FLORISVALDO MATTOS
PONTEIO COM TERCETOS SENSORIAIS
ENTREVISTA PARA JORNAL “A TARDE”.
Jornalista: Eugenio Afonso.
PERGUNTAS:
Qual o propósito do livro?
. Fale um pouco sobre ele. O que o leitor vai encontrar no
livro?
. É um romance? É ficção? Descreva o livro.
. Por que um livro de poesia erótica?
. Como o senhor classifica o erotismo?
. Há uma linha tênue entre erotismo e vulgaridade? Como
lidar com ela?
. O que te faz tão ativo aos 94 anos de idade?
. Que legado quer deixar, sobretudo para a nova geração de
escritores?
. O que quer a sua obra?
Mais uma pergunta:
. De onde veio a inspiração para esse livro?
PERGNTAS E RESPOSTAS
FLORISVALDO MATTOS
PONTEIO COM TERCETOS SENSORIAIS
ENTREVISTA PARA JORNAL “A TARDE”.
Concedida ao jornalista: Eugenio Afonso.
FM – Ponteio com tercetos sensoriais compõe-se de um
longo poema, que reúne180 versos, de estrutura em decassílabos, distribuídos em
sessenta estrofes de três dessas unidades, cada, com rimas sequenciais, de uma
mesma tônica, atrelando-se a um gênero que possui alta dimensão na história da
poesia, desde a antiguidade, o erotismo, desconhecendo-se idiomas, que não o
tivessem cultivado, movidos por sensações infinitas na esfera humana dos
desejos. Trata-se de um livro em capa dura, que traz ainda um ensaio-crítico do
escritor Paulo Martins, ilustrado com a arte maior do saudoso alto desenhista
Ângelo Roberto, que pertenceu à Geração Mapa, como um de seus destaques, com
prólogo do poeta Ruy Espinheira Filho e minibiografias dos autores que formam o
seu conteúdo, como também um acréscimo. À guisa de glossário, reportando-se a
nomes vários de figuras nele citadas.
*
Trata-se de uma poesia envolvendo o erotismo, porém
distante da poesia erótica propriamente dita, de expressão concentrada no
sexual, dominada pela relação física, pelo sexo, aproximando-se mais de um
sentimento amoroso, sem apelar para a pornografia e a obscenidade. Nos versos
deste poema não há cenários e tampouco relações obscenas, nada de fescenino e
licencioso, firmados em modelos, latinos, saídos da pena de Ovídio, e gregos,
também antigos, pelo que legou à história a ilha de Safo; no Brasil, a prática
exaltadora do físico, como em Gregório de Matos, assim como em Portugal, com os
versos quase também de erotismo físico dos sonetos de Bocage, ecoando entre nós
na fartura das elocuções professadas pelo paulista Glauco Mattoso, já no século
XX, e até, para surpresa e espanto geral, num soneto de sexo e pornografia à
larga, de um dos mais admirados ícones do Modernismo, o pernambucano Manuel
Bandeira.
*
Sendo eu um poeta, cujo exercício na poesia começou na
adolescência e seu desenvolvimento desaguou na publicação de poemas em meios de
comunicação e livros, a criação de Ponteio
com Tercetos Sensoriais, considerando a sobrevivências de redutos de
leitores, que mantêm postura conservadora, quanto à poesia de lastro erótico,
levou-me a guarda-lo, silencioso, em arquivo digital, sob pseudônimo, até que,
passado um bom tempo, desejei conhecer a opinião de amigos e amigas, inclusive
a minha mulher. Foi então que me veio a surpresa de todos o admirarem,
aconselhando a publicá-lo, com autoria pessoal, sem pseudônimo. O susto me
chegou, quando recebi do escritor Paulo Martins um ensaio-crítico, levando o
poema às alturas, com sua elocução justificativa de publicação e me
aconselhando a optar pela editora que já havia editado romances de sua autoria,
o que resultou em inesperada decepção, quando o editor, depois de reter os
originais por meses em suas mãos, devolveu-os, alegando não poder editá-lo, por
contradição aos conteúdos, com que costumava lidar, entre os quais de livros
infantis, o que lhe causaria má repercussão. Tal decepção nos levou a buscar
outra editora. Foi aí que sugeri a P55 Edição, por já haver editado mais de um livro
meu. É este que está neste lançamento, em capa dura, grandiosa programação
gráfica e alto visual ilustrativo.
*
Na verdade, a poesia de conteúdo erótico nunca esteve
presente nas minhas criações dentro do universo desta arte na literatura de
múltiplos países ocidentais. A opção por redigir o que consta deste livro é
claramente fruto da maturidade, centrado em múltiplas experiências, que vêm da
mocidade, onde as sensações se aglutinavam, despertando vivências em cenários
de múltiplos sentimentos festivos. Nesses versos, não há nada que reporte à
obscenidade e à indecência. Traduz-se até, na floração da linguagem e dos
signos, num cardápio de lirismo respeitoso. É o que o leitor, suponho, vai
encontrar neste exercício redacional. Com convicção, sigo um princípio de que, concluída
e disponibilizada para o público, a obra poética abandona quem a criou e passa
a pertencer ao leitor, que a lerá e relerá, quase sempre divisando algo novo,
como dizem muitos pensadores, inclusive o argentino Jorge Luis Borges.
*
Por que um livro de poesia erótica, pergunta-me. Sem a
empáfia de nutrir teoria própria, satisfaço-me com a definição do crítico
baiano Afrânio Coutinho: “É um tipo de poesia em que predomina o motivo amoroso
ou sexual, mediante o uso de alusões, situações ou experiências, em que o
sentimento é elemento de excitação ou interesse, variando a ênfase ou
intensidade no desejo ou impulso sexual”. É o que, suponho, de mente clara sem presunção,
sugerem ou explicitam os decassílabos que serão lidos, constantes dos tercetos
deste livro, em que o objeto central é exprimem, sem recorrer a detalhes do
amor físico, preferindo manifestar-se mais nobremente, sem palavrões ou gestos
visualmente condenáveis. Creio que o leitor marchará por esta senda sensual e humanista.
E por isso é um livro sem qualquer outro propósito, porque não tenho qualquer
classificação pessoal para o erotismo, nem o tomo como seu tema essencial.
Principal é o sentimento amoroso, sem alimentar a sua junção com a vulgaridade.
*
. O que te faz tão
ativo aos 94 anos de idade?
FM – Nasci no interior da região cacaueira, sobre solo grandemente fértil
de folhas secas e sob verdejantes frondes de roças de cacau, transitei por
campinas e cavalguei por estradas com ladeiras de barro vermelho; nadei em
rios, bebi água fresca de riachos, pesquei piabas; subi em árvores, colhi frutos,
vivi em vilas e cidades, onde cursei o primário e o ginasial; viajando de ônibus,
mudei-me para estudar no Colégio da Bahia, então uma espécie de pré-faculdade,
em Salvador, na ânsia por um diploma do ensino superior, enfim alcançado, mas
logo tomei outro rumo, ao ser indicado por Glauber Rocha, para compor a equipe
de redação inaugural do Jornal da Bahia, cuja primeira edição chegaria ao
público, no dia mesmo de erupção da Primavera, e aí, abraçando a carreira do
jornalismo, cujo exercício profissional duraria quase 53 anos, de 1958 a 2011.
Por esse tempo e mais, publiquei livros, conjugando poemas épicos, líricos e satíricos,
e de ensaios, centrados nos campos da literatura e das ciências humanas, com um
total de 18 obras editadas e lançadas. Hoje, sentado na varanda ou diante do
computador, a digitar postagens, arriscado a vê-las tomadas como hilário manejo
de futilidades.
*
- Que legado quer
deixar, sobretudo para a nova geração de escritores?
FM – Não passa por mim tal cogitação. Na história da literatura, das
artes e das ciências humanas, a meu ver, os legados podem advir de criadores,
mas, de modo geral, costumam provir de movimentos culturais - na literatura, naturalismo,
romantismo, parnasianismo, simbolismo, modernismo; nas artes, impressionismo,
pós-impressionismo, fauvismo, cubismo, expressionismo, surrealismo. Legados individuais
existem, mas sujeitos a um processo de limitação regido pela identidade. É possível,
talvez não fácil, identificar-se na obra de um escritor estilo que s reporta à
estética de outro e na arte de um pintor aspectos que denunciam traços e
sequências criativas, que remetem à de um cujo nome se projetou e se consagrou
como patente executor de uma arte maior. Cito um exemplo. Os poetas e
prosadores integrantes da chamada Geração Mapa, a que orgulhosamente pertenço,
em sua maior parte, se deixaram influenciar, pelas pregações estéticas de correntes
do movimento modernista, tanto nacionais como estrangeiras. Poderia haver identificadas
coincidências, mas, quase sempre, produto de abelhudice. O mesmo poderia
ocorrer no campo das artes plásticas. Portanto, nada almejo quanto a uma
circense possibilidade de deixar algum legado, mesmo mínimo, a uma nova geração
de escritores.
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