sexta-feira, 4 de novembro de 2016

TERCETOS SENSORIAIS

                                                             Imagem: Apollonia Saintclair


Honorino Rial



La mer, la mer, toujours recommencée!
           O recompense après une pensée
           Qu´un long regard sur le calme des dieux!
                                                                       (Paul Valéry)
À l'austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle,
"Quelle est donc cette femme?”, et ne comprendra pas...
                                                           (Félix Arvers)
Crede mihi, non ulla tuae est medicina figurae
   nudus Amor formae non amat artificem. 
                                                           (Propércio)
Omnia vincit Amor: et nos cedamos Amori.
                                                            (Virgílio)
           As mãos liriais, / Os braços divinais / O corpo algo sem par / Os pés muito pequenos / Enfim eu vi nesta mulher /             Uma perfeita Vênus.
                                               (Benedito Lacerda e Aldo Cabral)

Imagem: Apollonia Saintclair

Não és Marie e nem és Mennessier,
E não serás tampouco Nodier,
Como eu nunca serei Félix Arvers.

A vida tem mistérios e segredos.
Não se pode viver de sonhos ledos,
Se a mente se escancara para os medos.

Penso que meu destino é sem remédio.
Abro a porta, surpresa: um corpo nédio,
Que surge para sepultar meu tédio.

Dizem: na encruzilhada, o Cão atenta,
Com todo o turbilhão que o tempo inventa.
Miro-te o rosto: uma ave na tormenta.

Em dias que se vestem de mormaço,
Sopras tua candura neste espaço
E à cobiça te expões de um sol devasso.

Ou por outra, sentada em um jardim,
De olhar tão longe e tão perto de mim,
Vieste, gasta de noites do sem-fim.

Silêncio é tudo que não nega sendas
E não exige que se ponham vendas
Em quem parece vir de antigas lendas.

Não posso te dizer o que ora sinto.
Se a outros, louco, disser, dirão que minto.
Nem é para mim solução o absinto.
Gustave Moreau: Salomé Dançando para Herodes

Até penso que és mito, deusa ou fada.
Vontade de deixar-te embriagada,
Hoje, não amanhã, diva sonhada!

Ah, ponho-me de fauno na clareira
Urbana. Logo um vulto, alvissareira
Imagem; para mim, Ceci trigueira.

Contemplo-te do fundo de meus ais:
Uma estátua, mas não de mãos liriais.
Ah, boneca tu não serás jamais.

Em meu desvairo, perdido e sem nexo,
Vendo em ti do sol vívido reflexo,
Pergunto-me como será o teu sexo.

Tu nada tens de Laura, nem de Ofélia;
Nada de flor, bem mais tens de bromélia.
Não és Cíntia, nem Lia, jamais Amélia. 

Pra mim és Salomé de Sá-Carneiro, 
Dançando e contorcendo-se - um salseiro! -,
A me fazer sonhar o dia inteiro.

Vejo a morena coxa – quanto brilha! -,
Tanto quanto brilhou Ninon Sevilla,
Numa sonora mexicana trilha.

Talvez até Kiki de Montparnasse,
Coração de vanguarda; outra, que trace
Em mim caminhos, medre e me ultrapasse.
Kiki de Montparnasse. Lucien Mandel, 1923

Tens um livro na mão. A mente aflita,
Curiosa, indaga: "Não será Lolita?"
Ânsia maior talvez de quem cogita.

Choras porque perdeste a virgindade,
Por uma distração de pouca idade,
Com um noturno assaltante da cidade.

Sorris dessas lembranças da alvorada,
E de outras, que não servem para nada.
Hoje, mulher, não queres ser manada.

Os dias sem nenhuma maquilagem
Passas, a idade não exige; a imagem
Só precisa de um ato de coragem.

Quando os fados atingem belas almas,
Deuses vêm e lhes oferecem palmas.
Eu te ofereço mel, em tardes calmas.

Tu me pertences; ouve esse ditame.
Encaro a rosa. Pedes-me que te ame.
Beijo-a. Se recuso, serei infame.

No quarto, como num lance de dados,
Eu, com meus olhos vãos, arregalados,
Entravas tu, de peitos derramados.

De coração aberto qual um mar,
Eu, só espanto, sentado, a te mirar
Os seios, duas bolas de bilhar...

Entre lençóis ou no sofá da sala,
És a luz que me espera. A Lua fala.
Sonoro vento sopra em céu de opala.

Subo e chego ao pedestal dos seios;
Percebo lentamente os teus gorjeios.
Se desço em disparada, perco os freios...


Tens no corpo talvez um tino sábio.
Ainda mais ambicioso chego ao lábio,
Adornado de flor, meu astrolábio.

Mordes-me e, de teus antes ternos
Olhos, ora de fogo e brasa internos,
Fluem ardências semelhando infernos.

Beijo-te. Tu me lambes, eu te lambo 
Sexo e pernas, e os seios cor de jambo.
Dali saímos para dançar um mambo.

Quando vejo na praia os claros seios,
De suavidades e beleza cheios,
O idioma deles soletrando, leio-os.

Na praia azul, em tarde de preamar,
Nua, vais; mas percebo um risco no ar,
De eu ir atrás e me perder no mar.

Sentamo-nos à beira do caminho.
Hebe nos serve taças de áureo vinho.
Brindamos. Eu te cubro de carinho.

Tens uma lua de ouro dentre as pernas.
Levas-me a ela, com mãos leves e ternas.
Rasgam-me o corpo sensações eternas.


Na plenitude desse instante raso,
Vibras: és como uma água a encher um vaso.
Nem mesmo ramos fazem pouco caso.

Súbito, deste-me a rosa, e eu beijei-a.
A rosa rubra de uma vã sereia,
Estendida na minudente areia.

Eu, de novo, te lambo e tu me lambes,
Neste paraíso em que somos dois bambis.
Sol, sê testemunha, antes que descambes!

De cima a baixo, ó tempora, ó mores!,
E eu, a sentir que vem de teu clitóris
Uma doçura de ambrosia... Ó flores!

Abres-me o sonho em púrpura de flor,
De fruto mesmo, doce e multicor;
De canto em ramo, vésperas de amor.

Pele em brilho auroral de sóis amenos,
 
Os seios fartos de florais acenos,
Cubro-te, como as águas cobrem Vênus.

Teu corpo esbelto, longe de conselhos,
Faz acordar em mim uns sonhos velhos,
Eu, sobre teu ventre, a apanhar de relhos...

Imagem: Apollonia Saintclair
Ávido, baixara eu do seio às coxas,
Ante um crepúsculo de nuvens roxas,
Que a ti me aprisionava como a rochas.

Miro do mar os pontos luminosos,
Das gaivotas os voos sinuosos,
E em teu corpo faróis de ardentes gozos.

Para aplacar o caos que me atordoa,
Saímos os dois e vamos para Goa,
Com caravela e mar de sorte boa.

Camões estará lá com seus sonetos,
De almas gentis, sonhos e amor repletos,
Sem que ventos e céus imponham vetos.

Oh! Musa de um sonhar primaveril,
Por que acendes em mim furor viril,
A enredar-me em lascívias cor de anil?

Contigo, só meu sonho era o sublime
Manter intacto, que ele a mim redime,
No íntimo, porque amar nunca foi crime.

As palavras enganam, bem sabemos.
Para seguir, precisarei de remos,
Sujeito a me bater com polifemos.

Não podes ser Marie Mennessier,
Porque beleza hoje é só mais de ver.
Não é de imaginar, não é de ser.

Só não deixas meu coração em paz,
E, ante esses versos, ah! perguntarás:
"Que mulher será esta?" Descobrirás.

Sozinha, o mundo encaras, silenciosa.
És fruta e luz, em nada pedregosa;
Jamais contradição, somente rosa.

Deste sonho varonil me despeço.
Acordo. Vou à estante, leio e meço:
Não se resume a vida em ter sucesso.

À tarde, como se mirasse o mar,
As cortinas abro, de par em par.
Não há nada melhor do que sonhar!

(FM. SSA/BA, 15/07/2016)

Amedeo Modigliani (1984-1920), Nu Reclinado (1917)

GLOSSÁRIO

(Reporta-se aos nomes que figuram ou são aludidos no poema, pela presença nos versos).

Marie Mennassier-Nodier (1811-1893). Trata-se da figura, dama da alta sociedade francesa, casada, que a maior parte da crítica admite ter sido a musa oculta, inspiradora de um célebre soneto de autoria do poeta Félix Arvers, a ela sigilosamente dedicado.

Félix Arvers
 (1806-1850). Poeta e dramaturgo francês do período romântico, que ficou mundialmente famoso pelo soneto (Le Sonnet d´Arvers) supostamente inspirado por Marie Mennessier-Nodier e a ela secretamente dedicado, que pôs meio mundo, ao longo de decênios, na detetivesca tarefa de desvendar a musa inspiradora, cujo terceto final está entre as epígrafes, que encabeçam este poema.

Ceci - Apelido carinhoso de Cecília de Mariz, famosa personagem do romance O Guarani, de José de Alencar (1829-1877), publicado em 1857 e visto como epopeia da nacionalidade, servindo depois de inspiração a Carlos Gomes (1836-1896) em ópera com o mesmo título, estreada em 1870. No célebre romance, Ceci é o amor do índio goitacá Peri, assim comumente descrita: "Ceci (Cecília): moça linda, de doces olhos azuis, gênio travesso, mas meiga, suave, sonhadora, herdeira da força moral interior de seu pai, D. Antônio Mariz". (Google). O personagem depois serviria de leit-motiv a filmes, histórias em quadrinhos, série de televisão e pinturas nacionais de linhagem figurativista, aparecendo ainda em criações de música popular, como na marchinha carnavalesca A História do Brasil, de Lamartine Babo, sucesso do Carnaval de 1934, na voz de Almirante, na qual "Ceci beijou Peri / Ao som do Guarani", entre outras adaptações.

Laura – Personagem do teatro do espanhol Calderon de la Barca (1600-1681), que aparece em um soneto de Olavo Bilac, o XXIII da Via-Lactea, cujo primeiro quarteto assim a celebra:

Laura! Dizes que Fábio anda ofendido
E, apesar de ofendido, enamorado,
Buscando a extinta chama do passado
Nas cinzas frias avivar do olvido.

Ofélia – Personagem da tragédia Hamlet, de Shakespeare, arquétipo da donzela indefesa, consagrada pelas artes plásticas, especialmente entre os românticos (Millais, Delacroix), pelo tanto que simbolizava o seu suicídio.

Cíntia – Amante e musa inspiradora do poeta romano Sexto Propércio (47 a.C-16 a.C), essencialmente lírico, que, protegido de Mecenas, atuou no período do imperador Augusto, tendo como companheiros de vida literária os poetas Tibulo e Ovídio. A ela dedicou suas três primeiras séries de poemas intitulados Elegias. Tradução dos versos de Propércio, na epígrafe:

Crê-me: nenhum cosmético é necessário ao teu semblante;
O amor é nu e não ama os artifícios da beleza.
                                                             (Elegias)

Lia – Personagem bíblica, filha mais velha de Labão, de beleza simplória, dada por este, numa tramoia, em casamento a Jacó, que preferia a bela Raquel, irmã mais nova dela, episódio consagrado por Camões num clássico soneto, cujo segundo quarteto registra:

Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia. 

Amélia – A “que era mulher de verdade” num célebre sucesso carnavalesco, o samba, “Ai que saudades da Amélia” (1942), de Ataulfo Alves (1909-1969), em parceria com Mário Lago (1911-2002), a que “não tinha a menor vaidade”, símbolo de consciência e probidade, na relação com o parceiro.
Salomé - Personagem bíblica, cujo nome deriva do hebraico Shalom, significando Paz, embora tenha ficado famosa pela degola de São João Batista, para atender à sua mãe, Herodias, que o odiava, episódio do Antigo Testamento, ocorrido na corte de Herodes Antipas (20 a.C.- 39 d.C), tetrarca da Galileia, a quem Salomé fez o pedido, após ele, encantado com a beleza de sua dança, num banquete, prometer dar-lhe o que pedisse, até mesmo a metade de seu reino, segundo a lenda. E a cabeça de São João saldou a dívida.

Ninon Sevilla (Emelia Pérez Castellanos, 1929-2015). Bela atriz e dançarina mexicana, nascida em Cuba, de corpo escultural eroticamente celebrizado em filmes mexicanos das décadas de 1950 e1960, dançando sensual e fogosamente mambos e rumbas.

Kiki de Montparnasse (pseudônimo de Alice Prin, 1901-1953). Atriz, dançarina e modelo, foi um dos símbolos da emancipação feminina do início do século XX, com destaque no período das vanguardas artísticas, envolvendo literatura, artes plásticas, música, dança, teatro, cinema e moda, em momento de revolução modernista, com sua fase áurea nas décadas de 1920 e 1930. Fez parte do conjunto de mulheres que deram uma nova fisionomia à presença feminina na cultura e na sociedade, em tudo pioneiras. Como modelo ou amante, manteve relação com vários artistas, tanto expressionistas, como surrealistas, entre os quais Chaïm Soutine, Tsuguharu Foujita, Francis Picabia, Jean Cocteau, mas sua relação mais duradoura se deu com o pintor e fotógrafo americano Man Ray, uma das figuras mais destacadas do surrealismo, que dela realizou centenas de fotos, algumas consagradas.

Lolita – Personagem de famoso romance de Vladimir Nabokov (1899-1977), que, editado primeiramente em Paris (1955), depois em Nova York (1958) e, por fim, em Londres (1959), projetou internacionalmente e consagrou o seu autor, tornando-se um marco da ficção no século XX, pela ousadia dramática e comportamental com que tece a sua trama, sendo adaptado sucessivamente para o teatro, o cinema e outras linguagens.
  
Sá-Carneiro (Mário de, 1890-1916) – Poeta e prosador, figura relevante do Modernismo português, amigo de Fenando Pessoa (1888-1935), cuja poesia sugere perturbações interiores, a refletir uma hiper-sensibilidade às vezes alucinada de voluntário desregramento sensorial, com ressonâncias de Rimbaud, na esteira do decadentismo de Antônio Nobre (1867-1900) e Camilo Pessanha (1867-1926). Ficaram dele dois livros de poemas: Dispersão (1914), coletânea ainda publicada em vida, e o póstumo Indícios de Oiro (1937). Encerra famoso soneto em que evoca a imagem sensual da bíblica Salomé dançando, aqui aludido, com este terceto:

Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...

Vênus – Nome latino da grega Afrodite, deusa do amor e da beleza, uma das 12 divindades do Olimpo, nascida da espuma formada sobre o mar do sêmen de Urano (o Céu), que fora mutilado por Cronos (Saturno).
Hebe – Na mitologia grega, filha de Zeus e Hera, surge como a personificação da juventude; pertence à família divina e tem a função celestial de servir néctar aos deuses. Neste papel, aparece em um soneto do parnasiano Raimundo Correia (1860-1911):

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
As taças estendiam-lhe, ruidosos,
ela, passando, as taças lhes enchia...

Virgílio (70 a.C-19 a.C) – Omnia vincit Amor: et nos cedamos Amori. (Bucólicas, III, 69), Tradução: “O amor tudo vence, e cederemos ao amor”. (Virgílio, Bucólicas. Brasília: Editora Universidade de Brasília / Melhoramentos, 1982. Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).



Honorino Rial é poeta e professor aposentado do Instituto Brasileiro de Grafologia.



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