FM, com Paulo Martins, em lançamento, no IGHB, em 08.2018
O DIA QUE VEM DE LÁ
LEAL KOSTAV
(Onde o deserto encontra o canal)
O céu de Belém entupiu. Um grafite espesso encobriu o canal da Visconde, sufocando o horizonte antes do primeiro estalo. O bafo do asfalto subia em ondas, mas o cheiro de ferro e poeira batida já anunciava a tora d’água. Abri o celular. Na tela, o poema de Florisvaldo Mattos faiscava. "Cuidem do Oriente... Temam o Oriente".
Um nó apertou a garganta. Florisvaldo, esse gigante baiano, jornalista de cepa e poeta que não brinca com as palavras, lançava seus versos como quem risca um fósforo num paiol. Dedicado a Guido Guerra, o texto vencia a distância e o tempo para me estapear aqui, neste balcão de madeira gasta, cercado por um mundo que insiste em se desfazer. Enquanto os donos da guerra movem peças de xadrez sobre mapas de carne e osso, a poesia de Florisvaldo desenha o destino.
— Vai cair o mundo — o homem ao lado sentenciou, secando o suor da testa.
— Já caiu faz tempo — respondi, os olhos cravados no verso.
Ergui o copo de cerveja. O vidro suava, uma umidade fria que colava na palma da mão. O primeiro gole, amargo e gelado, não apagou o incêndio que o poema acendeu por dentro. Senti um aperto, uma vontade de ser pássaro naquele vazio imenso. O Oriente de Florisvaldo não é cartão-postal; é couro curtido. É lição de quem sabe que o sol e o vento navegam sobre todas as águas, inclusive as nossas, turvas de lama, restos de isopor e o óleo que vaza das rabetas no canal. Minha mente transbordou. Não foi a chuva, que agora fustigava as telhas de zinco com a força de uma metralhadora. Foi o soco da realidade: a guerra de lá e a nossa agonia de cá, entre pontes de madeira apodrecida e o lixo acumulado nas margens, sangram pelo mesmo furo. Onde Florisvaldo vê "areias áureas", eu vejo o entulho brilhando sob o clarão do raio. Onde ele ouve preces e fuzis, eu ouço o silêncio tenso da esquina. Ele não narra; ele adverte. "É de lá que vem o dia". E o dia, ali na luz azulada da tela, queimava a retina.
— Outra? — o dono do bar apontou para o copo vazio.
Balancei a cabeça. O tilintar da garrafa no casco de vidro foi um estalo seco diante do trovão que sacudiu as estruturas do bairro. O trágico é homeopático, porções graduais para não enlouquecermos de vez. Ajeitei o boné, a chuva agora era uma parede de chumbo. O mundo sumiu atrás da cortina d'água. Mas, por um segundo, entre o amargor do lúpulo e o rugido do canal que subia, o deserto de Ofir estacionou bem ali, na esquina da Benjamin com a minha mudez assombrada.
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VIAJANTES DO ÉDEN
Para Guido Guerra
Florisvaldo Mattos
I – A caminho de Ofir
Habituado com terras calcinadas,
Osama bin Laden, o dos desertos,
Negocia com mel e queijos, como
Aristômenes, o egeu de Apuleio,
e, como ele, desenovela histórias,
que nunca são mentiras. Percorre
sendas de areia em todos os sentidos,
buscando vantagem por atacado,
com o que trafica nas encruzilhadas,
e acabou nas montanhas fatigado
de ter corrido tanto para nada.
Ambos cuidaram de olivais; porém
nenhum dos dois foi náufrago da vida,
nem pediram tostões pelas estradas.
II – Lições de oásis
Cuidem do Oriente; considerem
suas montanhas e luas, seus
mares e areias áureas. Temam
o Oriente de monges virginais,
que harmonizam preces com fuzis,
em templos fartos de radical
sabedoria, e alagam a mente
com porção frugal que é sonho e basta;
o Oriente de tardas caravanas
e pássaros, no vazio imenso,
onde sol e vento (notem bem)
navegam sobre todas as águas.
Palavras imorredouras nos
dizem que é de lá que vem o dia.
Homenagem a um mestre da palavra.
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Ilustração: Florisvaldo Mattos(sentado), o poeta que desenovela o Oriente no coração da Bahia, ao lado do escritor Paulo Martins.
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