Valdomiro Santana
Le poème, par la parole, fait que ce qui est
infondé devient fondement, que l’abîme du jour devient le jour qui fait surgir
et qui construit.
MAURICE BLANCHOT, La part du feu.
O virtuosismo da composição técnica do soneto
“Dia de Costa Azul”, de Florisvaldo Mattos, importa muito menos nesta nota do
que a gênese rica e sutil de sua composição estética. Para efeito da leitura aqui privilegiada,
estamos diante de uma imagem, não no
sentido que se compreende como o que contém metáforas, comparações, para
colocar a realidade em figura; não, portanto, como linguagem figurada — mas
imagem da linguagem, ou linguagem imaginária. Digamos: uma paisagem visível de palavras. Imagem que é o texto do soneto em foco, escrito na manhã de 22 de janeiro de
2020:
Oh, infinita areia ainda insone,
Na clareza do dia que me acorda,
Trazes-me uma canção que ouço da borda
De uma janela sobre a rua em cone,
Que guarda amor
secreto, sem luxúria.
Ouço o quieto
mar pronunciar meu nome
E numa árvore um
pássaro com fome,
Temendo, como
nós, da morte a injúria.
Em meus sinceros
olhos a luz avança.
Pretérito que
foi, o dia azula,
Pelo ar que
sopra vozes de criança.
Miro o céu que
se torna cor-de-rosa.
Da tarde leio a
fulgurante bula,
Feliz, aguardo a
noite clamorosa.
Soneto inédito, cuja cópia o próprio poeta nos
enviou por e-mail, na manhã do mesmo dia em que o escreveu. Retenhamos esses
dois momentos, o da escrita, que começou naquela manhã cedo, e, logo após, o do
envio, com a manhã já alta, antes do meio-dia.
Leitura, pois, do soneto que tem como uma de suas
referências o impressionante conto “Referent”, de Ray Bradbury, em que tudo se
cria a partir da imagem da palavra,
isto é, de sua enunciação.
Pálpebras/canção. O parceiro invisível
Sob o signo do fascínio dispõe-se a linguagem deste soneto: imagem que se
lê, se diz, se ouve e se vê. Que
fascínio é esse? O da vibração de seu título, “Dia de Costa Azul”, o qual
constitui um só bloco de sensações em seu agenciamento com o texto, onde a
palavra “dia” aparece duas vezes — uma no primeiro quarteto e uma no primeiro
terceto. No título e no texto, o fulgor e o espanto desse fulgor, por causa de
um lugar chamado Costa Azul, nome que só aparece no título. (Mais forte em espanhol do que em português é
a palavra “azul”, em que o z tem som
de ss ou c cedilha e o l não soa
como u.) Se Costa Azul não fosse um
lugar real ou imaginário, as iniciais das duas palavras, um substantivo e um
adjetivo, seriam grafadas com letras minúsculas, o que é elementar: [a] costa
azul, “dia de costa azul”.
Problematizemos o que abre esta nota de leitura.
Se “Dia de Costa Azul” é uma imagem, composta de palavras
substantivas que nos comunicam figuras (areia, olhos, dia, janela, canção, rua,
mar, céu...), ela constitui para nós
um objeto? Tal objeto sugere, indica, esboça essas figuras, mas não as
representa completamente e assim não é totalmente disponível ao que entendemos
por visão? Onde, como e por que o fascínio?
Continuemos a nos perguntar: O dia que se passa
numa costa azul? O dia com espaço e tempo investidos pelo mar no verão, cuja
faixa costeira seria azul, por se tornar plenamente visível com o sol? O azul
de um um dia assim deixaria de aparecer quando o sol se põe, ou longa seria sua
persistência na retina? Azul-claro e azul-escuro, um saindo de dentro do outro?
A preposição “de” designa o “pertencimento” de um dia ao que visivelmente se
impõe, o azul-celeste, uma costa azul, assim como dizemos “dia de chuva”,
quando o céu fica cinzento? Uma costa colorida de azul avassala de tal modo a
manhã e a tarde, que, à noite, o céu é de um azul inclassificável? O azul é a
escuridão tornando-se visível? Há, ou pode haver, uma explosão de azul, o mais
selvagem, o azul mais azul imaginável? O dia em seu curso na orla do mar se
desvanece, como um rosto de areia?
Retenhamos o que, abrindo-se com a força
aliterativa em d, consoante
linguodental sonora, encerra-se com a vogal tônica u, não para apurar a metrificação e a cadência do título, o qual
pode ser lido como um verso e este, por sua máxima condensação, suscita
múltiplos enunciados em que o topônimo Costa Azul é um bairro de Salvador:
“O dia fulgura no Costa Azul”.
“O mar no Costa Azul amanhece quieto”.
“O dia no Costa Azul é álacre, com cantos de
pássaros e vozes infantis, tem ar de festa e folguedo”.
“Uma rua
vista da janela, no Costa Azul, é um campo que se aprofunda”.
“O Costa
Azul tem uma ampulheta”.
“No Costa Azul há um acordo sensual de minha
cabeça com o travesseiro, de meu corpo com a paz e a felicidade da cama”.
“Aparece e desaparece o mundo no Costa Azul, onde
experimento todas as aventuras do visível e de sua percepção”.
Uma só vez, e no último verso do segundo terceto,
lê-se, diz-se, ouve-se, vê-se a
palavra “noite”. O que também importa reter: o pronome subjetivo “nós”, ao fim
do último verso do segundo quarteto, que assinala a inesperada mudança da
pessoa do discurso da primeira, concernente ao pronome objetivo “me” e ao verbo “ouvir” no presente do
indicativo, “ouço”. A “clareza do dia” é
o anúncio, no mesmo instante, de uma canção “que me acorda”.
Aqui, um sutilíssimo jogo semântico não existente
na língua portuguesa: a palavra alemã Lied
pode soar tanto como “canção” quanto como “pálpebra”.[1]
Acorda-se quando as pálpebras se retraem. Mas, como se sabe, o cérebro é mais
exigido pela audição do que pela visão. Para escutar, que é ouvir com atenção,
é preciso pensar; olhar, no sentido de mirar, é uma experiência sensorial que,
como em “Dia de Costa Azul”, pode se abrir para o fascínio em que o ser
desaparece naquilo que o nomeia para se tornar a realidade das palavras.
Por que a mudança da pessoa verbal referida linhas
acima? Porque a subjetividade do poeta (e do leitor) é mutável, emergente,
heterogênea, plural: da primeira pessoa do singular — “me”, “ouço” [“uma
canção”; “o quieto mar”; “vozes de criança”], “meus” [“sinceros olhos”] e o implícito “vejo” [que
“a luz avança”] — à primeira pessoa do plural, “nós”.
Outra mudança: a do retorno do que parece ser a da
primeira pessoa em “miro”, “leio”,
“aguardo”, no segundo terceto; um retorno estranho, não mais da mesma pessoa,
mas como o aparecimento de outra, inapreensível. Aqui se impõe a lembrança de
Rimbaud nas Cartas do vidente (a
Izambart e a Demeny, ambas em maio de 1871): “Je est un Autre...” (Eu é um
Outro...). Que Eu é esse, agramatical, assintático, que não diz “sou”, mas “é”?
O sujeito que desaparece quando aparece o ser da linguagem? Sim. E esse um Outro, indefinido, anônimo,
impensado? O Eu em sua estranheza
radical? Sim. O Eu sem Eu, em que o escritor deve se transformar para se tornar
impessoal pela arte, que é essencialmente impessoal. Na modernidade, o cogito cartesiano esgota-se porque “Eu
penso” não mais conduz à evidência de “Eu sou”. Pela primeira vez, na história
do pensamento moderno, pensar é sair de seu retiro para se dirigir ao impensado
e com ele se articular.
Como diz Bataille: “O Eu não tem a menor
importância. Para o leitor, eu sou um ser qualquer: nome, identidade, histórico
não mudam nada. Ele (o leitor) é um qualquer e eu (autor) também”.[2]
Se o Eu jamais pôde ser sujeito da experiência é “porque não seria capaz
disso”, observa Blanchot, “nem o indivíduo que sou, essa partícula de poeira,
nem o Eu de todos que supostamente representam a consciência absoluta de si”.
Entretanto, leitores desatentos e apressados que
somos — com a pressa de um tempo pobre de pensamento —, ao ler “Dia de Costa
Azul”, agarrados a nosso Eu, simplesmente “engolimos” o soneto para reduzi-lo à
categoria do gosto que o silencia. O gosto, seu juízo, que aprendemos como
leitura literária, e assim o expressamos: “Gostei muito, é lindo!”.
Pronto. Silêncio. Que, estéril, morre nele
próprio. O contrário do silêncio fecundo que “Dia de Costa Azul” nos impõe com
sua fala não falante. Uma obra literária, diz Blanchot,
“para aquele que nela sabe penetrar, é uma rica estação de silêncio, uma alta muralha e uma defesa firme contra essa
imensidade falante que se dirige a nós, desviando-nos de nós”. E George
Steiner: “Ler com atenção é fazer silêncio dentro do silêncio”.
A novidade vazia, velhíssima e sempre reiterada de
nosso “Gostei muito, é lindo!” torna-se, não sinônimo de elogio, expectativa
tão frequente dos autores que preferem “gostadores” a leitores de sua obra, mas
o que é ainda mais pobre e redutor: moeda de troca da “leitura-engolimento”
pelo que logo decai ao nível da banalidade cotidiana. Gostamos então de uma
obra de arte como gostamos de qualquer coisa consumível, e nos orgulhamos de
dizer que temos bom gosto. Na fácil instantaneidade do gosto que fabricamos,
tem este o caráter do que é sólido e inamovível em sua certeza total de apego,
mas também, paradoxalmente, o caráter do que é inconstante porque, em nossa
ligeireza, breve poderemos gostar menos do que agora gostamos, ou não mais
gostar ou mesmo recusar com aversão. Este, o nosso comércio com a literatura:
porque a “engolimos”, dela passamos ao largo.
Se continuamos a ler agarrados ao vazio sem
fundamento da gaiola de ouro de nosso Eu,
nunca poderemos ser o parceiro invisível do escritor. Kafka, em seu Diário, observa com uma surpresa que o
abala, mas também encantado, que se tornou escritor quando pôde substituir o
“Eu” pelo “Ele”, que é uma não pessoa, o “neutro”.
Se somos o leitor que gosta, somos também o
espectador de filmes para quem nossa
percepção natural e a percepção cinematográfica se equivalem. Por isso
anulamos a única consciência do cinema, a câmera, que ora é inumana, ora (se
torna) humana, ora
sobre-humana, cujo olho, ao se
projetar em outro olho, a tela, é o que em sua ontologia já está nas coisas,
faz parte da imagem, é a visibilidade da imagem enquanto automovimento e
enquanto autotemporalidade.
Diante, por exemplo, da pintura de uma
natureza-morta, o que faz nosso Eu cartesiano esgotado, mas ainda
insistentemente solipsista? Contenta-se com o aveludado dos pêssegos e o louva, sem ter, à distância, nessa experiência do
visível pictural, o aveludado da tela. Nesse contentamento e louvor vazios do
“Gostei muito, é lindo!”, escapa-nos que “a arte não reproduz o visível, torna
visível”, como na profunda e delicada lição de Klee.
O devir-leitor
“Dia de Costa Azul” é um soneto impregnado de elementos sensoriais — ar
(forte presença da luz), água, sons... —, motivo pela qual nele se experimenta
a transformação do signo dia em imagem, cujo curso é tão mutante quanto a
subjetividade do poeta e do leitor que poderemos nos tornar.
A luz avança, pura imagem, para que o dia seja
pleno, intenso. Nesse avançar, o olho, ao mirar o céu que de azul vai se tornar
cor-de-rosa, incorpora a mira desse espaço, faz da distância o que é lhe
próprio; e, porque o tempo não tem fim, por ser uma forma imutável, não
definida pela sucessão, e seu sentido é íntimo, o que o soneto cria, em vez de
expressar, é uma sensação de deslizamento. O azul flutua, o dia é uma modulação
— não um molde — do céu, em que o tempo, à tarde, passa da saturação à
rarefação de luz. Ou o que também pode
ser dito: um intensamente berrante azul que muda para um azul-camaleão.
Que dia é esse?
Mais uma vez intervém a força cega de nosso Eu para encontrar num lugar “real”
o que, em tom azul, é uma parte do mar próxima à terra. Como se o dito, o
escrito do poema, fosse uma representação e se alojasse no visível da imagem.
Um “como se” que nos contenta. E o “Gostei muito, é lindo!” mais uma vez se
afirma.
Se, entretanto, nos desapossamos radicalmente do
poder de dizer Eu, para que haja em nós uma transformação da linguagem e nosso
Eu passe ao Ele, que é neutro, impessoal, e emerja o devir-leitor com uma
intimidade — não no sentido de interioridade, por ser um oximoro “a intimidade do
fora” — que fala com a intimidade do poeta, o que poderá acontecer? Um espaço vai se abrir, uma distância
infinita, e, nessa distância, o não encontro com a realidade empírica de um
lugar chamado Costa Azul, mas com sua ausência. Por que isso? Porque as
palavras, ao nomear um ser (no caso, esse
lugar), privam-no da condição de ser.
As palavras
“Dia de Costa Azul”, ao manifestar o que nomeiam, são, ao mesmo tempo, a
materialidade vazia do que não podemos apreender e o inapreensível do qual não
abrimos mão. A literatura é linguagem, mas uma linguagem que se problematiza e
se converte em impossibilidade. Linguagem que, sem lugar, só aponta para o
silêncio e se faz impasse. Contradição fundamental: a literatura se faz com
palavras, as quais, no entanto, se transformam, se reviram, se escavam, se
espelham, indefinidamente. Para quê? Para ser silêncio. Seu espaço, o do
imaginário, é sua paixão. Não a paixão pela
leitura, “Eu gosto muito de ler”, mas a paixão da leitura, que tem o poder de se consagrar a si mesma,
permanecendo enigmática, sem identidade.
Ao se mover no silêncio, “Dia de Costa Azul” é um poema que vai além de
seus limites para realizar o irrealizável, vir sempre a se refazer em várias
leituras, cada uma das quais é nova, já que seu espaço tende a se abrir cada
vez mais, disseminar-se.
Se nos transformamos em parceiro invisível do
poeta, que está longe, bem longe, na obscuridade de seu escritório, não da
pessoa que identificamos com o nome de Florisvaldo Mattos, o que temos? Não,
como na linguagem corrente, quando dizemos “mar” sem vê-lo (com muito mais
frequência quando não o vemos), e de pronto “dispomos” da beleza do mar e de
sua aprazibilidade, mas os possíveis criados pela linguagem poética, no espaço
da imaginação, que é infinito em sua pluralidade. Linguagem do Aberto, na
reflexão de Rilke, a metamorfose do visível em invisível. Linguagem da
ausência, a do invisível, para suportar, salvar o visível.
De novo Blanchot: há em Rilke “uma teoria cantante
do ato poético”, na medida em que “o poema é a profundidade aberta sobre a
experiência que a torna possível, o estranho movimento que vai da obra para a
origem da obra, ela mesma transformada em busca inquieta e infinita de sua
fonte”.
Espaço imaginário: a intimidade do coração.
O pincel. Linhas de fuga. Mapa.
Ambiguidade
O que a experimentação do devir da leitura deste e de outros poemas de Florisvaldo Mattos deixa entrever, em sua poética — no sentido grego estrito de poiesis, um substantivo que se forma do verbo poiein, “fazer”, “criar” —, é a metamorfose da caneta ou do teclado do computador em pincel. Ele devém pintor, mais dissimulado que invisível, por causa de seu modo peculiar de ver e a partir do título de seu primeiro livro de poemas: Reverdor (1965). Poderoso, por causa do fascínio de sua imagem enquanto imagem, esse título. Em “Dia de Costa Azul”, como em tantos outros poemas de sua autoria, o que se faz perceptível são os modos como o signo luz se apresenta e se transforma; o fulgor, neste soneto, são esses modos, cores, causas colorantes. Isso porque, como as estudou Goethe em seu tratado, as cores entram em relações de complementaridade e de contraste: cada uma, no limite, reconstitui o todo e todas se reúnem no branco, o modo infinito, segundo uma ordem de composição, ou dele saem na ordem de decomposição. Daí o fulgor que perdura no espaço imaginário deste soneto, com um azul tão intenso, que arde, porque quando a luz torna um corpo transparente a opacidade se revela.
A reflexão de
Merleau-Ponty, em O visível
e o invisível, dialoga com a análise que faz Goethe em seu tratado: uma cor
nua, dura, indivisível, não é o que se oferece a uma visão que quer ser total e termina sendo nula, “mas antes uma espécie de estreito entre
horizontes exteriores e interiores sempre
abertos, algo que vem tocar docemente, fazendo ressoar, à distância,
diversas regiões do mundo colorido ou visível, certa diferenciação, uma
modulação efêmera desse mundo, sendo, portanto, menos cor ou coisa do que
diferença entre as coisas e as cores, cristalização momentânea do ser colorido
ou da visibilidade. Entre as cores e os
pretensos visíveis, encontra-se o
tecido que as duplica, sustenta, alimenta, e que não é coisa, mas
possibilidade, latência e carne das coisas”. [Grifos nossos.]
Entre: o que é interessante no pensamento criativo em qualquer
domínio não é uma correlação localizável, o que vai de um começo para uma
conclusão e reciprocamente, mas o que está no meio e aí, perpendicular,
transversal, irrompe. Linhas — não pontos — que se bifurcam, se
desterritorializam, fogem, e se reterritorializam para de novo fugir. Como as
de um mapa, que, na filosofia de Deleuze e Guattari (cf. vol. 1 de Mil platôs), é o oposto do decalque ou
reprodução: “O mapa é aberto, conectável em todas as suas dimensões,
desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente.
Pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser
preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo
numa parede ou como obra de arte”.
Esse conceito de mapa
faz ressoar a lembrança, e nela meditar, do que foi a inquietação artística de
um grupo, a Geração Mapa, na segunda metade dos anos 1950, em Salvador, que
teve como participantes Glauber Rocha, o mais conhecido - no Brasil e fora,
como cineasta, cuja obra é hoje patrimônio do mundo —, Florisvaldo Mattos, João
Carlos Teixeira Gomes e Fernando da Rocha Peres, entre outros. Mapa: o título da revista de vida breve,
mas intensa, que criaram e dirigiram.
Mapa como as linhas da mão, as mais belas, ou
as traçadas pela água que sai de um cano furado esguichando para todas as
direções; como a grama que brota, não para ir daqui até ali, mas entre as
pedras do calçamento.
Mapa: leitura acima dos
enunciados que se abrem suscitados pela simultaneidade sucessiva do título do
soneto e seu texto. Uma imagem só, como a da dobradiça e da porta, a da tampa e
da garrafa.
Atentemos agora para o segundo verso do primeiro terceto: “Pretérito
que foi, o dia azula [...]”
“Azul”. O campo lexical e semântico dessa palavra
inclui numerosos brasileirismos e acepções populares. Como verbo transitivo,
“azular” designa “tingir de azul a”, “anilar”; como verbo pronominal,
“tornar-se azul”. “Azulado”. Palavra que tanto pode ser substantivo, quando
precedido de artigo, quanto adjetivo, ao significar “o que tem cor levemente
azul”. Entretanto, eis as acepções desconcertantes do verbo “azular”, em sua
intransitividade, no Nordeste do Brasil: “fugir”, “sumir”, “escapulir”.
Nos dois segmentos de “Pretérito que foi, o dia
azula [...]”, verso rico e sutil em sua ambiguidade, duas temporalidades
coexistem numa só imagem: a de agora,
a do dia evanescente, e a de outrora,
a do dia no esplendor do céu sem nuvens com o sol que foi ficando alto... Note-se a força da palavra “pretérito”, aqui um
adjetivo, que deflagra o verso e traz embutido um tempo verbal perfeito — “foi”
—, ao designar um curso que já se consumou. O que se lê/vê aqui não é um sujeito de enunciação individual, sujeito falante,
pois este no cristal do tempo desaparece para que apareça o ser da linguagem,
que é anônimo, enigmático e sempre exterior, tanto quanto o pensamento, como
nas Cartas do vidente.
Cristal do tempo: a vidência criada neste verso
sensacional não tem nenhum sentido premonitório, é muito mais do que simples
percepção, porque a essência do tempo nos escapa, sua significação é
ontológica. Tempo que é aqui puro, transparente, e se manifesta na metamorfose
do dia.
“Azul”, “azular”.
O que nos faz pensar a sutil modulação que o poeta percebe no céu é
também o modo pelo qual cria seu estilo, a sintaxe com a qual trabalha. Isso,
porque é improvável que se forme uma palavra pela junção casual de letras
separadas, mas é muito mais provável formá-la, ainda que casualmente, com
sílabas ou flexões.
“Costa
Azul” é, pois, muito mais, em sua ontologia, uma imagem do que signo verbal,
ainda que este se imponha como realidade gráfica no título do soneto, com a
locução “Dia de”, que é antecedente e tem valor adjetivo. Do alto, essa imagem
projeta luz para que a visão e a leitura se enlacem e se fendam.
Pouco
importa que o leitor não saiba que
Costa Azul é um bairro de Salvador, próximo à orla marítima da cidade. Se essa particularidade da geografia urbana de
Salvador é irrelevante para um leitor que a desconheça, não lhe escapa, no
entanto, uma associação imediata: com o mesmo nome — em francês, Côte d’Azur — da região também conhecida
internacionalmente como Riviera Francesa, no mar Mediterrâneo, com cerca de 180
km, uma das mais belas, caras e sofisticadas faixas litorâneas do mundo, desde
fins do século XIX.
É ingênua não apenas
a imitação do nome, em que transparece o desejo de status elevado — que, na
origem da configuração desse bairro, remete a uma entidade recreativa, o Clube
Costa Azul, de curta duração, cujo espaço rapidamente arruinado veio a se
transformar, depois de muito tempo, no atual Parque Costa Azul —, mas também
porque a cor do mar do Nordeste é um espelho esverdeado, e não, como a do Mediterrâneo, azul. Quem o diz, e com
grandiloquência, ao descrever o litoral cearense, é José de Alencar no primeiro
capítulo de Iracema, romance
publicado em 1865: “Verdes mares bravios de minha terra
natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais
como líquida esmeralda aos raios do sol
nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros”.
Mas tampouco importa essa distinção. O nome Costa Azul, por
sua imagem enquanto imagem, e pelo que mostra e esconde, é o que se impõe à visão
e leitura do soneto. Nome que, em sua potência sonora, extravasa o vivido ou
vivível da expressão de um determinado locus
e o que o compreende e sugere.
Já que neste soneto há a disposição ou
jogo dos signos dia (três vezes) e noite (uma só vez), não custa lembrar que as
vogais são fonemas sonoros que se produzem pelo livre escapamento do ar pela
boca e se distinguem entre si por seu timbre característico; as consoantes são
fonemas resultantes de um fechamento momentâneo ou de um estreitamento do canal
bucal, que, em qualquer de seus pontos, impede a saída da corrente de ar —
sonorizada ou não pela vibração das cordas vocais. “Dia” é um hiato, o efeito acústico
especial em que à sílaba terminada pela vogal-base i (tônica) segue a
iniciada por outra vogal-base, a. “Noite”, um ditongo decrescente, porque à
vogal fechada o (forte) se junta a
semivogal i (enfraquecida).
A lacuna iluminante da poesia
Em sua
experiência poética, Mallarmé primeiro lamenta que as palavras não sejam
“materialmente a verdade”, que jour (dia),
por seu timbre, seja sombrio, e nuit
(noite), brilhante. Encontra, porém, nesse “defeito das línguas” o que
justifica a poesia; o verso é delas o “complemento superior”, “filosoficamente”
o que recompensa esse defeito, porque as línguas não têm a realidade que
exprimem, sendo por isso estranhas à realidade das coisas, à sua obscura
profundidade natural.
Se
as palavras são menos numerosas do que as coisas que nomeiam, não resultaria
dessa pobreza o sentido que falta ao ser? Surpreendentemente, essa pobreza é a
riqueza das línguas, pois não é o sentido que falta: os signos só significam
devido a essa falta. Signos, portanto, que aparecem na linguagem como
indicações ontológicas.
Na
lacuna iluminante da poesia, a fala que se lê, se diz, se ouve e se vê em “Dia de Costa Azul” é a fala de
um Eu sem Eu, a de um Outro, fala destituída completamente do sujeito que
apareceu no instante da escrita para logo desaparecer na espessura do que disse
e na cintilação do que viu, na
fascinação desse instante, o espaço da transparência; não a fala de um “eu
lírico” ou “eu profundo”, porque nela a linguagem se dispõe sob um fascínio, em
que a coisa, um lugar nomeado, uma única vez no soneto, Costa Azul, se torna
imagem, mas imagem que, alusiva à figura desse lugar, converte-se em alusão ao
que é sem figura: ausência.
Quando
acontece o que é fascinante, o aparecimento da ausência, “Dia de Costa Azul” se
converte em intimidade aberta do poeta que o escreveu e de nós que o lemos.
O pintor do silêncio
O filósofo lendo (1734) é o título do quadro de um pintor
barroco tardio,
Jean-Baptiste-Siméon
Chardin. Sem que aqui o
analisemos em seus tantos pormenores, o que seria longo, como esse quadro entra
em relação com o soneto em foco? Entra mediante sua atmosfera, inspirada em Rembrandt, em que o silêncio é tão
explícito por sua textura. A serenidade e a luz que emanam da tela são próprias
de uma cerimônia particular e num ambiente particular em que há vários objetos,
os quais estão em estrita e tão visível relação com a roupa do leitor e seu
chapéu.
Diálogo do soneto e do quadro. Neste, uma
ampulheta, ou relógio de areia, e uma pena num tinteiro aparecem junto ao
cotovelo direito do leitor. Pena para sublinhar o texto, escrever em suas
margens, dialogar com o livro, marcá-lo. Em seu ensaio “O leitor incomum”, o
primeiro de Nenhuma paixão desperdiçada,
diz George Steiner que “ler bem é ser lido pelo que se lê. [...] O ato da
verdadeira leitura é, essencialmente, um ato de reciprocidade literária, de
resposta à vida do texto”. Não por outro motivo, a relação entre o leitor
verdadeiro e o livro é criativa. Steiner cita Péguy, para quem todo ato genuíno
de leitura, toda lecture bien faite,
é um coadjuvante do texto; mas com a advertência de que essa colaboração íntima
é “um desígnio maravilhoso quase assustador”, porque implica “uma elevada, uma
suprema, singular e desconcertante responsabilidade”.[3]
A ampulheta, na visibilidade da atmosfera
criada por Chardin, concerne à relação do tempo com o livro, ao ato silencioso
da leitura, que o torna livro; no soneto, não nomeada, e portanto oculta, não
é, porém, invisível, porque vibra com um signo e este se ilumina logo nos dois
versos de abertura: “Oh, infinita areia
ainda insone, / Na clareza do dia que me acorda [...]” [Grifo nosso]. O
tempo, uma convenção, é medido pela ampulheta por sua areia: representa-se classicamente com dois
recipientes cônicos de vidro que
se comunicam entre si através de um vértice num plano vertical; por esse
vértice uma quantidade de areia escoa de um recipiente para o outro. O primeiro
quarteto é um enjambement que vai até
o primeiro verso do segundo quarteto:
Oh, infinita areia ainda insone,
Na clareza do dia que me acorda,
Trazes-me uma canção que ouço da
borda
De uma janela sobre a rua em cone,
Que guarda amor secreto, sem
luxúria.
Por que transborda o primeiro para o segundo
quarteto, com a cadeia desse triplo “que” como pronome relativo? Porque os
signos se entrelaçam: areia, dia, tu (pronome subjetivo oculto), canção, amor; enjambement, portanto, em sua dupla
função, estrutural e significativa. O primeiro deles, areia, que faz vibrar os
outros, por ser indiferente como coisa empírica à temporalidade humana do peso
das pálpebras e de todo o corpo, é, nesse instante, na ampulheta de um dia, a sensação
de acordar. Numa ampulheta, conta-se o tempo que é sempre o mesmo, a partir da
totalidade de areia que escoa de um recipiente para outro. Se há uma relação
entre o alto e o baixo é porque se faz necessária uma pressão para que o fluxo
ocorra. E outra relação é clara na ampulheta: entre o pescoço, alto e estreito, e os dois compartimentos, de
base larga, que abrigam a areia. Na vivência temporal, o fluxo ao cessar marca
o fim da decorrência de um ciclo. As ampulhetas variam: há as que medem
segundos e minutos, outras mensuram horas; outras, ciclos de 12 horas, e
outras, de 24 horas, como a deste soneto, oculta mas não invisível.
No instante em que termina um ciclo de 24 horas e
outro igual vai começar a decorrer, a temporalidade não mais se esconde no
corpo, mas espacializa-se, dirige-se para o mundo que assim se anuncia: como
“uma canção que ouço da borda / De uma janela sobre a rua em cone, // Que
guarda amor secreto, sem luxúria”.
De tal modo se espacializa o mundo que a rua,
também não nomeada, vai se confundir com a ampulheta oculta, mas não
invisível; rua mostrada em sua máxima
visibilidade porque vista “em cone”:
o primeiro plano e o fundo são vistos nitidamente.
Daí outro jogo muito sutil: o da
passagem do espaço pictórico (o quadro
de Chardin) ao espaço cinematográfico, porque a sensação do que vemos é produzida por uma (imaginária)
câmera subjetiva, isto é, situada na mesma altura do olho do narrador e
protagonista do soneto, “da borda / De uma janela”.[4]
Dessa posição, vemos
o que tecnicamente no cinema é mostrado em profundidade de campo. Logo,
outro diálogo: do soneto e do cinema. A rua em “Dia de Costa Azul” é vista, mais do que lida, geometrizada,
tem a configuração de um cone: o raio da base (sua circunferência, a beira de
uma janela), a altura e a geratriz (o segmento externo), com a extremidade num
vértice comum, formam um triângulo retângulo deitado.
Só no cinema é possível essa percepção. Um dos
exemplos mais impressionantes da imagem em profundidade de campo é o que se vê
em 2001: uma odisseia no espaço
(1968), de Stanley Kubrick. Um dos astronautas da nave que viaja para Júpiter,
o maior planeta de nosso sistema solar, entra no núcleo de memória do supercomputador
HAL 9000 para desligá-lo.
O pintor do invisível
Dizia Cézanne que um pintor capta um fragmento da natureza e o torna
absolutamente pintura; Braque, de maneira ainda mais clara, dizia que a pintura
não procura reconstituir um fato não documentado, mas constituir um fato
pictural. Em sua imagem enquanto imagem, “Dia de Costa Azul” suscita outro
diálogo e de novo com a pintura. Se Chardin pintou o silêncio, cuja espessura
impregna a tela em que os olhos do leitor estão voltados, com lúcida
serenidade, para o livro, e tudo que compõe a imagem é coadjuvante do ato de
ler, Manet pintou o invisível em vários de seus quadros; não só tornou possível
o impressionismo, mas toda a pintura do século XX. Dois deles, Olympia e Almoço na relva, pintados em 1863, foram objeto de escândalo moral;
dois outros, porém, são os que aqui particularmente nos interessam: A
ferrovia (1872-73) e O bar no
Folies-Bergère (1881-82).
Uma mulher olha diretamente para o que não se vê no
quadro. Sentada numa mureta da Gare Saint-Lazare, em Paris, ela segura um livro
aberto e tem no colo um filhote de cachorro dormindo. À sua esquerda, uma
menina em pé e de costas olha o que também não se vê. Há um cacho de uvas na
mureta, bem próximo à vertical direita.
Uma grade preta ocupa quase toda a altura da composição. A menina segura
com a mão esquerda um dos ferros da grade e o que fixa, um trem ao partir ou
chegar, não é definido na plataforma, já que só aparecem uma nuvem de fumaça e
vapor d’água.
Uma garçonete em pé, vestida com requinte, mãos
apoiadas na borda interna de um balcão de mármore, olha para o que perturba
completamente a visão do observador, pois este não vê o que ela vê: diante
dela, um cliente, mas do qual se percebe apenas o reflexo no espelho do bar.
Todo o fundo do quadro é ocupado por esse espelho de base metálica. Em cima do
balcão há garrafas de champanhe e de cerveja, uma cesta de vidro cheia de
tangerinas e um copo com flores. Entre a garçonete e o grande espelho que cobre
o fundo há uma mesa em cujo tampo também de mármore há outras garrafas de
bebida.
Por que esses dois quadros são desconcertantes? Porque
Manet rompe com a representação ilusionista da pintura. Ora, pintar o invisível
é problematizar a natureza da pintura e a própria natureza da tela. Se desde o Quattrocento o que prevalecia na arte
ocidental era a ilusória representação de três dimensões que repousavam num
espaço bidimensional, já que se fixava um certo lugar ideal a partir do
qual, e somente a partir do qual, podia-se e devia-se ver o quadro, o que fez
Manet foi subverter essa tradição clássica. Não que ele tenha criado a pintura
antirrepresentacional, mas a pintura-objeto, como Foucault bem soube vê-la e
analisá-la. Essa ruptura é o que torna possível a arte moderna, inclusive a
pintura abstrata de Kandinsky, Malevich e Mondrian.
Pela primeira vez, a pintura mostra o
invisível. N’A ferrovia, a negação do visível é dupla: a do olhar da mulher e
da menina e onde a profundidade está totalmente encoberta. N’O bar
de Folies-Bergère, a profundidade é duplamente negada: não somente não se
vê o que há atrás da garçonete, porque ela está na frente do espelho; e, o que
é perturbador ao máximo, o que se vê atrás da garçonete é o que está à frente
dela. A consequência do impacto dessa ruptura foi o deslocamento do espectador,
a sensação de liberdade que não mais lhe determina um lugar ideal, fixo e acima
de tudo frontal. Daí o que é inteiramente novo: nesse deslocamento, aparece
pela primeira vez toda a fascinante materialidade do quadro, o que permite
vê-lo, não mais como representação — a qual chega a ser pura, a representação
da representação, como em As meninas,
de Velásquez, pintado em 1656 —, mas como objeto.
Devaneio. Vento e rosas
que caem.
Durações coexistentes. O
deserto e o oceano
Se
a imagem do todo que é “Dia de Costa Azul”
suscita, em sua simultaneidade sucessiva, por sua força e delicada
complexidade, três diálogos da poesia com outras artes — primeiro com a
pintura, depois com o cinema e mais uma vez com a pintura —, não é porque “é
preciso estar presente à imagem no minuto da imagem”? Sim. Essa reflexão de
Bachelard em La poétique de l’espace,
ele que foi um filósofo das ciências da natureza e um filósofo da imaginação
poética, é uma das leituras possíveis deste soneto.
Sonhador de palavras, Florisvaldo Mattos
devaneia, à maneira de Bachelard, num lugar chamado Costa Azul; e em seu
devaneio, que é cósmico, uma palavra, “bula”, transborda os significados
correntes para dizer/ver o universo,
à luz da poesia: o espaço, desmedido, funde-se com o tempo, que não é mais o do
calendário e do relógio; fusão só possível porque o instante, em sua ardência,
em sua fulguração, transmuda o decorrer de um dia em intemporalidade.
No soneto não aparece a palavra “sonho”,
que, em sua referência habitual noturna, é “o guardião do sono”, segundo Freud.
Para Bachelard, entretanto, o sonho que vale é o sonho cósmico, o sonho
acordado. “O sonho da noite não nos pertence. As noites [...] não têm história”. Lembra-nos, por isso, o
acordo/acorde em francês de rêve
(sonho), palavra masculina, e rêverie (devaneio),
palavra feminina; em La poétique de la
rêverie, pergunta: “Que outra liberdade psicológica possuímos, além da
liberdade de sonhar?”. E responde: “Psicologicamente falando, é no devaneio que
somos livres”. Sublinha então a experiência em que, pelo devaneio, descobrimos
numa palavra o ato que nomeia; entre muitos poetas que cita, um deles, Léo
Libbrecht, escreveu este verso extraordinário:
Les mots rêvent qu’on les nomme.
(As
palavras sonham que as nomeemos.)
E
outro, Gilbert Trolliet, num poema intitulado Tout est d’abord rêvé (Tudo é primeiro sonhado):
J’attends.
Tout est repos. Donc futur innervé.
Tu
es image en moi. Tout est d’abord rêvé.
(Espero. Tudo é repouso. Logo, futuro
inervado.
És imagem em mim. Tudo é primeiro
sonhado.)
Em
seguida, comenta: “Assim o devaneio criador anima os nervos do futuro. Ondas
nervosas correm nas linhas de imagens desenhadas pelo devaneio”. E ainda: “O sonhador, em seu devaneio sem limite nem
reserva, se entrega de corpo e alma à imagem que acabou de encantá-lo”.
Desde o instante em que Florisvaldo Mattos
intuiu/experimentou o título “Dia de Costa Azul”, esta imagem se afirmou com
tanta força porque seu devaneio é o que escreveu diante do que viu: o devir-cosmos de Costa Azul na
página em branco, onde os elementos fundamentais da matéria — fogo, água, ar e
terra — transformaram-se no mais puro elemento, a poesia. A um só tempo,
sonhador de palavras — “sonhador diurno” — e pintor tão dissimulado de
palavras, ao escrevê-las, elas tornaram-se
manchas de cor na página/tela de sua imaginação. Ao dizer as quatro palavras do
título, que só aparecem sintaticamente agenciadas uma única vez, pintou-as e as vemos no devir-aquarela do soneto; aquarela que lembra as de
John Marin, não mais as formas dos elementos — fulgurante claridade, areia,
janela, rua, mar, árvore... — no sentido representacional, mas símbolos
expressionistas abstratos dessas coisas; e nessa única vez elas ocultam o que
manifestam e iluminam o que é inacessível: “amor secreto, sem luxúria”.
No entanto, cumpre notar:
esse devir não aponta para uma correspondência entre a linguagem (o dito, o
escrito) e o visível ou invisível (pictórico); o que faz é criar uma zona de indiscernibilidade
das duas sensações, um inter-ser. Daí a experiência estética desse diálogo: a
relação que se abre com a ressonância mútua entre a sintaxe dos versos e a
composição de tons das manchas de uma pintura imaginária. Relação que vai se
metamorfoseando na experiência do que lemos/vemos:
a imagem enquanto imagem, a do título e a de todo o soneto.
A literatura é sempre comparada; uma obra
(no caso, “Dia de Costa Azul”) é, ela mesma autocomparativa, dialoga o tempo
todo com outras obras do mesmo autor e obras de autores diferentes. E ainda:
por não existir fechada em si mesma, a literatura tem sua sequência ou sua
gênese em outras artes e em outros saberes, como o da ciência (criação de
funções), o da filosofia (criação de conceitos) e o da mitologia, já que se
abre a essas possibilidades.[5]
Outro exemplo do diálogo deste soneto com
a pintura é o último verso do primeiro terceto: “Pelo ar que sopra vozes de
criança”. Observe-se, para efeito da rima com “avança”, a flexibilização de uma
categoria gramatical, o número, com o substantivo “criança” no singular. A
força de um dos elementos fundamentais da matéria, o ar, é o que singulariza
este verso, que acende em nós uma lembrança: o quadro O nascimento de Vênus (1585-86), de Botticelli. À esquerda da tela
estão abraçados o deus do vento, Zéfiro,
e uma ninfa (Aura ou Bora), os intercessores de Vênus, a protagonista, deusa da
formosura e do amor. Na dinâmica da
imaginação material dessa pintura, Zéfiro, ao soprar em direção à terra, cria
um dos mais belos momentos mitológicos: rosas caem no instante em que Vênus —
pura e casta, em sua beleza clássica, na luz que lhe destaca as curvas, procura
esconder sua nudez, pois com a mão esquerda tenta cobrir os seios e com a
direita, sobre um feixe dos longos cabelos que se enroscam ao longo do corpo,
resguarda o sexo —, está prestes a sair da concha, o símbolo de seu universo
feminino de prazer e fertilidade, ao pôr o
pé (esquerdo) em terra firme. À direita do quadro, outra deusa, a Primavera, espera-a para cobri-la e protegê-la com um manto florido.
Consideremos agora como e por que a imagem
do todo que é “Dia de Costa Azul” é criadora. Ela não está no presente quando a
lemos/vemos; o que está no presente é
o que ela “representa” (sua narrativa): o encadeamento dos signos que a compõem
— acordar, ouvir, guardar, ver, ler, aguardar. Signos que são seis durações
heterogêneas coexistentes, seis ritmos, em que há um entrelace de tempo. A
coexistência dessas durações na imagem não se confunde absolutamente com o
presente naquilo que a imagem “representa”; pressupõe a criação de espaços, não
os da geometria euclidiana, mas à maneira do cinema moderno, de que são
exemplos os filmes de Orson Welles, de Kurosawa, de Ozu, de Antonioni, de
Bresson, de Resnais, de Kubrick. Isto, porque o espaço não mais dá conta de
suas principais características e se entrelaça com o tempo. Diferentes espaços
criaram esses cineastas: o englobante, em que os planos, ao se conectar, não
mais concernem a uma ordem cronológica, mas do tempo em estado puro,
independente do movimento; o da amplidão imensa; os espaços vazios,
desconectados, em que a continuidade nunca é determinada; espaços
estratigráficos, em que o visual e o sonoro não mais se correspondem; espaços
topológicos.
Poeta que devém pintor e aberto para o
cinema e a música (como, entre outros compositores, a de Villa-Lobos, de
Stravinsky, de Varèse, de Duke Ellington, em “Itabuna, 1950”), Florisvaldo
Mattos cria ritmos que estão muito mais próximos da percepção da luz, da
abertura que faz o espaço — donde o fascínio das cores e das linhas que se
traçam nas cores e com as cores, como na pintura de Matisse[6] — do que das técnicas
estróficas, métricas e rítmicas, que são tantas vezes inflexíveis. Porque a cor
é movimento, desvio, deslocamento, deslizamento, obliquidade, tanto quanto a
linha. Daí, em sua poesia, os ritmos inundados de luz e com uma
particularidade, a de moléculas acústicas — o que nos permite dizer: muitos
poetas possuem voz, mas poucos, como ele, possuem um timbre.
Dois espaços imensos e contrastantes ao
máximo, pela força de seus elementos, são estudados por Deleuze num dos ensaios
de seu último livro, Crítica e clínica:
o deserto, em Os sete pilares da
sabedoria, de T. E. Lawrence, um livro que é muito mais que uma saga
histórica e um relato da guerra dos árabes contra os turcos, e o oceano, em Moby Dick, romance de Herman Melville.
Dois escritores que são dos maiores paisagistas da literatura. “Melville possui
um oceano íntimo desconhecido dos marinheiros, ainda que eles o pressintam: é
nele que nada Moby Dick e é ele que se projeta no oceano lá de fora, mas para
transmutar-lhe a percepção e dele ‘abstrair’ uma Visão. Lawrence possui um
deserto íntimo que o impele para os desertos da Arábia, entre os árabes, e que
coincide em muitos pontos com as percepções e concepções deles, mas conserva a
indomável diferença que as introduz numa Figura secreta inteiramente outra”.
Tanto quanto o oceano para Melville e o
deserto para Lawrence, Costa Azul impregna de dentro as percepções de
Florisvaldo Mattos, a ponto de o dia parecer tão irreal como uma miragem
surgida das profundezas, na qual as coisas se torcem e fazem tremer e cintilar
a visão, a qual é íntima de uma alucinação auditiva, “uma canção que ouço da borda / De uma janela sobre a rua
em cone”. Mas alucinação que, por ser da arte, não recai no estado clínico;
alucinação inventada pelo delírio que é toda a imagem do soneto, cujas
palavras, entre elas, fazem devir, indiscerníveis, visão e audição, cores e
música, a paisagem e seu concerto.
Epifania/acontecimento e amor
fati, uma estética da vida
Em
seu fascínio, podemos agora perguntar, o que é a imagem “Dia de Costa Azul”?
Uma epifania, o instante de uma visão repentina. Um acontecimento como
surgimento do inesperado. Visão que vai do mais intenso azul, onde toda vista
arde, ao transparente puro invisível. O que acontece sem poder deixar de
acontecer.
Numa visão assim,
o amor fati (literalmente, amor ao
destino) é o que “acorda”, em “Dia de Costa Azul”, como “uma canção [...] //
Que guarda amor secreto, sem luxúria”.
Na ampulheta, a “clareza do dia” alude ao
que é “secreto”, misterioso. Em grego, o substantivo mysterion remete ao verbo myein,
“fechar”, equivalente a “guardar”.
Mistério da clareza: neste soneto, as palavras “dia” e “canção” estão no
mais íntimo acordo/acorde dos olhos e ouvidos que se abrem, porque a linguagem
da poesia, para ser imagem e só imagem, só se revela quando se guarda o
silêncio em torno das palavras. Não por outro motivo, linguagem que, a mais
clara, é muitas vezes a mais misteriosa.
Nietzsche,
um dos intercessores desta nota de leitura, em A gaia ciência, seu livro com a
maior diversidade de formas literárias, pois inclui versos, aforismos, breves
diálogos, parábolas, poemas em prosa e pequenos ensaios, no parágrafo 276
esclarece o que não é uma teoria do conhecimento, porque encarna uma
relação afetiva com o destino, que não
significa resignação diante do inelutável; muito pelo contrário, o que com
força afirma é a aceitação alegre e mesmo o fato de sentir a necessidade como uma
forma de beleza: “Quero cada vez mais
aprender a ver na necessidade das coisas o belo [...] Amor fati: este
seja doravante o meu amor!”.
Rilke,
entre 1912 e 1922, escreveu as dez Elegias
de Duíno. Lemos na oitava: “Chama-se a isso destino: estar em face / e nada
mais do que isso, e sempre em face”. De tal modo havia encarnado essa visão, a
de aceitar a vida como ela é — que, em 1904, dissera em carta ao jovem poeta Franz
Kappus: “Tudo,
mesmo o inconcebível, deve em nossa existência ser possível. [...] é esta a única coragem que nos é
exigida: a de sermos corajosos perante o mais estranho, o mais singular, o mais
inexplicável que formos encontrar”. [Grifo nosso].
Exigência inquietante, a desse “Tudo”, que é
obscuro, enigmático. Encontrá-lo, porém — e Blanchot, mais uma vez, nos instiga
a pensar —, é o movimento de “buscá-lo no dia, olhar o dia, tornar-se dia para
si próprio”. Um risco imenso implica essa busca, por ser a poesia, como
qualquer outra arte, a abordagem do que é sem garantia nem certeza. Criar,
tanto quanto viver, nos ilumina porque nos expõe à liberdade do que ainda está
por vir. Na sétima elegia, Rilke experimenta essa liberdade, ao encarar a si
mesmo, com a sensação de que “Estar aqui é maravilhoso”. Sensação semelhante
ilumina-se no último verso da reflexão existencial de Florisvaldo Mattos em
“Dia de Costa Azul”: “Feliz, aguardo a noite clamorosa”.
Salvador,
janeiro/março, 2020
NOTAS
[1] Cf. Ulrich Baer [professor de
literatura comparada alemã e inglesa da Universidade de Nova York], introdução
de The poet’s guide in life: the wisdom of Rilke. NY: The Random
House, 2005. Ed. bras.: RILKE, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. Trad. Milton
Camargo Mota. São Paulo: Martins, 2007, p. 32. Baer, também organizador dessas
cartas, informa que Rilke em 1925 escreveu o epitáfio para sua própria lápide,
em que a palavra “pura” [reiner] na
primeira linha é um homônimo de seu nome: “Rosa, ó pura [reiner] contradição / prazer de ser o sono de ninguém / sob tantas
pálpebras [Lidern]”. Acrescenta que Rilke, em carta de 26/12/1906
a um amigo, declara sua intenção de descrever uma rosa, sua flor predileta, “e,
em seguida, suavemente a desenrola ao longo de duas páginas, pétala por pétala,
palavra por palavra, pálpebra por pálpebra”. Lied (plural: Lieder] é
um poema estrófico escrito para ser cantado e ao mesmo tempo a canção que é
feita desse poema. Schubert e Schumann estão entre os grandes compositores de Lieder. Poeta de língua alemã, Rilke
nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, e morreu, aos 51 anos, em
Montreux, Suíça (1926).
2
Cf. os versos de Emily Dickinson: I’m
Nobody! Who are you? / Are you — Nobody — Too! / Then there’s a pair of us! /
Don’t tell! [...] // How dreary — to be — Somebody! (Eu sou Ninguém! Quem é você? / Você é — Ninguém —
também! / Então somos dois! / Não diga nada [...] // Como é chato — ser —
Alguém!).
3 Fugiria ao propósito do presente texto
considerar os aspectos que envolvem a leitura criativa, cuja experiência está
longe da que se pratica no sistema escolar, da alfabetização à universidade. De
todo modo, recomendamos um livro — Negociando
com os mortos: a escritora escreve sobre seus escritos, de Margaret Atwood.
Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. Atwood, canadense, nascida em
1939, é autora de extensa obra, que inclui ficção (principalmente, romances) e
não ficção. Diz ela nesse livro: “[...] o ato de ler é — sempre — tão singular
quanto o ato de escrever”. Tal singularidade é o que nunca se percebe na
“leitura-engolimento”.
4 Aqui, a câmera subjetiva, na imagem que é o soneto, ao funcionar como se fosse o
olhar do protagonista, o que intensifica a ação dramática, entra em relação com
o título de uma peça de John Van Druten, I
am a camera (1951), encenada na Broadway, adaptação do romance Goodbye to Berlin (1939), de Christopher
Isherwood, sobre a vida na Alemanha durante a ascensão do nazismo. A peça foi
adaptada para um filme de título homônimo, lançado em 1955, direção de Henry Cornelius, mal
recebido pelo público e crítica. Outro filme, um musical de grande sucesso, Cabaret (1972), também baseado na mesma
peça, com direção de Bob Fosse, foi protagonizado por Liza Minnelli, Michael
York, Marisa Berenson e Joel Grey. Com
incrível inovação técnica e poderoso efeito estético, Eisenstein usou a câmera
subjetiva em
O encouraçado Potemkin (1925)
para mostrar o massacre na escadaria de Odessa, a sequência de maior impacto do
filme.
5 Ver, a esse respeito, artigo de nossa
autoria, “O baile de quatro artes num poema de Florisvaldo Mattos”. In: Revista
da Academia de Letras da Bahia, jan. 2019, n. 57, p. 173-190. Trata-se do poema
“Itabuna, 1950 (Bar, Jazz, Bogart)”.
6 Ver, em relação à música, no poema
objeto do artigo referido na nota acima, o diálogo de Florisvaldo Mattos com
esses compositores e com o quadro O
ateliê vermelho e o álbum Jazz
(20 trabalhos em papel pintado com guache vivo e brilhante e recortado) de
Matisse.
O AUTOR
Escritor, com alto e louvado desempenho, como ensaísta, crítico literário
e de artes e editor, Valdomiro Santana
nasceu em Campo Formoso (BA), em 1946, e faleceu em Salvador, em agosto de
2022. Graduado em Psicologia, em 1972, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio
de Janeiro); Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (2008), pela UEFS
(Universidade Estadual de Feira de Santana); editor da Revista de Cultura da
Bahia (1998-2005) e UEFS Editora, desde 2010. Foi coordenador da edição
fac-similar da revista Samba (1999), um dos primeiros periódicos modernistas
baianos, e a edição da Poesia completa de Sosígenes Costa (2001), ambas
publicadas pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia; organizou e prefaciou
antologias de contos e publicou livros, com destaque para Literatura baiana 1920-1980, história, 1986; 2ª edição rev. e
ampliada, 2009; Pastelaria Triunfo,
crônicas, 2005; Experimentação-vida:
a poesia de Antonio Brasileiro, estudo, 2014. Colaborou para várias
publicações brasileiras.
[1] Cf. Ulrich Baer [professor de
literatura comparada alemã e inglesa da Universidade de Nova York], introdução
de The poet’s guide in life: the wisdom of Rilke. NY: The Random
House, 2005. Ed. bras.: RILKE, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. Trad. Milton
Camargo Mota. São Paulo: Martins, 2007, p. 32. Baer, também organizador dessas
cartas, informa que Rilke em 1925 escreveu o epitáfio para sua própria lápide,
em que a palavra “pura” [reiner] na
primeira linha é um homônimo de seu nome: “Rosa, ó pura [reiner] contradição / prazer de ser o sono de ninguém / sob tantas
pálpebras [Lidern]”. Acrescenta que Rilke, em carta de 26/12/1906
a um amigo, declara sua intenção de descrever uma rosa, sua flor predileta, “e,
em seguida, suavemente a desenrola ao longo de duas páginas, pétala por pétala,
palavra por palavra, pálpebra por pálpebra”. Lied (plural: Lieder] é
um poema estrófico escrito para ser cantado e ao mesmo tempo a canção que é
feita desse poema. Schubert e Schumann estão entre os grandes compositores de Lieder. Poeta de língua alemã, Rilke
nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, e morreu, aos 51 anos, em
Montreux, Suíça (1926).
[2]
Cf. os versos de Emily Dickinson: I’m
Nobody! Who are you? / Are you — Nobody — Too! / Then there’s a pair of us! /
Don’t tell! [...] // How dreary — to be — Somebody! (Eu sou Ninguém! Quem é você? / Você é — Ninguém —
também! / Então somos dois! / Não diga nada [...] // Como é chato — ser —
Alguém!)
[3] Fugiria ao propósito do presente texto
considerar os aspectos que envolvem a leitura criativa, cuja experiência está
longe da que se pratica no sistema escolar, da alfabetização à universidade. De
todo modo, recomendamos um livro — Negociando
com os mortos: a escritora escreve sobre seus escritos, de Margaret Atwood.
Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. Atwood, canadense, nascida em
1939, é autora de extensa obra, que inclui ficção (principalmente, romances) e
não ficção. Diz ela nesse livro: “[...] o ato de ler é — sempre — tão singular
quanto o ato de escrever”. Tal singularidade é o que nunca se percebe na
“leitura-engolimento”.
[4] Aqui, a câmera subjetiva, na imagem que é o soneto, ao funcionar como se fosse o
olhar do protagonista, o que intensifica a ação dramática, entra em relação com
o título de uma peça de John Van Druten, I
am a camera (1951), encenada na Broadway, adaptação do romance Goodbye to Berlin (1939), de Christopher
Isherwood, sobre a vida na Alemanha durante a ascensão do nazismo. A peça foi
adaptada para um filme de título homônimo, lançado em 1955, direção de Henry Cornelius, mal
recebido pelo público e crítica. Outro filme, um musical de grande sucesso, Cabaret (1972), também baseado na mesma
peça, com direção de Bob Fosse, foi protagonizado por Liza Minnelli, Michael
York, Marisa Berenson e Joel Grey. Com incrível inovação técnica e poderoso
efeito estético, Eisenstein usou a câmera subjetiva em O encouraçado Potemkin (1925) para
mostrar o massacre na escadaria de Odessa, a sequência de maior impacto do
filme.
[5] Ver, a esse respeito, artigo de nossa
autoria, “O baile de quatro artes num poema de Florisvaldo Mattos”. In: Revista
da Academia de Letras da Bahia, jan. 2019, n. 57, p. 173-190. Trata-se do poema
“Itabuna, 1950 (Bar, Jazz, Bogart)”.
[6] Ver, em relação à música, no poema
objeto do artigo referido na nota acima, o diálogo de Florisvaldo Mattos com
esses compositores e com o quadro O
ateliê vermelho e o álbum Jazz
(20 trabalhos em papel pintado com guache vivo e brilhante e recortado) de
Matisse.
O FASCÍNIO DA IMAGEM
Valdomiro Santana
Le poème, par la parole, fait que ce qui est
infondé devient fondement, que l’abîme du jour devient le jour qui fait surgir
et qui construit.
MAURICE BLANCHOT, La part du feu.
O virtuosismo da composição técnica do soneto
“Dia de Costa Azul”, de Florisvaldo Mattos, importa muito menos nesta nota do
que a gênese rica e sutil de sua composição estética. Para efeito da leitura aqui privilegiada,
estamos diante de uma imagem, não no
sentido que se compreende como o que contém metáforas, comparações, para
colocar a realidade em figura; não, portanto, como linguagem figurada — mas
imagem da linguagem, ou linguagem imaginária. Digamos: uma paisagem visível de palavras. Imagem que é o texto do soneto em foco, escrito na manhã de 22 de janeiro de
2020:
Oh, infinita areia ainda insone,
Na clareza do dia que me acorda,
Trazes-me uma canção que ouço da borda
De uma janela sobre a rua em cone,
Que guarda amor
secreto, sem luxúria.
Ouço o quieto
mar pronunciar meu nome
E numa árvore um
pássaro com fome,
Temendo, como
nós, da morte a injúria.
Em meus sinceros
olhos a luz avança.
Pretérito que
foi, o dia azula,
Pelo ar que
sopra vozes de criança.
Miro o céu que
se torna cor-de-rosa.
Da tarde leio a
fulgurante bula,
Feliz, aguardo a
noite clamorosa.
Soneto inédito, cuja cópia o próprio poeta nos
enviou por e-mail, na manhã do mesmo dia em que o escreveu. Retenhamos esses
dois momentos, o da escrita, que começou naquela manhã cedo, e, logo após, o do
envio, com a manhã já alta, antes do meio-dia.
Leitura, pois, do soneto que tem como uma de suas
referências o impressionante conto “Referent”, de Ray Bradbury, em que tudo se
cria a partir da imagem da palavra,
isto é, de sua enunciação.
Pálpebras/canção. O parceiro invisível
Sob o signo do fascínio dispõe-se a linguagem deste soneto: imagem que se
lê, se diz, se ouve e se vê. Que
fascínio é esse? O da vibração de seu título, “Dia de Costa Azul”, o qual
constitui um só bloco de sensações em seu agenciamento com o texto, onde a
palavra “dia” aparece duas vezes — uma no primeiro quarteto e uma no primeiro
terceto. No título e no texto, o fulgor e o espanto desse fulgor, por causa de
um lugar chamado Costa Azul, nome que só aparece no título. (Mais forte em espanhol do que em português é
a palavra “azul”, em que o z tem som
de ss ou c cedilha e o l não soa
como u.) Se Costa Azul não fosse um
lugar real ou imaginário, as iniciais das duas palavras, um substantivo e um
adjetivo, seriam grafadas com letras minúsculas, o que é elementar: [a] costa
azul, “dia de costa azul”.
Problematizemos o que abre esta nota de leitura.
Se “Dia de Costa Azul” é uma imagem, composta de palavras
substantivas que nos comunicam figuras (areia, olhos, dia, janela, canção, rua,
mar, céu...), ela constitui para nós
um objeto? Tal objeto sugere, indica, esboça essas figuras, mas não as
representa completamente e assim não é totalmente disponível ao que entendemos
por visão? Onde, como e por que o fascínio?
Continuemos a nos perguntar: O dia que se passa
numa costa azul? O dia com espaço e tempo investidos pelo mar no verão, cuja
faixa costeira seria azul, por se tornar plenamente visível com o sol? O azul
de um um dia assim deixaria de aparecer quando o sol se põe, ou longa seria sua
persistência na retina? Azul-claro e azul-escuro, um saindo de dentro do outro?
A preposição “de” designa o “pertencimento” de um dia ao que visivelmente se
impõe, o azul-celeste, uma costa azul, assim como dizemos “dia de chuva”,
quando o céu fica cinzento? Uma costa colorida de azul avassala de tal modo a
manhã e a tarde, que, à noite, o céu é de um azul inclassificável? O azul é a
escuridão tornando-se visível? Há, ou pode haver, uma explosão de azul, o mais
selvagem, o azul mais azul imaginável? O dia em seu curso na orla do mar se
desvanece, como um rosto de areia?
Retenhamos o que, abrindo-se com a força
aliterativa em d, consoante
linguodental sonora, encerra-se com a vogal tônica u, não para apurar a metrificação e a cadência do título, o qual
pode ser lido como um verso e este, por sua máxima condensação, suscita
múltiplos enunciados em que o topônimo Costa Azul é um bairro de Salvador:
“O dia fulgura no Costa Azul”.
“O mar no Costa Azul amanhece quieto”.
“O dia no Costa Azul é álacre, com cantos de
pássaros e vozes infantis, tem ar de festa e folguedo”.
“Uma rua
vista da janela, no Costa Azul, é um campo que se aprofunda”.
“O Costa
Azul tem uma ampulheta”.
“No Costa Azul há um acordo sensual de minha
cabeça com o travesseiro, de meu corpo com a paz e a felicidade da cama”.
“Aparece e desaparece o mundo no Costa Azul, onde
experimento todas as aventuras do visível e de sua percepção”.
Uma só vez, e no último verso do segundo terceto,
lê-se, diz-se, ouve-se, vê-se a
palavra “noite”. O que também importa reter: o pronome subjetivo “nós”, ao fim
do último verso do segundo quarteto, que assinala a inesperada mudança da
pessoa do discurso da primeira, concernente ao pronome objetivo “me” e ao verbo “ouvir” no presente do
indicativo, “ouço”. A “clareza do dia” é
o anúncio, no mesmo instante, de uma canção “que me acorda”.
Aqui, um sutilíssimo jogo semântico não existente
na língua portuguesa: a palavra alemã Lied
pode soar tanto como “canção” quanto como “pálpebra”.[1]
Acorda-se quando as pálpebras se retraem. Mas, como se sabe, o cérebro é mais
exigido pela audição do que pela visão. Para escutar, que é ouvir com atenção,
é preciso pensar; olhar, no sentido de mirar, é uma experiência sensorial que,
como em “Dia de Costa Azul”, pode se abrir para o fascínio em que o ser
desaparece naquilo que o nomeia para se tornar a realidade das palavras.
Por que a mudança da pessoa verbal referida linhas
acima? Porque a subjetividade do poeta (e do leitor) é mutável, emergente,
heterogênea, plural: da primeira pessoa do singular — “me”, “ouço” [“uma
canção”; “o quieto mar”; “vozes de criança”], “meus” [“sinceros olhos”] e o implícito “vejo” [que
“a luz avança”] — à primeira pessoa do plural, “nós”.
Outra mudança: a do retorno do que parece ser a da
primeira pessoa em “miro”, “leio”,
“aguardo”, no segundo terceto; um retorno estranho, não mais da mesma pessoa,
mas como o aparecimento de outra, inapreensível. Aqui se impõe a lembrança de
Rimbaud nas Cartas do vidente (a
Izambart e a Demeny, ambas em maio de 1871): “Je est un Autre...” (Eu é um
Outro...). Que Eu é esse, agramatical, assintático, que não diz “sou”, mas “é”?
O sujeito que desaparece quando aparece o ser da linguagem? Sim. E esse um Outro, indefinido, anônimo,
impensado? O Eu em sua estranheza
radical? Sim. O Eu sem Eu, em que o escritor deve se transformar para se tornar
impessoal pela arte, que é essencialmente impessoal. Na modernidade, o cogito cartesiano esgota-se porque “Eu
penso” não mais conduz à evidência de “Eu sou”. Pela primeira vez, na história
do pensamento moderno, pensar é sair de seu retiro para se dirigir ao impensado
e com ele se articular.
Como diz Bataille: “O Eu não tem a menor
importância. Para o leitor, eu sou um ser qualquer: nome, identidade, histórico
não mudam nada. Ele (o leitor) é um qualquer e eu (autor) também”.[2]
Se o Eu jamais pôde ser sujeito da experiência é “porque não seria capaz
disso”, observa Blanchot, “nem o indivíduo que sou, essa partícula de poeira,
nem o Eu de todos que supostamente representam a consciência absoluta de si”.
Entretanto, leitores desatentos e apressados que
somos — com a pressa de um tempo pobre de pensamento —, ao ler “Dia de Costa
Azul”, agarrados a nosso Eu, simplesmente “engolimos” o soneto para reduzi-lo à
categoria do gosto que o silencia. O gosto, seu juízo, que aprendemos como
leitura literária, e assim o expressamos: “Gostei muito, é lindo!”.
Pronto. Silêncio. Que, estéril, morre nele
próprio. O contrário do silêncio fecundo que “Dia de Costa Azul” nos impõe com
sua fala não falante. Uma obra literária, diz Blanchot,
“para aquele que nela sabe penetrar, é uma rica estação de silêncio, uma alta muralha e uma defesa firme contra essa
imensidade falante que se dirige a nós, desviando-nos de nós”. E George
Steiner: “Ler com atenção é fazer silêncio dentro do silêncio”.
A novidade vazia, velhíssima e sempre reiterada de
nosso “Gostei muito, é lindo!” torna-se, não sinônimo de elogio, expectativa
tão frequente dos autores que preferem “gostadores” a leitores de sua obra, mas
o que é ainda mais pobre e redutor: moeda de troca da “leitura-engolimento”
pelo que logo decai ao nível da banalidade cotidiana. Gostamos então de uma
obra de arte como gostamos de qualquer coisa consumível, e nos orgulhamos de
dizer que temos bom gosto. Na fácil instantaneidade do gosto que fabricamos,
tem este o caráter do que é sólido e inamovível em sua certeza total de apego,
mas também, paradoxalmente, o caráter do que é inconstante porque, em nossa
ligeireza, breve poderemos gostar menos do que agora gostamos, ou não mais
gostar ou mesmo recusar com aversão. Este, o nosso comércio com a literatura:
porque a “engolimos”, dela passamos ao largo.
Se continuamos a ler agarrados ao vazio sem
fundamento da gaiola de ouro de nosso Eu,
nunca poderemos ser o parceiro invisível do escritor. Kafka, em seu Diário, observa com uma surpresa que o
abala, mas também encantado, que se tornou escritor quando pôde substituir o
“Eu” pelo “Ele”, que é uma não pessoa, o “neutro”.
Se somos o leitor que gosta, somos também o
espectador de filmes para quem nossa
percepção natural e a percepção cinematográfica se equivalem. Por isso
anulamos a única consciência do cinema, a câmera, que ora é inumana, ora (se
torna) humana, ora
sobre-humana, cujo olho, ao se
projetar em outro olho, a tela, é o que em sua ontologia já está nas coisas,
faz parte da imagem, é a visibilidade da imagem enquanto automovimento e
enquanto autotemporalidade.
Diante, por exemplo, da pintura de uma
natureza-morta, o que faz nosso Eu cartesiano esgotado, mas ainda
insistentemente solipsista? Contenta-se com o aveludado dos pêssegos e o louva, sem ter, à distância, nessa experiência do
visível pictural, o aveludado da tela. Nesse contentamento e louvor vazios do
“Gostei muito, é lindo!”, escapa-nos que “a arte não reproduz o visível, torna
visível”, como na profunda e delicada lição de Klee.
O devir-leitor
“Dia de Costa Azul” é um soneto impregnado de elementos sensoriais — ar
(forte presença da luz), água, sons... —, motivo pela qual nele se experimenta
a transformação do signo dia em imagem, cujo curso é tão mutante quanto a
subjetividade do poeta e do leitor que poderemos nos tornar.
A luz avança, pura imagem, para que o dia seja
pleno, intenso. Nesse avançar, o olho, ao mirar o céu que de azul vai se tornar
cor-de-rosa, incorpora a mira desse espaço, faz da distância o que é lhe
próprio; e, porque o tempo não tem fim, por ser uma forma imutável, não
definida pela sucessão, e seu sentido é íntimo, o que o soneto cria, em vez de
expressar, é uma sensação de deslizamento. O azul flutua, o dia é uma modulação
— não um molde — do céu, em que o tempo, à tarde, passa da saturação à
rarefação de luz. Ou o que também pode
ser dito: um intensamente berrante azul que muda para um azul-camaleão.
Que dia é esse?
Mais uma vez intervém a força cega de nosso Eu para encontrar num lugar “real”
o que, em tom azul, é uma parte do mar próxima à terra. Como se o dito, o
escrito do poema, fosse uma representação e se alojasse no visível da imagem.
Um “como se” que nos contenta. E o “Gostei muito, é lindo!” mais uma vez se
afirma.
Se, entretanto, nos desapossamos radicalmente do
poder de dizer Eu, para que haja em nós uma transformação da linguagem e nosso
Eu passe ao Ele, que é neutro, impessoal, e emerja o devir-leitor com uma
intimidade — não no sentido de interioridade, por ser um oximoro “a intimidade do
fora” — que fala com a intimidade do poeta, o que poderá acontecer? Um espaço vai se abrir, uma distância
infinita, e, nessa distância, o não encontro com a realidade empírica de um
lugar chamado Costa Azul, mas com sua ausência. Por que isso? Porque as
palavras, ao nomear um ser (no caso, esse
lugar), privam-no da condição de ser.
As palavras
“Dia de Costa Azul”, ao manifestar o que nomeiam, são, ao mesmo tempo, a
materialidade vazia do que não podemos apreender e o inapreensível do qual não
abrimos mão. A literatura é linguagem, mas uma linguagem que se problematiza e
se converte em impossibilidade. Linguagem que, sem lugar, só aponta para o
silêncio e se faz impasse. Contradição fundamental: a literatura se faz com
palavras, as quais, no entanto, se transformam, se reviram, se escavam, se
espelham, indefinidamente. Para quê? Para ser silêncio. Seu espaço, o do
imaginário, é sua paixão. Não a paixão pela
leitura, “Eu gosto muito de ler”, mas a paixão da leitura, que tem o poder de se consagrar a si mesma,
permanecendo enigmática, sem identidade.
Ao se mover no silêncio, “Dia de Costa Azul” é um poema que vai além de
seus limites para realizar o irrealizável, vir sempre a se refazer em várias
leituras, cada uma das quais é nova, já que seu espaço tende a se abrir cada
vez mais, disseminar-se.
Se nos transformamos em parceiro invisível do
poeta, que está longe, bem longe, na obscuridade de seu escritório, não da
pessoa que identificamos com o nome de Florisvaldo Mattos, o que temos? Não,
como na linguagem corrente, quando dizemos “mar” sem vê-lo (com muito mais
frequência quando não o vemos), e de pronto “dispomos” da beleza do mar e de
sua aprazibilidade, mas os possíveis criados pela linguagem poética, no espaço
da imaginação, que é infinito em sua pluralidade. Linguagem do Aberto, na
reflexão de Rilke, a metamorfose do visível em invisível. Linguagem da
ausência, a do invisível, para suportar, salvar o visível.
De novo Blanchot: há em Rilke “uma teoria cantante
do ato poético”, na medida em que “o poema é a profundidade aberta sobre a
experiência que a torna possível, o estranho movimento que vai da obra para a
origem da obra, ela mesma transformada em busca inquieta e infinita de sua
fonte”.
Espaço imaginário: a intimidade do coração.
O pincel. Linhas de fuga. Mapa.
Ambiguidade
O que a experimentação do devir da leitura deste e de outros poemas de Florisvaldo Mattos deixa entrever, em sua poética — no sentido grego estrito de poiesis, um substantivo que se forma do verbo poiein, “fazer”, “criar” —, é a metamorfose da caneta ou do teclado do computador em pincel. Ele devém pintor, mais dissimulado que invisível, por causa de seu modo peculiar de ver e a partir do título de seu primeiro livro de poemas: Reverdor (1965). Poderoso, por causa do fascínio de sua imagem enquanto imagem, esse título. Em “Dia de Costa Azul”, como em tantos outros poemas de sua autoria, o que se faz perceptível são os modos como o signo luz se apresenta e se transforma; o fulgor, neste soneto, são esses modos, cores, causas colorantes. Isso porque, como as estudou Goethe em seu tratado, as cores entram em relações de complementaridade e de contraste: cada uma, no limite, reconstitui o todo e todas se reúnem no branco, o modo infinito, segundo uma ordem de composição, ou dele saem na ordem de decomposição. Daí o fulgor que perdura no espaço imaginário deste soneto, com um azul tão intenso, que arde, porque quando a luz torna um corpo transparente a opacidade se revela. A reflexão de
Merleau-Ponty, em O visível
e o invisível, dialoga com a análise que faz Goethe em seu tratado: uma cor
nua, dura, indivisível, não é o que se oferece a uma visão que quer ser total e termina sendo nula, “mas antes uma espécie de estreito entre
horizontes exteriores e interiores sempre
abertos, algo que vem tocar docemente, fazendo ressoar, à distância,
diversas regiões do mundo colorido ou visível, certa diferenciação, uma
modulação efêmera desse mundo, sendo, portanto, menos cor ou coisa do que
diferença entre as coisas e as cores, cristalização momentânea do ser colorido
ou da visibilidade. Entre as cores e os
pretensos visíveis, encontra-se o
tecido que as duplica, sustenta, alimenta, e que não é coisa, mas
possibilidade, latência e carne das coisas”. [Grifos nossos.]
Entre: o que é interessante no pensamento criativo em qualquer
domínio não é uma correlação localizável, o que vai de um começo para uma
conclusão e reciprocamente, mas o que está no meio e aí, perpendicular,
transversal, irrompe. Linhas — não pontos — que se bifurcam, se
desterritorializam, fogem, e se reterritorializam para de novo fugir. Como as
de um mapa, que, na filosofia de Deleuze e Guattari (cf. vol. 1 de Mil platôs), é o oposto do decalque ou
reprodução: “O mapa é aberto, conectável em todas as suas dimensões,
desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente.
Pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser
preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo
numa parede ou como obra de arte”.
Esse conceito de mapa
faz ressoar a lembrança, e nela meditar, do que foi a inquietação artística de
um grupo, a Geração Mapa, na segunda metade dos anos 1950, em Salvador, que
teve como participantes Glauber Rocha, o mais conhecido - no Brasil e fora,
como cineasta, cuja obra é hoje patrimônio do mundo —, Florisvaldo Mattos, João
Carlos Teixeira Gomes e Fernando da Rocha Peres, entre outros. Mapa: o título da revista de vida breve,
mas intensa, que criaram e dirigiram.
Mapa como as linhas da mão, as mais belas, ou
as traçadas pela água que sai de um cano furado esguichando para todas as
direções; como a grama que brota, não para ir daqui até ali, mas entre as
pedras do calçamento.
Mapa: leitura acima dos
enunciados que se abrem suscitados pela simultaneidade sucessiva do título do
soneto e seu texto. Uma imagem só, como a da dobradiça e da porta, a da tampa e
da garrafa.
Atentemos agora para o segundo verso do primeiro terceto: “Pretérito
que foi, o dia azula [...]”
“Azul”. O campo lexical e semântico dessa palavra
inclui numerosos brasileirismos e acepções populares. Como verbo transitivo,
“azular” designa “tingir de azul a”, “anilar”; como verbo pronominal,
“tornar-se azul”. “Azulado”. Palavra que tanto pode ser substantivo, quando
precedido de artigo, quanto adjetivo, ao significar “o que tem cor levemente
azul”. Entretanto, eis as acepções desconcertantes do verbo “azular”, em sua
intransitividade, no Nordeste do Brasil: “fugir”, “sumir”, “escapulir”.
Nos dois segmentos de “Pretérito que foi, o dia
azula [...]”, verso rico e sutil em sua ambiguidade, duas temporalidades
coexistem numa só imagem: a de agora,
a do dia evanescente, e a de outrora,
a do dia no esplendor do céu sem nuvens com o sol que foi ficando alto... Note-se a força da palavra “pretérito”, aqui um
adjetivo, que deflagra o verso e traz embutido um tempo verbal perfeito — “foi”
—, ao designar um curso que já se consumou. O que se lê/vê aqui não é um sujeito de enunciação individual, sujeito falante,
pois este no cristal do tempo desaparece para que apareça o ser da linguagem,
que é anônimo, enigmático e sempre exterior, tanto quanto o pensamento, como
nas Cartas do vidente.
Cristal do tempo: a vidência criada neste verso
sensacional não tem nenhum sentido premonitório, é muito mais do que simples
percepção, porque a essência do tempo nos escapa, sua significação é
ontológica. Tempo que é aqui puro, transparente, e se manifesta na metamorfose
do dia.
“Azul”, “azular”.
O que nos faz pensar a sutil modulação que o poeta percebe no céu é
também o modo pelo qual cria seu estilo, a sintaxe com a qual trabalha. Isso,
porque é improvável que se forme uma palavra pela junção casual de letras
separadas, mas é muito mais provável formá-la, ainda que casualmente, com
sílabas ou flexões.
“Costa
Azul” é, pois, muito mais, em sua ontologia, uma imagem do que signo verbal,
ainda que este se imponha como realidade gráfica no título do soneto, com a
locução “Dia de”, que é antecedente e tem valor adjetivo. Do alto, essa imagem
projeta luz para que a visão e a leitura se enlacem e se fendam.
Pouco
importa que o leitor não saiba que
Costa Azul é um bairro de Salvador, próximo à orla marítima da cidade. Se essa particularidade da geografia urbana de
Salvador é irrelevante para um leitor que a desconheça, não lhe escapa, no
entanto, uma associação imediata: com o mesmo nome — em francês, Côte d’Azur — da região também conhecida
internacionalmente como Riviera Francesa, no mar Mediterrâneo, com cerca de 180
km, uma das mais belas, caras e sofisticadas faixas litorâneas do mundo, desde
fins do século XIX.
É ingênua não apenas
a imitação do nome, em que transparece o desejo de status elevado — que, na
origem da configuração desse bairro, remete a uma entidade recreativa, o Clube
Costa Azul, de curta duração, cujo espaço rapidamente arruinado veio a se
transformar, depois de muito tempo, no atual Parque Costa Azul —, mas também
porque a cor do mar do Nordeste é um espelho esverdeado, e não, como a do Mediterrâneo, azul. Quem o diz, e com
grandiloquência, ao descrever o litoral cearense, é José de Alencar no primeiro
capítulo de Iracema, romance
publicado em 1865: “Verdes mares bravios de minha terra
natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais
como líquida esmeralda aos raios do sol
nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros”.
Mas tampouco importa essa distinção. O nome Costa Azul, por
sua imagem enquanto imagem, e pelo que mostra e esconde, é o que se impõe à visão
e leitura do soneto. Nome que, em sua potência sonora, extravasa o vivido ou
vivível da expressão de um determinado locus
e o que o compreende e sugere.
Já que neste soneto há a disposição ou
jogo dos signos dia (três vezes) e noite (uma só vez), não custa lembrar que as
vogais são fonemas sonoros que se produzem pelo livre escapamento do ar pela
boca e se distinguem entre si por seu timbre característico; as consoantes são
fonemas resultantes de um fechamento momentâneo ou de um estreitamento do canal
bucal, que, em qualquer de seus pontos, impede a saída da corrente de ar —
sonorizada ou não pela vibração das cordas vocais. “Dia” é um hiato, o efeito acústico
especial em que à sílaba terminada pela vogal-base i (tônica) segue a
iniciada por outra vogal-base, a. “Noite”, um ditongo decrescente, porque à
vogal fechada o (forte) se junta a
semivogal i (enfraquecida).
A lacuna iluminante da poesia
Em sua
experiência poética, Mallarmé primeiro lamenta que as palavras não sejam
“materialmente a verdade”, que jour (dia),
por seu timbre, seja sombrio, e nuit
(noite), brilhante. Encontra, porém, nesse “defeito das línguas” o que
justifica a poesia; o verso é delas o “complemento superior”, “filosoficamente”
o que recompensa esse defeito, porque as línguas não têm a realidade que
exprimem, sendo por isso estranhas à realidade das coisas, à sua obscura
profundidade natural.
Se
as palavras são menos numerosas do que as coisas que nomeiam, não resultaria
dessa pobreza o sentido que falta ao ser? Surpreendentemente, essa pobreza é a
riqueza das línguas, pois não é o sentido que falta: os signos só significam
devido a essa falta. Signos, portanto, que aparecem na linguagem como
indicações ontológicas.
Na
lacuna iluminante da poesia, a fala que se lê, se diz, se ouve e se vê em “Dia de Costa Azul” é a fala de
um Eu sem Eu, a de um Outro, fala destituída completamente do sujeito que
apareceu no instante da escrita para logo desaparecer na espessura do que disse
e na cintilação do que viu, na
fascinação desse instante, o espaço da transparência; não a fala de um “eu
lírico” ou “eu profundo”, porque nela a linguagem se dispõe sob um fascínio, em
que a coisa, um lugar nomeado, uma única vez no soneto, Costa Azul, se torna
imagem, mas imagem que, alusiva à figura desse lugar, converte-se em alusão ao
que é sem figura: ausência.
Quando
acontece o que é fascinante, o aparecimento da ausência, “Dia de Costa Azul” se
converte em intimidade aberta do poeta que o escreveu e de nós que o lemos.
O pintor do silêncio
O filósofo lendo (1734) é o título do quadro de um pintor
barroco tardio,
Jean-Baptiste-Siméon
Chardin. Sem que aqui o
analisemos em seus tantos pormenores, o que seria longo, como esse quadro entra
em relação com o soneto em foco? Entra mediante sua atmosfera, inspirada em Rembrandt, em que o silêncio é tão
explícito por sua textura. A serenidade e a luz que emanam da tela são próprias
de uma cerimônia particular e num ambiente particular em que há vários objetos,
os quais estão em estrita e tão visível relação com a roupa do leitor e seu
chapéu.
Diálogo do soneto e do quadro. Neste, uma
ampulheta, ou relógio de areia, e uma pena num tinteiro aparecem junto ao
cotovelo direito do leitor. Pena para sublinhar o texto, escrever em suas
margens, dialogar com o livro, marcá-lo. Em seu ensaio “O leitor incomum”, o
primeiro de Nenhuma paixão desperdiçada,
diz George Steiner que “ler bem é ser lido pelo que se lê. [...] O ato da
verdadeira leitura é, essencialmente, um ato de reciprocidade literária, de
resposta à vida do texto”. Não por outro motivo, a relação entre o leitor
verdadeiro e o livro é criativa. Steiner cita Péguy, para quem todo ato genuíno
de leitura, toda lecture bien faite,
é um coadjuvante do texto; mas com a advertência de que essa colaboração íntima
é “um desígnio maravilhoso quase assustador”, porque implica “uma elevada, uma
suprema, singular e desconcertante responsabilidade”.[3]
A ampulheta, na visibilidade da atmosfera
criada por Chardin, concerne à relação do tempo com o livro, ao ato silencioso
da leitura, que o torna livro; no soneto, não nomeada, e portanto oculta, não
é, porém, invisível, porque vibra com um signo e este se ilumina logo nos dois
versos de abertura: “Oh, infinita areia
ainda insone, / Na clareza do dia que me acorda [...]” [Grifo nosso]. O
tempo, uma convenção, é medido pela ampulheta por sua areia: representa-se classicamente com dois
recipientes cônicos de vidro que
se comunicam entre si através de um vértice num plano vertical; por esse
vértice uma quantidade de areia escoa de um recipiente para o outro. O primeiro
quarteto é um enjambement que vai até
o primeiro verso do segundo quarteto:
Oh, infinita areia ainda insone,
Na clareza do dia que me acorda,
Trazes-me uma canção que ouço da
borda
De uma janela sobre a rua em cone,
Que guarda amor secreto, sem
luxúria.
Por que transborda o primeiro para o segundo
quarteto, com a cadeia desse triplo “que” como pronome relativo? Porque os
signos se entrelaçam: areia, dia, tu (pronome subjetivo oculto), canção, amor; enjambement, portanto, em sua dupla
função, estrutural e significativa. O primeiro deles, areia, que faz vibrar os
outros, por ser indiferente como coisa empírica à temporalidade humana do peso
das pálpebras e de todo o corpo, é, nesse instante, na ampulheta de um dia, a sensação
de acordar. Numa ampulheta, conta-se o tempo que é sempre o mesmo, a partir da
totalidade de areia que escoa de um recipiente para outro. Se há uma relação
entre o alto e o baixo é porque se faz necessária uma pressão para que o fluxo
ocorra. E outra relação é clara na ampulheta: entre o pescoço, alto e estreito, e os dois compartimentos, de
base larga, que abrigam a areia. Na vivência temporal, o fluxo ao cessar marca
o fim da decorrência de um ciclo. As ampulhetas variam: há as que medem
segundos e minutos, outras mensuram horas; outras, ciclos de 12 horas, e
outras, de 24 horas, como a deste soneto, oculta mas não invisível.
No instante em que termina um ciclo de 24 horas e
outro igual vai começar a decorrer, a temporalidade não mais se esconde no
corpo, mas espacializa-se, dirige-se para o mundo que assim se anuncia: como
“uma canção que ouço da borda / De uma janela sobre a rua em cone, // Que
guarda amor secreto, sem luxúria”.
De tal modo se espacializa o mundo que a rua,
também não nomeada, vai se confundir com a ampulheta oculta, mas não
invisível; rua mostrada em sua máxima
visibilidade porque vista “em cone”:
o primeiro plano e o fundo são vistos nitidamente.
Daí outro jogo muito sutil: o da
passagem do espaço pictórico (o quadro
de Chardin) ao espaço cinematográfico, porque a sensação do que vemos é produzida por uma (imaginária)
câmera subjetiva, isto é, situada na mesma altura do olho do narrador e
protagonista do soneto, “da borda / De uma janela”.[4]
Dessa posição, vemos
o que tecnicamente no cinema é mostrado em profundidade de campo. Logo,
outro diálogo: do soneto e do cinema. A rua em “Dia de Costa Azul” é vista, mais do que lida, geometrizada,
tem a configuração de um cone: o raio da base (sua circunferência, a beira de
uma janela), a altura e a geratriz (o segmento externo), com a extremidade num
vértice comum, formam um triângulo retângulo deitado.
Só no cinema é possível essa percepção. Um dos
exemplos mais impressionantes da imagem em profundidade de campo é o que se vê
em 2001: uma odisseia no espaço
(1968), de Stanley Kubrick. Um dos astronautas da nave que viaja para Júpiter,
o maior planeta de nosso sistema solar, entra no núcleo de memória do supercomputador
HAL 9000 para desligá-lo.
O pintor do invisível
Dizia Cézanne que um pintor capta um fragmento da natureza e o torna
absolutamente pintura; Braque, de maneira ainda mais clara, dizia que a pintura
não procura reconstituir um fato não documentado, mas constituir um fato
pictural. Em sua imagem enquanto imagem, “Dia de Costa Azul” suscita outro
diálogo e de novo com a pintura. Se Chardin pintou o silêncio, cuja espessura
impregna a tela em que os olhos do leitor estão voltados, com lúcida
serenidade, para o livro, e tudo que compõe a imagem é coadjuvante do ato de
ler, Manet pintou o invisível em vários de seus quadros; não só tornou possível
o impressionismo, mas toda a pintura do século XX. Dois deles, Olympia e Almoço na relva, pintados em 1863, foram objeto de escândalo moral;
dois outros, porém, são os que aqui particularmente nos interessam: A
ferrovia (1872-73) e O bar no
Folies-Bergère (1881-82).
Uma mulher olha diretamente para o que não se vê no
quadro. Sentada numa mureta da Gare Saint-Lazare, em Paris, ela segura um livro
aberto e tem no colo um filhote de cachorro dormindo. À sua esquerda, uma
menina em pé e de costas olha o que também não se vê. Há um cacho de uvas na
mureta, bem próximo à vertical direita.
Uma grade preta ocupa quase toda a altura da composição. A menina segura
com a mão esquerda um dos ferros da grade e o que fixa, um trem ao partir ou
chegar, não é definido na plataforma, já que só aparecem uma nuvem de fumaça e
vapor d’água.
Uma garçonete em pé, vestida com requinte, mãos
apoiadas na borda interna de um balcão de mármore, olha para o que perturba
completamente a visão do observador, pois este não vê o que ela vê: diante
dela, um cliente, mas do qual se percebe apenas o reflexo no espelho do bar.
Todo o fundo do quadro é ocupado por esse espelho de base metálica. Em cima do
balcão há garrafas de champanhe e de cerveja, uma cesta de vidro cheia de
tangerinas e um copo com flores. Entre a garçonete e o grande espelho que cobre
o fundo há uma mesa em cujo tampo também de mármore há outras garrafas de
bebida.
Por que esses dois quadros são desconcertantes? Porque
Manet rompe com a representação ilusionista da pintura. Ora, pintar o invisível
é problematizar a natureza da pintura e a própria natureza da tela. Se desde o Quattrocento o que prevalecia na arte
ocidental era a ilusória representação de três dimensões que repousavam num
espaço bidimensional, já que se fixava um certo lugar ideal a partir do
qual, e somente a partir do qual, podia-se e devia-se ver o quadro, o que fez
Manet foi subverter essa tradição clássica. Não que ele tenha criado a pintura
antirrepresentacional, mas a pintura-objeto, como Foucault bem soube vê-la e
analisá-la. Essa ruptura é o que torna possível a arte moderna, inclusive a
pintura abstrata de Kandinsky, Malevich e Mondrian.
Pela primeira vez, a pintura mostra o
invisível. N’A ferrovia, a negação do visível é dupla: a do olhar da mulher e
da menina e onde a profundidade está totalmente encoberta. N’O bar
de Folies-Bergère, a profundidade é duplamente negada: não somente não se
vê o que há atrás da garçonete, porque ela está na frente do espelho; e, o que
é perturbador ao máximo, o que se vê atrás da garçonete é o que está à frente
dela. A consequência do impacto dessa ruptura foi o deslocamento do espectador,
a sensação de liberdade que não mais lhe determina um lugar ideal, fixo e acima
de tudo frontal. Daí o que é inteiramente novo: nesse deslocamento, aparece
pela primeira vez toda a fascinante materialidade do quadro, o que permite
vê-lo, não mais como representação — a qual chega a ser pura, a representação
da representação, como em As meninas,
de Velásquez, pintado em 1656 —, mas como objeto.
Devaneio. Vento e rosas
que caem.
Durações coexistentes. O
deserto e o oceano
Se
a imagem do todo que é “Dia de Costa Azul”
suscita, em sua simultaneidade sucessiva, por sua força e delicada
complexidade, três diálogos da poesia com outras artes — primeiro com a
pintura, depois com o cinema e mais uma vez com a pintura —, não é porque “é
preciso estar presente à imagem no minuto da imagem”? Sim. Essa reflexão de
Bachelard em La poétique de l’espace,
ele que foi um filósofo das ciências da natureza e um filósofo da imaginação
poética, é uma das leituras possíveis deste soneto.
Sonhador de palavras, Florisvaldo Mattos
devaneia, à maneira de Bachelard, num lugar chamado Costa Azul; e em seu
devaneio, que é cósmico, uma palavra, “bula”, transborda os significados
correntes para dizer/ver o universo,
à luz da poesia: o espaço, desmedido, funde-se com o tempo, que não é mais o do
calendário e do relógio; fusão só possível porque o instante, em sua ardência,
em sua fulguração, transmuda o decorrer de um dia em intemporalidade.
No soneto não aparece a palavra “sonho”,
que, em sua referência habitual noturna, é “o guardião do sono”, segundo Freud.
Para Bachelard, entretanto, o sonho que vale é o sonho cósmico, o sonho
acordado. “O sonho da noite não nos pertence. As noites [...] não têm história”. Lembra-nos, por isso, o
acordo/acorde em francês de rêve
(sonho), palavra masculina, e rêverie (devaneio),
palavra feminina; em La poétique de la
rêverie, pergunta: “Que outra liberdade psicológica possuímos, além da
liberdade de sonhar?”. E responde: “Psicologicamente falando, é no devaneio que
somos livres”. Sublinha então a experiência em que, pelo devaneio, descobrimos
numa palavra o ato que nomeia; entre muitos poetas que cita, um deles, Léo
Libbrecht, escreveu este verso extraordinário:
Les mots rêvent qu’on les nomme.
(As
palavras sonham que as nomeemos.)
E
outro, Gilbert Trolliet, num poema intitulado Tout est d’abord rêvé (Tudo é primeiro sonhado):
J’attends.
Tout est repos. Donc futur innervé.
Tu
es image en moi. Tout est d’abord rêvé.
(Espero. Tudo é repouso. Logo, futuro
inervado.
És imagem em mim. Tudo é primeiro
sonhado.)
Em
seguida, comenta: “Assim o devaneio criador anima os nervos do futuro. Ondas
nervosas correm nas linhas de imagens desenhadas pelo devaneio”. E ainda: “O sonhador, em seu devaneio sem limite nem
reserva, se entrega de corpo e alma à imagem que acabou de encantá-lo”.
Desde o instante em que Florisvaldo Mattos
intuiu/experimentou o título “Dia de Costa Azul”, esta imagem se afirmou com
tanta força porque seu devaneio é o que escreveu diante do que viu: o devir-cosmos de Costa Azul na
página em branco, onde os elementos fundamentais da matéria — fogo, água, ar e
terra — transformaram-se no mais puro elemento, a poesia. A um só tempo,
sonhador de palavras — “sonhador diurno” — e pintor tão dissimulado de
palavras, ao escrevê-las, elas tornaram-se
manchas de cor na página/tela de sua imaginação. Ao dizer as quatro palavras do
título, que só aparecem sintaticamente agenciadas uma única vez, pintou-as e as vemos no devir-aquarela do soneto; aquarela que lembra as de
John Marin, não mais as formas dos elementos — fulgurante claridade, areia,
janela, rua, mar, árvore... — no sentido representacional, mas símbolos
expressionistas abstratos dessas coisas; e nessa única vez elas ocultam o que
manifestam e iluminam o que é inacessível: “amor secreto, sem luxúria”.
No entanto, cumpre notar:
esse devir não aponta para uma correspondência entre a linguagem (o dito, o
escrito) e o visível ou invisível (pictórico); o que faz é criar uma zona de indiscernibilidade
das duas sensações, um inter-ser. Daí a experiência estética desse diálogo: a
relação que se abre com a ressonância mútua entre a sintaxe dos versos e a
composição de tons das manchas de uma pintura imaginária. Relação que vai se
metamorfoseando na experiência do que lemos/vemos:
a imagem enquanto imagem, a do título e a de todo o soneto.
A literatura é sempre comparada; uma obra
(no caso, “Dia de Costa Azul”) é, ela mesma autocomparativa, dialoga o tempo
todo com outras obras do mesmo autor e obras de autores diferentes. E ainda:
por não existir fechada em si mesma, a literatura tem sua sequência ou sua
gênese em outras artes e em outros saberes, como o da ciência (criação de
funções), o da filosofia (criação de conceitos) e o da mitologia, já que se
abre a essas possibilidades.[5]
Outro exemplo do diálogo deste soneto com
a pintura é o último verso do primeiro terceto: “Pelo ar que sopra vozes de
criança”. Observe-se, para efeito da rima com “avança”, a flexibilização de uma
categoria gramatical, o número, com o substantivo “criança” no singular. A
força de um dos elementos fundamentais da matéria, o ar, é o que singulariza
este verso, que acende em nós uma lembrança: o quadro O nascimento de Vênus (1585-86), de Botticelli. À esquerda da tela
estão abraçados o deus do vento, Zéfiro,
e uma ninfa (Aura ou Bora), os intercessores de Vênus, a protagonista, deusa da
formosura e do amor. Na dinâmica da
imaginação material dessa pintura, Zéfiro, ao soprar em direção à terra, cria
um dos mais belos momentos mitológicos: rosas caem no instante em que Vênus —
pura e casta, em sua beleza clássica, na luz que lhe destaca as curvas, procura
esconder sua nudez, pois com a mão esquerda tenta cobrir os seios e com a
direita, sobre um feixe dos longos cabelos que se enroscam ao longo do corpo,
resguarda o sexo —, está prestes a sair da concha, o símbolo de seu universo
feminino de prazer e fertilidade, ao pôr o
pé (esquerdo) em terra firme. À direita do quadro, outra deusa, a Primavera, espera-a para cobri-la e protegê-la com um manto florido.
Consideremos agora como e por que a imagem
do todo que é “Dia de Costa Azul” é criadora. Ela não está no presente quando a
lemos/vemos; o que está no presente é
o que ela “representa” (sua narrativa): o encadeamento dos signos que a compõem
— acordar, ouvir, guardar, ver, ler, aguardar. Signos que são seis durações
heterogêneas coexistentes, seis ritmos, em que há um entrelace de tempo. A
coexistência dessas durações na imagem não se confunde absolutamente com o
presente naquilo que a imagem “representa”; pressupõe a criação de espaços, não
os da geometria euclidiana, mas à maneira do cinema moderno, de que são
exemplos os filmes de Orson Welles, de Kurosawa, de Ozu, de Antonioni, de
Bresson, de Resnais, de Kubrick. Isto, porque o espaço não mais dá conta de
suas principais características e se entrelaça com o tempo. Diferentes espaços
criaram esses cineastas: o englobante, em que os planos, ao se conectar, não
mais concernem a uma ordem cronológica, mas do tempo em estado puro,
independente do movimento; o da amplidão imensa; os espaços vazios,
desconectados, em que a continuidade nunca é determinada; espaços
estratigráficos, em que o visual e o sonoro não mais se correspondem; espaços
topológicos.
Poeta que devém pintor e aberto para o
cinema e a música (como, entre outros compositores, a de Villa-Lobos, de
Stravinsky, de Varèse, de Duke Ellington, em “Itabuna, 1950”), Florisvaldo
Mattos cria ritmos que estão muito mais próximos da percepção da luz, da
abertura que faz o espaço — donde o fascínio das cores e das linhas que se
traçam nas cores e com as cores, como na pintura de Matisse[6] — do que das técnicas
estróficas, métricas e rítmicas, que são tantas vezes inflexíveis. Porque a cor
é movimento, desvio, deslocamento, deslizamento, obliquidade, tanto quanto a
linha. Daí, em sua poesia, os ritmos inundados de luz e com uma
particularidade, a de moléculas acústicas — o que nos permite dizer: muitos
poetas possuem voz, mas poucos, como ele, possuem um timbre.
Dois espaços imensos e contrastantes ao
máximo, pela força de seus elementos, são estudados por Deleuze num dos ensaios
de seu último livro, Crítica e clínica:
o deserto, em Os sete pilares da
sabedoria, de T. E. Lawrence, um livro que é muito mais que uma saga
histórica e um relato da guerra dos árabes contra os turcos, e o oceano, em Moby Dick, romance de Herman Melville.
Dois escritores que são dos maiores paisagistas da literatura. “Melville possui
um oceano íntimo desconhecido dos marinheiros, ainda que eles o pressintam: é
nele que nada Moby Dick e é ele que se projeta no oceano lá de fora, mas para
transmutar-lhe a percepção e dele ‘abstrair’ uma Visão. Lawrence possui um
deserto íntimo que o impele para os desertos da Arábia, entre os árabes, e que
coincide em muitos pontos com as percepções e concepções deles, mas conserva a
indomável diferença que as introduz numa Figura secreta inteiramente outra”.
Tanto quanto o oceano para Melville e o
deserto para Lawrence, Costa Azul impregna de dentro as percepções de
Florisvaldo Mattos, a ponto de o dia parecer tão irreal como uma miragem
surgida das profundezas, na qual as coisas se torcem e fazem tremer e cintilar
a visão, a qual é íntima de uma alucinação auditiva, “uma canção que ouço da borda / De uma janela sobre a rua
em cone”. Mas alucinação que, por ser da arte, não recai no estado clínico;
alucinação inventada pelo delírio que é toda a imagem do soneto, cujas
palavras, entre elas, fazem devir, indiscerníveis, visão e audição, cores e
música, a paisagem e seu concerto.
Epifania/acontecimento e amor
fati, uma estética da vida
Em
seu fascínio, podemos agora perguntar, o que é a imagem “Dia de Costa Azul”?
Uma epifania, o instante de uma visão repentina. Um acontecimento como
surgimento do inesperado. Visão que vai do mais intenso azul, onde toda vista
arde, ao transparente puro invisível. O que acontece sem poder deixar de
acontecer.
Numa visão assim,
o amor fati (literalmente, amor ao
destino) é o que “acorda”, em “Dia de Costa Azul”, como “uma canção [...] //
Que guarda amor secreto, sem luxúria”.
Na ampulheta, a “clareza do dia” alude ao
que é “secreto”, misterioso. Em grego, o substantivo mysterion remete ao verbo myein,
“fechar”, equivalente a “guardar”.
Mistério da clareza: neste soneto, as palavras “dia” e “canção” estão no
mais íntimo acordo/acorde dos olhos e ouvidos que se abrem, porque a linguagem
da poesia, para ser imagem e só imagem, só se revela quando se guarda o
silêncio em torno das palavras. Não por outro motivo, linguagem que, a mais
clara, é muitas vezes a mais misteriosa.
Nietzsche,
um dos intercessores desta nota de leitura, em A gaia ciência, seu livro com a
maior diversidade de formas literárias, pois inclui versos, aforismos, breves
diálogos, parábolas, poemas em prosa e pequenos ensaios, no parágrafo 276
esclarece o que não é uma teoria do conhecimento, porque encarna uma
relação afetiva com o destino, que não
significa resignação diante do inelutável; muito pelo contrário, o que com
força afirma é a aceitação alegre e mesmo o fato de sentir a necessidade como uma
forma de beleza: “Quero cada vez mais
aprender a ver na necessidade das coisas o belo [...] Amor fati: este
seja doravante o meu amor!”.
Rilke,
entre 1912 e 1922, escreveu as dez Elegias
de Duíno. Lemos na oitava: “Chama-se a isso destino: estar em face / e nada
mais do que isso, e sempre em face”. De tal modo havia encarnado essa visão, a
de aceitar a vida como ela é — que, em 1904, dissera em carta ao jovem poeta Franz
Kappus: “Tudo,
mesmo o inconcebível, deve em nossa existência ser possível. [...] é esta a única coragem que nos é
exigida: a de sermos corajosos perante o mais estranho, o mais singular, o mais
inexplicável que formos encontrar”. [Grifo nosso].
Exigência inquietante, a desse “Tudo”, que é
obscuro, enigmático. Encontrá-lo, porém — e Blanchot, mais uma vez, nos instiga
a pensar —, é o movimento de “buscá-lo no dia, olhar o dia, tornar-se dia para
si próprio”. Um risco imenso implica essa busca, por ser a poesia, como
qualquer outra arte, a abordagem do que é sem garantia nem certeza. Criar,
tanto quanto viver, nos ilumina porque nos expõe à liberdade do que ainda está
por vir. Na sétima elegia, Rilke experimenta essa liberdade, ao encarar a si
mesmo, com a sensação de que “Estar aqui é maravilhoso”. Sensação semelhante
ilumina-se no último verso da reflexão existencial de Florisvaldo Mattos em
“Dia de Costa Azul”: “Feliz, aguardo a noite clamorosa”.
Salvador,
janeiro/março, 2020
NOTAS
[1] Cf. Ulrich Baer [professor de
literatura comparada alemã e inglesa da Universidade de Nova York], introdução
de The poet’s guide in life: the wisdom of Rilke. NY: The Random
House, 2005. Ed. bras.: RILKE, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. Trad. Milton
Camargo Mota. São Paulo: Martins, 2007, p. 32. Baer, também organizador dessas
cartas, informa que Rilke em 1925 escreveu o epitáfio para sua própria lápide,
em que a palavra “pura” [reiner] na
primeira linha é um homônimo de seu nome: “Rosa, ó pura [reiner] contradição / prazer de ser o sono de ninguém / sob tantas
pálpebras [Lidern]”. Acrescenta que Rilke, em carta de 26/12/1906
a um amigo, declara sua intenção de descrever uma rosa, sua flor predileta, “e,
em seguida, suavemente a desenrola ao longo de duas páginas, pétala por pétala,
palavra por palavra, pálpebra por pálpebra”. Lied (plural: Lieder] é
um poema estrófico escrito para ser cantado e ao mesmo tempo a canção que é
feita desse poema. Schubert e Schumann estão entre os grandes compositores de Lieder. Poeta de língua alemã, Rilke
nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, e morreu, aos 51 anos, em
Montreux, Suíça (1926).
2
Cf. os versos de Emily Dickinson: I’m
Nobody! Who are you? / Are you — Nobody — Too! / Then there’s a pair of us! /
Don’t tell! [...] // How dreary — to be — Somebody! (Eu sou Ninguém! Quem é você? / Você é — Ninguém —
também! / Então somos dois! / Não diga nada [...] // Como é chato — ser —
Alguém!).
3 Fugiria ao propósito do presente texto
considerar os aspectos que envolvem a leitura criativa, cuja experiência está
longe da que se pratica no sistema escolar, da alfabetização à universidade. De
todo modo, recomendamos um livro — Negociando
com os mortos: a escritora escreve sobre seus escritos, de Margaret Atwood.
Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. Atwood, canadense, nascida em
1939, é autora de extensa obra, que inclui ficção (principalmente, romances) e
não ficção. Diz ela nesse livro: “[...] o ato de ler é — sempre — tão singular
quanto o ato de escrever”. Tal singularidade é o que nunca se percebe na
“leitura-engolimento”.
4 Aqui, a câmera subjetiva, na imagem que é o soneto, ao funcionar como se fosse o
olhar do protagonista, o que intensifica a ação dramática, entra em relação com
o título de uma peça de John Van Druten, I
am a camera (1951), encenada na Broadway, adaptação do romance Goodbye to Berlin (1939), de Christopher
Isherwood, sobre a vida na Alemanha durante a ascensão do nazismo. A peça foi
adaptada para um filme de título homônimo, lançado em 1955, direção de Henry Cornelius, mal
recebido pelo público e crítica. Outro filme, um musical de grande sucesso, Cabaret (1972), também baseado na mesma
peça, com direção de Bob Fosse, foi protagonizado por Liza Minnelli, Michael
York, Marisa Berenson e Joel Grey. Com
incrível inovação técnica e poderoso efeito estético, Eisenstein usou a câmera
subjetiva em
O encouraçado Potemkin (1925)
para mostrar o massacre na escadaria de Odessa, a sequência de maior impacto do
filme.
5 Ver, a esse respeito, artigo de nossa
autoria, “O baile de quatro artes num poema de Florisvaldo Mattos”. In: Revista
da Academia de Letras da Bahia, jan. 2019, n. 57, p. 173-190. Trata-se do poema
“Itabuna, 1950 (Bar, Jazz, Bogart)”.
6 Ver, em relação à música, no poema
objeto do artigo referido na nota acima, o diálogo de Florisvaldo Mattos com
esses compositores e com o quadro O
ateliê vermelho e o álbum Jazz
(20 trabalhos em papel pintado com guache vivo e brilhante e recortado) de
Matisse.
O AUTOR
Escritor, com alto e louvado desempenho, como ensaísta, crítico literário
e de artes e editor, Valdomiro Santana
nasceu em Campo Formoso (BA), em 1946, e faleceu em Salvador, em agosto de
2022. Graduado em Psicologia, em 1972, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio
de Janeiro); Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (2008), pela UEFS
(Universidade Estadual de Feira de Santana); editor da Revista de Cultura da
Bahia (1998-2005) e UEFS Editora, desde 2010. Foi coordenador da edição
fac-similar da revista Samba (1999), um dos primeiros periódicos modernistas
baianos, e a edição da Poesia completa de Sosígenes Costa (2001), ambas
publicadas pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia; organizou e prefaciou
antologias de contos e publicou livros, com destaque para Literatura baiana 1920-1980, história, 1986; 2ª edição rev. e
ampliada, 2009; Pastelaria Triunfo,
crônicas, 2005; Experimentação-vida:
a poesia de Antonio Brasileiro, estudo, 2014. Colaborou para várias
publicações brasileiras.
[1] Cf. Ulrich Baer [professor de
literatura comparada alemã e inglesa da Universidade de Nova York], introdução
de The poet’s guide in life: the wisdom of Rilke. NY: The Random
House, 2005. Ed. bras.: RILKE, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. Trad. Milton
Camargo Mota. São Paulo: Martins, 2007, p. 32. Baer, também organizador dessas
cartas, informa que Rilke em 1925 escreveu o epitáfio para sua própria lápide,
em que a palavra “pura” [reiner] na
primeira linha é um homônimo de seu nome: “Rosa, ó pura [reiner] contradição / prazer de ser o sono de ninguém / sob tantas
pálpebras [Lidern]”. Acrescenta que Rilke, em carta de 26/12/1906
a um amigo, declara sua intenção de descrever uma rosa, sua flor predileta, “e,
em seguida, suavemente a desenrola ao longo de duas páginas, pétala por pétala,
palavra por palavra, pálpebra por pálpebra”. Lied (plural: Lieder] é
um poema estrófico escrito para ser cantado e ao mesmo tempo a canção que é
feita desse poema. Schubert e Schumann estão entre os grandes compositores de Lieder. Poeta de língua alemã, Rilke
nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, e morreu, aos 51 anos, em
Montreux, Suíça (1926).
[2]
Cf. os versos de Emily Dickinson: I’m
Nobody! Who are you? / Are you — Nobody — Too! / Then there’s a pair of us! /
Don’t tell! [...] // How dreary — to be — Somebody! (Eu sou Ninguém! Quem é você? / Você é — Ninguém —
também! / Então somos dois! / Não diga nada [...] // Como é chato — ser —
Alguém!)
[3] Fugiria ao propósito do presente texto
considerar os aspectos que envolvem a leitura criativa, cuja experiência está
longe da que se pratica no sistema escolar, da alfabetização à universidade. De
todo modo, recomendamos um livro — Negociando
com os mortos: a escritora escreve sobre seus escritos, de Margaret Atwood.
Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. Atwood, canadense, nascida em
1939, é autora de extensa obra, que inclui ficção (principalmente, romances) e
não ficção. Diz ela nesse livro: “[...] o ato de ler é — sempre — tão singular
quanto o ato de escrever”. Tal singularidade é o que nunca se percebe na
“leitura-engolimento”.
[4] Aqui, a câmera subjetiva, na imagem que é o soneto, ao funcionar como se fosse o
olhar do protagonista, o que intensifica a ação dramática, entra em relação com
o título de uma peça de John Van Druten, I
am a camera (1951), encenada na Broadway, adaptação do romance Goodbye to Berlin (1939), de Christopher
Isherwood, sobre a vida na Alemanha durante a ascensão do nazismo. A peça foi
adaptada para um filme de título homônimo, lançado em 1955, direção de Henry Cornelius, mal
recebido pelo público e crítica. Outro filme, um musical de grande sucesso, Cabaret (1972), também baseado na mesma
peça, com direção de Bob Fosse, foi protagonizado por Liza Minnelli, Michael
York, Marisa Berenson e Joel Grey. Com incrível inovação técnica e poderoso
efeito estético, Eisenstein usou a câmera subjetiva em O encouraçado Potemkin (1925) para
mostrar o massacre na escadaria de Odessa, a sequência de maior impacto do
filme.
[5] Ver, a esse respeito, artigo de nossa
autoria, “O baile de quatro artes num poema de Florisvaldo Mattos”. In: Revista
da Academia de Letras da Bahia, jan. 2019, n. 57, p. 173-190. Trata-se do poema
“Itabuna, 1950 (Bar, Jazz, Bogart)”.
[6] Ver, em relação à música, no poema
objeto do artigo referido na nota acima, o diálogo de Florisvaldo Mattos com
esses compositores e com o quadro O
ateliê vermelho e o álbum Jazz
(20 trabalhos em papel pintado com guache vivo e brilhante e recortado) de
Matisse.
Valdomiro Santana
Le poème, par la parole, fait que ce qui est
infondé devient fondement, que l’abîme du jour devient le jour qui fait surgir
et qui construit.
MAURICE BLANCHOT, La part du feu.
O virtuosismo da composição técnica do soneto
“Dia de Costa Azul”, de Florisvaldo Mattos, importa muito menos nesta nota do
que a gênese rica e sutil de sua composição estética. Para efeito da leitura aqui privilegiada,
estamos diante de uma imagem, não no
sentido que se compreende como o que contém metáforas, comparações, para
colocar a realidade em figura; não, portanto, como linguagem figurada — mas
imagem da linguagem, ou linguagem imaginária. Digamos: uma paisagem visível de palavras. Imagem que é o texto do soneto em foco, escrito na manhã de 22 de janeiro de
2020:
Oh, infinita areia ainda insone,
Na clareza do dia que me acorda,
Trazes-me uma canção que ouço da borda
De uma janela sobre a rua em cone,
Que guarda amor
secreto, sem luxúria.
Ouço o quieto
mar pronunciar meu nome
E numa árvore um
pássaro com fome,
Temendo, como
nós, da morte a injúria.
Em meus sinceros
olhos a luz avança.
Pretérito que
foi, o dia azula,
Pelo ar que
sopra vozes de criança.
Miro o céu que
se torna cor-de-rosa.
Da tarde leio a
fulgurante bula,
Feliz, aguardo a
noite clamorosa.
Soneto inédito, cuja cópia o próprio poeta nos
enviou por e-mail, na manhã do mesmo dia em que o escreveu. Retenhamos esses
dois momentos, o da escrita, que começou naquela manhã cedo, e, logo após, o do
envio, com a manhã já alta, antes do meio-dia.
Leitura, pois, do soneto que tem como uma de suas
referências o impressionante conto “Referent”, de Ray Bradbury, em que tudo se
cria a partir da imagem da palavra,
isto é, de sua enunciação.
Pálpebras/canção. O parceiro invisível
Sob o signo do fascínio dispõe-se a linguagem deste soneto: imagem que se
lê, se diz, se ouve e se vê. Que
fascínio é esse? O da vibração de seu título, “Dia de Costa Azul”, o qual
constitui um só bloco de sensações em seu agenciamento com o texto, onde a
palavra “dia” aparece duas vezes — uma no primeiro quarteto e uma no primeiro
terceto. No título e no texto, o fulgor e o espanto desse fulgor, por causa de
um lugar chamado Costa Azul, nome que só aparece no título. (Mais forte em espanhol do que em português é
a palavra “azul”, em que o z tem som
de ss ou c cedilha e o l não soa
como u.) Se Costa Azul não fosse um
lugar real ou imaginário, as iniciais das duas palavras, um substantivo e um
adjetivo, seriam grafadas com letras minúsculas, o que é elementar: [a] costa
azul, “dia de costa azul”.
Problematizemos o que abre esta nota de leitura.
Se “Dia de Costa Azul” é uma imagem, composta de palavras
substantivas que nos comunicam figuras (areia, olhos, dia, janela, canção, rua,
mar, céu...), ela constitui para nós
um objeto? Tal objeto sugere, indica, esboça essas figuras, mas não as
representa completamente e assim não é totalmente disponível ao que entendemos
por visão? Onde, como e por que o fascínio?
Continuemos a nos perguntar: O dia que se passa
numa costa azul? O dia com espaço e tempo investidos pelo mar no verão, cuja
faixa costeira seria azul, por se tornar plenamente visível com o sol? O azul
de um um dia assim deixaria de aparecer quando o sol se põe, ou longa seria sua
persistência na retina? Azul-claro e azul-escuro, um saindo de dentro do outro?
A preposição “de” designa o “pertencimento” de um dia ao que visivelmente se
impõe, o azul-celeste, uma costa azul, assim como dizemos “dia de chuva”,
quando o céu fica cinzento? Uma costa colorida de azul avassala de tal modo a
manhã e a tarde, que, à noite, o céu é de um azul inclassificável? O azul é a
escuridão tornando-se visível? Há, ou pode haver, uma explosão de azul, o mais
selvagem, o azul mais azul imaginável? O dia em seu curso na orla do mar se
desvanece, como um rosto de areia?
Retenhamos o que, abrindo-se com a força
aliterativa em d, consoante
linguodental sonora, encerra-se com a vogal tônica u, não para apurar a metrificação e a cadência do título, o qual
pode ser lido como um verso e este, por sua máxima condensação, suscita
múltiplos enunciados em que o topônimo Costa Azul é um bairro de Salvador:
“O dia fulgura no Costa Azul”.
“O mar no Costa Azul amanhece quieto”.
“O dia no Costa Azul é álacre, com cantos de
pássaros e vozes infantis, tem ar de festa e folguedo”.
“Uma rua
vista da janela, no Costa Azul, é um campo que se aprofunda”.
“O Costa
Azul tem uma ampulheta”.
“No Costa Azul há um acordo sensual de minha
cabeça com o travesseiro, de meu corpo com a paz e a felicidade da cama”.
“Aparece e desaparece o mundo no Costa Azul, onde
experimento todas as aventuras do visível e de sua percepção”.
Uma só vez, e no último verso do segundo terceto,
lê-se, diz-se, ouve-se, vê-se a
palavra “noite”. O que também importa reter: o pronome subjetivo “nós”, ao fim
do último verso do segundo quarteto, que assinala a inesperada mudança da
pessoa do discurso da primeira, concernente ao pronome objetivo “me” e ao verbo “ouvir” no presente do
indicativo, “ouço”. A “clareza do dia” é
o anúncio, no mesmo instante, de uma canção “que me acorda”.
Aqui, um sutilíssimo jogo semântico não existente
na língua portuguesa: a palavra alemã Lied
pode soar tanto como “canção” quanto como “pálpebra”.[1]
Acorda-se quando as pálpebras se retraem. Mas, como se sabe, o cérebro é mais
exigido pela audição do que pela visão. Para escutar, que é ouvir com atenção,
é preciso pensar; olhar, no sentido de mirar, é uma experiência sensorial que,
como em “Dia de Costa Azul”, pode se abrir para o fascínio em que o ser
desaparece naquilo que o nomeia para se tornar a realidade das palavras.
Por que a mudança da pessoa verbal referida linhas
acima? Porque a subjetividade do poeta (e do leitor) é mutável, emergente,
heterogênea, plural: da primeira pessoa do singular — “me”, “ouço” [“uma
canção”; “o quieto mar”; “vozes de criança”], “meus” [“sinceros olhos”] e o implícito “vejo” [que
“a luz avança”] — à primeira pessoa do plural, “nós”.
Outra mudança: a do retorno do que parece ser a da
primeira pessoa em “miro”, “leio”,
“aguardo”, no segundo terceto; um retorno estranho, não mais da mesma pessoa,
mas como o aparecimento de outra, inapreensível. Aqui se impõe a lembrança de
Rimbaud nas Cartas do vidente (a
Izambart e a Demeny, ambas em maio de 1871): “Je est un Autre...” (Eu é um
Outro...). Que Eu é esse, agramatical, assintático, que não diz “sou”, mas “é”?
O sujeito que desaparece quando aparece o ser da linguagem? Sim. E esse um Outro, indefinido, anônimo,
impensado? O Eu em sua estranheza
radical? Sim. O Eu sem Eu, em que o escritor deve se transformar para se tornar
impessoal pela arte, que é essencialmente impessoal. Na modernidade, o cogito cartesiano esgota-se porque “Eu
penso” não mais conduz à evidência de “Eu sou”. Pela primeira vez, na história
do pensamento moderno, pensar é sair de seu retiro para se dirigir ao impensado
e com ele se articular.
Como diz Bataille: “O Eu não tem a menor
importância. Para o leitor, eu sou um ser qualquer: nome, identidade, histórico
não mudam nada. Ele (o leitor) é um qualquer e eu (autor) também”.[2]
Se o Eu jamais pôde ser sujeito da experiência é “porque não seria capaz
disso”, observa Blanchot, “nem o indivíduo que sou, essa partícula de poeira,
nem o Eu de todos que supostamente representam a consciência absoluta de si”.
Entretanto, leitores desatentos e apressados que
somos — com a pressa de um tempo pobre de pensamento —, ao ler “Dia de Costa
Azul”, agarrados a nosso Eu, simplesmente “engolimos” o soneto para reduzi-lo à
categoria do gosto que o silencia. O gosto, seu juízo, que aprendemos como
leitura literária, e assim o expressamos: “Gostei muito, é lindo!”.
Pronto. Silêncio. Que, estéril, morre nele
próprio. O contrário do silêncio fecundo que “Dia de Costa Azul” nos impõe com
sua fala não falante. Uma obra literária, diz Blanchot,
“para aquele que nela sabe penetrar, é uma rica estação de silêncio, uma alta muralha e uma defesa firme contra essa
imensidade falante que se dirige a nós, desviando-nos de nós”. E George
Steiner: “Ler com atenção é fazer silêncio dentro do silêncio”.
A novidade vazia, velhíssima e sempre reiterada de
nosso “Gostei muito, é lindo!” torna-se, não sinônimo de elogio, expectativa
tão frequente dos autores que preferem “gostadores” a leitores de sua obra, mas
o que é ainda mais pobre e redutor: moeda de troca da “leitura-engolimento”
pelo que logo decai ao nível da banalidade cotidiana. Gostamos então de uma
obra de arte como gostamos de qualquer coisa consumível, e nos orgulhamos de
dizer que temos bom gosto. Na fácil instantaneidade do gosto que fabricamos,
tem este o caráter do que é sólido e inamovível em sua certeza total de apego,
mas também, paradoxalmente, o caráter do que é inconstante porque, em nossa
ligeireza, breve poderemos gostar menos do que agora gostamos, ou não mais
gostar ou mesmo recusar com aversão. Este, o nosso comércio com a literatura:
porque a “engolimos”, dela passamos ao largo.
Se continuamos a ler agarrados ao vazio sem
fundamento da gaiola de ouro de nosso Eu,
nunca poderemos ser o parceiro invisível do escritor. Kafka, em seu Diário, observa com uma surpresa que o
abala, mas também encantado, que se tornou escritor quando pôde substituir o
“Eu” pelo “Ele”, que é uma não pessoa, o “neutro”.
Se somos o leitor que gosta, somos também o
espectador de filmes para quem nossa
percepção natural e a percepção cinematográfica se equivalem. Por isso
anulamos a única consciência do cinema, a câmera, que ora é inumana, ora (se
torna) humana, ora
sobre-humana, cujo olho, ao se
projetar em outro olho, a tela, é o que em sua ontologia já está nas coisas,
faz parte da imagem, é a visibilidade da imagem enquanto automovimento e
enquanto autotemporalidade.
Diante, por exemplo, da pintura de uma
natureza-morta, o que faz nosso Eu cartesiano esgotado, mas ainda
insistentemente solipsista? Contenta-se com o aveludado dos pêssegos e o louva, sem ter, à distância, nessa experiência do
visível pictural, o aveludado da tela. Nesse contentamento e louvor vazios do
“Gostei muito, é lindo!”, escapa-nos que “a arte não reproduz o visível, torna
visível”, como na profunda e delicada lição de Klee.
O devir-leitor
“Dia de Costa Azul” é um soneto impregnado de elementos sensoriais — ar
(forte presença da luz), água, sons... —, motivo pela qual nele se experimenta
a transformação do signo dia em imagem, cujo curso é tão mutante quanto a
subjetividade do poeta e do leitor que poderemos nos tornar.
A luz avança, pura imagem, para que o dia seja
pleno, intenso. Nesse avançar, o olho, ao mirar o céu que de azul vai se tornar
cor-de-rosa, incorpora a mira desse espaço, faz da distância o que é lhe
próprio; e, porque o tempo não tem fim, por ser uma forma imutável, não
definida pela sucessão, e seu sentido é íntimo, o que o soneto cria, em vez de
expressar, é uma sensação de deslizamento. O azul flutua, o dia é uma modulação
— não um molde — do céu, em que o tempo, à tarde, passa da saturação à
rarefação de luz. Ou o que também pode
ser dito: um intensamente berrante azul que muda para um azul-camaleão.
Que dia é esse?
Mais uma vez intervém a força cega de nosso Eu para encontrar num lugar “real”
o que, em tom azul, é uma parte do mar próxima à terra. Como se o dito, o
escrito do poema, fosse uma representação e se alojasse no visível da imagem.
Um “como se” que nos contenta. E o “Gostei muito, é lindo!” mais uma vez se
afirma.
Se, entretanto, nos desapossamos radicalmente do
poder de dizer Eu, para que haja em nós uma transformação da linguagem e nosso
Eu passe ao Ele, que é neutro, impessoal, e emerja o devir-leitor com uma
intimidade — não no sentido de interioridade, por ser um oximoro “a intimidade do
fora” — que fala com a intimidade do poeta, o que poderá acontecer? Um espaço vai se abrir, uma distância
infinita, e, nessa distância, o não encontro com a realidade empírica de um
lugar chamado Costa Azul, mas com sua ausência. Por que isso? Porque as
palavras, ao nomear um ser (no caso, esse
lugar), privam-no da condição de ser.
As palavras
“Dia de Costa Azul”, ao manifestar o que nomeiam, são, ao mesmo tempo, a
materialidade vazia do que não podemos apreender e o inapreensível do qual não
abrimos mão. A literatura é linguagem, mas uma linguagem que se problematiza e
se converte em impossibilidade. Linguagem que, sem lugar, só aponta para o
silêncio e se faz impasse. Contradição fundamental: a literatura se faz com
palavras, as quais, no entanto, se transformam, se reviram, se escavam, se
espelham, indefinidamente. Para quê? Para ser silêncio. Seu espaço, o do
imaginário, é sua paixão. Não a paixão pela
leitura, “Eu gosto muito de ler”, mas a paixão da leitura, que tem o poder de se consagrar a si mesma,
permanecendo enigmática, sem identidade.
Ao se mover no silêncio, “Dia de Costa Azul” é um poema que vai além de
seus limites para realizar o irrealizável, vir sempre a se refazer em várias
leituras, cada uma das quais é nova, já que seu espaço tende a se abrir cada
vez mais, disseminar-se.
Se nos transformamos em parceiro invisível do
poeta, que está longe, bem longe, na obscuridade de seu escritório, não da
pessoa que identificamos com o nome de Florisvaldo Mattos, o que temos? Não,
como na linguagem corrente, quando dizemos “mar” sem vê-lo (com muito mais
frequência quando não o vemos), e de pronto “dispomos” da beleza do mar e de
sua aprazibilidade, mas os possíveis criados pela linguagem poética, no espaço
da imaginação, que é infinito em sua pluralidade. Linguagem do Aberto, na
reflexão de Rilke, a metamorfose do visível em invisível. Linguagem da
ausência, a do invisível, para suportar, salvar o visível.
De novo Blanchot: há em Rilke “uma teoria cantante
do ato poético”, na medida em que “o poema é a profundidade aberta sobre a
experiência que a torna possível, o estranho movimento que vai da obra para a
origem da obra, ela mesma transformada em busca inquieta e infinita de sua
fonte”.
Espaço imaginário: a intimidade do coração.
O pincel. Linhas de fuga. Mapa.
Ambiguidade
O que a experimentação do devir da leitura deste e de outros poemas de Florisvaldo Mattos deixa entrever, em sua poética — no sentido grego estrito de poiesis, um substantivo que se forma do verbo poiein, “fazer”, “criar” —, é a metamorfose da caneta ou do teclado do computador em pincel. Ele devém pintor, mais dissimulado que invisível, por causa de seu modo peculiar de ver e a partir do título de seu primeiro livro de poemas: Reverdor (1965). Poderoso, por causa do fascínio de sua imagem enquanto imagem, esse título. Em “Dia de Costa Azul”, como em tantos outros poemas de sua autoria, o que se faz perceptível são os modos como o signo luz se apresenta e se transforma; o fulgor, neste soneto, são esses modos, cores, causas colorantes. Isso porque, como as estudou Goethe em seu tratado, as cores entram em relações de complementaridade e de contraste: cada uma, no limite, reconstitui o todo e todas se reúnem no branco, o modo infinito, segundo uma ordem de composição, ou dele saem na ordem de decomposição. Daí o fulgor que perdura no espaço imaginário deste soneto, com um azul tão intenso, que arde, porque quando a luz torna um corpo transparente a opacidade se revela.
A reflexão de
Merleau-Ponty, em O visível
e o invisível, dialoga com a análise que faz Goethe em seu tratado: uma cor
nua, dura, indivisível, não é o que se oferece a uma visão que quer ser total e termina sendo nula, “mas antes uma espécie de estreito entre
horizontes exteriores e interiores sempre
abertos, algo que vem tocar docemente, fazendo ressoar, à distância,
diversas regiões do mundo colorido ou visível, certa diferenciação, uma
modulação efêmera desse mundo, sendo, portanto, menos cor ou coisa do que
diferença entre as coisas e as cores, cristalização momentânea do ser colorido
ou da visibilidade. Entre as cores e os
pretensos visíveis, encontra-se o
tecido que as duplica, sustenta, alimenta, e que não é coisa, mas
possibilidade, latência e carne das coisas”. [Grifos nossos.]
Entre: o que é interessante no pensamento criativo em qualquer
domínio não é uma correlação localizável, o que vai de um começo para uma
conclusão e reciprocamente, mas o que está no meio e aí, perpendicular,
transversal, irrompe. Linhas — não pontos — que se bifurcam, se
desterritorializam, fogem, e se reterritorializam para de novo fugir. Como as
de um mapa, que, na filosofia de Deleuze e Guattari (cf. vol. 1 de Mil platôs), é o oposto do decalque ou
reprodução: “O mapa é aberto, conectável em todas as suas dimensões,
desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente.
Pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser
preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo
numa parede ou como obra de arte”.
Esse conceito de mapa
faz ressoar a lembrança, e nela meditar, do que foi a inquietação artística de
um grupo, a Geração Mapa, na segunda metade dos anos 1950, em Salvador, que
teve como participantes Glauber Rocha, o mais conhecido - no Brasil e fora,
como cineasta, cuja obra é hoje patrimônio do mundo —, Florisvaldo Mattos, João
Carlos Teixeira Gomes e Fernando da Rocha Peres, entre outros. Mapa: o título da revista de vida breve,
mas intensa, que criaram e dirigiram.
Mapa como as linhas da mão, as mais belas, ou
as traçadas pela água que sai de um cano furado esguichando para todas as
direções; como a grama que brota, não para ir daqui até ali, mas entre as
pedras do calçamento.
Mapa: leitura acima dos
enunciados que se abrem suscitados pela simultaneidade sucessiva do título do
soneto e seu texto. Uma imagem só, como a da dobradiça e da porta, a da tampa e
da garrafa.
Atentemos agora para o segundo verso do primeiro terceto: “Pretérito
que foi, o dia azula [...]”
“Azul”. O campo lexical e semântico dessa palavra
inclui numerosos brasileirismos e acepções populares. Como verbo transitivo,
“azular” designa “tingir de azul a”, “anilar”; como verbo pronominal,
“tornar-se azul”. “Azulado”. Palavra que tanto pode ser substantivo, quando
precedido de artigo, quanto adjetivo, ao significar “o que tem cor levemente
azul”. Entretanto, eis as acepções desconcertantes do verbo “azular”, em sua
intransitividade, no Nordeste do Brasil: “fugir”, “sumir”, “escapulir”.
Nos dois segmentos de “Pretérito que foi, o dia
azula [...]”, verso rico e sutil em sua ambiguidade, duas temporalidades
coexistem numa só imagem: a de agora,
a do dia evanescente, e a de outrora,
a do dia no esplendor do céu sem nuvens com o sol que foi ficando alto... Note-se a força da palavra “pretérito”, aqui um
adjetivo, que deflagra o verso e traz embutido um tempo verbal perfeito — “foi”
—, ao designar um curso que já se consumou. O que se lê/vê aqui não é um sujeito de enunciação individual, sujeito falante,
pois este no cristal do tempo desaparece para que apareça o ser da linguagem,
que é anônimo, enigmático e sempre exterior, tanto quanto o pensamento, como
nas Cartas do vidente.
Cristal do tempo: a vidência criada neste verso
sensacional não tem nenhum sentido premonitório, é muito mais do que simples
percepção, porque a essência do tempo nos escapa, sua significação é
ontológica. Tempo que é aqui puro, transparente, e se manifesta na metamorfose
do dia.
“Azul”, “azular”.
O que nos faz pensar a sutil modulação que o poeta percebe no céu é
também o modo pelo qual cria seu estilo, a sintaxe com a qual trabalha. Isso,
porque é improvável que se forme uma palavra pela junção casual de letras
separadas, mas é muito mais provável formá-la, ainda que casualmente, com
sílabas ou flexões.
“Costa
Azul” é, pois, muito mais, em sua ontologia, uma imagem do que signo verbal,
ainda que este se imponha como realidade gráfica no título do soneto, com a
locução “Dia de”, que é antecedente e tem valor adjetivo. Do alto, essa imagem
projeta luz para que a visão e a leitura se enlacem e se fendam.
Pouco
importa que o leitor não saiba que
Costa Azul é um bairro de Salvador, próximo à orla marítima da cidade. Se essa particularidade da geografia urbana de
Salvador é irrelevante para um leitor que a desconheça, não lhe escapa, no
entanto, uma associação imediata: com o mesmo nome — em francês, Côte d’Azur — da região também conhecida
internacionalmente como Riviera Francesa, no mar Mediterrâneo, com cerca de 180
km, uma das mais belas, caras e sofisticadas faixas litorâneas do mundo, desde
fins do século XIX.
É ingênua não apenas
a imitação do nome, em que transparece o desejo de status elevado — que, na
origem da configuração desse bairro, remete a uma entidade recreativa, o Clube
Costa Azul, de curta duração, cujo espaço rapidamente arruinado veio a se
transformar, depois de muito tempo, no atual Parque Costa Azul —, mas também
porque a cor do mar do Nordeste é um espelho esverdeado, e não, como a do Mediterrâneo, azul. Quem o diz, e com
grandiloquência, ao descrever o litoral cearense, é José de Alencar no primeiro
capítulo de Iracema, romance
publicado em 1865: “Verdes mares bravios de minha terra
natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais
como líquida esmeralda aos raios do sol
nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros”.
Mas tampouco importa essa distinção. O nome Costa Azul, por
sua imagem enquanto imagem, e pelo que mostra e esconde, é o que se impõe à visão
e leitura do soneto. Nome que, em sua potência sonora, extravasa o vivido ou
vivível da expressão de um determinado locus
e o que o compreende e sugere.
Já que neste soneto há a disposição ou
jogo dos signos dia (três vezes) e noite (uma só vez), não custa lembrar que as
vogais são fonemas sonoros que se produzem pelo livre escapamento do ar pela
boca e se distinguem entre si por seu timbre característico; as consoantes são
fonemas resultantes de um fechamento momentâneo ou de um estreitamento do canal
bucal, que, em qualquer de seus pontos, impede a saída da corrente de ar —
sonorizada ou não pela vibração das cordas vocais. “Dia” é um hiato, o efeito acústico
especial em que à sílaba terminada pela vogal-base i (tônica) segue a
iniciada por outra vogal-base, a. “Noite”, um ditongo decrescente, porque à
vogal fechada o (forte) se junta a
semivogal i (enfraquecida).
A lacuna iluminante da poesia
Em sua
experiência poética, Mallarmé primeiro lamenta que as palavras não sejam
“materialmente a verdade”, que jour (dia),
por seu timbre, seja sombrio, e nuit
(noite), brilhante. Encontra, porém, nesse “defeito das línguas” o que
justifica a poesia; o verso é delas o “complemento superior”, “filosoficamente”
o que recompensa esse defeito, porque as línguas não têm a realidade que
exprimem, sendo por isso estranhas à realidade das coisas, à sua obscura
profundidade natural.
Se
as palavras são menos numerosas do que as coisas que nomeiam, não resultaria
dessa pobreza o sentido que falta ao ser? Surpreendentemente, essa pobreza é a
riqueza das línguas, pois não é o sentido que falta: os signos só significam
devido a essa falta. Signos, portanto, que aparecem na linguagem como
indicações ontológicas.
Na
lacuna iluminante da poesia, a fala que se lê, se diz, se ouve e se vê em “Dia de Costa Azul” é a fala de
um Eu sem Eu, a de um Outro, fala destituída completamente do sujeito que
apareceu no instante da escrita para logo desaparecer na espessura do que disse
e na cintilação do que viu, na
fascinação desse instante, o espaço da transparência; não a fala de um “eu
lírico” ou “eu profundo”, porque nela a linguagem se dispõe sob um fascínio, em
que a coisa, um lugar nomeado, uma única vez no soneto, Costa Azul, se torna
imagem, mas imagem que, alusiva à figura desse lugar, converte-se em alusão ao
que é sem figura: ausência.
Quando
acontece o que é fascinante, o aparecimento da ausência, “Dia de Costa Azul” se
converte em intimidade aberta do poeta que o escreveu e de nós que o lemos.
O pintor do silêncio
O filósofo lendo (1734) é o título do quadro de um pintor
barroco tardio,
Jean-Baptiste-Siméon
Chardin. Sem que aqui o
analisemos em seus tantos pormenores, o que seria longo, como esse quadro entra
em relação com o soneto em foco? Entra mediante sua atmosfera, inspirada em Rembrandt, em que o silêncio é tão
explícito por sua textura. A serenidade e a luz que emanam da tela são próprias
de uma cerimônia particular e num ambiente particular em que há vários objetos,
os quais estão em estrita e tão visível relação com a roupa do leitor e seu
chapéu.
Diálogo do soneto e do quadro. Neste, uma
ampulheta, ou relógio de areia, e uma pena num tinteiro aparecem junto ao
cotovelo direito do leitor. Pena para sublinhar o texto, escrever em suas
margens, dialogar com o livro, marcá-lo. Em seu ensaio “O leitor incomum”, o
primeiro de Nenhuma paixão desperdiçada,
diz George Steiner que “ler bem é ser lido pelo que se lê. [...] O ato da
verdadeira leitura é, essencialmente, um ato de reciprocidade literária, de
resposta à vida do texto”. Não por outro motivo, a relação entre o leitor
verdadeiro e o livro é criativa. Steiner cita Péguy, para quem todo ato genuíno
de leitura, toda lecture bien faite,
é um coadjuvante do texto; mas com a advertência de que essa colaboração íntima
é “um desígnio maravilhoso quase assustador”, porque implica “uma elevada, uma
suprema, singular e desconcertante responsabilidade”.[3]
A ampulheta, na visibilidade da atmosfera
criada por Chardin, concerne à relação do tempo com o livro, ao ato silencioso
da leitura, que o torna livro; no soneto, não nomeada, e portanto oculta, não
é, porém, invisível, porque vibra com um signo e este se ilumina logo nos dois
versos de abertura: “Oh, infinita areia
ainda insone, / Na clareza do dia que me acorda [...]” [Grifo nosso]. O
tempo, uma convenção, é medido pela ampulheta por sua areia: representa-se classicamente com dois
recipientes cônicos de vidro que
se comunicam entre si através de um vértice num plano vertical; por esse
vértice uma quantidade de areia escoa de um recipiente para o outro. O primeiro
quarteto é um enjambement que vai até
o primeiro verso do segundo quarteto:
Oh, infinita areia ainda insone,
Na clareza do dia que me acorda,
Trazes-me uma canção que ouço da
borda
De uma janela sobre a rua em cone,
Que guarda amor secreto, sem
luxúria.
Por que transborda o primeiro para o segundo
quarteto, com a cadeia desse triplo “que” como pronome relativo? Porque os
signos se entrelaçam: areia, dia, tu (pronome subjetivo oculto), canção, amor; enjambement, portanto, em sua dupla
função, estrutural e significativa. O primeiro deles, areia, que faz vibrar os
outros, por ser indiferente como coisa empírica à temporalidade humana do peso
das pálpebras e de todo o corpo, é, nesse instante, na ampulheta de um dia, a sensação
de acordar. Numa ampulheta, conta-se o tempo que é sempre o mesmo, a partir da
totalidade de areia que escoa de um recipiente para outro. Se há uma relação
entre o alto e o baixo é porque se faz necessária uma pressão para que o fluxo
ocorra. E outra relação é clara na ampulheta: entre o pescoço, alto e estreito, e os dois compartimentos, de
base larga, que abrigam a areia. Na vivência temporal, o fluxo ao cessar marca
o fim da decorrência de um ciclo. As ampulhetas variam: há as que medem
segundos e minutos, outras mensuram horas; outras, ciclos de 12 horas, e
outras, de 24 horas, como a deste soneto, oculta mas não invisível.
No instante em que termina um ciclo de 24 horas e
outro igual vai começar a decorrer, a temporalidade não mais se esconde no
corpo, mas espacializa-se, dirige-se para o mundo que assim se anuncia: como
“uma canção que ouço da borda / De uma janela sobre a rua em cone, // Que
guarda amor secreto, sem luxúria”.
De tal modo se espacializa o mundo que a rua,
também não nomeada, vai se confundir com a ampulheta oculta, mas não
invisível; rua mostrada em sua máxima
visibilidade porque vista “em cone”:
o primeiro plano e o fundo são vistos nitidamente.
Daí outro jogo muito sutil: o da
passagem do espaço pictórico (o quadro
de Chardin) ao espaço cinematográfico, porque a sensação do que vemos é produzida por uma (imaginária)
câmera subjetiva, isto é, situada na mesma altura do olho do narrador e
protagonista do soneto, “da borda / De uma janela”.[4]
Dessa posição, vemos
o que tecnicamente no cinema é mostrado em profundidade de campo. Logo,
outro diálogo: do soneto e do cinema. A rua em “Dia de Costa Azul” é vista, mais do que lida, geometrizada,
tem a configuração de um cone: o raio da base (sua circunferência, a beira de
uma janela), a altura e a geratriz (o segmento externo), com a extremidade num
vértice comum, formam um triângulo retângulo deitado.
Só no cinema é possível essa percepção. Um dos
exemplos mais impressionantes da imagem em profundidade de campo é o que se vê
em 2001: uma odisseia no espaço
(1968), de Stanley Kubrick. Um dos astronautas da nave que viaja para Júpiter,
o maior planeta de nosso sistema solar, entra no núcleo de memória do supercomputador
HAL 9000 para desligá-lo.
O pintor do invisível
Dizia Cézanne que um pintor capta um fragmento da natureza e o torna
absolutamente pintura; Braque, de maneira ainda mais clara, dizia que a pintura
não procura reconstituir um fato não documentado, mas constituir um fato
pictural. Em sua imagem enquanto imagem, “Dia de Costa Azul” suscita outro
diálogo e de novo com a pintura. Se Chardin pintou o silêncio, cuja espessura
impregna a tela em que os olhos do leitor estão voltados, com lúcida
serenidade, para o livro, e tudo que compõe a imagem é coadjuvante do ato de
ler, Manet pintou o invisível em vários de seus quadros; não só tornou possível
o impressionismo, mas toda a pintura do século XX. Dois deles, Olympia e Almoço na relva, pintados em 1863, foram objeto de escândalo moral;
dois outros, porém, são os que aqui particularmente nos interessam: A
ferrovia (1872-73) e O bar no
Folies-Bergère (1881-82).
Uma mulher olha diretamente para o que não se vê no
quadro. Sentada numa mureta da Gare Saint-Lazare, em Paris, ela segura um livro
aberto e tem no colo um filhote de cachorro dormindo. À sua esquerda, uma
menina em pé e de costas olha o que também não se vê. Há um cacho de uvas na
mureta, bem próximo à vertical direita.
Uma grade preta ocupa quase toda a altura da composição. A menina segura
com a mão esquerda um dos ferros da grade e o que fixa, um trem ao partir ou
chegar, não é definido na plataforma, já que só aparecem uma nuvem de fumaça e
vapor d’água.
Uma garçonete em pé, vestida com requinte, mãos
apoiadas na borda interna de um balcão de mármore, olha para o que perturba
completamente a visão do observador, pois este não vê o que ela vê: diante
dela, um cliente, mas do qual se percebe apenas o reflexo no espelho do bar.
Todo o fundo do quadro é ocupado por esse espelho de base metálica. Em cima do
balcão há garrafas de champanhe e de cerveja, uma cesta de vidro cheia de
tangerinas e um copo com flores. Entre a garçonete e o grande espelho que cobre
o fundo há uma mesa em cujo tampo também de mármore há outras garrafas de
bebida.
Por que esses dois quadros são desconcertantes? Porque
Manet rompe com a representação ilusionista da pintura. Ora, pintar o invisível
é problematizar a natureza da pintura e a própria natureza da tela. Se desde o Quattrocento o que prevalecia na arte
ocidental era a ilusória representação de três dimensões que repousavam num
espaço bidimensional, já que se fixava um certo lugar ideal a partir do
qual, e somente a partir do qual, podia-se e devia-se ver o quadro, o que fez
Manet foi subverter essa tradição clássica. Não que ele tenha criado a pintura
antirrepresentacional, mas a pintura-objeto, como Foucault bem soube vê-la e
analisá-la. Essa ruptura é o que torna possível a arte moderna, inclusive a
pintura abstrata de Kandinsky, Malevich e Mondrian.
Pela primeira vez, a pintura mostra o
invisível. N’A ferrovia, a negação do visível é dupla: a do olhar da mulher e
da menina e onde a profundidade está totalmente encoberta. N’O bar
de Folies-Bergère, a profundidade é duplamente negada: não somente não se
vê o que há atrás da garçonete, porque ela está na frente do espelho; e, o que
é perturbador ao máximo, o que se vê atrás da garçonete é o que está à frente
dela. A consequência do impacto dessa ruptura foi o deslocamento do espectador,
a sensação de liberdade que não mais lhe determina um lugar ideal, fixo e acima
de tudo frontal. Daí o que é inteiramente novo: nesse deslocamento, aparece
pela primeira vez toda a fascinante materialidade do quadro, o que permite
vê-lo, não mais como representação — a qual chega a ser pura, a representação
da representação, como em As meninas,
de Velásquez, pintado em 1656 —, mas como objeto.
Devaneio. Vento e rosas
que caem.
Durações coexistentes. O
deserto e o oceano
Se
a imagem do todo que é “Dia de Costa Azul”
suscita, em sua simultaneidade sucessiva, por sua força e delicada
complexidade, três diálogos da poesia com outras artes — primeiro com a
pintura, depois com o cinema e mais uma vez com a pintura —, não é porque “é
preciso estar presente à imagem no minuto da imagem”? Sim. Essa reflexão de
Bachelard em La poétique de l’espace,
ele que foi um filósofo das ciências da natureza e um filósofo da imaginação
poética, é uma das leituras possíveis deste soneto.
Sonhador de palavras, Florisvaldo Mattos
devaneia, à maneira de Bachelard, num lugar chamado Costa Azul; e em seu
devaneio, que é cósmico, uma palavra, “bula”, transborda os significados
correntes para dizer/ver o universo,
à luz da poesia: o espaço, desmedido, funde-se com o tempo, que não é mais o do
calendário e do relógio; fusão só possível porque o instante, em sua ardência,
em sua fulguração, transmuda o decorrer de um dia em intemporalidade.
No soneto não aparece a palavra “sonho”,
que, em sua referência habitual noturna, é “o guardião do sono”, segundo Freud.
Para Bachelard, entretanto, o sonho que vale é o sonho cósmico, o sonho
acordado. “O sonho da noite não nos pertence. As noites [...] não têm história”. Lembra-nos, por isso, o
acordo/acorde em francês de rêve
(sonho), palavra masculina, e rêverie (devaneio),
palavra feminina; em La poétique de la
rêverie, pergunta: “Que outra liberdade psicológica possuímos, além da
liberdade de sonhar?”. E responde: “Psicologicamente falando, é no devaneio que
somos livres”. Sublinha então a experiência em que, pelo devaneio, descobrimos
numa palavra o ato que nomeia; entre muitos poetas que cita, um deles, Léo
Libbrecht, escreveu este verso extraordinário:
Les mots rêvent qu’on les nomme.
(As
palavras sonham que as nomeemos.)
E
outro, Gilbert Trolliet, num poema intitulado Tout est d’abord rêvé (Tudo é primeiro sonhado):
J’attends.
Tout est repos. Donc futur innervé.
Tu
es image en moi. Tout est d’abord rêvé.
(Espero. Tudo é repouso. Logo, futuro
inervado.
És imagem em mim. Tudo é primeiro
sonhado.)
Em
seguida, comenta: “Assim o devaneio criador anima os nervos do futuro. Ondas
nervosas correm nas linhas de imagens desenhadas pelo devaneio”. E ainda: “O sonhador, em seu devaneio sem limite nem
reserva, se entrega de corpo e alma à imagem que acabou de encantá-lo”.
Desde o instante em que Florisvaldo Mattos
intuiu/experimentou o título “Dia de Costa Azul”, esta imagem se afirmou com
tanta força porque seu devaneio é o que escreveu diante do que viu: o devir-cosmos de Costa Azul na
página em branco, onde os elementos fundamentais da matéria — fogo, água, ar e
terra — transformaram-se no mais puro elemento, a poesia. A um só tempo,
sonhador de palavras — “sonhador diurno” — e pintor tão dissimulado de
palavras, ao escrevê-las, elas tornaram-se
manchas de cor na página/tela de sua imaginação. Ao dizer as quatro palavras do
título, que só aparecem sintaticamente agenciadas uma única vez, pintou-as e as vemos no devir-aquarela do soneto; aquarela que lembra as de
John Marin, não mais as formas dos elementos — fulgurante claridade, areia,
janela, rua, mar, árvore... — no sentido representacional, mas símbolos
expressionistas abstratos dessas coisas; e nessa única vez elas ocultam o que
manifestam e iluminam o que é inacessível: “amor secreto, sem luxúria”.
No entanto, cumpre notar:
esse devir não aponta para uma correspondência entre a linguagem (o dito, o
escrito) e o visível ou invisível (pictórico); o que faz é criar uma zona de indiscernibilidade
das duas sensações, um inter-ser. Daí a experiência estética desse diálogo: a
relação que se abre com a ressonância mútua entre a sintaxe dos versos e a
composição de tons das manchas de uma pintura imaginária. Relação que vai se
metamorfoseando na experiência do que lemos/vemos:
a imagem enquanto imagem, a do título e a de todo o soneto.
A literatura é sempre comparada; uma obra
(no caso, “Dia de Costa Azul”) é, ela mesma autocomparativa, dialoga o tempo
todo com outras obras do mesmo autor e obras de autores diferentes. E ainda:
por não existir fechada em si mesma, a literatura tem sua sequência ou sua
gênese em outras artes e em outros saberes, como o da ciência (criação de
funções), o da filosofia (criação de conceitos) e o da mitologia, já que se
abre a essas possibilidades.[5]
Outro exemplo do diálogo deste soneto com
a pintura é o último verso do primeiro terceto: “Pelo ar que sopra vozes de
criança”. Observe-se, para efeito da rima com “avança”, a flexibilização de uma
categoria gramatical, o número, com o substantivo “criança” no singular. A
força de um dos elementos fundamentais da matéria, o ar, é o que singulariza
este verso, que acende em nós uma lembrança: o quadro O nascimento de Vênus (1585-86), de Botticelli. À esquerda da tela
estão abraçados o deus do vento, Zéfiro,
e uma ninfa (Aura ou Bora), os intercessores de Vênus, a protagonista, deusa da
formosura e do amor. Na dinâmica da
imaginação material dessa pintura, Zéfiro, ao soprar em direção à terra, cria
um dos mais belos momentos mitológicos: rosas caem no instante em que Vênus —
pura e casta, em sua beleza clássica, na luz que lhe destaca as curvas, procura
esconder sua nudez, pois com a mão esquerda tenta cobrir os seios e com a
direita, sobre um feixe dos longos cabelos que se enroscam ao longo do corpo,
resguarda o sexo —, está prestes a sair da concha, o símbolo de seu universo
feminino de prazer e fertilidade, ao pôr o
pé (esquerdo) em terra firme. À direita do quadro, outra deusa, a Primavera, espera-a para cobri-la e protegê-la com um manto florido.
Consideremos agora como e por que a imagem
do todo que é “Dia de Costa Azul” é criadora. Ela não está no presente quando a
lemos/vemos; o que está no presente é
o que ela “representa” (sua narrativa): o encadeamento dos signos que a compõem
— acordar, ouvir, guardar, ver, ler, aguardar. Signos que são seis durações
heterogêneas coexistentes, seis ritmos, em que há um entrelace de tempo. A
coexistência dessas durações na imagem não se confunde absolutamente com o
presente naquilo que a imagem “representa”; pressupõe a criação de espaços, não
os da geometria euclidiana, mas à maneira do cinema moderno, de que são
exemplos os filmes de Orson Welles, de Kurosawa, de Ozu, de Antonioni, de
Bresson, de Resnais, de Kubrick. Isto, porque o espaço não mais dá conta de
suas principais características e se entrelaça com o tempo. Diferentes espaços
criaram esses cineastas: o englobante, em que os planos, ao se conectar, não
mais concernem a uma ordem cronológica, mas do tempo em estado puro,
independente do movimento; o da amplidão imensa; os espaços vazios,
desconectados, em que a continuidade nunca é determinada; espaços
estratigráficos, em que o visual e o sonoro não mais se correspondem; espaços
topológicos.
Poeta que devém pintor e aberto para o
cinema e a música (como, entre outros compositores, a de Villa-Lobos, de
Stravinsky, de Varèse, de Duke Ellington, em “Itabuna, 1950”), Florisvaldo
Mattos cria ritmos que estão muito mais próximos da percepção da luz, da
abertura que faz o espaço — donde o fascínio das cores e das linhas que se
traçam nas cores e com as cores, como na pintura de Matisse[6] — do que das técnicas
estróficas, métricas e rítmicas, que são tantas vezes inflexíveis. Porque a cor
é movimento, desvio, deslocamento, deslizamento, obliquidade, tanto quanto a
linha. Daí, em sua poesia, os ritmos inundados de luz e com uma
particularidade, a de moléculas acústicas — o que nos permite dizer: muitos
poetas possuem voz, mas poucos, como ele, possuem um timbre.
Dois espaços imensos e contrastantes ao
máximo, pela força de seus elementos, são estudados por Deleuze num dos ensaios
de seu último livro, Crítica e clínica:
o deserto, em Os sete pilares da
sabedoria, de T. E. Lawrence, um livro que é muito mais que uma saga
histórica e um relato da guerra dos árabes contra os turcos, e o oceano, em Moby Dick, romance de Herman Melville.
Dois escritores que são dos maiores paisagistas da literatura. “Melville possui
um oceano íntimo desconhecido dos marinheiros, ainda que eles o pressintam: é
nele que nada Moby Dick e é ele que se projeta no oceano lá de fora, mas para
transmutar-lhe a percepção e dele ‘abstrair’ uma Visão. Lawrence possui um
deserto íntimo que o impele para os desertos da Arábia, entre os árabes, e que
coincide em muitos pontos com as percepções e concepções deles, mas conserva a
indomável diferença que as introduz numa Figura secreta inteiramente outra”.
Tanto quanto o oceano para Melville e o
deserto para Lawrence, Costa Azul impregna de dentro as percepções de
Florisvaldo Mattos, a ponto de o dia parecer tão irreal como uma miragem
surgida das profundezas, na qual as coisas se torcem e fazem tremer e cintilar
a visão, a qual é íntima de uma alucinação auditiva, “uma canção que ouço da borda / De uma janela sobre a rua
em cone”. Mas alucinação que, por ser da arte, não recai no estado clínico;
alucinação inventada pelo delírio que é toda a imagem do soneto, cujas
palavras, entre elas, fazem devir, indiscerníveis, visão e audição, cores e
música, a paisagem e seu concerto.
Epifania/acontecimento e amor
fati, uma estética da vida
Em
seu fascínio, podemos agora perguntar, o que é a imagem “Dia de Costa Azul”?
Uma epifania, o instante de uma visão repentina. Um acontecimento como
surgimento do inesperado. Visão que vai do mais intenso azul, onde toda vista
arde, ao transparente puro invisível. O que acontece sem poder deixar de
acontecer.
Numa visão assim,
o amor fati (literalmente, amor ao
destino) é o que “acorda”, em “Dia de Costa Azul”, como “uma canção [...] //
Que guarda amor secreto, sem luxúria”.
Na ampulheta, a “clareza do dia” alude ao
que é “secreto”, misterioso. Em grego, o substantivo mysterion remete ao verbo myein,
“fechar”, equivalente a “guardar”.
Mistério da clareza: neste soneto, as palavras “dia” e “canção” estão no
mais íntimo acordo/acorde dos olhos e ouvidos que se abrem, porque a linguagem
da poesia, para ser imagem e só imagem, só se revela quando se guarda o
silêncio em torno das palavras. Não por outro motivo, linguagem que, a mais
clara, é muitas vezes a mais misteriosa.
Nietzsche,
um dos intercessores desta nota de leitura, em A gaia ciência, seu livro com a
maior diversidade de formas literárias, pois inclui versos, aforismos, breves
diálogos, parábolas, poemas em prosa e pequenos ensaios, no parágrafo 276
esclarece o que não é uma teoria do conhecimento, porque encarna uma
relação afetiva com o destino, que não
significa resignação diante do inelutável; muito pelo contrário, o que com
força afirma é a aceitação alegre e mesmo o fato de sentir a necessidade como uma
forma de beleza: “Quero cada vez mais
aprender a ver na necessidade das coisas o belo [...] Amor fati: este
seja doravante o meu amor!”.
Rilke,
entre 1912 e 1922, escreveu as dez Elegias
de Duíno. Lemos na oitava: “Chama-se a isso destino: estar em face / e nada
mais do que isso, e sempre em face”. De tal modo havia encarnado essa visão, a
de aceitar a vida como ela é — que, em 1904, dissera em carta ao jovem poeta Franz
Kappus: “Tudo,
mesmo o inconcebível, deve em nossa existência ser possível. [...] é esta a única coragem que nos é
exigida: a de sermos corajosos perante o mais estranho, o mais singular, o mais
inexplicável que formos encontrar”. [Grifo nosso].
Exigência inquietante, a desse “Tudo”, que é
obscuro, enigmático. Encontrá-lo, porém — e Blanchot, mais uma vez, nos instiga
a pensar —, é o movimento de “buscá-lo no dia, olhar o dia, tornar-se dia para
si próprio”. Um risco imenso implica essa busca, por ser a poesia, como
qualquer outra arte, a abordagem do que é sem garantia nem certeza. Criar,
tanto quanto viver, nos ilumina porque nos expõe à liberdade do que ainda está
por vir. Na sétima elegia, Rilke experimenta essa liberdade, ao encarar a si
mesmo, com a sensação de que “Estar aqui é maravilhoso”. Sensação semelhante
ilumina-se no último verso da reflexão existencial de Florisvaldo Mattos em
“Dia de Costa Azul”: “Feliz, aguardo a noite clamorosa”.
Salvador,
janeiro/março, 2020
NOTAS
[1] Cf. Ulrich Baer [professor de
literatura comparada alemã e inglesa da Universidade de Nova York], introdução
de The poet’s guide in life: the wisdom of Rilke. NY: The Random
House, 2005. Ed. bras.: RILKE, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. Trad. Milton
Camargo Mota. São Paulo: Martins, 2007, p. 32. Baer, também organizador dessas
cartas, informa que Rilke em 1925 escreveu o epitáfio para sua própria lápide,
em que a palavra “pura” [reiner] na
primeira linha é um homônimo de seu nome: “Rosa, ó pura [reiner] contradição / prazer de ser o sono de ninguém / sob tantas
pálpebras [Lidern]”. Acrescenta que Rilke, em carta de 26/12/1906
a um amigo, declara sua intenção de descrever uma rosa, sua flor predileta, “e,
em seguida, suavemente a desenrola ao longo de duas páginas, pétala por pétala,
palavra por palavra, pálpebra por pálpebra”. Lied (plural: Lieder] é
um poema estrófico escrito para ser cantado e ao mesmo tempo a canção que é
feita desse poema. Schubert e Schumann estão entre os grandes compositores de Lieder. Poeta de língua alemã, Rilke
nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, e morreu, aos 51 anos, em
Montreux, Suíça (1926).
2
Cf. os versos de Emily Dickinson: I’m
Nobody! Who are you? / Are you — Nobody — Too! / Then there’s a pair of us! /
Don’t tell! [...] // How dreary — to be — Somebody! (Eu sou Ninguém! Quem é você? / Você é — Ninguém —
também! / Então somos dois! / Não diga nada [...] // Como é chato — ser —
Alguém!).
3 Fugiria ao propósito do presente texto
considerar os aspectos que envolvem a leitura criativa, cuja experiência está
longe da que se pratica no sistema escolar, da alfabetização à universidade. De
todo modo, recomendamos um livro — Negociando
com os mortos: a escritora escreve sobre seus escritos, de Margaret Atwood.
Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. Atwood, canadense, nascida em
1939, é autora de extensa obra, que inclui ficção (principalmente, romances) e
não ficção. Diz ela nesse livro: “[...] o ato de ler é — sempre — tão singular
quanto o ato de escrever”. Tal singularidade é o que nunca se percebe na
“leitura-engolimento”.
4 Aqui, a câmera subjetiva, na imagem que é o soneto, ao funcionar como se fosse o
olhar do protagonista, o que intensifica a ação dramática, entra em relação com
o título de uma peça de John Van Druten, I
am a camera (1951), encenada na Broadway, adaptação do romance Goodbye to Berlin (1939), de Christopher
Isherwood, sobre a vida na Alemanha durante a ascensão do nazismo. A peça foi
adaptada para um filme de título homônimo, lançado em 1955, direção de Henry Cornelius, mal
recebido pelo público e crítica. Outro filme, um musical de grande sucesso, Cabaret (1972), também baseado na mesma
peça, com direção de Bob Fosse, foi protagonizado por Liza Minnelli, Michael
York, Marisa Berenson e Joel Grey. Com
incrível inovação técnica e poderoso efeito estético, Eisenstein usou a câmera
subjetiva em
O encouraçado Potemkin (1925)
para mostrar o massacre na escadaria de Odessa, a sequência de maior impacto do
filme.
5 Ver, a esse respeito, artigo de nossa
autoria, “O baile de quatro artes num poema de Florisvaldo Mattos”. In: Revista
da Academia de Letras da Bahia, jan. 2019, n. 57, p. 173-190. Trata-se do poema
“Itabuna, 1950 (Bar, Jazz, Bogart)”.
6 Ver, em relação à música, no poema
objeto do artigo referido na nota acima, o diálogo de Florisvaldo Mattos com
esses compositores e com o quadro O
ateliê vermelho e o álbum Jazz
(20 trabalhos em papel pintado com guache vivo e brilhante e recortado) de
Matisse.
O AUTOR
Escritor, com alto e louvado desempenho, como ensaísta, crítico literário
e de artes e editor, Valdomiro Santana
nasceu em Campo Formoso (BA), em 1946, e faleceu em Salvador, em agosto de
2022. Graduado em Psicologia, em 1972, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio
de Janeiro); Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (2008), pela UEFS
(Universidade Estadual de Feira de Santana); editor da Revista de Cultura da
Bahia (1998-2005) e UEFS Editora, desde 2010. Foi coordenador da edição
fac-similar da revista Samba (1999), um dos primeiros periódicos modernistas
baianos, e a edição da Poesia completa de Sosígenes Costa (2001), ambas
publicadas pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia; organizou e prefaciou
antologias de contos e publicou livros, com destaque para Literatura baiana 1920-1980, história, 1986; 2ª edição rev. e
ampliada, 2009; Pastelaria Triunfo,
crônicas, 2005; Experimentação-vida:
a poesia de Antonio Brasileiro, estudo, 2014. Colaborou para várias
publicações brasileiras.
[1] Cf. Ulrich Baer [professor de
literatura comparada alemã e inglesa da Universidade de Nova York], introdução
de The poet’s guide in life: the wisdom of Rilke. NY: The Random
House, 2005. Ed. bras.: RILKE, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. Trad. Milton
Camargo Mota. São Paulo: Martins, 2007, p. 32. Baer, também organizador dessas
cartas, informa que Rilke em 1925 escreveu o epitáfio para sua própria lápide,
em que a palavra “pura” [reiner] na
primeira linha é um homônimo de seu nome: “Rosa, ó pura [reiner] contradição / prazer de ser o sono de ninguém / sob tantas
pálpebras [Lidern]”. Acrescenta que Rilke, em carta de 26/12/1906
a um amigo, declara sua intenção de descrever uma rosa, sua flor predileta, “e,
em seguida, suavemente a desenrola ao longo de duas páginas, pétala por pétala,
palavra por palavra, pálpebra por pálpebra”. Lied (plural: Lieder] é
um poema estrófico escrito para ser cantado e ao mesmo tempo a canção que é
feita desse poema. Schubert e Schumann estão entre os grandes compositores de Lieder. Poeta de língua alemã, Rilke
nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, e morreu, aos 51 anos, em
Montreux, Suíça (1926).
[2]
Cf. os versos de Emily Dickinson: I’m
Nobody! Who are you? / Are you — Nobody — Too! / Then there’s a pair of us! /
Don’t tell! [...] // How dreary — to be — Somebody! (Eu sou Ninguém! Quem é você? / Você é — Ninguém —
também! / Então somos dois! / Não diga nada [...] // Como é chato — ser —
Alguém!)
[3] Fugiria ao propósito do presente texto
considerar os aspectos que envolvem a leitura criativa, cuja experiência está
longe da que se pratica no sistema escolar, da alfabetização à universidade. De
todo modo, recomendamos um livro — Negociando
com os mortos: a escritora escreve sobre seus escritos, de Margaret Atwood.
Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. Atwood, canadense, nascida em
1939, é autora de extensa obra, que inclui ficção (principalmente, romances) e
não ficção. Diz ela nesse livro: “[...] o ato de ler é — sempre — tão singular
quanto o ato de escrever”. Tal singularidade é o que nunca se percebe na
“leitura-engolimento”.
[4] Aqui, a câmera subjetiva, na imagem que é o soneto, ao funcionar como se fosse o
olhar do protagonista, o que intensifica a ação dramática, entra em relação com
o título de uma peça de John Van Druten, I
am a camera (1951), encenada na Broadway, adaptação do romance Goodbye to Berlin (1939), de Christopher
Isherwood, sobre a vida na Alemanha durante a ascensão do nazismo. A peça foi
adaptada para um filme de título homônimo, lançado em 1955, direção de Henry Cornelius, mal
recebido pelo público e crítica. Outro filme, um musical de grande sucesso, Cabaret (1972), também baseado na mesma
peça, com direção de Bob Fosse, foi protagonizado por Liza Minnelli, Michael
York, Marisa Berenson e Joel Grey. Com incrível inovação técnica e poderoso
efeito estético, Eisenstein usou a câmera subjetiva em O encouraçado Potemkin (1925) para
mostrar o massacre na escadaria de Odessa, a sequência de maior impacto do
filme.
[5] Ver, a esse respeito, artigo de nossa
autoria, “O baile de quatro artes num poema de Florisvaldo Mattos”. In: Revista
da Academia de Letras da Bahia, jan. 2019, n. 57, p. 173-190. Trata-se do poema
“Itabuna, 1950 (Bar, Jazz, Bogart)”.
[6] Ver, em relação à música, no poema
objeto do artigo referido na nota acima, o diálogo de Florisvaldo Mattos com
esses compositores e com o quadro O
ateliê vermelho e o álbum Jazz
(20 trabalhos em papel pintado com guache vivo e brilhante e recortado) de
Matisse.
O
BAILE DE QUATRO
ARTES NUM
POEMA
DE FLORISVALDO MATTOS
Valdomiro Santana*
Constante de sua Antologia
poética e inéditos (Salvador: ALBA, Coleção Mestres da Literatura Baiana,
2017, p. 242-3), eis o poema:
ITABUNA, 1950
(Bar, Jazz, Bogart)
Tinha tempo bastante a desfrutar.
(K. Kaváfis)
Baco adora quando desço a praça
Adami, caminho do Elite Bar.
Lá (no bar de Emetério), busco o morno
canto, próximo às mesas da sinuca;
observo os jogadores do apostado,
os ases das tacadas. O maior,
Zito Maleiro, já tuberculoso,
captura a solidão da bola sete;
o infinito resvala sobre o verde
espaço de luz acabando o jogo.
No ambiente etéreo, Raleu, um Gable
de cabaré no rosto juvenil,
confere ares de sonho ao botequim.
O garçom vem. Peço um vinho do Porto.
Ali, flagro o soluço do gargalo,
o intumescimento da taça e o rubro
trincolejar do vidro satisfeito.
As vitrinas do balcão, as prateleiras
alojando garrafas de bebidas.
A roda de gamão; o espelho e o rádio
Philips. Na sequência das notícias,
um julgado de saxes e trompete:
Duke Ellington, atacando “Perdido”,
acende um risco de néon na noite.
Sorvo o vinho do Porto, calmamente.
Atento o ouvido para o andar de cima,
ouço o ruído abafado da roleta
na sensação das coisas clandestinas.
Chegaram os amigos. Planejamos
o que faremos do frescor da noite.
Saímos. Vamos pela Rua da Lama,
em direção à Zona, ao Bar de Juca.
Lá ficamos até de madrugada.
Por que pensar na ciência dos abismos,
se temos muito tempo pela frente?
Antes fazemos hora, indo ao cinema.
Subimos a praça. Nunca perdemos
em nossa idade um filme de Bogart.
Um pintor chinês, Huang Pin-hung
(1864-1955), também poeta e crítico de arte, diz que uma tela pode ser
inteiramente preenchida, a ponto de que mesmo o ar não passe mais por ela, mas
guarda vazios suficientes para permitir que neles saltem cavalos.
O que esses vazios nos forçam a pensar?
Uma noção ao mesmo tempo topológica e quântica: a vizinhança de sensações. Toda
arte é um composto de sensações, é feita com sensações, a matéria que se torna
expressiva: as palavras e sua sintaxe — literatura; cores, traços de sombra e
de luz — pintura; forças insonoras que se tornam sonoras — música;
imagens-movimento e imagens-tempo — cinema.
Se toda sensação é o que em sua origem
está intimamente relacionado com alguma coisa que vibra, uma força, não uma
forma, é porque, como em pintura, diz Cézanne, a sensação é colorante, não colorida. Diante da tela
fixa, o que Cézanne nos faz ver não é a semelhança de uma montanha, mas a pura
sensação dessa montanha, a força do dobramento milenar de suas rochas, o
invisível desse dobramento, assim como, na mesma tela, a força térmica da
paisagem; e, em outra tela, a força da germinação de uma maçã. Van Gogh chegou
mesmo a inventar forças desconhecidas, como a de uma semente de girassol, a de
uma cadeira num quarto. Proust, em À la
recherche du temps perdu, nos faz ler as forças inexpressas do tempo (as
virtualidades), ainda que imperceptíveis, porque só alcançadas pela memória
involuntária. Stravinsky, n’A sagração da primavera, captou o que
era impensável até 1913, ao inventar um grande ritual pagão em cujo balé ritmos
desiguais e incomensuráveis se sobrepõem à melodia e à harmonia para produzir
os mais desconcertantes efeitos sonoros. Orson Welles, em Cidadão Kane, faz o olho ver o que naturalmente é impossível: em
profundidade de campo.
Sublinhemos então o que importa nesta
nota, que é a leitura do poema acima reproduzido de Florisvaldo Mattos: a
estreita relação da força com a sensação. Se a força condiciona a sensação é
porque pode se exercer sobre um corpo, isto é, precisamente sobre um ponto da
onda vibratória para que haja sensação. É elucidativa, a esse respeito, uma
frase de Guimarães Rosa em Ave, palavra:
“Avista-se o grito das araras”. O que, a um só tempo, esse bloco dissimétrico
de sensações — visão e audição — nos faz pensar e sentir? A relação de troca e
de ressonância mútua entre quatro artes: literatura (a descrição produzida pelo
agenciamento sintático de seis palavras), pintura (a potência cromática das
asas), cinema (a captação do voo em pura
imagem-movimento), música (a audição do timbre específico de voz que as
araras emitem).
Que ser é o poema “Itabuna, 1950” e como
ele nos chega aos olhos? Com cinco blocos de sensações, que são suas cinco
estrofes irregulares. Blocos em que a literatura está na vizinhança do cinema,
da música, da pintura. Sensações que, indiscerníveis no fluxo do texto, vibram,
se acoplam e se fendem. Um baile, pois, em que o poema, por sua singularidade,
se conserva como um puro ser de sensações. A realidade íntima de uma força é o
que a diferencia das demais forças, que constituem seu exterior. Se cada força
— a do composto estético de sensações criadas por uma arte — se caracteriza
pela distância que a separa das outras forças, é porque ela só poderá ser
pensada e sentida no contexto de uma pluralidade de forças. Neste poema, lemos
— tanto quanto vemos e ouvimos — esse exterior da força, seu fora, o que lhe é
íntimo, por ser aquilo pelo que ela existe e se define.
De saída, já no título, a força de uma
partícula, o fonema / b /: “Itabuna”;
e, mais do que no subtítulo parentético e rítmico — “(Bar, Jazz, Bogart)” —, o
que no poema vai se dobrar, desdobrar, redobrar. Fonema que, com sua consoante oclusiva
bilabial sonora, está na palavra que deflagra o texto, “Baco”, e agencia múltiplas conexões com outras palavras: “bar” (que se reduplica), “bola“, “Gable”, “cabaré”, “botequim”, “balcão”, “bebidas”, “abafado” “abismos”, “Bogart”.
Subtítulo que, com o realce gráfico do
itálico, já enuncia o poema como um tríptico e o torna vizinho da pintura. A
técnica ou forma do tríptico inspira-se na arte cristã que surge na Idade
Média, a princípio de caráter devocional, como na liturgia dos ritos católicos,
em que se imbricam três mistérios — vida-morte-ressurreição
—, formando um conjunto de três pinturas unidas por uma moldura tríplice. Há os trípticos
dobráveis e os completamente rígidos. Ao longo do tempo, entretanto, o termo
terminou sendo mais usado para designar qualquer coisa de três partes, as quais
são apreendidas na configuração de uma unidade. Se não é o caso de se historiar
aqui essa técnica, três referências são fundamentais: o Retábulo de Stefaneschi (1320), de
Giotto, para um dos altares da Basílica de
São Pedro em Roma; os
de Bosch, que, como toda sua pintura, residem na criação fantástica ou
alucinatória de imagens, entre os quais O jardim das delícias terrenas (1503-15), e, na contemporaneidade, os de Francis
Bacon, em que, nos retratos de rostos, a imagem deixa de ser ilustrativa, a
representação desaparece para acolher as forças que habitam o corpo e o
desfazem — o rosto não mais como a essência de uma personalidade, mas a
aparência de um enigma e do que o leva para fora de si mesmo, o que é
extremamente perturbador.
Subtítulo
que, em si e por si, é a imbricação de três temas, dobra sobre dobra —
|Bar|Jazz|Bogart|
—, em que cada uma, ao invés de ser
molde, modula-se na composição das linhas de força do poema, donde o que se
desdobra e redobra. Se o subtítulo de “Itabuna, 1950” é graficamente fechado,
virtual, seu texto é uma totalidade aberta, atual. Título, subtítulo e texto
que se respondem, deslizam, indo e vindo, ao vibrar, entrelaçar-se e fender-se
em sua singularidade.
“Baco adora quando desço a praça / Adami,
caminho do Elite Bar”. Em vez de sua escansão, já que as convenções métricas
são rígidas, experimentemos a leitura destes dois versos no contínuo da frase
inteira, desdobrada, sem a elipse preposicional — Baco adora quando desço a praça Adami, a caminho do Elite Bar —, em
que os agrupamentos fonéticos têm grande valor timbrístico, mas sem significado
léxico, por causa das
vogais diacríticas / á / (quatro
vezes), / ó /, ã /, / i /, / é /:
/ bakoá /, / dó /, / kuã /, / dessoá /, / prassaá /, / dâmi /, / akamí /, / nhundué /, / litibá /.
Esses agrupamentos fonéticos lembram as
possibilidades exploradas na música vocal, a partir de Pierrot lunaire (1912), o sprechgesang (canto falado) de Schoenberg, e o que, no domínio da poesia
e da linguística, identifica a voz humana como ampla fonte de experimentação.
Lembram Choros no 10 (Rasga coração), de Villa-Lobos, composto
em 1926 para grande coro e orquestra, com três partes, em que a primeira começa
com uma sequência de acordes pesados que soam como a vibração de enormes
rochas; a segunda mistura sons da floresta tropical com inúmeras citações de
cantos de pássaros, música dos índios e música da cidade; a terceira usa um
tema indígena, “Macocê-cê-macá”, coletado
em 1912 nas excursões amazônicas de Roquette Pinto, sobreposto a um xote de Anacleto de Medeiros (Yara, 1896), para expressar os versos de
“Rasga coração”, de Catulo da Paixão Cearense, formando um emaranhado tão
complexo quanto fascinante, de maneira onomatopaica, em que as vozes vão a seu
limite. Um fragmento de Choros no
10 é o que ouvimos na última imagem de Deus
e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha, em que o sertão vira
mar.
Voltemos a “Itabuna, 1950”. Trata-se de um
poema narrativo, mas que irrompe pelo meio e não tem fim, de tanto que se
desdobra e redobra em sua composição. E esta é uma de suas forças, a
intempestividade, porque sob o signo de Baco, deus do vinho e de todos os
outros prazeres, alegrias e delícias. Porém, no instante dessa irrupção, o poema, por causa do
agenciamento de um verbo, “descer”, e logo no primeiro verso, faz devir com o
cinema, torna-se cinema, sem deixar de ser poema e com o poder de mudar o que
no cinema é imagem-percepção, imagem-afecção e imagem-ação.
Lemos, neste poema, não o registro, como
comentário lírico, de uma percepção antiga, porque o que está em jogo independe
do estado do poeta no instante em que dela se lembrou. Não sentimentos ou
afecções vividas naquele tão distante 1950, à noite, em Itabuna, mas o que
transborda a força do que foi vivido e vale por si mesmo. A memória em si não é
determinante em arte; o que importa, como na Recherche de Proust, é sua fabulação criadora. Florisvaldo
Mattos não recorre à memória, não a convoca, para comemorar aquela noite. O que ele faz é tornar-se
contemporâneo do adolescente que foi, como Fellini em Amarcord. Faz um devir-adolescência, sem deixar de ser quem foi,
mais de quarenta anos depois, quando escreveu o poema.
O devir, um dos conceitos filosóficos de
Deleuze, não é o que atinge uma forma (assimilação, identificação, analogia,
reprodução), mas o que encontra um espaço de vizinhança, de indiscernibilidade
ou de indiferenciação tal que já não seja possível distinguir-se do que quer
que seja, até mesmo de uma molécula. A música de Mozart, por exemplo, não é uma
imitação de pássaros, embora esteja penetrada por um devir-pássaro. O devir é construtivista, tanto
quanto o acontecimento, outro conceito de Deleuze, como adiante veremos.
Há
uma multiplicidade de agregados sensíveis em “Itabuna, 1950” — mas, o que é
ainda mais impressionante na força de sua composição estética, o movimento de
sua leitura faz vibrar intensamente a epígrafe, um verso de Kaváfis, o maior
poeta grego moderno; epígrafe que, na construção do poema, funciona
musicalmente como uma espécie de rubato, pois ora acelera, ora desacelera a
pulsação do texto, seu ritmo, e de tal modo que dela Florisvaldo tira todas as
consequências: “Tinha
tempo bastante a desfrutar”. Não é o caso, nesta nota, de referir o poema de
Kaváfis, “Prazo de Nero”, do qual foi retirada a epígrafe, e considerar seu
contexto histórico e mitológico.
Verso é o que,
etimologicamente, quer dizer volta. Sim, o retorno de um torneio de sensações,
de passos. A cada retorno, as sensações se diferenciam. Daí o baile na
experimentação de pensar e sentir “Itabuna, 1950”, a novidade que em si é;
novidade que a leitura não deixa passar ao largo, porque nela se entranha e a
prolonga na multiplicidade de suas sensações. Por isso, “autor e leitor estão
em igualdade perante a obra e nela”, como na reflexão de Blanchot sobre o
espaço literário, são “ambos únicos”. O leitor não é menos “único” que o autor,
pois também ele “é aquele que, de cada vez, diz o poema como novo, e não como
redito, já falado e já ouvido”.
Experimentemos então a força do
signo tempo em “Itabuna, 1950”, não à luz da leitura de momentos atrás, na
abertura desta nota, e que remete a um transcurso de meses. Lido de novo o
poema, não temos uma sedimentação de suas sensações; nada se sedimenta em
literatura ou em qualquer outra arte, porque a potência da diferença da obra,
cada vez que é lida, ou vista, ou ouvida, não se reduz à sua identidade. Na
leitura de agora do poema, cada bloco de sensações volta a girar
diferente em seu próprio eixo e dele sai, por se tensionar mais uma vez ao
máximo, e, nessa desmedida, a de sua (nova) intempestividade, nos afeta. O
tempo, que é a matéria do poema, o passado, e num locus — 1950 em Itabuna
—, constitui-se, não depois do presente que ele foi, porém simultaneamente,
porque se desdobra a cada instante em presente e passado, que diferem um do
outro em natureza, ou, o que dá no mesmo, desdobra o presente em duas direções heterogêneas, uma que se
lança para o futuro e outra que cai no passado. Esta, a experiência, a do
virtual e atual implicados, correlativos, que Florisvaldo compartilha com quem
o lê — a da cisão do tempo em duas dimensões coexistentes que se conjugam em
configurações singulares: uma, que faz passar todo o presente, e outra, que
conserva todo o passado.
O verbo “descer”, no primeiro bloco de sensações do poema, não é outra
coisa senão a decupagem de um movimento de câmera, que traça o “caminho” até o bar
de Emetério e, lá, agencia outro movimento, o do verbo “buscar”, e outro, com a
câmera em travelling. E um plano
aberto bate na tela que se vê na
leitura: o das “mesas da sinuca” e seu verde; e primeiríssimos planos na mesma
sequência (sem cortes): os das tacadas dos jogadores profissionais, “os ases”,
um dos quais, Zito Maleiro, “já tuberculoso”, com os sinais em close da doença; o plano de detalhe que
“mata” o jogo: a bola sete, “em sua solidão”, que Zito Maleiro “captura”. A
força expressional deste verbo dinâmico construtivo: “capturar”.
Outro jogo: Florisvaldo, ao trabalhar com as palavras, cria uma sintaxe
para introduzi-las na sensação da sinuca. Daí a ambiguidade: a “morte do jogo”
e a morte iminente do próprio Zito Maleiro. No texto não figura um signo, um
dos termos-chave desse
jogo de mesa: caçapa (cada uma das seis redes onde caem as bolas), ou buraco,
gíria tão a gosto dos profissionais do taco. Um signo não legível, mas não
oculto, que, no campo semântico do único jogador nomeado em sua alcunha, deixa
entrever o que ele também é: cova.
Outro verbo de movimento: “resvalar”. No devir-cinema do poema, o que
também mostra a câmera, com a lente grande-angular, em profundidade de campo:
“o infinito” — da bola sete, por ser a última e de mais alto valor da sinuca —
“resvala sobre o verde / espaço de luz acabando o jogo”. Em sua
acepção coloquial dramaticamente irônica, “bola sete” é quem anda na corda
bamba; “estar pela bola sete” é dar-se mal, ou prestes a sucumbir. No ato mesmo
de cumprir seu destino, que é, no sentido grego, seu pathos, “a prova que se funda sobre aquele que deve suportá-la”,
Zito Maleiro encena “o infinito” de dupla solidão, ritualiza-o: o dessa bola em
sua captura e queda, no “verde /
espaço de luz”, e o dele próprio, no espaço escuro de sua morte. Aqui, um
agenciamento histórico: a estética da luz no cinema expressionista alemão na
era muda e no filme noir do cinema
americano, que teve seu apogeu entre 1939 e 1950.
Passeio da câmera pelo bar, outro close: o de “Raleu, um Gable / de cabaré
no rosto juvenil/ [que] confere ares de sonho ao botequim”. O / b / que se
triplica, aliterado: Gable / cabaré / botequim. Câmera
parada e do ponto de vista do narrador: “O garçom vem”. É o cinema, não a
literatura, que cria o automovimento
da imagem: aqui, o do garçom vindo. Um roteiro subjacente ao poema. “Peço um
vinho do Porto”: plano americano e close do
narrador; close do garçom. Pedido sem
a faixa sonora correspondente: elipse do texto e elipse da imagem
cinematográfica, porque não se lê nem se vê a decupagem do movimento do garçom
trazendo a bebida. O que se vê e ouve é o instante de máxima força do poema,
sua maior vibração: “Ali, flagro o soluço do gargalo, / o intumescimento da taça
e o rubro / trincolejar do vidro satisfeito”. Por que máxima força? Porque o
narrador chega ao avesso ou limite de sua linguagem, a seu fora, ao ser surpreendido
por esse acontecimento, o de uma tripla individuação sem sujeito, em que o
verbo “haver”, impessoal, é subjacente ao que ocorre.
Vemos então o
que não é mais a lógica sensório-motora da imagem-percepção, imagem-afecção e
imagem-ação do movimento, como no cinema clássico, mas o que lembra o
surgimento de imagens óticas e sonoras puras, como no cinema moderno, a partir
de Orson Welles e do neorrealismo italiano. “O tempo está fora dos eixos”, diz
Shakespeare no Hamlet. O tempo não
mais está subordinado ao movimento, como mostrou Kant, é o movimento que se
subordina ao tempo, que deixa de ser cardinal para ser ordinal. Tempo que, em
sua pura ordem vazia e imutável, não é eterno e não nos é interior, porque nós
é que somos interiores ao tempo, no qual nos movemos, mudamos, nos perdemos e
nos redescobrimos. O tempo em pessoa.
O tempo como nossa única subjetividade (desterritorializada).
Nos três versos de máxima força que
destacamos, com sua potência do impessoal, o devir que lembra o cinema de Welles,
o de Rossellini, o de Antonioni e também o de Ozu: a captação do que acontece. Ainda
que breve, ou instantâneo, como o soluço do gargalo, o intumescimento da taça e
o rubro trincolejar do vidro —, um acontecimento é o que se prolonga, por seu
imenso suspense em que está imerso, no tempo morto em que vem ocorrendo. Não
que haja um tempo morto antes e depois do acontecimento: o tempo morto está na
própria espessura do acontecimento, na espera delirante (não no sentido
clínico) do inesperado. É a arte, aqui o cinema, que capta o acontecimento, não
a mídia, pois esta só se interessa pelo antes
e o depois, a fim de
espetacularizá-los, o que nos transforma em olheiros passivos ou, pior, em voyeurs. Aqui, em vez de sujeito, há um
puro predicado — a potência do fora. A sensação (molecular) de “satisfação”
(emissão da onda vibratória) é do vidro, que esplende rubro, com o vinho do
Porto, não do poeta.
A força do verbo “flagrar” na primeira
pessoa, “flagro”. Dois encontros consonantais: o da fricativa surda / f / com a lateral alveolar / l / e o da velar sonora / g / com a vibrante alveolar / r /. Força que se intensifica por causa
do / a / tônico, na primeira sílaba,
em que a boca alcança a sua maior abertura.
Irrompe essa força, na elocução dos três versos destacados, com um
advérbio de lugar, “ali”. O concurso dos
timbres em “Ali, flagro” só faz potencializar a estranha e
poderosa cadeia consonantal de “o rubro
/ trincolejar do vidro satisfeito”. O que são esses / br /, / tr /, / dr /, em que há
fechamento — sonoro-surdo-sonoro — de cada uma dessas primeiras consoantes
vibrando com a segunda, que se repete, senão moléculas acústicas? Imediata
conexão com o que ouvimos na primeira parte d’A sagração da primavera, de
Stravinsky, em que são incrivelmente desconcertantes os acordes produzidos por
quatro fagotes e oito trompas. Liame quase imperceptível da literatura (aqui, o
poema) com a música. É o devir-música de “Itabuna, 1950”.
Raro
e surpreendente, por seu puro som poético, o verbo “trincolejar” substantivado.
A irrupção desse vocábulo polissílabo no corpo de “Itabuna, 1950” mostra o uso
da língua portuguesa por Florisvaldo, ao criar sintaticamente, nessa língua,
uma língua estrangeira que não preexiste e sem nenhum neologismo ou
bilinguismo. Faz a língua gritar, gaguejar, balbuciar, murmurar em si mesma.
Abre sulcos no português e toda a linguagem, a da construção do poema, chega a
um limite. É essa força — rítmica — da linguagem em seu avesso que produz uma
audição: a da física das partículas do vidro. Força que não existiria se o
verbo substantivado fosse “tilintar” (trissílabo) ou “trincar” (dissílabo). Sensação
enquanto sensação: ela vale por si mesma e, como tal, se conserva. Florisvaldo
dialoga com o Stravinsky da Sagração
e com Varèse em Ionisation, música
eletroacústica, pois ambos os compositores tornam sonoras, com o máximo de
intensidade, forças insonoras.
Proust
em Contre Sainte-Beuve: “Os belos
livros estão escritos numa espécie de língua estrangeira”. O que isso quer
dizer? Que todo grande escritor se encontra como um estrangeiro na língua em
que se exprime, mesmo quando é a sua língua natal.
“Trincolejar”
é um metaplasmo, com acepção equivalente à de “tilintar” e de “trincar”, que é
produzir som metálico, tinir. O alumínio, um metal, por seu teor de óxido,
entra na composição do vidro. Uma das surpresas desta leitura é a abonação,
pelo Caldas Aulete, de uma palavra, “trincadeira”, cujo verbete diz: “Casta de
uva tinta, cultivada no Douro, em Portugal, que produz muito e bom vinho e é
boa para comer [...] Há também uma espécie de trincadeira branca, do Cartaxo
[cidade portuguesa do distrito de Santarém, no Ribatejo]”. É no Douro, a mais
antiga região demarcada do mundo, pelo marquês de Pombal, em 1756, que se
produz, entre outros vinhos de qualidade notável, o vinho do Porto, a partir de
uma ampla variedade de castas tradicionais, cerca de trinta, com cachos de bagos relativamente pequenos e de pele
grossa; donde, antes da fermentação, seu tão concentrado mosto (sumo de uvas
frescas), o que dá, como ao Ruby Reserva, características incomparáveis de cor
(vermelho escuro, ou rubi, rubro), textura, aroma e sabor intensos, frutados.
Este
momento mais alto do poema. Pura audição e pura visão, que se entrelaçam e se
fendem: “o soluço do gargalo, / o
intumescimento da taça e o rubro /
trincolejar do vidro satisfeito”.
Note-se a progressão harmônica do artigo definido “o”, que soa “u”, em toda a cadeia desses três versos,
fundindo-se com os substantivos correspondentes.
O
poeta como ouvinte e vidente. Vidência essa, porém, que não é uma qualidade de
seu olhar de espectador, é uma qualidade possível da própria imagem. De pronto,
umas das associações dessa cor é com sua aparição tantas vezes na pintura de
Matisse, como no quadro O ateliê vermelho (1911), no qual uma das singularidades mais belas é,
num ambiente de tantos objetos, o detalhe da taça em sua transparência, cujo
cristal vibra: o vermelho predominante, que através dela avança, ajuda a criar
a sensação de espaço fechado; uma taça única e que brilha, mais do que qualquer
outra taça, porque dotada de vida autônoma graças aos leves traços que a
sustentam praticamente no ar. Mas a associação mais pregnante é com a descrição
que o pintor faz de sua temporada no Taiti, a paradisíaca ilha do Pacífico, em
1930: percebe a luz de lá, que ele acolhe e desfruta, como “carnuda, medular e acariciante”, cujo efeito é como o de “mergulhar o
olho em uma taça dourada”. Ainda que para Matisse o Taiti não tenha sido uma
experiência que resultasse em produção pictórica significativa, nela
inspirou-se ao criar uma água-forte para o poema de Mallarmé, “As janelas”, em
que se lê: “Seus olhos, no horizonte inundado de luz, / veem galeotas douradas,
belas como cisnes”. Em 1941, quando uma doença incurável o incapacita a
trabalhar com a pintura, Matisse descobre uma técnica que o apaixona, a do
recorte: a tesoura permite-lhe desenhar
linhas ondulantes em papéis previamente coloridos com guache, revalorizando as
cores puras e simplificando os contornos. O Taiti de Matisse é o da luz que lá
ele viu e o fez delirar, diferente do de Gauguin, que lá viveu.
Quarto bloco de sensações deste devir-cinema de “Itabuna, 1950”: a
câmera panoramiza “As vitrinas do
balcão, as prateleiras / alojando garrafas de bebidas”; enquadra “A roda de
gamão; o espelho e o rádio / Philips”. Aqui, no fluxo desses planos, a força do
uso sintático de um termo técnico do cinema: “sequência”. Termo esse que
agencia um poderoso meio de comunicação de massa, à época: o rádio. Também
jornalista e pesquisador desse e de outros meios, Florisvaldo poeta faz vibrar
um sintagma: “sequência das notícias”, como a presentificação de faits divers e dos dramas do mundo.
Rádio na captação pelo poema que se torna cinema, sem deixar de ser poema.
Rádio como um flash cinematográfico e
no que é potente — um aparelho da marca Philips.
Dois
signos, notícias e entretenimento, com a irrupção de “um julgado de saxes e
trompete: / Duke Ellington, atacando ‘Perdido’, / acende um risco de néon na
noite”. Não a interpretação desse jazz, composto por Juan Tizol em 1941, mas o
que passa, o “julgado”, pela potência desses metais da Orquestra de Ellington —
da qual Tizol era um membro — que o gravou pela RCA Victor em 1942. (Erwin
Drake e Hans Lengsfelder escreveram a letra, em 1944; mas, como se sabe, a
música não costumava ser cantada por essa banda, com a exceção de Ella
Fitzgerald em seu álbum de 1957; depois, houve muitas gravações, como a de
Sarah Vaughan, Dinah Washington, Quinteto Charlie Parker e Dave Brubeck).
Note-se a força do verbo “atacar” no gerúndio: “atacando”.
Signo
que importa sublinhar nesse jazz é o de seu título: Perdido. Que, tanto na
referência do espanhol original, a Perdido Street — uma rua de Nova Orleans,
berço do jazz —, quanto em português, significa simplesmente “perdido”, mas
também o que é “indecente” ou “desleixado”.
Com
a força da dupla aliteração em / n /,
“néon na noite” — beleza dessa consoante nasal fechada que soa quatro vezes
—, o poema, na construção não linear de seu ritmo narrativo, acende, com a
visibilidade dessa imagem cinematográfica, a deambulação boêmia dos amigos (não
nomeados) no “frescor da noite”: do Elite Bar para o Bar de Juca, na Zona, palavra
grafada com inicial maiúscula e cujo índice é o trajeto de seu logradouro
degradado, a Rua da Lama. Aqui, outra força: a da vizinhança topológica dos
signos das ruas — esta, de Itabuna, e aquela, de Nova Orleans.
De
novo, a irrupção de Baco: “Sorvo o vinho do Porto, calmamente”. A potência da
diferença que é “sorver”, com a intensificação de um advérbio de modo, em vez
de simplesmente “beber”. Na primeira pessoa do indicativo presente, “sorvo”, a
força da primeira sílaba, soando “sôr”,
formada pela aglutinação do / s /
surdo, a vogal tônica e fechada / o /
e o / r / forte, prolongado, harmoniza
a sonoridade da palavra porque modula a emissão da altura da segunda sílaba,
que soa “vu”.
No
mesmo bloco, a conexão disjuntiva de dois sentidos — gustação e audição:
“Atento o ouvido para o andar de cima, / ouço o ruído abafado da roleta / na sensação
das coisas clandestinas”, já que os cassinos estavam (e continuam) proibidos no
Brasil desde 1946, por decreto do governo Dutra, sob o argumento de que “o jogo
[de azar] é degradante para o ser humano”.
A
conexão, que evoca [Humphrey] Bogart, ícone da Era de Ouro de Hollywood, é
dupla: no subtítulo fechado de “Itabuna, 1950” e como a última palavra do
poema. Não, porém, última como fim, já que sua leitura é circular, um presente
contínuo, com o gerúndio “indo”, aberto no espaço da memória, onde, para aqueles
adolescentes de 1950, vive o cinema, a única arte de massa do século XX e a
mais fascinante. Bogart, no caso, sem que o poema precise explicitar, é Rick
Blaine, o protagonista de Casablanca (1942),
filme dirigido por Michael Curtiz. Aqui, também, outra conexão topológica, a do
signo cassino em dois bares: num, real, o de Emetério, em Itabuna, o jogo é
escondido; e noutro, imaginário, o Rick’s Café Américain, em Casablanca, o jogo
é livre, porém só na aparência, porque sem fair
play, regido por um intrassigno, a trapaça, que é íntima da corrupção — o
conluio entre o chefe da polícia local, o capitão Louis Renault, feito por
Claude Rains, e Rick; jogo, pois, em que a sorte é (quase) inexistente naquela
cidade da costa atlântica do Marrocos, protetorado francês, em plena Segunda
Guerra Mundial, sob ocupação nazista (dado factual), onde se desenrola um
melodrama político e amoroso (dado fictício), em que Ingrid Bergman faz o papel
de Ilsa Lund.
Outra
visibilidade não visível, mas não oculta no poema: Bogart evoca de imediato o
americano a um só tempo amargo, cínico e sentimental, que é Rick, em Casablanca, dono do único lugar
interessante na cidade, a qual atrai refugiados de vários países. No Rick’s,
toda noite, entretenimento e a esperança de ganhar no cassino para poder pagar
o visto do voo para Lisboa, de onde se pode ir para a América. No bar de
Emetério, também entretenimento e jogos — o do gamão e o da sinuca, este
apostado, mas permitido, e o da roleta, escondido —, além de lugar onde se
encontram amigos. A evocação da Orquestra de Ellington, no rádio Philips do bar
de Emetério, liga-se a audições de jazz no Rick’s, conquanto seu ponto alto
sejam o piano e a voz de Sam, personagem interpretado por Dooley Wilson, que
canta As time goes by, canção de Herman Hupfeld, composta em 1931, internacionalmente famosa por causa
do filme, cuja trilha instrumental é de Max Steiner, executada pela Orquestra
da Warner Bros.
O signo jazz, que vibra duas vezes no poema, em seu subtítulo e no
quarto bloco, entra em relação com um livro de Matisse, a propósito do qual diz
o pintor: “Não basta pôr cores, por muito
belas que sejam, umas ao pé das outras, é preciso ainda que essas cores atuem
umas sobre as outras. Senão é pura cacofonia. Jazz é um ritmo e uma significação”. [Grifo nosso.] Título desse livro: Jazz, publicado em 1947, cujo processo
criativo começa em 1943, quando Matisse, ainda fisicamente muito debilitado,
convalescia da grave intervenção cirúrgica a que se submetera. Obrigado a
passar longos períodos na cama, ele dedicou-se obstinadamente ao desenho “com a
tesoura”. Não era a primeira vez que utilizava as colagens, mas, nas 20
composições que constituem Jazz,
Matisse foi mais longe. Durante mais de dois anos de trabalho experimentou
formas e cores, utilizando folhas de papel que pintava, com guache vivo e
brilhante, e recortava até atingir o resultado pretendido. Contou desde o
início com o apoio cúmplice e entusiástico do editor, Tériade (pseudônimo de Stratis
Eleftheriades, grego, nascido em Mitilene, que a partir de 1915, em Paris, tornara-se
um respeitável crítico de arte e foi o fundador e diretor, na década de 1930,
de uma revista lendária que circulou até 1960, Verve, também o nome de sua casa publicadora).
Leitura de novo do poema para experimentar o que em sua narrativa é o
fluxo das pessoas verbais: a primeira do singular em “desço”, “busco”,
“observo” e “peço” para a transformação em “flagro”, que desterritorializa a
subjetividade com a individuação sem sujeito do triplo acontecimento que
sublinhamos.
Esse
acontecimento em cadeia que se intensifica, o ápice do poema, tem a força do
enunciado “Chove”, o qual é o máximo de condensação de “Há chuva”. No “há”,
pura impessoalidade: soluça o gargalo da garrafa de vinho do Porto, a taça se
intumesce quando nela é servida a bebida e esta, por sua vez, esplende em sua
tonalidade de vermelho, o que faz vibrar o vidro e o “gratifica” na
funcionalidade do objeto que é. Entretanto, no limite da linguagem, em seu fora
ou avesso, o poeta se torna — sem deixar de ser o que é em seu corpo — a força
do que capta, o “flagro”; entra em relação com essa força, faz um
devir-molecular com a matéria da garrafa e da taça e com o que, nesta, é a
emissão de partículas luminosas e sonoras (trincolejantes), a da cor do vinho
do Porto, a qual se celebra numa sensação que vale por si mesma.
Terceira
passagem: da primeira pessoa do singular, “sorvo”, para a terceira do plural,
“chegaram”, em que a aproximação visível dos amigos converte-se em efusão, e
esta, coletiva, na primeira pessoa do plural — “planejamos”, “faremos”,
“saímos”, “vamos”, “ficamos”, “temos”, “subimos”, “fazemos” e — com a sintaxe
precedente do advérbio de negação “nunca” — “perdemos”.
O
poema de novo lido, falado, ouvido, e sua reviravolta, a do ritmo não linear
com o porto da deambulação boêmia, o Bar de Juca, na Zona, onde “ficamos até de
madrugada”. Reviravolta porque a sensação que se tem do tempo é elástica,
plástica e mágica em seu fascínio, a de que o tempo, uma dobra, ao dar um
drible em si mesmo e não se lançar para o futuro — “ficaremos” — daquela noite,
é a prelibação do porto com outro prazer, assim expresso nos três versos do
fecho: “Antes fazemos hora, indo ao cinema. / Subimos a praça. Nunca perdemos /
em nossa idade um filme de Bogart”. Daí
o que ilumina ontologicamente todo o poema, com a epígrafe de Kaváfis, que
ressoa desdobrada e redobrada nos dois versos anteriores: “Por que pensar na
ciência dos abismos, / se temos muito tempo pela frente?”.
“Itabuna,
1950” é, por isso, um poema barroco, não no estrito sentido estilístico literário. Barroco
porque nele não há uma essência, mas um traço, a dobra —que, ao transbordar
todo limite, vai ao infinito, como em El Greco e Bernini: desdobra e redobra as
sensações que suscita, as quais se entre-expressam como vibrações ou fluxos.
Barroco, ainda, à luz dessa reflexão, porque continua pulsando após a leitura.
O agenciamento do advérbio de intensidade “muito”, no segundo verso do quinto
bloco, faz deste poema o que ele é em sua singularidade: o prazer de uma
conversa com o leitor que se prolonga ao máximo.
Já que a “ciência dos abismos”, a perspectiva
da morte, é medida pelo tempo, ser adolescente — não mais criança e ainda não
adulto, porque na fronteira da juventude —é experimentar plenamente a adolescência,
captar forças não sonoras e não visíveis, como a duração e a intensidade.
Captação essa que é a de uma arte, a poesia, aqui em íntima relação com outras
artes.
Salvador, setembro, 2018
_________
* Jornalista, escritor, mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e editor da UEFS Editora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário