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terça-feira, 30 de junho de 2020

A Cidade da Bahia vivida, amada e sentida

Em 30.06.2020, foi postado este maravilhoso conjunto de fotos de uma memória urbana de Salvador, em parte desaparecida. Clique aqui.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

POR QUE ZWEIG ENCANTOU-SE COM A BAHIA

Ao visitar Salvador, em 1941, Stefan Zweig expõe, em narrativa de escritor já famoso, o quanto ela conservava de suas tradições, numa paisagem encantadora e de cenários pitorescos. Clique aqui.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

CARNAVAL BAIANO, HISTÓRIA DA FOLIA

    O trio-elétrico de Dodô e Osmar, em sua invenção nos anos 1950

EVOÉ, MOMO!

Antônio Lins

“Colombina eu te amei, mas você não quis, eu fui para você um Pierrô feliz”.
É Carnaval na Bahia, o espelho onde a cidade toda se reflete, se olha se projeta ao mundo inteiro, se reconhece e se estranha, ano a ano. Herdeiro de muitas ancestralidades, de outros tantos festejos, equilíbrio precário e milagroso entre acordos e tensões, estados de espírito sensorialmente democráticos e espaços de exclusão e exclusividade; afro-latino, afro-barroco, uma possessão que toma conta e devora a cidade inteira.
Trio Elétrico, versão eletrificada do carro de Dionísio, a levar em seu rastro a coorte de entusiasmados sátiros, faunos e bacantes, corpos semi-desnudados por abadás e pinturas neo-tribais. Rola hoje, necessariamente, sobre azeitadas estruturas apolíneas, cuidadosamente planejadas, e movimenta poderosas forças econômicas e sociais.
Extraordinário engenho tecno-estético em cima do qual literalmente vem se configurando os rumos do carnaval baiano, com ecos por micaretas e carnavais de outras cidades, estados, países. Dos anos de 1980 para cá, foliões entusiasmados, com careta ou sem careta, caem no transe de sua magia, mundo afora.
Ao final dos anos de 1940, numa Bahia ainda modorrenta e auto-referente, Adolfo Antônio Nascimento - o Dodô - violonista nas horas vagas, e o engenheiro Osmar Macedo, exímio tocador de cavaquinho, se encantaram ao ouvir o violão elétrico de Benedito Chaves nos palcos do emblemático Tabaris.
Em 1950 o sábio governador Octávio Mangabeira promoveu um pré-momo no trajeto Campo-Grande -- Praça da Sé, ao som da orquestra de frevo pernambucana "Os Vassourinhas", levando a população soteropolitana ao delírio.
Dodô e Osmar amalgamam, então, o frevo, a guitarra elétrica. A Bahia explodia no Campo Grande. A partir da idéia dos carros de corso, a "dupla elétrica" restaurou um velho Ford Bigode-29 caindo aos pedaços e saiu às ruas, no carnaval do mesmo ano com seus "paus elétricos" ligados aos alto-falantes, com imenso sucesso.
Convidaram Temístocles Aragão, já instalados numa picape Chrysler com duas placas laterais que anunciavam: “trio elétrico", patrocínio da Fratelli Vita, fabricante da melhor gasosa do país. Tocavam um frevo baiano instrumental contagiante.
Com a chegada de Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Novos Baianos, a música do trio elétrico passa também a ser cantada, com letras de boa qualidade poética, como as do poeta José Carlos Capinam inesquecíveis, sem perder com isso uma gota de popularidade ou animação.
Na tradição antropofágica, o trio elétrico segue fiel ao seu início, na devoração sincrética de novos elementos, acompanhando a evolução do próprio carnaval e as transformações da sociedade baiana.
A "cultura afro", o orgulho em ser negro, movimento que cresceu geometricamente entre a juventude baiana dos anos de 1970, foi incorporado tanto do ponto de vista sonoro, com o casamento do frevo com os ijexás, quanto do ponto de vista das artes visuais, em figurinos e decorações. Num corte para os anos de 1980, o Olodum, com seu "Faraó", encorpa a epítome da música afro de tendência antropológica. Também a partir dos anos de 1980, com a chegada dos ritmos caribenhos e da lambada, Luiz Caldas, criador do axé music, aponta novas direções.
O trio elétrico estava definitivamente consolidado como a grande plataforma da música baiana. Ponto de encontro de todas as vertentes e possibilidades estéticas, o palco ambulante de maior poder conclamatório da velha e mágica cidade da Bahia.
Com a capacidade de renovação artística de Carlinhos Brown; a qualidade de Daniela Mercury; a beleza da voz de Ivete Sangalo, generosa mulher, que lança tantos talentos; Margareth Menezes e seus Mascarados, o borbulhar de Cláudia Leite, a alegria do Araketu, o arrastão de entusiasmo do Chiclete com Banana, a teatralidade cômica de Durval Lélis, entre tantos outros talentos que fazem o Carnaval da Bahia, sem esquecer, no entanto, Waltinho Queiroz, Edil Pacheco , Nelson Rufino e Walmir Lima.
Da fubica ao Chrysler, daí aos pequenos caminhões, a trajetória vertiginosa chegou às máquinas futuristas com capacidade para gerar iluminação a uma cidade de mais de 50 mil habitantes. A arte do trio é indissociável de sua técnica. Seu desenvolvimento técnico, indissociável da sua transformação em uma bilionária maquinaria de geração de negócios com cruciais repercussões sociais, éticas e estéticas.
O entusiasmo em excesso, sabemos, é limítrofe à violência. A presença física dos carros e seu poder ilimitado de amplificação sonora, claro, ensejam cuidados urgentes. O mesmo podemos dizer quanto a seu modelo estético e econômico.
Há que se preservar manifestações artísticas de uma trioeletrização compulsória e macaqueada, de baixa qualidade e nenhum significado cultural ou social? Todo grande poder gera, ou deveria gerar grandes responsabilidades, para as quais a sociedade civil, os poderes e toda sociedade, enfim, deveriam estar muito atentos.
“Colombina eu te amei, mas você não quis...” É carnaval na Bahia, mas... podia ser bem melhor.

§ Antônio Lins é poeta, cronista e jornalista baiano, residente em São Paulo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

POESIA EM TEMPOS DE TERTÚLIA

Paul Cézanne (1839-1906), "Jogadores de Cartas" (1894-1895)



POESIA SEMPRE!

Além de arte, poesia tem muito a ver com memória urbana e coincidências. Hoje, ao ser publicada no FB foto de um simpático e sorridente casal, surpreendeu-me que a pessoa que fazia par com o companheiro se chamava Edênia, nome que logo me remeteu coincidentemente a um poeta, que foi meu amigo e com quem convivi, por um bom tempo, lá se vão decênios, Jair Gramacho, e ao título de seu primeiro livro, publicado em 1959. "Sonetos de Edênia e de Bizâncio", eivado de evocações às mitologias de Grécia e Roma.
Foi o bastante para me fazer recordar exótica e travessa tertúlia em nos envolvemos, eu e ele, em tarde primaveril, num bar da Rua da Ajuda, recordada no curso de uma palestra, que pronunciei, a convite do saudoso historiador Ubiratan de Araújo Castro, então presidente da Fundação Pedro Calmon, no contexto de um seminário sobre memória urbana (2012), cabendo-me intervir na parte circunscrita ao tema "A Cidade da Boemia", tendo como foco “a boemia literária e o entrelaçamento da vida intelectual, mundana e universitária, que incubaram intensamente gerações de intelectuais transformadores e movimentos de vanguarda, na Salvador dos anos 50”.
É justamente parte conclusiva dessa conferência que resolvi transcrever, a título de imodesta divulgação cultural. Segue abaixo.
Ilustração: Paul Cézanne (1839-1906), "Jogadores de Cartas". 
(Postado no Facebook, em 07/05/2019)

POESIA COM BOEMIA E TERTÚLIA 

Florisvaldo Mattos

Houve um tempo nesta Cidade de Salvador da Bahia em que, mais que uma forma de convívio entre amigos, talvez como em muitos outros lugares, as tertúlias eram um refúgio de que frequentemente se valia a boemia literária, para fruir o intercâmbio cordial das ideias, que muitas vezes, desaguava em desafio, em torneios de emulação, quando não em contenda rude, açulando a curiosidade de uma audiência, que as acompanhava avidamente, de perto ou à distância. E nelas muito de criação literária e artística se divulgava, para depois ganhar o mundo. Essa distração intelectual com o tempo se esvaneceu, perdeu a antiga feição de urbanidade, para quase completamente sumir das práticas culturais, passando a compor um vasto anedotário. Em 1958, já não mais se falava dessa espécie de concurso civilizado, mas ocorreu que, em um bar da Rua da Ajuda, no curso de uma tertúlia boêmia, que reunia poetas, literatos e jornalistas, dois sonetos deixariam de ser remotos estados de ânimo e sutileza mental, para cumprir um trajeto que pertence a todos os que viajam pelo terreno dos símbolos.
A partir dos anos 1940, quando profundas alterações ocorrem na ordem social e econômica, com fortes reflexos na cultura, a Bahia, que era a terra do “já foi”, toma outra configuração demográfica e urbana, impulsionada pela descoberta do petróleo no Recôncavo e a consequente deflagração de um processo de industrialização modernizador, livrando-se da dependência do comércio agroexportador, que tinha sua robustez centrada no cacau; nova dinâmica advinda das transformações no sistema de transportes rodoviário e aeroviário torna mais rápida a relação entre o Sul rico e o Nordeste pobre, aproximando centros de consumo e fornecimento de bens e mercadorias; por fim, ocorrem mudanças no panorama cultural, desde a gestão liberal de Anísio Teixeira na Secretaria da Educação e Cultura, no Governo Mangabeira (1947-1951), acentuadas pela revolução que o reitorado de Edgar Santos imprimirá na Universidade da Bahia, nos anos 1950, criando novas escolas de arte e institutos especializados, além de reformular unidades já existentes. Todos, quase em uníssono, querendo elevar o bem-estar dos baianos.
Tais sucessos vão se refletir diretamente no desenvolvimento da Cidade do Salvador, que, cansada e envergonhada do velho perfil provinciano, começa então a sonhar-se cosmopolita. Num primeiro momento, as letras e as artes entram em agitação, na ânsia de se libertar das amarras de um conservadorismo e de um academicismo dominantes e renitentes, com a presença e a ação de jovens artistas plásticos (Mário Cravo Júnior, Carlos Bastos, Carybé, Genaro de Carvalho, Jenner Augusto, Rubem Valentim), ficcionistas e poetas (Vasconcelos Maia, José Pedreira, Wilson Rocha, Claudio Tuiuti Tavares, Jair Gramacho), espraiando-se para outros campos (arquitetura e mundanismo, com incursão até na política), ao sopro dos ventos liberalizantes da Constituição de 1946. Era a vibrante interseção no ambiente cultural do movimento que seria conhecido como Geração Caderno da Bahia, de vigência atuante entre 1948 e 1955, empenhada em fazer vingar o ideário estético do modernismo, cuja adoção fora travada por dois decênios, publicando uma revista sob o título justamente de Caderno da Bahia, que durou seis números até 1952.
Seguiu-se a trepidação do que se cognominaria de Geração Mapa, reunindo jovens em sua maioria estudantes universitários. Glauber Rocha futuro cineasta à frente, o novo grupo constituía-se de poetas, ficcionistas, artistas plásticos, teatrólogos, cineastas, atores e futuros jornalistas, participando de reuniões e eventos culturais, entre eles Calasans Neto, Fernando da Rocha Peres, João Carlos Teixeira Gomes, Paulo Gil Soares, Sante Scaldaferri, Ângelo Roberto, Fernando Rocha, Carlos Anísio Melhor, Fred Souza Castro, Antônio Guerra Lima, Anecy Rocha, a que se agregariam Myriam Fraga, João Ubaldo Ribeiro e David Salles, entre outros. Justificado pela integração de propósitos ocorreu então inédito na Bahia de a geração anterior, a de Caderno da Bahia, não travar a ascensão da que surgia, dedicando-lhe acolhida, apoio e apreço, recebendo dos jovens que gravitavam em torno da revista Mapa, cuja circulação chegaria ao terceiro número, correspondentes demonstrações de respeito e reconhecimento.
Foi neste contexto efervescente de novidades introduzidas pela universidade, que alavancavam iniciativas no campo da cultura e do jornalismo, mudanças nos hábitos urbanos e entrelaçamentos de atividades profissionais e universitárias com boemia, em que despontava, com tinturas existencialistas, o aconchegante Bar Anjo Azul, a tornar-se um marco do gênero e emblema, em novo panorama de convivência social, que conheci o poeta Jair Gramacho, ainda inédito em livro, mas já nome destacado de sua geração e reconhecido como competente estudioso da cultura greco-romana. Estabelecidas amizade e convivência frequente, volto ao começo, à história dos dois sonetos nascidos de uma remota tertúlia literária com Jair Gramacho, no lusco-fusco de um bar, em anos de boemia e jornalismo romântico. Narro como uma excentricidade de época.
Noite de primavera, dias depois do inovador surgimento do Jornal da Bahia, na Rua Virgílio Damásio, nº 3, uma transversal da Rua Chile, numa das mesas de tampo de mármore do Bar Nogueira, então um dos mais concorridos da Rua da Ajuda, vizinho ao famoso Café das Meninas, este tantas vezes presente em cenas de romances de Jorge Amado, cinco amigos estão sentados, dois deles poetas e três tarimbados jornalistas. Poetas, eu, um mero iniciante, na poesia e na imprensa, com versos apenas publicados na prestigiosa revista Ângulos, da Faculdade de Direito, e Jair Gramacho, este ainda inédito em livro, mas que disputava píncaros de prestígio com outro nome de Caderno da Bahia, o poeta Wilson Rocha, ambos ícones locais do modernismo. Os três, detentores de cargos na Redação do Jornal da Bahia, eram Ariovaldo Matos, romancista e autor de Corta Braço, ficção pioneira inspirada numa invasão de terras ocorrida no bairro da Liberdade, e o contista e cronista Flávio Costa, este subsecretário de Redação, que acabara de lançar Além das torres do Kremlin, relatos de viagem a Moscou, e Inácio de Alencar; o primeiro, experiente Chefe de Reportagem do novo jornal, que antes exercera com afã militante o mesmo cargo em O Momento, aguerrido jornal que funcionou na Ladeira de São Bento (1945-1957), pertencente ao Partido Comunista do Brasil, o Partidão, fundado e mantido por Aristeu Nogueira e João Falcão, este depois fundador do próprio Jornal da Bahia, enquanto Inácio de Alencar atuava como secretário de Redação do mesmo jornal.
Falava-se de literatura e política, como sempre, quando de repente, coisa de boêmios, surge um desafio, para saber-se quem dos dois poetas ali melhor escreveria um soneto. Não lembro o autor do repentino alvitre, tampouco o grau do efeito etílico, que, indulgente, o Ângelus da Igreja da Ajuda ali perto acalentava. Surpresos, os dois poetas se entreolharam, mediram o tamanho do repto, mas, feito o ajuste, bebericaram um pouco mais e se foram. Dois dias após, tal como combinado, voltamos os quatro ao mesmo bar, cada um dos poetas empunhando a sua Excalibur verbal: eu, com o soneto intitulado "A cabra", de cândida inspiração rural, composto no clássico formato petrarquiano, com os catorze versos dispostos em dois quartetos e dois tercetos; ele, Jair Gramacho, com suntuosa joia lavrada no modelo shakespereano, de três quartetos integrados e um dístico, amplo de alusões panteístas e referências mitológicas, invocando lenda campestre em torno de Meleagro, herói de Calidônia; mas, tanto um quanto o outro, construídos em decassílabos de rimas emparelhadas ou entrelaçadas.
Cumprindo o ritual e com a devida entonação, cada autor leu o seu soneto. Na postura de juízes, depois de ouvi-los e cotejá-los, em silêncio, os dois jornalistas concluíram sorridentes que os dois poemas mereciam publicação mais ampla, na edição dominical do Jornal da Bahia. Dito e feito. Dias depois, com verniz gráfico de prestígio, ambos os sonetos ocupavam as duas colunas ao lado direito da página literária, editada sob a batuta do historiador e cronista Luís Henrique Dias Tavares, mas sem uma linha sequer alusiva ao embate travado no bar da Ajuda. Publicados, cada soneto seria alvo de corporativista acolhida: o meu, com recitação e elogios da presunçosa grei a que eu pertencia, enquanto o de Jair bem mais efusivamente louvado não apenas por nomes consagrados de sua geração.
Em 1960, os dois poemas seriam ainda publicados na revista Ângulos (Nº 16), então com Noênio Spínola, como diretor, e Antônio Guerra Lima (Guerrinha), de redator-chefe; João Ubaldo Ribeiro, diretor de Cultura do CARB, mas cada uma das criações poéticas doravante com sorte diversa: “A cabra” iria compor o conjunto do meu primeiro livro, Reverdor (Edições Macunaíma, 1965), enquanto o primoroso soneto de Jair Gramacho, ao que sei, permanece até hoje inédito em livro. São eles que agora abaixo reproduzo, vindo em primeiro lugar, por direito inalienável, o do meu saudoso e insigne êmulo.
SONETO OITAVO DE ATALANTA EM CALIDÔNIA
JAIR GRAMACHO
Nesta tarde o terreiro está vazio.
Distante o laranjal se estende; a manga,
A serra, o azul depois; tênue miçanga
De açafrão tinge as fímbrias, o do estio
Único resto. Esta tristeza é mais
Que a da paisagem pobre e adormecente;
Talvez por não ter rosas, não ter gente,
E a solidão vagueie pelos currais.
Mas, certo é que nesta hora, ressurrecto,
O mito abandonado busca o luxo
Antigo de existir; dispõe espectros
Que em volta cirandeiam do repuxo...
Ah! Mais que basta para o instante magro
Galinhas ver – irmãs de Meleagro!
A CABRA
FLORISVALDO MATTOS
Talvez um lírio. Máquina de alvura
Sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
Guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.
Máquina e jarro. Luar contraditório
Sobre lajedo o casco azul polindo,
Dominas suave clima em promontório;
Cabra: o capim ao sonho preferindo.
Sulca-me perdurando nos ouvidos,
Laborado em marfim – luz e presença
De reinos pastoris antes servidos –
Teu pelo, residência da ternura,
Onde fulguras, na manhã, suspensa:
Flor animal, sonora arquitetura.


Comentário do ensaísta literário Valdomiro Santana, em 08/05/2019, no Facebook:

Florisvaldo Mattos tem uma acuidade visual tão acesa que a leitura de um poema seu nos passa de imediato a sensação de uma pintura virtual. Não que haja qualquer identificação ou analogia entre os versos, de um lado, e as linhas e cores, de outro, mas uma sutilíssima zona de vizinhança. Daí o diálogo tão instigante que surge. No caso desta sua postagem “Poesia sempre”, o diálogo entre dois sonetos, o seu, “A cabra”, e o de Jair Gramacho, “Soneto oitavo de Atalanta em Calidônia”, em vez de ser um registro nostálgico de uma tertúlia literária e, como tal, se esvaziar em seu signo, faz com que a memória recupere um momento rico da vida cultural da Bahia na segunda metade dos anos 1950. Diálogo que suscita diálogos: com a pintura de Cézanne, o pai da arte moderna, ao reproduzir a quinta versão de “Os jogadores de cartas” (1894-95), e com o cinema, ao suscitar a lembrança de um filme documentário de Henri-Georges Clouzot, “O mistério de Picasso” (1955). Impossível não perceber a íntima ligação entre um dos instantes mágicos do filme, em que Picasso pinta uma cabra, e o referido soneto de Florisvaldo, que, diz ele, é de “cândida inspiração rural”. Soneto que esplende no verso extraordinário do fecho: “Flor animal, sonora arquitetura”. E verso que se transfigura e ressoa na criação pictórica de Picasso. Aqui parafraseio Bachelard, o filósofo da imaginação poética: não é o ser (cabra) que ilustra a relação entre poesia e pintura, mas é essa relação que ilumina o ser.
Picasso, com a cabra de nome Esmeralda, que ofereceu a sua mulher Jaqueline
qu

segunda-feira, 15 de abril de 2019

CIDADE DO SALVADOR ANTIGA, 470

POR RAFAEL DANTAS

Salvador da Bahia no final do século XVIII tinha o maior porto do Brasil perdendo o posto anos depois, no século XIX, para o Rio de Janeiro, então capital da colônia. No início do século XIX era uma cidade de fundamental relevância no cenário das relações comercias e políticas da época, lugar de encontros culturais imersos em uma sociedade escravista. As cartas e o prospecto de Vilhena, que foi professor de grego em Salvador, ajudam a compreender as dinâmicas e as complexidades do período. Vamos por partes:

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Recorte 1 – Começaremos com a vista de parte do Forte de São Marcelo e no fundo os casarios da região baixa e alta. Notem o amontado de prédios, próximos uns aos outros, ruas bem estreitas, traçado da região antes das reformas urbanas que aos poucos mudaram o lugar. Era ali no meio de tudo isso que o comércio pulsava. Já nas primeiras décadas do XIX consideráveis obras trouxeram melhorias para o porto e ruas do região, com a vinda da família real em 1808 e depois com as iniciativas do governo e dos comerciantes novos contornos surgiram. Vilhena numera os principais edifícios da época, fazendo uma pequena descrição de cada um dos imóveis. No cais é possível ver escadas, antigos guindastes, indícios de obras na região portuária e nos casarios do entorno, uma região pulsante em sua dinâmica urbana.
Em todo esse contexto não podemos esquecer a realidade escravista, com seus abusos, conflitos e negociações, cenários dos mais diversos, que iremos analisar nas postagens seguintes. No século XVIII o tráfico de escravos era uma das atividades mais lucrativa da Bahia. Vilhena descreve que em 1798 chegaram na Bahia 4.903 escravos importados da Costa de Mina e mais 2.151 de Angola. Nos anos seguintes até 1807, lembra Pedro de Almeida Vasconcelos em “Salvador Transformações e Permanências: 1549 – 1999” chegaram na Bahia 29.191 escravos da Costa da Mina e 13.965 de Angola.
Voltando para o prospecto, na Cidade Alta o destaque vai para o imponente prédio do Palácio Arquiepiscopal, Nº 78, ao lado da Sé, Nº79, sem sua imponente fachada de pedra. A Misericórdia vem logo em seguida, Nº 77. A torre da casa da Câmara e o palácio do Governador correspondem aos números: 73 e 72, respectivamente.
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Recorte 2 – A Igreja da Conceição da Praia é retratada em construção sem a torre direita, Nº 51. Armazéns, prédios comerciais/residenciais se misturam no cenário do entorno da freguesia. Notem que Vilhena sinaliza, Nº 70, uma ladeira ligando a região da praia as proximidades do Palácio do Governador. Nessa época a subida, principalmente em época de chuva, não era fácil. A freguesia da Conceição da Praia já era densamente habitada, comparada a outras regiões, desde épocas anteriores.
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Recorte 3 – Agora analisaremos a outra extremidade (canto esquerdo), região de Monte Serrat, Nº2, na parte elevada. Olhem o entorno, poucas construções, local bem afastado e de não tão fácil acesso na época ao central da Cidade. A região era ocupada desde o século XVI.
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4 – A partir da região do Santo Antônio Além Carmo, [forte e Igreja Nº 12] observamos uma maior concentração de construções. A parte baixa da cidade e a alta começam a concentrar um maior número populacional e residencial. As casas possuem de dois e três pavimentos, algumas igrejas já com a suntuosidade que marcaram a arquitetura religiosa em Salvador. Na parte baixa, ladeada de trapiches, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, Nº13, concluída na primeira metade do século XVIII com fachada rococó; reparem como era próxima do mar.
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5 – Chegando nas proximidades do Carmo e dos casarios da região baixa, Cais Dourado Nº19, observamos que os prédios possuíam de três a quatro pavimentos. Na parte alta o Convento do Carmo, Nº17. A Igreja da Ordem Terceira do Carmo, que fica atualmente ao lado, nessa época estava em reforma ampliação, fora vitimada por um incêndio em 1788, por isso não aparece no prospecto de Vilhena. Ao lado, Nº 21, a Igreja do Passo com suas torres em terminações piramidais.
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6 – No Nº 25 temos a Igreja do Rosário dos Pretos e em seguida o Colégio dos Jesuítas, Nº27, e a Catedral, Nº29. Em direção a parte baixa os casarios da região do Taboão. Atividades comerciais das mais diversas, entre eles a da ourivesaria, sapataria, selaria [...] marcavam presença na área e redondezas da Cidade Baixa.
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7 – O Mosteiro de São Bento, Nº 67, é retratado sem a cúpula e a torre direita. Maria Helena O. Flexor Flexor, em “Igrejas e Conventos da Bahia”, escreve que “Toda a estrutura arquitetônica da entrada e a fachada foram feitas em arenito de origem baiana.” As torres atuais, lembra a mesma autora, são de 1877 e 1880. No Nº 66 o Convento de Santa Teresa.
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8 - No canto direito a velha Igreja de Santo Antônio da Barra, Nº 58, finaliza o prospecto. A Barra e vizinhança tinham poucas construções. Anos antes durante o movimento da Revolta dos Alfaiates, sediou encontros em casas que ali ficavam. Só para destacar, o Imperador D. Pedro II em visita a região no ano de 1859 disse que era um local aprazível onde pessoas tomavam banhos.

Rafael Dantas.
Historiador.

Os três tomos de Vilhena estão disponíveis on-line:
Tomo I:
http://objdigital.bn.br/…/div_man…/mss1304880/mss1304880.pdf
Tomo II:
http://objdigital.bn.br/…/div_man…/mss1304879/mss1304879.pdf
Tomo III:
http://objdigital.bn.br/…/div_man…/mss1304881/mss1304881.pdf
Prospecto de Vilhena:
http://objdigital.bn.br/…/d…/mss1304801_34/mss1304802_06.jpg



sexta-feira, 29 de março de 2019

SALVE, SALVE SÃO SALVADOR DA BAHIA, 470

  Quadricentrisentona Salvador que poetas exaltam em data magna de história, crenças e alegrias

BAHIA DE TODOS OS SANTOS

Jorge de Lima

Bahia,
eu te olho e te ouço
de bordo do meu itazinho pulador,
e sob a mesma noite que nos cobre,
eu sinto o contato de teus membros morenos
e procuro com as mãos, com os lábios,
tudo o que é bom de cingir e beijar!
Para me ver chegar,
os sobrados e as igrejas
subiram nos teus montes e me espiam
de cima com os olhos das janelas acesas.
É o amante que chega!
E as virgens loucas já o esperam
com as lamparinas da Parábola.
E que noite gostosa, que colcha macia,
nos cobre a nós ambos, Bahia!
Teu amigo vem saudoso de ti e estende as mãos
aos pedaços melhores de teu corpo:
tuas ladeiras, teus montes,
as curvas gostosas da cidade mais bonita
do Brasil!
És tão cheia de altos e baixos,
Bahia, gostosa dos dendês, jilós, acaçás e pimenta-de-cheiro.
Lamento o mau gosto dos teus turistas
que te conhecem de oitiva,
e não vão além de tua Rua Chile asfaltada,
de tuas avenidas que o Seabra alargou.
Tu, como toda mulher, tens os lugares mais sombrios, mais gostosos:
Baixa dos Sapateiros!
Beco do guindaste dos padres!
Barroquinha!
Tabuão!
Bahia de Todos os Santos,
por que os teus santos
não quiseram mudar o curso inglório
de meus 17 anos, nos quais
os teus professores retóricos,
os teus médicos literatos,
injetaram a ampola da água suja
de doutrinas sem fé?
E depois de tanto tempo perdido,
de tanto caminho errado,
teu amigo voltou para os teus braços abertos.
Perdoa! Perdoa! Bahia!
Eu vim rezar nos teus santuários,
eu já sou um homem que tem
afetos por quem pedir e rezar.
E tu que me ensinaste a crer quando eu era criança,
e depois a descrer,
e hoje a crer outra vez... eu sou um
rio torto e tu és a Bahia do Salvador!
Cobre-me com o lençol de tua noite esburacada
de estrelas, em que a lua abriu um rombo maior.
Bahia,
para olhar as nossas núpcias,
cobre-me com o teu perdão, Bahia!
Tu és católica, tu és a fé, tu és a âncora do
Nordeste; tu és a sempre nova.
Tu és a rainha, tu és a cidade que mostra ao que chega
ao invés de arranha-céus, cruzes e cruzes,
de braços estendidos para os céus,
e na entrada do porto,
antes do Farol da Barra,
o primeiro Cristo Redentor do Brasil!
Bahia de ruas santas, de Santo Antônio da Mouraria,
da Verônica, da Oração, da Cruz do Cosme, dos Perdões,
dos fortes bem-aventurados, de São Marcelo, de Santa Ana,
de Santo Antônio da Barra,
Bahia do Teatro São João e do cinema São Jerônimo.
Bahia.

BAHIA DE TODOS OS SANTOS E DE QUASE TODOS OS PECADOS

Gilberto Freyre

Bahia de Todos os Santos (e de quase todos os pecados)
casas trepadas umas por cima das outras
casas, sobrados, igrejas, como gente se espremendo pra sair num
retrato de revista ou jornal
(vaidade das vaidades! diz o Eclesiastes)
igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras
toda a Bahia é uma maternal cidade gorda
como se dos ventres empinados dos seus montes
dos quais saíram tantas cidades do Brasil
inda outras estivessem para sair
ar mole oleoso
cheiro de comida
cheiro de incenso
cheiro de mulata
bafos quentes de sacristias e cozinhas
panelas fervendo
temperos ardendo
o Santíssimo Sacramento se elevando
mulheres parindo
cheiro de alfazema
remédios contra sífilis
letreiros como este:
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
(Para sempre! Amém!)
automóveis a 30$ a hora
e um ford todo osso sobe qualquer ladeira
saltando pulando tilintando
para depois escorrer sobre o asfalto novo
que branqueja como dentadura postiça em terra encarnada
(a terra encarnada de 1500)
gente da Bahia! preta, parda, roxa, morena
cor dos bons jacarandás de engenho do Brasil
(madeira que cupim não rói)
sem rostos cor de fiambre
nem corpos cor de peru frio
Bahia de cores quentes, carnes morenas, gostos picantes
eu detesto teus oradores, teus otaviosmangabeiras
mas gosto das tuas iaiás, tuas mulatas, teus angus
tabuleiros, flor de papel, candeeirinhos,
tudo à sombra das tuas igrejas
todas cheias de anjinhos bochechudos
sãojoões sãojosés meninozinhosdeus
e com senhoras gordas se confessando a frades mais magros do que
eu
O padre reprimido que há em mim
se exalta diante de ti Bahia
e perdoa tuas superstições
teu comércio de medidas de Nossa Senhora e do Nossossenhores do
Bonfim
e vê no ventre dos teus montes e das tuas mulheres
conservadoras da fé uma vez entregue aos santos
multiplicadores de cidades cristãs e de criaturas de Deus
Bahia de Todos os Santos
Salvador
São Salvador
Bahia
Negras velhas da Bahia
vendendo mingau angu acarajé
Negras velhas de xale encarnado
peitos caídos
mães de mulatas mais belas dos Brasis
mulatas de gordo peito em bico como para dar de mamar a todos os
meninos do Brasil.
Mulatas de mãos quase de anjos
mãos agradando ioiôs
criando grandes sinhôs quase iguais aos do Império
penteando iaiás
dando cafuné nas sinhás
enfeitando tabuleiros cabelos santos anjos
lavando o chão de Nosso Senhor do Bonfim
pés dançando nus nas chinelas sem meia
cabeções enfeitados de rendas
estrelas marinhas de prata
tetéias de ouro
balangandãs
presentes de português
óleo de coco
azeite-de-dendê
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
Tomé de Sousa
Tomés de Sousa
padres, negros, caboclos
Mulatas quadrarunas octorunas
a Primeira Missa
os malês
índias nuas
vergonhas raspadas
candomblés santidades heresias sodomias
quase todos os pecados
ranger de camas-de-vento
corpos ardendo suando de gozo
Todos os Santos
missa das seis
comunhão
gênios de Sergipe
bacharéis de pince-nez
literatos que leem Menotti del Picchi e Mário Pinto Serpa
mulatos de fala fina
moleques
capoeiras feiticeiras
chapéus-do-chile
Rua Chile
viva J. J. Seabra morra J. J. Seabra
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
um dia voltarei com vagar ao teu seio moreno brasileiro
às tuas igrejas onde pregou Vieira moreno hoje cheias de frades
ruivos e bons
aos teus tabuleiros escancarados em x (esse x é o futuro do Brasil)
a tuas a teus sobrados cheirando a incenso comida alfazema
cacau.
Extraído de: FREYRE, Gilberto. Bahia e baianos. Apresentação de Edson Nery da Fonseca. Salvador: Fundação das Artes, 1990. 167 p.

LADEIRA DA MISERICÓRDIA

Godofredo Filho

É ladeira sem princípio
ou por princípio sem fim.
È ladeira que começa
onde eu quisera acabar.
È ladeira da Bahia,
cruel ladeira perdida,
que por boca da ironia
se diz da Misericórdia.
É ladeira da Bahia.
Por onde a traçaram vai
ou de súbito não vai,
torcida sobre seu corpo,
virada quase ao contrário,
canyon por onde os alíseos
se precipitam silvando
na trança das urupemas.
Que de sobrados fantasmas,
varandas ermas de sonho,
arcos, muralhas de sombra,
janelas, portais vazios,
molduras de pedra suja
sem apoio de mais nada,
com rios doidos de vento
saltando no etéreo golfo
do inútil azul das tardes!
Ó vós que passais, ouvi-me
a efêmera e monocórdia
canção da negra ladeira
que é da Misericórdia.
Misericórdia de quem?
Misericórdia por quê?
se eu só (quem lhe deu amor
obscuro mas imortal),
possa entender o desvairo,
a esconsa mágoa, o silêncio
que oprime seu sonho informe.
Ai, quero cantar-te agora,
na solidão desta hora
que não voltará no tempo
- sombra vã da eternidade,
cantar-te o jugo, o tormento
que faz que durmas de noite
com pálpebras descoladas,
o obsidente sofrimento
que prendo na trama aérea
de meus versos incorpóreos.
Também quisera na glória
contigo sobreviver,
como hoje, no desespero,
te incorporas ao meu ser
pelo verbo conviver.
Ó inverossímil ladeira,
que foste o íngreme caminho
por onde outrora subiram,
coléricos e espantados,
tantos negros sofredores
sob o relho dos feitores,
índios bravos, curumins,
ao suave clarão dos hinos
de pastorais cor de aurora
que iam a dessedentar-se
nas fontes do teu perdão.
Onde vive o teu perdão?
Ouço-te as vozes perdidas,
ou que das festas dos muros,
de teus paredões enormes,
vão singrando o dorso esquivo
da maré de teu silêncio:
são vozes de missionários,
alaridos de corsários,
esporas de bandeirantes,
lanças longas, arcabuzes
vazando o crânio da treva,
gemidos de agonizantes
nos postigos do Hospital,
saudade daquelas donas
do Santo Recolhimento,
os olhos postos no mar;
vozes bruscas de ouvidores,
de capitães, de Doutores,
de Primazes sonolentos,
e de Vice-Reis odientos;
e também, no teu mistério
das horas de amor celeste,
procissões de virgens brancas
entre aromas de alecrim,
gargantilhas de aleluia
em cadeirinhas de arruar,
e o amor que ali teve um dia
um rei mago de Ajudá.
Misericórdia por quê?
se a alva escorre sem ver,
nem redimir os amantes
que dormem pelo abandono
dos mornos beijos viscosos
no mar dos lençóis desfeitos.
Misericórdia de quem?
se esmaga os rostos que dormem
ou sobre as pedras magoadas
eu piso gargantas súplices
de vozes que não escuto.
Ah, quantos sábados tristes
do amor estival das terdes
não rolei nas pedras lisas
de teu ardente convite,
buscando Lalu dormindo,
afagando Durvalina,
ou, na carne incandescida,
sentindo a pua dos ossos
do prenúncio do esqueleto
de Eva Maria Fernandes.
E quantas noites ungidas
de lua escorrendo insone
sobre os desvãos de teu leito,
não prendi minh´alma enferma
nos muros de teu silêncio,
e tangido ao torvo anseio
de segredos que não digo,
na madrugada morrente
varando portais desertos,
trepei teus jiraus de espanto!
Ah, descesse eu em t
ais noites
teu funicular de angústia,
sob o riso avermelhado
da gengiva das janelas,
e amargo olvido buscasse
nas ilhas do mar do vinho.
Ou então perquirindo o assombro
de horas tardas de vigília,
ouvisse teu longe canto
no cimo das turvas ilhas,
as ilhas do mar do vinho.
Onde andais, sombras fugidas
da angra de meu carinho?
Onde andais, sombras perdidas
Marfisa, Dalva, Marília?
E as outras mais? Onde estão,
de clorose e de carmim,
glicínias da noite ardente
despetaladas por mim?
Sila, Silu, Clementina,
Eurides nos braços de Elza,
Zezé com seu filho morto,
cantando a canção de Ofélia...
Juracy longa e fragílima,
Que amor abrasou na fulva
nevrose de consunções
e Judith, a flor do ciúme
que a noite acendeu no espanto
das convulsões fesceninas,
Judith que eu redimira
(ó alma, ó clarão da alma!)
Que no dezoito não vejo
na sombra o rosto de Stela,
nem Flaviana anoitece
na tarde de outra janela.
Onde andais sombras sumidas,
Floriceia negra e tantas
que nunca tiveram nome,
espuma das turvas ondas
do mar da dissolução?
Onde andais, sombras perdidas?
E tu, Leonor, pela cova?
Que tal isso lá, menina?
Melhor que nossa ladeira
com sulfa e penicilina?
No reino das águas frias,
quisera dormindo o rosto
de Dioneia Jesus Pires.
Dioneia, dá-me essa taça,
quero beber por teus olhos
no reino das águas frias.
Que vem do mar da ladeira,
entre ondas de urina e pedra,
borboleta comandando
o barco da perdição,
e eu, piloto dessa nave,
à doida rosa-dos-ventos
furando a bruma das saias
de Eva Maria Fernandes...
Ó Nauta que vais escota,
suspende a vela que é tarde,
ó Nauta, vais naufragar:
nos penedos desses peitos,
nos baixios desses púbis,
o barco vai se afundar.
Navegador solitário
dos óstios himenais,
não soçobres teu decoro
na fossa navicular.
Que longe o Porto dos Mastros,
onde alguém debalde espera
a nave que não virá!
Ó Nauta, que vai às ilhas
para esconder teu tormento,
não haverá nesses mares
a ilha do esquecimento?
Que longe o Porto dos Mastros
e o brando lençol macio
da praia do Bogari!
Por aqui só excrescências,
detritos amoniacais
e, em decúbito dorsal,
untada de mornas galas
para estranhos esponsais,
a noiva dos formicidas
com seu bilhete fatal.
Marise, Antônio sumiu.
Amália, a luz se apagou.
O riso daquela boca
o tintureiro lavou.
Escorraçado, esse canto
buscando a torta ladeira
na crina das bebedeiras,
é o canto de um marinheiro
que mares azuis trocara
pelo Biscaia de treva
das pedras desta ladeira.
É um canto de amor desfeito
contrapontando o silêncio
da língua dos enforcados
na trave de teu banheiro.
Ó Dioneia Jesus Pires
afogada na escureza
das ondas do mar sem fim,
também eu vou me afundando
nas ondas do mar do peito
de Eva Maria Fernandes.
Ladeira do meu tormento!
Fojo de animais bifrontes,
pobres cervos desgalhados
que João Batista apascenta
nos verdes quintais da encosta,
vagas enguias lustrosas
que o pesadelo da noite
distende no claro-escuro
do aquário lunar do sono...
Guiovaldo acende uma vela,
Rosa jogou-se à calçada: _
- “Meu lenço de seda branco,
meu pé de manjericão!”
Ron Merino, bofetadas,
um punhal riscando a fundo
teu nome numa canção,
soluços, pragas, risadas,
misturados blues e sambas
das radiolas de aluguel
ao lento noturno rouco
de xaques-xaques e agês
se alando às trilhas longínquas
do Axé do Opô Afonjá...
Ebó, dendê na farofa,
pimenta no arroz de Haussá.
Nossa Senhora do parto
tem olhos de conta verde
no rosto moreno estanho;
galos de alfazema e nuvem
com bicos de índigo vidro,
e as aéreas naves de âmbar,
partindo a meio o silêncio
das duas da madrugada.
Ladeira que já não subo,
mas que desço agora sem medo
da sombra que vai comigo.
Vereda isenta de arrimo,
caminho solto no tempo.
A lua deitou-se agora
no leito escuso da rua,
tomando a forma das coisas,
das janelas e das tranças
porque os convites obscenos
transmudasse em línguas brancas
segredando-me a ternura
de um conúbio sepulcral.
Hoje, és Padre Nóbrega
para o cartaz das esquinas,
mas foste acaso o caminho
de Mem de Sá, de Vieira,
de Gregório de Mattos Guerra,
comborça de capadócios,
amante de seresteiros,
Xisto da Bahia afagando
na garganta dos violões
modinhas de adormentar
o olhar que não tem mais pálpebras.
Foste rua de prosápia
e hoje és ladeira de negras,
de mulatas sifilíticas,
de soldados e de bêbedos,
rua de míseras putas
ou das sombras que entrevejo
cavalgando desabridos
ginetes de bruma errante.
Ó, esse amor ignora
do que eu só te dei, ó ladeira
de insone Misericórdia:
amor de carne, de sangue,
de saliva e beijos ácidos,
amor que sobe do fundo
dos pântanos seminais.
Sou eu quem te beija as pedras,
quem, ao pranto convolado,
se adensa no teu mistério;
quem prende à carne dos lábios
macerados de sevícia
o amor que não sabe o nome,
e o traduz em luz aurora
de redenção impossível,
por te querer abrasada
nesse amanhã que demora
de alvorecer meu tormento,
ansiando-te violentada
da graça abissal do Cristo,
à flor da chama vermelha
tocando de irreal brancura.
E então és Misericórdia!
Ladeira da minha vida.
Ladeira do meu amor.

ÉGUA DE JADE

Florisvaldo Mattos

Costumo amanhecer, o céu vislumbro;
O mar embaixo muge sossegado,
A orla estriada rege o som das nuvens;
O vento lança-me aos olhos (o rosto bebe)
O que sobra das ondas, claro dorso.
Eu que te procurei em luas, sol,
Mar e águas todas só agora te encontro,
No ardor dos pelos, fulgurantes olhos,
Animal sobre o oceano debruçado,
Na postura de alguém que sempre aguarda.
Exaurido me apalpo. Sei que existes,
De ventre aberto ao mar, de espera rude.
Navegadores chegam, embriagados
De sonho, de cobiça e velhas perdas.
Sei que te ornam algas; vieste do Oriente.
Ou do Ocidente vens, em luz de pérola?
Que me enchem de desvairos cores novas.
A alvorada me beija? Nem sei se a tenho
Entre teus braços – trucidantes hastes,
Enlaçando mastros, extraviadas quilhas.
Foi boa a noite dentre pesadelos
Ruminados sobre teus passos, tua
Lenta navegação por entre torres
Em que te amarram cordas de silêncio.
Dorme a amada; o mar urde laborioso.
Estamos sós, eu e tu. E o mar, testante
(Leguleio de aromas e vivências)
Do que deixaram tardos marinheiros
Sobre a terra límpida, mas exausta,
Os bens que, de alma apenas, pó restaram.
O mar é o que te basta; é a tua culpa.
Por isso, nada esqueces, nada passa:
A memória a acender-te o labirinto,
A luz a reavivar o antigo rosto,
Espuma a te invadir adusto ventre.
Tua baía, escancarada porta
A quem te penetre água e terra adentro
– peixes, pássaros, luas navegantes –,
A boca lúbrica, emitindo toques
De tambores também lascivos, urra.
Fica em silêncio que já te cubro, égua
Fogosa, imersa em toldo florescente:
Te pego pelo casco, jade puro;
Te puxo pelas crinas rutilantes;
Te arranco das encostas em que pastas.
Vem, vem; se és de ouro, risco-te nas pedras.
Vem; se és de fogo, banho-te no mar.
Vem; se és de lua, lanço-te no céu.
Urras; ah, pela anca afinal peguei-te,
Égua translúcida da madrugada.
E após, na lassidão que disto sobra,
Batida pela brisa que ressoa
No côncavo de uma onda, desvaneces,
Além do cais onde dormitam barcos.
O mar te trouxe; estrela, o mar te leva.
(Extraído de “Poesia Reunidas e Inéditos”. São Paulo: Escrituras Editora, p. 235, 2011)
       Salvador, cidade de dois andares, primeira capital do Brasil, fundada em 1549