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terça-feira, 12 de agosto de 2014

VIGÊNCIA DA NOITE - OU AURORA

Surrealismo de Salvador Dalí (1904-1989); pintura da série "Relógios Moles"

A Guido Guerra, in memoriam
                                  
Como um pássaro que passeia devagar na estiva
de um porto qualquer, olhos baços, mente esquiva,

divago na sala, mirando as estrelas da noite que passa.
Para ser um filósofo, em grave silêncio, me falta massa,

temas eternos, mente febril, serenidade no olhar,
imunidade a relógios e o grave prazer de pensar;

me exprimo com o nada, atento aos estertores da vida, 
neste espaço que me serve de confortável guarida,

para pensar em mim mesmo, amealhar meus ciclones,
ruídos da alma, como quem reaviva um cemitério de clones.

Como quem mira estrelas cadentes, na noite sossegada,
me estiro no sofá, respiro e realinho as curvas da estrada,

mais próximo de mim, inumeral, distante do mundo,
sem ser nenhum gênio, mago, de pensamento profundo.

Com um livro na mão, revista ou jornal, um copo de vinho,
converso comigo, meus dias e noites, com saudades de mim.

Ou com o que me resta de sustos, recompondo os cristais,
que a vida quebrou, o vento levou e, no entanto, quer mais.

E com tantos sentimentos vivos que me correm na veia,
na noite diversa, como um grão que se desprende da areia,

medito estendido no sofá desta sala como sempre agradável,
sempre calma, sem calor de emoções, sem tempo instável.

Enquanto a amada que vigia meus sonos dorme no quarto,
ouço na caixa de som alguém a dizer-se de sonhos farto;

eu próprio, em meu canto, me alimento de perdas também,
por minhas estivas mentais aguardo a madrugada que vem.

O vento lá fora rebenta vidraças, em plena alvorada;
cá dentro divago, espio a noite. Não espero mais nada.


(Salvador, jun. 2006)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

HOMEM MORTO DIANTE DO RIO


(À memória imortal de Adalgício
de Oliveira Leite, varão campestre,
guardião das matas de Itacaré, vez
por outra, narrador de jagunçagens)

Ibant obscuri sola sub nocte per umbram.
(“Iam obscuros pela sombra na noite solitária”; Virgílio, Eneida, Canto VI, 268)


Barro Vermelho. Subindo a ladeira,
Parede em taipa, o teto era de palha,
E de barro socado o chão da casa.

Adalgício, o seu nome. Eu, diante dele,
Recém-arremessado ao mundo, ouvia-o,
Que bem me vinham vozes que eram suas.

Sobre baú de cedro e couro velho,
Arrimo da carcaça, queixo e mãos
Contra magro joelho, o tempo verga.

O senhor das estradas e dos montes.
A testa alta, cabelos já grisalhos,
tal um fauno, um arauto de outras eras.

Na sala tosca, o grave monge entoa
de sangue e arrojo histórias pelejadas,
na doce luz da tarde que descamba.

Palavras mágicas em duro rosto,
Sonho a jorrar da boca do homem calvo,
Perpétuo, no passado e no presente,

A voz do bardo rústico desfia
Luas coalhadas de esperança e medo:
Árdua canoagem sobe e desce rios,

Destino obscuro de homens pela noite
Conduzir (todos mudos) de Sergipe,
Límpido fogo, pelo Rio Almada.

Crispada mão, a arma no coldre oculta,
Brilha o punhal de doze polegadas,
O facão e o fuzil papo-amarelo.

Fome de comer nuvens, de romper
Mata fechada atando feixe e fardo,
Chuva e lama ungindo ouvido e tato.

Vaus e lajedos, pântanos e serras,
Dentro da noite a aurora como guia,
Mas no íntimo era o sol que te mirava.

Quando morreste no catre de tábuas,
À beira de outro rio de outras lendas,
Teu passado viajava pelos dias.

Mais que um farol, a mente recompunha
Geografias de coisas e de gentes,
Na batalha do sonho contra a sombra.

Talante que decifra telhas vãs,
No horizonte de ganhos e perdidos,
Ficou teu nome, sim, como um troféu.
 
Rosto anguloso, clara pele em corpo
ossudo, a firme voz despeja o sumo
do que foi glória e ardor no anonimato.

(2003)  

Outono perto de Murnau; pintura do expressionista Wassily Kandinsky (1866-1944), óleo sobre tela

A EDIÇÃO MATUTINA

Glauber Rocha e Florisvaldo Mattos, amigos (Salvador,1976)

            (À memória de Glauber Rocha, artista, amigo e companheiro de jornal)


Nada sei além do que me contam
os hebdomadários perseguidos
os diários desaparecidos
os livros burocraticamente censurados
os discursos jamais pronunciados

Muito


                        de dor enclausurada
                        de raiva contida
                        de memória desesperada

Muito

                        de petrificado esterco
                        de martírio indevassado
                        fel de carcomida flor

Como em toda experiência humana
Como em toda verdade proclamada
Há a marca indelével do sofrimento
nas páginas enfurecidas

Nada sei além do que me contam
relatórios
encimados  por tipos de caixa negros
vomitando
pelas janelas dos escritórios
pelos pátios dos colégios
pelos verdes
gramados dos jardins municipais
pelas oficinas mecânicas
pelos bares
pelas praias e estádios superpovoados
pelos ônibus
                        pelos trens
                                         pelos aviões
e navios que levam petróleo
pelo mar                                           
por todas as estradas que começam na infância

                        Tudo o que o chão calou e o ar esqueceu
                        Tudo o que a água afogou e o fogo torrou
                        Tudo o que o sol escondeu e a lua gelou
                        Tudo o que o dia borrou e a noite ofendeu

Por esta janela escancarada diante do mar
com o horizonte lantejoulado de nuvens claras
na manhã de um dezembro moribundo
rajadas de azul me trazem a história
de tudo
estampada na páginas em fúria
onde não há nenhum signo gráfico
nenhum nome
somente linhas de sangue
                                            vergonha e desespero

                        Algo lido não sei onde
                                        mas logo esquecido
                        Algo escrito não sei onde
                                        mas logo apagado
                        Algo de ausência denunciada
                                         mas logo justificada
                        Algo de presença intolerada
                                          mas logo consentida
                        Algo de dúvida arguida
                                         mas logo desfeita
                        Algo que violou a alma
                                         mas logo com rigor apurado
                        Algo de assombro que povoa os muros
                        Algo de aceso punhal que cega as mentes
Algo catastrófico no refúgio dos mitos
que nunca veio à luz nem foi explicado

            Vem-me pela porta  aberta desse verão doente
            ecoando na varanda das páginas desertas
das edições que sangram gota a gota
nas enfermarias do acontecer
(de ontem
                 de hoje
                             de amanhã
                                   de sempre)
e adquire uma velocidade assustadora

Porque a luz é forte e ensurdece
Porque o agitado do mar escurece
Porque chega o vento e exerce
o poder de lançar a espuma
contra as estrelas adormecidas
Porque a poeira da rua enegrece
as vestes nos varais abandonados
Porque é cedo e todos sabemos que tarda 



Um novo ciclope no horizonte aparece
Os corpos voam sobre os arranha-céus
            Porque a exausta carne se desprende
            dos ossos ante petardos de sal

Nada sei além do que me contam
as furiosas páginas dos diários mudos

Morreu o Chefe de Reportagem
                           E ficamos todos tristes
A penumbra da noite avança pelo amanhecer
A neblina é densa e os automóveis
entram em choque de faróis apagados
Queremos uma pauta
um roteiro qualquer
Não o que leve ao esclarecimento
de todas as culpas
Não buscamos desvendar o impossível
Queremos uma pauta
um caminho (por exemplo)

Que comece pelos itens das lojas de brinquedos
prossiga com a listagem para as horas de lazer
Que enumere os chopes de todos os botequins
Que reproduza todas as gargalhadas do perímetro urbano
Que forneça o mais seguro boletim meteorológico
Que informe o que se passa nos cinemas
Que esconda os dejetos lançados sobre os monumentos
Que estimule o Ba-Vi das ilusões primeiras
Que abra os corações aos ritos do candomblé
Que dê verso às canções dos trios-elétricos
Que vista a mortalha dos foliões de todos os dias
Que prepare o espírito de todos para o Carnaval

E assim seguindo apenas
o curso luminoso
de cada signo morto
perfurando o arenoso
das páginas desertas
bobinas de horror
manchas de tinta fresca
chumbo e insone rastro

Chorarei então
por entre os escombros
da edição matutina

(Salvador, ago. 1981)


PAI, IREI TAMBÉM


Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas.

(Augusto dos Anjos)

Pietá and Revolution by Night, 1923, pintura de Max Ernst (1891-1976)


Corro em busca de um segredo. Meu pai,
Enfadado, olhos fixos no horizonte,
Lamenta o estio que anuncia lutos,
O prenúncio de fomes no que pensa.

Olhos percorrem serras e caminhos,
Mapa que vãs palavras não desvendam.
Seca e sertão – seu magma de pretéritos;
Destino – impoluto ímã e chamamento.

Logo mergulha em teias verdejantes.
Interroga o porquê dos dias árduos,
Amargo trânsito, espinhos sob frondes,
Dura locomoção, serão de relhos.

Nunca a saudade o visitou (estranho
Dogma que o tempo inscreve a pata e faca,
Percorre os labirintos do existir
E cobra da alma o seu quinhão de pranto).

Nunca o sonho sorriu-lhe. Deus tampouco
Abriu porteira ao gado de seu pasto.
Só morcegos nos altos caibros, vozes
Por sobre telhas agouravam sonos.

Olho meu pai. Seus olhos miro. Ó luz,
Ó espelho em que me vejo (e não é um sonho).
Sou ele, sou-lhe igual, a diferença
Provém da terra que nos fez parceiros.

Não roçou a doçura nossos rostos.
Pedras latejam ígneas, leitos sangram.
Alma e carne sulcam léguas de viagem.
Navego em brenhas, visgo de cacau.

Súbito estremece o cenho carregado.
De rude origem choro que a emoldura,
Crispada mão a terra lavra insone:
Moeda de água que é tudo e não é nada.

Lembro meu pai, seu rude calendário:
Tácito dizer de olhos que se calam,
O menear do sono ao pé do rádio,
Prendas do ofício de espreitar luares.

Rio de perdas, cabedais em mim,
Em que rede hoje afundas teu cansaço,
Ó meu pai, bússola e água que me buscam,
Congelando renúncias, silêncio, ais?

Quanto de ti, do rosto retesado,
Estua em sítio de prosperidade
Negada; quanto, noite alta, em vigília,
A mão tateando livros de comércio,

Sólidos borderôs de endividados, 
A forma encapsulada de teu gênio,
Quanto te devo eu associado a instantes
De teu rolar em transações de esperma.

A tarde em que da face escorrem luas
Sabe a rosas a propagar coágulos
Do adolescente cosmo de carências
Que eu percorria apascentando sombras

Da terra de onde emerge altissonante
Teu cabedal de notas promissórias.
De águas e campos temerários vêm
Talvez meus passos, eu e tua sombra.

Quanta névoa hoje, pai, meus olhos cobre.
Com íntimo rumor sonhos meus revolvem,
Sob metal, pedra, terra ou campa, a vida
Que se foi. Ora, os ventos que roçaram

O dorso alto da serra, mãe de rastros.
Ora, pássaros e animais de carga
Sobem do ônix da noite, aura perene,
Derivados do cosmo em que te moves.

(In “Poesia Reunida e Inéditos (São Paulo: Escrituras Editora, 2011, págs. 300/302)