quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

VISÕES DE ÉDEN SÚBITO CONTEMPLADO

POR CAMINHOS DE ONTEM, COMO HOJE
Acordo em domingo de calor sob céu mormacento, após uma tarde e noite de três eventos cordiais e afetivos - almoço anual de confraternização do que resta da turma de formados na UFBA em Direito, deparando-me com a melancólica percepção de que, de 71, apenas 26 respiram, silenciosos ou sorridentes; lançamento de livro de um amigo baiano apaulistado (Roniwalter Jatobá), sob um toldo camarada de cerveja e vinho, na Confraria do França, e, por fim, o aniversário de uma estimadíssima cunhada -, vejo-me relendo um poema que escrevi, faz algum tempo, subitamente impelido por dois versos do simbolista francês Jules Laforgue (1860-1887), que me puseram a meditar sobre como teria sido o mundo (o céu, a terra, as águas), no tempo em que o homem ainda não existia. A vida é também forma de descobrir e inventar caminhos. E, na certeza de que caminhos se fazem ao andar, como garante o espanhol Antonio Machado, me vi subitamente transitando por essa espécie de senda onírica - sozinho no mundo, sem mais ninguém... Vai abaixo o texto, que consta de meu novo livro, cujo lançamento coincidentemente já não mais sonho em tempo de febris sensações natalinas, poema apropriado para ser ouvido ao som de um saxofonista de Jazz-fusion, como o do argentino Gato Barbieri, nesta gravação intitulada "El Sublime", aqui ilustrado com pintura de Paul Cézanne, em mais uma imagem de sua adorada montanha de Sainte Victoire, em sua Aix-en-Provence natal. (Facebook, 04.12.2016)
Paul Cézanne (1839-1906), Mont Sainte Victoire, 1902-1906


VISÕES DE ÉDEN SÚBITO CONTEMPLADO

Tout est vain, - et, là-haut, voyez, la Lune rêve
Aussi froide qu´aux temps où l´Homme n´était pas.*
Jules Laforgue (1860-1887)

Toda existência é ocasional regresso...
Ernâni Rosas (1886-1954)

...Circunvagante, a onda escura avançava
Ubíqua, rumo da terra, tocada de ventos músicos.
“Hino Homérico a Apolo Délio” (Ordep Serra, tradutor)

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.
Robert Frost (1874-1963)


Sonho-me aventureiro de outros sonhos.
De pés firmes, me apalpo e, calmo, sigo.
Abrisse uma cortina, não seria
de escuro firmamento o panorama.
Fontes murmuram, fresca brisa sopra.
Suspira o mar. Eu, soltos olhos ávidos,
vislumbro encostas e sobre elas abro
um caminho ondulante e pedregoso.
No silêncio, nas extensões desertas,
meus olhos tensos captam o que vibra.
Há o sol, o vento, rochas, lagos, rios;
bem perto ou longe, indecifrável fauna,
bosques de árvores densas, impassíveis,
de mãos nunca tocadas nem palpadas;
leito rico adiante de lama e argila,
e o mar, sereno, casto e palrador;
oceano nenhum de lava e ferrugem;
planos só de cascalho e rubra areia.
Assento os olhos em cipós trançados:
nada de Neandertais de ignotas fauces,
pisando crosta de solúvel ferro,
sinais de caça, faina, habitação.
Verdejo-me no sonho. Em rocha sento-me
de cimo que rodeiam ventos brandos;
vestindo-me de ar puro, paz e selva,
o céu, um pálio alto de azul intenso,
por onde o sol navega assiduamente,
gestando madrugadas e crepúsculos,
que um dia dirão de ouro, bronze e sangue,
nuvens reverberando luz constante;
adiante o mar, sonoro e ininterrupto,
saudando orla de areia minudente.
Tempo de não viver, só de existir;
rastro humano nenhum. De cima, a lua,
solene e vigilante quanto fria,
guarda o que passou, passa e passará.
Ninando a noite que parece dormitar,
ela, no alto, ainda paira (primeiro e único
sinal de amor no mundo) e, cá em baixo,
eu, na felicidade de estar só.
Só, na frígida noite que declina,
desvelo o tempo em que o homem não existe.
No céu a lua sonha; embaixo, apenas
obscuros rastros, calma e solidão.
Na certeza que os fados me reservam,
vou para um princípio que não tem fim
e, após ida colecionando assombros,
volto para um fim que não tem princípio.
Comigo o que alfarrábios me negaram:
pedra, metal, madeira, barro ou som,
tudo o que a mim agrada e fantasia.
Por pântanos transito e me pergunto
o que me faz estar nessas paragens,
no instante mesmo em que acorda o mito.
Sei que um dia isto nunca será descrito,
nunca visto será, nunca explicado.
Nunca, se nem mesmo há o pensamento,
o tempo numeroso, calendários,
as sensações, as convenções, os números;
signos, crenças, a exata ciência, os códigos,
vivências, falas, preces e caminhos;
nada que, vindo do homem, será do homem?
Solfeja o mar. No cadenciar das ondas,
versos compõe com sílabas de espuma.
Quero um instante na caverna entrar;
talvez lá pare e me ponha a desenhar,
escrever e narrar, com pau e pedra,
o que agora mais vejo à minha frente
passar, correr, saltar, morder, zumbir,
uivar, berrar, zurrar, bramar, cantar.
Por águas e ares vou, pelas clareiras,
para a sombra que seja, ou para o nada.
O corpo me convida a repousar.
Deito. Levanto e indago em derredor
se haverá sempre essa noite e esse dia.
Miro a rua liberto de vaidades.
Da janela, a manhã me justifica,
imaginando o que pensou Laforgue,
na sua perfeição antropomórfica,
em noite de gelado Carnaval.

SSA/BA, 14/02 (sábado de Carnaval);11/03/2015
Florisvaldo Mattos, Estuário dos dias e outros poemas (no prelo).

*Tudo é vão, - e, lá no alto, vede, a Lua sonha
Tão fria como no tempo em que o Homem não existia.
(LAFORGUE, trad. nossa)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

TERCETOS SENSORIAIS

                                                             Imagem: Apollonia Saintclair


Honorino Rial



La mer, la mer, toujours recommencée!
           O recompense après une pensée
           Qu´un long regard sur le calme des dieux!
                                                                       (Paul Valéry)
À l'austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle,
"Quelle est donc cette femme?”, et ne comprendra pas...
                                                           (Félix Arvers)
Crede mihi, non ulla tuae est medicina figurae
   nudus Amor formae non amat artificem. 
                                                           (Propércio)
Omnia vincit Amor: et nos cedamos Amori.
                                                            (Virgílio)
           As mãos liriais, / Os braços divinais / O corpo algo sem par / (...) / Enfim eu vi nesta mulher /             Uma perfeita Vênus.
                                               (Benedito Lacerda e Aldo Cabral)

Imagem: Apollonia Saintclair

Não és Marie e nem és Mennessier,
E não serás tampouco Nodier,
Como eu nunca serei Félix Arvers.

A vida tem mistérios e segredos.
Não se pode viver de sonhos ledos,
Se a mente se escancara para os medos.

Penso que meu destino é sem remédio.
Abro a porta, surpresa: um corpo nédio,
Que surge para sepultar meu tédio.

Dizem: na encruzilhada, o Cão atenta,
Com todo o turbilhão que o tempo inventa.
Miro-te o rosto: uma ave na tormenta.

Em dias que se vestem de mormaço,
Sopras tua candura neste espaço
E à cobiça te expões de um sol devasso.

Ou por outra, sentada em um jardim,
De olhar tão longe e tão perto de mim,
Vieste, gasta de noites do sem-fim.

Silêncio é tudo que não nega sendas
E não exige que se ponham vendas
Em quem parece vir de antigas lendas.

Não posso te dizer o que ora sinto.
Se a outros, louco, disser, dirão que minto.
Nem é para mim solução o absinto.
Gustave Moreau: Salomé Dançando para Herodes

Até penso que és mito, deusa ou fada.
Vontade de deixar-te embriagada,
Hoje, não amanhã, diva sonhada!

Ah, ponho-me de fauno na clareira
Urbana. Logo um vulto, alvissareira
Imagem; para mim, Ceci trigueira.

Contemplo-te do fundo de meus ais:
Uma estátua, mas não de mãos liriais.
Ah, boneca tu não serás jamais.

Em meu desvairo, perdido e sem nexo,
Vendo em ti do sol vívido reflexo,
Pergunto-me como será o teu sexo.

Tu nada tens de Laura, nem de Ofélia;
Nada de flor, bem mais tens de bromélia.
Não és Cíntia, nem Lia, jamais Amélia. 

Pra mim és Salomé de Sá-Carneiro, 
Dançando e contorcendo-se - um salseiro! -,
A me fazer sonhar o dia inteiro.

Vejo a morena coxa – quanto brilha! -,
Tanto quanto brilhou Ninon Sevilla,
Numa sonora mexicana trilha.

Talvez até Kiki de Montparnasse,
Coração de vanguarda; outra, que trace
Em mim caminhos, medre e me ultrapasse.
Kiki de Montparnasse. Lucien Mandel, 1923

Tens um livro na mão. A mente aflita,
Curiosa, indaga: "Não será Lolita?"
Ânsia maior talvez de quem cogita.

Choras porque perdeste a virgindade,
Por uma distração de pouca idade,
Com um noturno assaltante da cidade.

Sorris dessas lembranças da alvorada,
E de outras, que não servem para nada.
Hoje, mulher, não queres ser manada.

Os dias sem nenhuma maquilagem
Passas, a idade não exige; a imagem
Só precisa de um ato de coragem.

Quando os fados atingem belas almas,
Deuses vêm e lhes oferecem palmas.
Eu te ofereço mel, em tardes calmas.

Tu me pertences; ouve esse ditame.
Encaro a rosa. Pedes-me que te ame.
Beijo-a. Se recuso, serei infame.

Entre lençóis ou no sofá da sala,
És a luz que me espera. A Lua fala.
Sonoro vento sopra em céu de opala.

Subo e chego ao pedestal dos seios;
Percebo lentamente os teus gorjeios.
Se desço em disparada, perco os freios...


Tens no corpo talvez um tino sábio.
Ainda mais ambicioso chego ao lábio,
Adornado de flor, meu astrolábio.

Mordes-me e, de teus antes ternos
Olhos, ora de fogo e brasa internos,
Fluem ardências semelhando infernos.

Beijo-te. Tu me lambes, eu te lambo 
Sexo e pernas, e os seios cor de jambo.
Dali saímos para dançar um mambo.

Quando vejo na praia os claros seios,
De suavidades e beleza cheios,
O idioma deles soletrando, leio-os.

Na praia azul, em tarde de preamar,
Nua, vais; mas percebo um risco no ar,
De eu ir atrás e me perder no mar.

Sentamo-nos à beira do caminho.
Hebe nos serve taças de bom vinho.
Brindamos. Eu te cubro de carinho.

Tens uma lua de ouro dentre as pernas.
Levas-me a ela, com mãos leves e ternas.
Rasgam-me o corpo sensações eternas.


Na plenitude desse instante raso,
Vibras: és como uma água a encher um vaso.
Nem mesmo ramos fazem pouco caso.

Súbito, deste-me a rosa, e eu beijei-a.
A rosa rubra de uma vã sereia,
Estendida na minudente areia.

Eu, de novo, te lambo e tu me lambes,
Neste paraíso em que somos dois bambis.
Sol, sê testemunha, antes que descambes!

Abres-me o sonho em púrpura de flor,
De fruto mesmo, doce e multicor;
De canto em ramo, vésperas de amor.

Pele em brilho auroral de sóis amenos,
 
Os seios fartos de florais acenos,
Cubro-te, como as águas cobrem Vênus.

Teu corpo esbelto, longe de conselhos,
Faz acordar em mim uns sonhos velhos,
E eu, sobre teu ventre, a apanhar de relhos...

Imagem: Apollonia Saintclair

Ávido, baixara eu do seio às coxas,
Ante um crepúsculo de nuvens roxas,
Que a ti me aprisionava como a rochas.

Miro do mar os pontos luminosos,
Das gaivotas os voos sinuosos,
E em teu corpo faróis de ardentes gozos.

Para aplacar o caos que me atordoa,
Saímos os dois e vamos para Goa,
Com caravela e mar de sorte boa.

Camões estará lá com seus sonetos,
De almas gentis, sonhos e amor repletos,
Sem que ventos e céus imponham vetos.

Oh! Musa de um sonhar primaveril,
Por que acendes em mim furor viril,
A enredar-me em lascívias cor de anil?

Contigo, só meu sonho era o sublime
Manter intacto, que ele a mim redime,
No íntimo, porque amar nunca foi crime.

As palavras enganam, bem sabemos.
Para seguir, precisarei de remos,
Sujeito a me bater com polifemos.

Não podes ser Marie Mennessier,
Porque beleza hoje é só mais de ver.
Não é de imaginar, não é de ser.

Só não deixas meu coração em paz,
E, ante esses versos, ah! perguntarás:
"Que mulher será esta?" Descobrirás.

Sozinha, o mundo encaras, silenciosa.
És fruta e luz, em nada pedregosa;
Jamais contradição, somente rosa.

Deste sonho varonil me despeço.
Acordo. Vou à estante, leio e meço:
Não se resume a vida em ter sucesso.

À tarde, como se mirasse o mar,
As cortinas abro, de par em par.
Não há nada melhor do que sonhar!

(FM. SSA/BA, 15/07/2016)

Amedeo Modigliani (1984-1920), Nu Reclinado (1917)

GLOSSÁRIO

(Reporta-se aos nomes que figuram ou são aludidos no poema, pela presença nos versos).

Marie Mennassier-Nodier (1811-1893). Trata-se da figura, dama da alta sociedade francesa, casada, que a maior parte da crítica admite ter sido a musa oculta, inspiradora de um célebre soneto de autoria do poeta Félix Arvers, a ela sigilosamente dedicado.

Félix Arvers
 (1806-1850). Poeta e dramaturgo francês do período romântico, que ficou mundialmente famoso pelo soneto (Le Sonnet d´Arvers) supostamente inspirado por Marie Mennessier-Nodier e a ela secretamente dedicado, que pôs meio mundo, ao longo de decênios, na detetivesca tarefa de desvendar a musa inspiradora, cujo terceto final está entre as epígrafes, que encabeçam o poema.

Ceci - Apelido carinhoso de Cecília de Mariz, famosa personagem do romance O Guarani, de José de Alencar (1829-1877), publicado em 1857 e visto como epopeia da nacionalidade, servindo depois de inspiração a Carlos Gomes (1836-1896) em ópera com o mesmo título, estreada em 1870. No célebre romance, Ceci é o amor do índio goitacá Peri, assim comumente descrita: "Ceci (Cecília): moça linda, de doces olhos azuis, gênio travesso, mas meiga, suave, sonhadora, herdeira da força moral interior de seu pai, D. Antônio Mariz". (Google). O personagem depois serviria de leit-motiv a filmes, histórias em quadrinhos, série de televisão e pinturas nacionais de linhagem figurativista, aparecendo ainda em criações de música popular, como na marchinha carnavalesca A História do Brasil, de Lamartine Babo, sucesso do Carnaval de 1934, na voz de Almirante, na qual "Ceci beijou Peri / Ao som do Guarani", entre outras adaptações.

Laura – Personagem do teatro do espanhol Calderon de la Barca (1600-1681), que aparece em um soneto de Olavo Bilac, o XXIII da Via-Lactea, cujo primeiro quarteto assim a celebra:

Laura! Dizes que Fábio anda ofendido
E, apesar de ofendido, enamorado,
Buscando a extinta chama do passado
Nas cinzas frias avivar do olvido.

Ofélia – Personagem da tragédia Hamlet, de Shakespeare, arquétipo da donzela indefesa, consagrada pelas artes plásticas, especialmente entre os românticos (Millais, Delacroix), pelo tanto que simbolizava o seu suicídio.

Cíntia – Amante e musa inspiradora do poeta romano Sexto Propércio (47 a.C-16 a.C), essencialmente lírico, que, protegido de Mecenas, atuou no período do imperador Augusto, tendo como companheiros de vida literária os poetas Tibulo e Ovídio. A ela dedicou suas três primeiras séries de poemas intitulados Elegias. Tradução dos versos de Propércio, na epígrafe:

Crê-me: nenhum cosmético é necessário ao teu semblante;
O amor é nu e não ama os artifícios da beleza.
                                                             (Elegias)

Lia – Personagem bíblica, filha mais velha de Labão, de beleza simplória, dada por este, numa tramoia, em casamento a Jacó, que preferia a bela Raquel, irmã mais nova dela, episódio consagrado por Camões num clássico soneto, cujo segundo quarteto registra:

Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia. 

Amélia – A “que era mulher de verdade” num célebre sucesso carnavalesco, o samba, “Ai que saudades da Amélia” (1942), de Ataulfo Alves (1909-1969), em parceria com Mário Lago (1911-2002), a que “não tinha a menor vaidade”, símbolo de consciência e probidade, na relação com o parceiro.
Salomé - Personagem bíblica, cujo nome deriva do hebraico Shalom, significando Paz, embora tenha ficado famosa pela degola de São João Batista, para atender à sua mãe, Herodias, que o odiava, episódio do Antigo Testamento, ocorrido na corte de Herodes Antipas (20 a.C.- 39 d.C), tetrarca da Galileia, a quem Salomé fez o pedido, após ele, encantado com a beleza de sua dança, num banquete, prometer dar-lhe o que pedisse, até mesmo a metade de seu reino, segundo a lenda. E a cabeça de São João saldou a dívida.

Ninon Sevilla (Emelia Pérez Castellanos, 1929-2015). Bela atriz e dançarina mexicana, nascida em Cuba, de corpo escultural eroticamente celebrizado em filmes mexicanos das décadas de 1950-1960, dançando sensual e fogosamente mambos e rumbas.

Kiki de Montparnasse (pseudônimo de Alice Prin, 1901-1953). Atriz, dançarina e modelo, foi um dos símbolos da emancipação feminina do início do século XX, com destaque no período das vanguardas artísticas, envolvendo literatura, artes plásticas, música, dança, teatro, cinema e moda, em momento de revolução modernista, com sua fase áurea nas décadas de 1920 e 1930. Fez parte do conjunto de mulheres que deram uma nova fisionomia à presença feminina na cultura e na sociedade, em tudo pioneiras. Como modelo ou amante, manteve relação com vários artistas, tanto expressionistas, como surrealistas, entre os quais Chaïm Soutine, Tsuguharu Foujita, Francis Picabia, Jean Cocteau, mas sua relação mais duradoura se deu com o pintor e fotógrafo americano Man Ray, uma das figuras mais destacadas do surrealismo, que dela realizou centenas de fotos, algumas consagradas.

Lolita – Personagem de famoso romance de Vladimir Nabokov (1899-1977), que, editado primeiramente em Paris (1955), depois em Nova York (1958) e, por fim, em Londres (1959), projetou internacionalmente e consagrou o seu autor, tornando-se um marco da ficção no século XX, pela ousadia dramática e comportamental com que tece a sua trama, sendo adaptado sucessivamente para o teatro, o cinema e outras linguagens.
  
Sá-Carneiro (Mário de, 1890-1916) – Poeta e prosador, figura relevante do Modernismo português, amigo de Fenando Pessoa (1888-1935), cuja poesia sugere perturbações interiores, a refletir uma hiper-sensibilidade às vezes alucinada de voluntário desregramento sensorial, com ressonâncias de Rimbaud, na esteira do decadentismo de Antônio Nobre (1867-1900) e Camilo Pessanha (1867-1926). Ficaram dele dois livros de poemas: Dispersão (1914), coletânea ainda publicada em vida, e o póstumo Indícios de Oiro (1937). Encerra famoso soneto em que evoca a imagem sensual da bíblica Salomé dançando, aqui aludido, com este terceto:

Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...

Vênus – Nome latino da grega Afrodite, deusa do amor e da beleza, uma das 12 divindades do Olimpo, nascida da espuma formada sobre o mar do sêmen de Urano (o Céu), que fora mutilado por Cronos (Saturno).
Hebe – Na mitologia grega, filha de Zeus e Hera, surge como a personificação da juventude; pertence à família divina e tem a função celestial de servir néctar aos deuses. Neste papel, aparece em um soneto do parnasiano Raimundo Correia (1860-1911):

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
As taças estendiam-lhe, ruidosos,
ela, passando, as taças lhes enchia...

Virgílio (70 a.C-19 a.C) – Omnia vincit Amor: et nos cedamos Amori. (Bucólicas, III, 69), Tradução: “O amor tudo vence, e cederemos ao amor”. (Virgílio, Bucólicas. Brasília: Editora Universidade de Brasília / Melhoramentos, 1982. Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).



Honorino Rial é poeta e professor aposentado do Instituto Brasileiro de Grafologia.



sábado, 22 de outubro de 2016

PAUL CÉZANNE (1839-1906) - A PINTURA COMO PAIXÃO VITAL

Montanha Sainte-Victoire (1902-1906), em de Aix-en-Provence, uma paixão obsessiva de Cézanne

Por Florisvaldo Mattos

No ensaio que expressamente lhe dedicou, em 1945, A dúvida de Cézanne ((in O olho e o espírito; São Paulo, Cosac & Naify, 2006), Maurice Merleau-Ponty lembra que a Paul Cézanne eram necessárias cem sessões de trabalho para uma natureza-morta e cento e cinqüenta de pose para um retrato. “A pintura foi seu mundo e sua maneira de existir”, diz o filósofo francês, para justificar a seriedade e o rigor, enquanto que, para o historiador de arte Giulio Carlo Argan, “Cézanne renunciou a ter uma vida para realizar sua obra, ou melhor, fez da obra sua vida.”
Arredio, escasso no falar, porém não no escrever, Cézanne uniu-se ao grupo dos impressionistas, que revolucionaram os cânones da arte por volta de 1870, tornando-se amigo de alguns de seus expoentes (Renoir, Pissarro e Monet), participando inclusive de suas primeira (1874) e terceira (1877) exposições independentes (realizaram-se oito até 1886), mas cedo se desiludiu de seu programa renovador por não aceitar uma pintura de fundamento puramente visual – uma reação ao primado romântico da emoção -, que deveria sobressair-se das paisagens pintadas ao ar livre, sob o vigor da luz.
 “O impressionismo queria exprimir na pintura a maneira como os objetos impressionam nossa visão e atacam nossos sentidos. Representava-os na atmosfera em que a percepção instantânea no-los oferece, sem contornos absolutos, ligados entre si pela luz e o ar”, observa Merleau-Ponty. 
Cézanne não rejeitava o impressionismo de todo, mas sua idéia de uma pintura a partir da natureza era outra. Numa conversa com Émile Bernard (1868-1941), que em 1902 viajou a Provença para interrogá-lo sobre a sua arte, publicada na revista Occident, dizia ser preciso descobrir a profundidade da natureza, captar a sua dimensão interna, porque, para ele, era absolutamente necessário “introduzir nas nossas vibrações de luz, representadas pelos vermelhos e os amarelos, uma quantidade de azuis para fazer sentir o ar”.
Enquanto os impressionistas, aceitos após as resistências do meio acadêmico, vendiam quadros à beça, dando novo sentido ao mercado de arte dentro da sociedade burguesa, de muito, Cézanne havia encontrado seu caminho. Optara pela pesquisa séria e pelo sacrifício de só pintar o que lhe ditava a consciência, em busca de uma verdade pictórica.
Paul Cézanne: Auto-retrato com Paleta (1890)

Como um Moisés, a divisar com seu peso moral a Terra Prometida, diria em carta ao amigo Ambroise Vollard (1865-1939): “Um senso agudo de matizes me devassa o íntimo. Eu me vejo invadido de cores por todos os matizes do infinito. Eu não reproduzo mais que isto no meu quadro. Nós somos um caos irisado”. Essa convicção repetia, com outras palavras, passagem de uma carta a outro amigo, este de infância, Émile Zola (1840-1902), na qual suspeitava que os quadros de pintores do passado “que representam coisas ao ar livre tenham sido feitos de imaginação”, pois não lhe pareciam “ter o aspecto verdadeiro, e sobretudo original, que a natureza oferece”.
Levando vida de asceta, já que, com o pai próspero banqueiro, tinha condições materiais de viver com seus próprios recursos, e tomado de insegurança e surtos de cólera, à Paris da agitação urbana, movida pela aglomeração industrial, Cézanne prefere isolar-se em sua terra natal, a ensolarada Aix-en-Provence, no sul da França, para realizar uma pintura centrada na pesquisa de cujo tronco, no dizer de Argan, “nascem as grandes correntes da primeira metade do século XX”, isto é, as vanguardas que realmente contam: fauvismo, cubismo, expressionismo, dadaísmo, surrealismo.

Os olhos do espírito. Mesmo com o distanciamento das propostas básicas dos impressionistas, a arte de Cézanne começou a se firmar com autonomia teórica, ao estabelecer amizade com Camille Pissarro (1830-1903), artista mais velho do que ele, que lhe insuflou o gosto pela pesquisa avançada, avesso à aventura visual. Segundo Argan, tal proximidade o faz compreender – como que num estalo - que do impressionismo poderia, e até deveria, surgir “um novo classicismo, dedicado a formar uma imagem nova e concreta do mundo, que não mais deveria ser buscada na realidade exterior, mas na consciência”.
A operação pictórica era, para Cézanne, a consciência em ação, ao produzir, ela própria, a sensação. Aspirava a “uma arte que não falasse superficialmente ao olhar, mas que se dirigisse à mente”. Passando a pintar a partir da observação direta da natureza, afastando-se das impressões fugazes e casuais, dos efeitos fugidios da luz, marca registrada dos impressionistas, evitava que o espírito se perdesse em “especulações tangíveis”, como dizia, optando pela análise estrutural da natureza.
“A paisagem pensa comigo; eu sou a sua consciência”, proclamava.
Recolhido à sua Provença, cada vez mais empenhado na pesquisa das cores, posto que, insatisfeito com as sete do prisma, buscava multiplicar cada uma delas, para melhor apreender e representar o objeto na natureza e no espaço, e de soluções formais que oferecessem uma representação de permanência e solidez às suas sensações visuais, Cézanne personificava o pintor voltado inteiramente para a sua arte. Com isto – escreve Merleau-Ponty -, “renuncia à divisão do tom e a substitui por misturas graduadas, por uma sucessão de matizes cromáticos sobre o objeto, por uma modulação de cores que acompanha a forma e a luz recebida”.
Em luta contra a mera aparência superficial dos objetos e perseguindo a sua substância, rejeitava o instantâneo e o ilusionismo na representação do espaço. Suprimia os contornos precisos, instituía o primado da cor sobre o desenho e iluminava suas telas com a substância íntima dos objetos, em paisagens, naturezas-mortas e retratos, para alcançar “uma arte – confessava – que não falasse superficialmente ao olhar, mas que se dirigisse à mente”.
O artista alcançava seus objetivos por meio de pinceladas enérgicas, bem concebidas e bem executadas, na vertical, na diagonal e na horizontal, com que entrelaçava tramas sobre a superfície, mantendo-a em estado de tensão pelo uso de cores chapadas, cujo efeito conferia à obra um sentido exato de estrutura. Belinda Thomson (Pós-impressionismo; Cosac & Naify, 1999) resume este momento de Cézanne, já entrando pelos anos 1880, ao analisar uma de suas paisagens:
“Seu tema dos edifícios entre árvores, tipicamente destituído da presença humana, é organizado de maneira comprimida num plano horizontal, com as verticais simetricamente posicionadas dos troncos das árvores provendo equilíbrio. Essa unidade densa da composição e seu espaço raso são intensificados pelas pinceladas regulares aplicadas diagonalmente, que imprimem solidez à terra em contraste com as horizontais da água e o tratamento mais solto da faixa do céu”.
Trata-se justamente de uma requintada pintura representando uma casa que o amigo Zola comprara com seus direitos autorais, mas a tela, O castelo de Médan (1880), jamais a ele pertenceria, em razão do afastamento ocorrido entre ambos, depois que Cézanne se viu representado na pele de um pintor fracassado que acaba se suicidando, personagem do romancista no seu livro A obra-prima (1886). No entanto, mais adiante tornou-se quase unânime o juízo de que Claude Lantier, o personagem, mais retratava Georges Seurat, que na época introduzia idéias científicas na construção pictórica, criando com isto o pontilhismo, alvo da ironia de Zola, do que a Cézanne. O quadro seria adquirido por Gauguin, nas mãos de um negociante de tintas.
Os Jogadores de Cartas, 1890-1895, de Paul Cézanne

A volta  por cima. Thomson atribui essa compra e a de mais cinco telas de Cézanne a “um faro notável” de Gauguin como colecionador. Comprava barato o que, mais tarde, alcançaria grande valor, provando ter feito um grande investimento. Não se sabe se por isso ou se por efeito das paranóias de Cézanne, o fato é que este se distanciou de Gauguin, acusando-o de oportunista e insincero como amigo e considerando improdutiva e infrutífera a troca de ideias com ele.
De qualquer forma, por essa época começa a se delinear uma virada na carreira do artista pelo reconhecimento de uma crítica mais penetrante, não a provinda de intelectuais literatoscos (palavra minha), talvez o conceito que ele fará posteriormente do crítico Camille Mauclair (1872-1945), que, ante uma de suas triunfantes exposições, não teve o pudor de afirmar: “O nome de Cézanne ficará atrelado à mais memorável gozação com a arte nos últimos 15 anos” – juízo manifestado após Cézanne obter crescente prestígio, a partir da exposição organizada em 1895 pelo marchand Ambroise Vollard, praticamente tirando-o da sua voluntária obscuridade, e ante a consagração tardia, que lhe trouxe a participação no Salão do Outono de 1904, no qual lhe foi dedicada uma sala inteira.
A resposta de Cézanne veio quando o “caos irisado” de sua arte ampliara o seu círculo de admiradores e colecionadores, ali na virada do século XX, com suas telas custando o dobro das de Claude Monet (perguntava-se: por que tanto sucesso? Respondia-se: pelas suas audácias), e quando jovens pintores começavam a rodeá-lo verdadeiramente atordoados com o que viam, e ele, despindo-se da incrustada timidez, confiava a interlocutores que respondiam pelos nomes de Pablo Picasso, Georges Braque e Henri Matisse: “Eu talvez tenha vindo antes do tempo. Eu sempre fui um pintor mais da geração de vocês que da minha”. Ou logo, com o que em outro poderia parecer presunção, mas agora apenas assumindo o tom do momento: “Há um único pintor vivo: sou eu. Homens políticos, há dois mil em cada época, mas Cézanne, só há um em cada dois séculos”. A seguir, viriam os fauvistas, os expressionistas, os cubistas e os futuristas...
Paul Cézanne: Retrato do Jardineiro Vallier, 1906

A morte no ofício. Era um novo mundo, inclusive para as artes, cujo panorama se modificava. Paris vivia dias de novidades e agitação cultural. Gertrude Stein, aquela americana que seria um motor de incentivo às vanguardas, desembarcava com seus dois irmãos, Léo e Michael, e a cunhada Sarah, todos logo envolvidos com o patrocínio das artes. Como que resgatando os danos de um escândalo de 1863, dava solene entrada no Museu do Louvre o famosíssimo Déjeuner sur l´Herbe, de Édouard Manet (1832-1883). Após uma inscrição pública de 15 mil francos, o Pensador, de Rodin, se instala num pedestal diante do Panteão. A paixão pela arte negra arrebata os jovens artistas, decididos a ornamentar a modernidade com valores selvagens, expostos em museus, como o de Trocadéro, e até em butiques, com os já fauvistas e os depois cubistas no seu encalço.
Era 1906 e, aos 67 anos, mergulhado na sua paixão vital, a pintura, em Aix-en-Provence, Cézanne passava horas e dias no ofício (“Estou velho, doente, mas jurei a mim mesmo morrer pintando” – disse numa carta a Émile Bernard). E justamente, uma tarde, foi colhido por uma violenta tempestade que o abateu, quando mais uma vez se dedicava à paixão de pintar nos arredores de Aix-en-Provence, onde solitariamente pintava o quadro A Cabana de Jordan. Atingido gravemente pela mesma natureza que amava, fonte de sua arte, e que agora o prostrava, levaram-no desfalecido numa charrete para casa, onde se recolheu. Havia pensado em retomar no dia seguinte o retrato de seu jardineiro Vallier, que permanecerá inacabado como o seu último trabalho de pintor.
Mesmo assim Cézanne ainda teve forças para escrever uma carta a seu marchand encomendando-lhe ingredientes úteis a seu ofício, porém, não resistindo ao desgaste físico, morre oito dias depois, precisamente em 22 de outubro de 1906, para ser enterrado no cemitério local, de onde se avista a montanha Sainte-Victoire, acidente geográfico que, de tão presente em sua pintura dos últimos tempos, parecia ter se tornado obsessão temática de um artista dominado pela neurótica ideia de penetrar nas suas “profundezas geológicas”, conforme um dia confessou, como se ela o fizesse respirar “a virgindade do mundo”.
As Grandes Banhistas, 1900-1905, uma das mais famosas telas de Paul Cézanne

 LETRA E VOZ DA SABEDORIA

As idéias de Cézanne, que Giulio Carlo Argan dirá serem o tronco do qual nasceriam a grandes correntes do século XX, começaram a ser divulgadas bem antes de sua morte sempre através de cartas e conversações transcritas, primeiro as que trocou com Émile Zola, mas principalmente com jovens artistas que dele se aproximaram.
Numa delas, de 1866, ainda envolvido com o impressionismo, afirmava ao romancista: (...) “os quadros feitos no interior, dentro do ateliê, nunca serão tão bons quanto os feitos ao ar livre. Representando cenas do exterior, os contrastes das figuras no espaço são espantosos, e a paisagem é magnífica”.
Mas foi nos encontros com jovens que ele manifestou íntimo interesse em transmitir com clareza seus pensamentos sobre arte.
Três deles foram importantes: o jovem poeta Joachin Gasquet (1873-1921), que o procurou em 1896 e, a partir daí, apesar do receio de Cézanne de acabar vítima de zombaria, estabeleceu com ele sólida amizade; o marselhês Charles Camoin (1879-1965), impressionista que, por influência de Cézanne, depois caminharia para o fauvismo; e, por fim, o mais importante como divulgador, Émile Bernard (1868-1941), que travara conhecimento com ele desde 1890, mas, embora pintor, como tinha inclinações literárias, publicou artigos e depois relatos de conversações com Cézanne. 
Foi numa carta que o artista lhe manifestou um de seus juízos de maior influência na arte logo a seguir. Didático, parecendo pregar para futuros cubistas, ponderava ele em 1904:
“Permita-me repetir o que eu lhe dizia: abordar a natureza através do cilindro, da esfera, do cone, colocando o conjunto em perspectiva, de forma que cada lado de um objeto, de um plano, se dirija para um ponto central. As linhas paralelas ao horizonte dão a extensão, ou seja, uma seção da natureza ou, se preferir, do espetáculo que o Pater Omnipotens Aeterne Deus expõe diante de nossos olhos. As linhas perpendiculares a esse horizonte dão a profundidade. Ora, para nós, seres humanos, a natureza é mais profundidade que superfície, donde a necessidade de introduzir nas nossas vibrações de luz, representadas pelos vermelhos e amarelos, uma quantidade suficiente de azuis, para se fazer sentir o ar.”
E, mais adiante:
“Para fazer progressos, só através da natureza, porque o olho se educa em contato com ela. Torna-se concêntrico à custa de observar e trabalhar. Quero dizer que, em uma laranja, uma maçã, uma bola, uma cabeça, há um ponto culminante, e esse ponto – apesar do efeito terrível: a luz e sombra, sensações colorantes – é o mais próximo do nosso olho. As bordas dos objetos fogem em direção a um centro localizado no nosso horizonte. Com um pouco de temperamento é possível fazer coisas boas sem ser muito harmonista, ou colorista. Basta ter senso de arte – e esse senso é, sem dúvida, o horror burguês. Portanto, os institutos, as bolsas, as honras só podem ser feitos para os cretinos, os farsantes. Não seja crítico de arte, faça pintura. Essa é a salvação.”
Ouvindo essas coisas, quem iria ser vanguarda ouvia extasiado.
Natureza-Morta com Toalha, 1893-1895, de Paul Cézanne


Conversa com Cézanne. Em Teorias da Arte Moderna (São Paulo: Martins Fontes, 1996), Herschel B. Chipp transcreve uma “conversação” com Cézanne publicada por Émile Bernard no Mercure de France, em 1921. Serve até de mostra da técnica da entrevista adotada na época, desde que ainda não existia gravador. Ei-la.
Em 1904, durante um de nossos passeios nas proximidades de Aix, perguntei a Cézanne:
- O que acha dos Mestres?
- São bons. Eu ia ao Louvre quando estava em Paris. Mas acabei apegando-me mais à natureza do que eles. É preciso aprender a ver por si mesmo.
- O que quer dizer com isso?
- Devemos criar uma ótica, devemos ver a natureza como ninguém a viu antes...
- Não resultará isso numa visão demasiadamente pessoal, incompreensível ao outros? Afinal de contas, não é a pintura como a fala? Quando falo, uso a mesma língua que você. Será que me compreenderia se eu tivesse criado uma língua nova, desconhecida? É com essa língua comum que devemos expressar as novas idéias. Talvez este seja o único meio de torná-las válidas e aceitáveis.
- Por ótica quero dizer uma visão lógica, isto é, sem nada de absurdo.
- Mas em que se baseia sua ótica, Mestre?
- Na natureza.
- O que quer dizer com essa palavra? Trata-se da nossa natureza ou da natureza em si?
- Trata-se de ambas.
- Portanto, o senhor concebe a arte como uma união do universo com o indivíduo?
- Concebo-a como uma percepção pessoal. Coloco essa percepção na sensação e peço que a inteligência a organize numa obra.
- Mas de que sensações o senhor fala? Daquelas que estão em seus sentimentos ou daquelas que provêm da sua retina?
- Acho que não pode haver uma separação entre elas. Além disso, sendo pintor, apego-me primeiro a uma sensação visual.
É uma cena que fala por si. Se todos os que conversassem com sábios fizessem o mesmo, a história da reportagem no jornalismo seria outra, a da cultura também.
_________________________

BANHADAS DE LÁGRIMA ESTÃO AS PEDRAS

Florisvaldo Mattos

Nós somos um caos irisado
.
Paul Cézanne

Ver a força do dia romper, vibrando
Entre um crepúsculo e o outro crepúsculo,
Ver surgir da terra um ranger de músculo;
Nada tenho a dizer, estou chorando.

O dia amanhece, quando amanheço,
Estático, no espaço da varanda.
Preso a formas e cores, não esqueço
A mão universal que isso comanda.

Afasto da mente a mediocridade
Que navega de um polo a outro do dia.
Cá me defronto com outra realidade,
Não tenho hora para a melancolia.

Natureza é tudo, me diz Cézanne.
Cá estou para ver, o resto se dane
!

(SSA/BA, 03/4/2007
. Publicado em Poesia Reunida e Inéditos. São Paulo: Escrituras Editora, 2011, pp. 336).
Montanha Sainte-Victoire, 1902-06, em cujas "profundezas geológicas", Cézanne sonhava penetrar
______________________________
Florisvaldo Mattos é poeta e jornalista; professor aposentado da UFBA, pertence à Academia de Letras da Bahia. Textos escritos em 2006, quando do transcurso dos 100 anos da morte de Paul Cézanne.