subi em árvores, colhi frutos, vivi em vilas e cidades, onde cursei o primário e o ginasial; viajando de ônibus, mudei-me para estudar no Colégio da Bahia, então uma espécie de pré-faculdade, em Salvador, na ânsia por um diploma do ensino superior, enfim alcançado, mas logo tomei outro rumo, ao ser indicado por Glauber Rocha, para compor a equipe de redação inaugural do Jornal da Bahia, cuja primeira edição chegaria ao público, no dia mesmo de erupção da Primavera, e aí, abraçando a carreira do jornalismo, cujo exercício profissional duraria quase 53 anos, de 1958 a 2011. Por esse tempo e mais, publiquei livros, conjugando poemas épicos, líricos e satíricos, e de ensaios, centrados nos campos da literatura e das ciências humanas, com um total de 18 obras editadas e lançadas. Hoje, sentado na varanda ou diante do computador, a digitar postagens, arriscado a vê-las tomadas como hilário manejo de futilidades.

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- Que legado quer deixar, sobretudo para a nova geração de escritores?

FM – Não passa por mim tal cogitação. Na história da literatura, das artes e das ciências humanas, a meu ver, os legados podem advir de criadores, mas, de modo geral, costumam provir de movimentos culturais - na literatura, naturalismo, romantismo, parnasianismo, simbolismo, modernismo; nas artes, impressionismo, pós-impressionismo, fauvismo, cubismo, expressionismo, surrealismo. Legados individuais existem, mas sujeitos a um processo de limitação regido pela identidade. É possível, talvez não fácil, identificar-se na obra de um escritor estilo que s reporta à estética de outro e na arte de um pintor aspectos que denunciam traços e sequências criativas, que remetem à de um cujo nome se projetou e se consagrou como patente executor de uma arte maior. Cito um exemplo. Os poetas e prosadores integrantes da chamada Geração Mapa, a que orgulhosamente pertenço, em sua maior parte, se deixaram influenciar, pelas pregações estéticas de correntes do movimento modernista, tanto nacionais como estrangeiras. Poderia haver identificadas coincidências, mas, quase sempre, produto de abelhudice. O mesmo poderia ocorrer no campo das artes plásticas. Portanto, nada almejo quanto a uma circense possibilidade de deixar algum legado, mesmo mínimo, a uma nova geração de escritores.  


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