sábado, 13 de maio de 2017

NÃO CONSIGO EXPULSAR OS HOLANDESES

Por Florisvaldo Mattos
(Postado no Facebook em 10.05.2017)

Transcorreram ontem, 9 de maio, 393 anos que soldados e mercenários da esquadra holandesa desembarcaram de madrugada na praia do hoje Porto da Barra para ocupar a então Cidade da Bahia e dominar tanto ela como o seu Recôncavo e litoral, durante um ano e dois meses, até serem expulsos em julho de 1625. 
Esqueci-me da data, logo eu que em 2000 publiquei um livro de poemas ("Mares anoitecidos", Rio, Imago Editora), tomando como tema a tessitura heroica desse malogro, que os colonizadores portugueses registraram como glória, embora a façanha da expulsão dos chamados invasores se deveu a um nobre espanhol, Dom Fradique de Toledo Osório, que agia sob as ordens de Felipe IV, rei da Espanha, à época ainda mantendo Portugal sob seu domínio.
Publico abaixo um dos enunciados constantes desse livro, narrando justamente o momento da morte do general Johann Van Dort, então governador e comandante geral, surpreendido em Água de Meninos pelas forças que vinham combatendo os depois chamados invasores. A singularidade desses versos reside na montagem de seis sonetos monoestróficos, sem rima, com o general holandês narrando a própria morte, em que adoto a mesma técnica usada pelo argentino Jorge Luis Borges, em seu "Poema conjetural", do livro "El otro, el mismo" (1964), que por sua vez a copiou do inglês Robert Browning, em suas "Dramatis Personae", segundo revelou o uruguaio Emir Rodriguez Monegal. 
Embora atrasado em relação à data, segue abaixo o poema, que é também uma conjetura, registrando o momento em que Van Dort sucumbe sob uma tempestade de espadas, lanças e balas de mosquete, com epígrafe tirada do poema de Borges; aqui ilustrado com uma pintura que marca a chegada dos holandeses às então chamadas Índias Ocidentais.

ESTRADA DE MONTE SERRAT

“Pisan mis pies la sombra de las lanzas
que me buscan.”
(Jorge Luis Borges)

Atacado em Água de Meninos, o general flamengo Johann Van Dort, governador e comandante geral, vendo sumir o sol numa tempestade de espadas, lanças e balas de mosquete, antes de morrer, cogita de sua sorte:

I
Mal me distingue e afaga a luz primeira
da manhã, quando me ponho de surpresa
a ver a fortaleza São Felipe.
Por caminhos de pedra e matos íngremes,
de regresso, afastando-me da escolta,
armada de escopetas e pistolas,
qual penetrasse estreito labirinto,
o troar de um tropel demais severo
de portugueses, de índios e de pretos,
de mui ervadas flechas de repente
sobre nós derrubasse temeroso
céu de balas, espadas e azagaias,
em chuva celerada, trespassando
tanto quanto cavalos e trombetas.
II
Zune o tempo de horror, o instante último
do bom negócio e jogo de cobiça,
que me impeliu a essas obscuras águas,
a combater nas fontes de riqueza
as potestades do ibero inimigo,
e até a Serra Leoa fui perseguir
barcos negreiros, ou farto butim
de especiarias por todos cobiçado.
Mergulho na razão de tais destrezas,
que me põem a pelejar contra desertos,
rudimentares formas de viver;
cogito do ouro louco que essas lanças,
essas balas, essas espadas guardam
e vêm agora emoldurar-me a hora última.
III
Cristãos-novos, sabei que nós flamengos,
de tanto traficar sonhos translúcidos,
costumamos lavrar os horizontes
com a mesma mão que sagra nossas preces.
Cristãos-novos, sabei que costumamos,
bem mais que organizar tropas e frotas,
bem mais que perseguir Marte e Netuno,
prezar a natureza por primeiro;
em terra ao mar subtraída, bem mais que a ouro,
cultivamos tulipas e jacintos,
bem mais doamos ao chão apetecido:
campo iriado de luas pastoris.
Gente sublimamos e ao mundo rotas
abrimos de galhardas esperanças.
IV
Ignoro essas paragens. Eu, de bruços,
antes que à noite funda me arremessem,
me volto para o céu indecifrável,
miro a armada de nuvens aportando,
com mensagens que omitem meu destino;
eu que me alimentei de sal batavo,
de celtas e germanos tenho o sangue,
a fala de seus sons contaminada;
eu, Johann Van Dort, general flamengo,
conhecedor de códigos e cânones,
provados na gerência de um exército,
sob um céu fibroso como de sombras,
quedo, decifro gumes que me aguardam.
V
Cruzei os oceanos com minha sombra
a vagar suspeitosa de meus dias
por campos e montanhas, por estradas,
no encalço de um Aquiles incansável,
que se ofusca no espelho da distância.
O dia avança, enquanto some a fina
malha de luz que tece meu destino
na areia fúlgida onde impera a fúria
do ferro que me alaga o suor de sangue.
E fujo para dentro de mim mesmo
em busca de razões vertiginosas,
que expliquem meu passado e meu presente:
apenas vejo um porto, uma cidade
e um rosto moço a olhar o mar defronte.
VI
Armas, gentes de cenho atormentado,
que não fabricam máquinas nem aram
o pensamento além de manuscritos,
cortinas abrem só para o passado,
mais que a da prata e do ouro mercantil,
idade só do ferro experimentam,
fecham-me o caminho, o peito afundam
com a desmedida sombra de seus passos.
Por última vez fito o claro céu,
agora imerso em vaga bruma, na hora
em que recebo a última cutilada.
Está escrito nos livros: todo brioso
marinheiro tem sua enganosa ilha
e todo lutador, suas Termópilas.

(Florisvaldo Mattos, "Mares anoitecidos", 2000).


sexta-feira, 28 de abril de 2017

II FESTIVAL LITERÁRIO DE ILHÉUS, palestra de F. Mattos

Ilhéus: Florisvaldo Mattos e Tica Simões, escritora e professora da UESC,  falam sobre "Caligrafia Poética Sul-baiana"
II FESTIVAL LITERÁRIO DE ILHÉUS (26.04.2017)

Palestra de Florisvaldo Mattos

Nesta navegação de longo curso para uns e curto para outros, que é o ato de publicar livros, acabo de lançar o meu oitavo livro de poesia, portando 97 inéditas elocuções de fundo lírico e outras tinturas que namoram afoitamente o épico. Embora a idade não me justifique, sou de publicar livros minimamente, quase esporádicos. Depois de Poesia Reunida e Inéditos, em 2011, e Sonetos elementais, em 2012, resolvi invocar novamente a paciência dos meus raros leitores com novo volume de versos, intitulado Estuário dos dias e outros poemas, fruto dessa longa, porém magra aventura editorial.
Há poucos meses, postando eu alguns inéditos na internet, o poeta Antônio Brasileiro, um dos astros da geração posterior à minha, externando a cordialidade e a generosidade que lhe favorece o recanto bucólico onde vive, em Feira de Santana, sua pátria sertaneja, dizia-se surpreso de meu desígnio em não me afastar por completo da poesia.
- “Oitentão que é, isso é mais que admirável” - espantava-se ele.
Perdoando-lhe o excesso, curvei-me, sensibilizado, diante da bem-humorada gentileza, ao ver ali quase repetir-se atitude benigna de Jorge Amado, 61 anos antes, quando publiquei Reverdor, meu primeiro livro, ao confessar, em comentário lido durante sessão da Academia Brasileira de Letras, quão contente se sentira com a descoberta, segundo ele, de um poeta e uma poesia, num tempo “de tanta facilidade e tamanho engano de rapazes tão sem verdade e sem força de criar”.
Não sei se o futuro absolveu a opinião do grande romancista, para muita honra meu conterrâneo grapiúna. A sorte fora lançada.
Ao longo da vida, tenho sido mesmo um tanto avaro em publicar, tanto quanto em escrever literatura. Se cuidadoso na poesia, ainda mais o fui em relação a outros gêneros literários, pois, em prosa, só escrevi e publiquei um conto e uma peça de teatro, esta levada em 1974, no Teatro Vila Velha, em Salvador, pelo saudoso diretor Sóstrates Gentil, versando um tema alojado justamente na remota atmosfera de lutas de coronéis e jagunços em terras do cacau. Abri uma exceção, assim mesmo parca, apenas para a ensaística em literatura, arte e questões sociais.
Ultimamente, tenho me fixado mais na poesia, e em leituras e releituras do que me agrada. Ao longo do tempo, fui para com ela um tanto adúltero, escudado e insuflado por duas razões básicas: a primeira teve como marca indevassável o grau de autocrítica de que desde jovem me tomei, diante da ânsia de escrever o que pensava e sentia. Repetindo o argentino Jorge Luís Borges, creio que a poesia e o poema se apresentam ao poeta e ao mundo como uma forma de magia. Como ambos dependem da linguagem, casam-se pensamento e imagem por meio da palavra para alcançar a emoção, que é, por fim, o que aguarda o leitor, sem que com isso se despreze a forma.
Dizia Ezra Pound que a técnica é a prova da sinceridade de um poeta. Concordando com ele, tenho para mim que sinceridade e qualidade se completam no fazer poético.
A outra razão que me pôs a poesia em plano secundário foi o absorvente mergulho de 53 anos no exercício cônscio e fiel do jornalismo profissional, desde que, no mesmo dia da solene formatura em Direito, frustrando os sonhos de meu saudoso pai, um denodado comerciante rural que exercia seu oficio no fundo de matas e roças de Itacaré, eu já compunha a redação de um novo jornal, que surgira em Salvador, o Jornal da Bahia, optando por ser jornalista, como uma fatalidade, para toda a vida.
Por fidelidade a uma profissão, optei por ser, assim, durante anos, em matéria de poesia e literatura, embora persistente leitor, um quase criador secreto, desses que levam a vida esmerando-se em guardar o que escrevem, elegendo uma gaveta como o seu mais paciente e fidedigno leitor, ou como outros que se conformam, resignadamente, em publicar um único livro em vida, como foi o caso de um de nossos maiores poetas, nascido em Belmonte, mas por muitas décadas vivendo em Ilhéus, o saudoso Sosígenes Costa. Pronuncio esse nome e me vejo compelido a abrir um parêntese, para evocar e registrar quão proveitosa foi para mim, ainda jovem, a relação de admiração, aprendizagem e amizade que travei com Sosígenes Costa, nesta cidade, que, para ele, brilhava “qual grande búfalo fosfóreo”.
Completado o curso de ginásio, vinha eu de Itabuna, para atender a duas imposições do momento: prosseguir nos estudos e cumprir o serviço militar obrigatório. Foi quando, já escrevendo e publicando poemas, em jornais, mas de fundamento romântico e rabiscos parnasianos, colegas e amigos me advertiram da existência em Ilhéus de um dos maiores poetas da Bahia e, logo, me emprestaram uma antologia de poesia baiana, editada no bojo das comemorações do quarto centenário de fundação da Cidade da Bahia, que trazia poemas dele. Lendo-o, fiquei curioso e empolgado e, logo, também, ansioso por conhecê-lo.
Quero aqui apenas relembrar o que foram essas amenas tardes de frequência na plácida sala de trabalho de Sosígenes Costa, como secretário da Associação Comercial de Ilhéus, abrindo-me os horizontes não só para outras esferas da poesia nacional, especialmente o modernismo, como para a poesia em si, e quanto disso dependeram as minhas opções futuras, dele auferindo um rico e vasto cabedal de experiência e saber que me chegava por meio de lúcidas palavras.
Esses momentos de tranquila conversação com o bardo de Belmonte foram resumidos em um capítulo de meu livro Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, publicado em 2004. A título de reminiscência, aqui transcrevo parte dessa convivência, mostrando fielmente o que significou para mim dialogar com um grande poeta em carne e osso.

“Tímido, penetrava eu naquele edifício de sóbria arquitetura e arremedos neoclássicos da veneranda Praça Eustáquio Bastos, para visita-lo, e lá permanecia seguidas horas. Mostrava-lhe poemas que escrevera ou publicara no Diário da Tarde, onde me acolhia a generosidade quase paternal do jornalista Octávio Moura, então diretor do órgão que ajudou a construir e propagar o prestígio da região do cacau. Ouvia seus comentários, suas ponderações, transmitindo-me conhecimento da arte da poesia e, principalmente, fazendo-me perceber maneiras de como melhor trabalhar com o verso.”
“Alto, aprumado e hígido, sempre de terno e gravata, em sua poltrona, tranquilo e reservado, nessas ocasiões, Sosígenes mais parecia um sacerdote em trajes profanos, a discorrer pausadamente sobre literatura e poesia. Por uma janela, à minha esquerda, o frescor da brisa que vinha do mar em direção à praça invadia a sala, com os perfumes de um pequeno jardim, onde eu supunha cultivasse ele as rosas, os crótons e os antúrios que minha vista alcançava.”
“De quando em vez, animado pelo clima da conversa, meu interlocutor abaixava-se, abria uma gaveta à direita de sua escrivaninha e de lá arrancava maços de papel amarelecido e gasta datilografia, alguns em manuscrito, e lia belos sonetos, todos àquela altura inteiramente inéditos em livro, embora andasse o poeta beirando, em 1951, já então os 50 anos. E, com alento, completava a leitura, levantando-se e dirigindo-se à biblioteca que organizara para a entidade, mas, no fundo, sempre supus, para si próprio, e de lá vinha sobraçando dois ou três livros de arte ou história da arte, em cujas páginas se detinha, comentando reproduções de obras de artistas de diferentes estilos, escolas e épocas.”
“Perplexo e enlevado, com os poemas que ouvia e lia, em manuscritos ou datilografados, auferindo sua linguagem e força imagética, e, também, com os livros de arte, cujo conteúdo e aparência eram para mim novidade. Apreciava e dali saía convencido dos rumos que deveria seguir doravante, em matéria de poesia e literatura, bem diversos das oportunidades de leitura e estudo, que, até bem pouco tempo antes, tivera, a apenas trinta quilômetros de distância, na cidade de Itabuna, de prósperos comércio e vida rural, porém de quase nenhuma ilustração estética. Afora o esporte, presidindo ao princípio do mens sana in corpore sano, a arte deveria ser algo estranho àquelas plagas de hábitos e costumes ainda rústicos.”

Aproveito para ler aqui um dos poemas dele, que constavam da antologia, justamente um dos emblemas de sua lavra poética, com a reiteração de versos, que é uma das marcas de sua criatividade, sem em nada prejudicar a expressão lírica, segundo o crítico José Paulo Paes, que editou sua obra completa, postumamente.

CREPÚSCULO DE MIRRA

Sosígenes Costa (1901-1968)

A tarde fecha a cintilante umbela.
Vêm os aromas como uma grinalda
ornar a sombra arroxeada e bela
e ungir os nossos sonhos de esmeralda.

Nuvens de mirra e oriental canela
formam na sombra a singular grinalda.
A tarde fecha a cintilante umbela
e o vento as asas do dragão desfralda.

A própria lua vem lançando aroma.
Nasce vermelha como a flor de um cardo
e sobre a mirra dos vergéis assoma.

E a noite chega no seu grifo pardo,
cheirando a incenso como o rei de Roma
e como Herodes recendendo a nardo.

(1927)

Após as obrigações de estudo e serviço militar, parti para Salvador com a mente prenhe de novas ideias e aspirações, e o corpo tomado de ânimos. E foi quando, após algum tempo, já na universidade, me engajei nas aspirações estéticas e vivenciais do grupo que iria depois chamar-se Geração Mapa, publicando poemas inicialmente na então aclamada revista Ângulos, produto das lucubrações estéticas do que restava do movimento Caderno da Bahia (1948-1955), que vigorara na década anterior, e também em jornais.
Esse movimento, cujo nome advinha da revista intitulada Mapa, que passou a editar, tinha como proposta básica consolidar o que não conseguira a geração anterior, que era, além de romper com a inércia cultural, cevada na renitência do conservadorismo, varrer, de uma vez por todas, o bolodório e o preconceito vigente contra a arte moderna, tendo como baliza a nova realidade nacional e internacional, defrontada com o esmaecimento dos reflexos do pós-guerra mundial e surgimento de um novo patamar na condução dos conflitos entre países. O mundo se pautava agora pela Guerra Fria, no confronto entre Estados Unidos e União Soviética.
Diferentemente de movimentos anteriores, o grupo de Mapa se abria também, sob a liderança de Glauber Rocha, para outras amplitudes, pois, além de poesia, literatura, artes plásticas e jornalismo, cultivava outras linguagens artísticas, como cinema, teatro, dança, editoração e arquitetura, e com esse fôlego firmou-se no cenário cultural baiano, mergulhando, com ações, criações e posturas, na caudal impelida pelas reformas que a administração do reitor Edgar Santos, então, fins dos anos 50, inícios dos 60, imprimia na Universidade da Bahia, possuindo contornos de uma verdadeira revolução cultural.
Atuando em várias frentes, além da revista Mapa, o grupo criou seu próprio selo editorial, as Edições Macunaíma, que publicava livros, álbuns e plaquetas;  fundou uma companhia cinematográfica, a Iemanjá Filmes, que abriria caminho ao movimento do Cinema Novo, projetando-o nacionalmente, em ousado e fecundo processo que desaguaria na realização de filmes paradigmáticos, como Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, já antes autor do longa Barravento e do curta O Pátio; assim como outras realizações de destaque neste segmento cultural, entre as quais o documentário Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, que escreveu também uma peça de teatro, Evangelho de Couro, versando sobre a tragédia de Canudos, marco e exemplo do apoio e incentivo do grupo ao pioneirismo vitorioso da Escola de Teatro da Universidade da Bahia. No campo das artes plásticas, organizou exposições de pintura, escultura e gravura, não só de seus próprios artistas, como de outros, contribuindo para o incremento não só do mercado de arte como para o surgimento de várias galerias de arte em Salvador.
Hoje, confesso sentir imenso orgulho por pertencer a esta geração, cujo início de atividades dentro da cena cultural baiana completa redondos sessenta anos, neste 2017, com os espetáculos de poesia teatralizada levados no auditório do Colégio da Bahia, as chamadas Jogralescas, que açularam os ânimos, tanto de progressistas, como também os de espíritos ainda presos a um passado, que desejavam jamais devesse passar.

Direi algumas palavras sobre esta minha magra trajetória editorial.
Meu primeiro livro, Reverdor, publicado em 1965, por incentivo e empenho de companheiros de geração compreendia uma coletânea de poemas em que eu advertia de entrada que tinham sido reunidos para publicação, “tendo em vista uma unidade temática de base agrária”, querendo com isso transmitir a ideia de que a poesia deveria se distanciar das angústias, tormentos e atribulações urbanas, buscando purificar-se com o que emanava da vida rural e atividades agrárias. Estava imbuído da ideia de que a vida urbana começava então a ser fonte de perturbações mentais, mais apropriadas ao tratamento psicanalítico. As palavras deveriam transmitir um estado de pureza na formulação do poema. Com isso, deixei de fora poemas de produção anterior, que só iriam aparecer como parte de um terceiro livro, sob o título de Noticiário da aurora.
Leio um poema deste primeiro livro.

A CABRA

Talvez um lírio. Máquina de alvura
sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório
sobre lajedo o casco azul polindo,
dominas suave clima em promontório;
cabra: o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me perdurando nos ouvidos,
laborado em marfim – luz e presença
de reinos pastoris antes servidos –

teu pelo residência da ternura
onde fulguras na manhã suspensa:
flor animal, sonora arquitetura.

(1965)

No segundo livro, Fábula civil, de 1975, opera-se um salto, impulsionado pelo cenário de trevas e opressão que se estabelecera no país, sob o guante da ditadura, instalada em 1964. Não havia então outra saída. Espelho de uma realidade pulsante, mas embebida no martírio, a poesia irá refletir o que a censura permitiria perceber-se, pela voz da mídia e pelo trânsito dos assombros, projetado eficazmente no espaço urbano, prevalecendo uma entonação entre o dramático e o épico, mas sem perder de vista a pulsão lírica, em versos medidos e formas fixas. E, como em todos esses casos, a construção poética se funda mais no alusivo do que no descritivo, num jogo de equivalências intuitivas, por se tornar o poeta uma soma das contingências em que se misturam o tempo, a terra e as gentes.
Leio o poema que inicia Fábula civil.

CLARO
           
Pelas tardes de fogo homens
pedras movem com capacetes
de sombra mergulhados
em ruas de verão e sal.

Nada me diz que as coisas
se passam como me dizem
além
da parede de vidro que nos divide
aquém
das algemas de sono que nos unem.

Sou como posso fiel
a meu projeto mesmo
que de pronto não o achem
meus olhos – anônimos
minhas mãos – rachadas
meus lábios – rebeldes

nos espaços burocráticos
nas relações de amizade
nos desertos duros da fome.

Liberdade é meu ser
e tempo. É o meu nome.
Razão – o meu sobrenome.

(1975)


O terceiro livro, A caligrafia do soluço e poesia anterior, só aparecerá quase 20 anos depois, em 1996, sem perder de vista a memória de tempos sombrios e as experiências amargas, mas com a inclusão de poemas publicados anteriormente que lhe conferiam uma atmosfera de animação e esperança.
Mares anoitecidos, meu quarto livro de versos, cuja publicação em 2000 integrou a série de iniciativas editoriais voltadas para os 500 anos do Descobrimento, reúne poemas de conotação dramática e histórica, centrados no princípio de inspiração clássica de que há mais poesia na história dos vencidos, isto é, na tessitura de um malogro, do que nas alegrias e fosforescências dos vencedores. Então, preferi ver o episódio que marcou dramaticamente a história da Bahia, nos anos 1624 e 1625, mais pelos olhos dos derrotados e expulsos holandeses que dos vitoriosos portugueses, situação que, a meu ver, na época, não apresentava diferença, desde que os portugueses, antes, tinham sido também invasores da chamada Terra Brazilis.
Leio um poema de Mares Anoitecidos.

ROCHEDOS

Meu coração agora te pertence
lua que vaga sobre esses rochedos,
eles mesmos reflexos de longínquos
muros, agora esfinges a espreitar
distâncias, a arrimar arquitetura
nostálgica de cercos, a exumar
brasão latino ou artifício mouro.
Meu coração agora vos pertence,
graves rochedos, arsenal de fúrias,
que são artes do tempo, vosso algoz:
em quieta hora da tarde ou noite morna,
decreto imemorial que a espuma lavra,
a ruína e morte, e a solidão, alude
o som da água que ruge a vossos pés.

(2000)

Em 2001, publiquei uma antologia intitulada Galope amarelo e novos poemas, para em 2011 dar a público Poesia Reunida e Inéditos, em volume de quase 400 páginas, a que se seguiu o de Sonetos elementais – Uma antologia, em 2012, e, por fim, agora, Estuário dos dias e outros poemas.

Creio que devo referir-me um pouco a esses meus exercícios de magia verbal. Sempre escrevi poesia, além das cogitações que me são próprias, à luz de grandiosos exemplos, na presunção de que, manejando com palavras, o poeta não pode dispensar o som e o ritmo, que lhes são próprios; e por isso ainda vejo como não superada a recomendação de Ezra Pound de que o poeta, além da obrigação de ir direto ao objeto cogitado, deve inundar seu enunciado de palavras carregadas de significado, eliminando todo e qualquer elemento supérfluo, sem descuidar-se da cadência musical. Isto é, para mim, a ressonância de advertência contida em verso famoso do francês Verlaine, - “de la musique avant toute chose” (“a música antes de tudo”). Dentro dessa moldura, ouso defender que a elocução em poesia é basicamente rítmica, com uma inclinação para o musical, no encadeamento e na entonação das palavras.

Em relação a meu último livro, Estuário dos dias e outros poemas, constituído em grande parte de poemas lavrados em versos decassílabos, gostaria de transcrever palavras da apresentação, que lhe fiz, em muito justificadoras de meu processo criativo, que consiste em escrever versos sempre levando em conta o som e o ritmo das palavras.

“Embora possa a muitos parecer uma excentricidade ou, talvez, uma nostalgia de abominado rastro parnasiano-simbolista, considero-o uma espécie de tributo à forma, pois alimento intimamente a convicção de que, originário da Itália, foi o verso decassílabo que civilizou a poesia, não apenas a portuguesa ou a hispânica, mas ocidental. Dentro do universo lusófono, este verso possui extraordinária longevidade, desde o momento em que Sá de Miranda, numa época de sagas cavalheirescas, voltando de uma temporada na Itália (1521-1526), introduziu a forma do soneto em Portugal e trouxe o decassílabo como seu leal escudeiro.”
A esse respeito, subscrevo o que diz o excelente jornalista e ensaísta João Carlos Teixeira Gomes, meu companheiro de geração e confrade na Academia de Letras de Bahia, por sinal, também poeta e exemplar sonetista, que classifica, em recente livro, este consagrado verso como “um operador poético poderoso”, pelo tanto que possui de “harmonioso e melódico”. E assim o justifica: “No restrito espaço das dez sílabas, o decassílabo se expande na direção de um universo de modulações rítmicas e melódicas que parecem infindáveis”.

No encerramento desta minha fala, quero ler um poema ainda inédito, que, no fundo, é o modo com que procuro me redimir de, tendo escrito poemas de fundo memorialístico em homenagem a Uruçuca e a Itabuna, jamais ter escrito um que reverenciasse a cidade de Ilhéus, onde vivi e tive momentos de alegria e felicidade juvenil. Pode parecer um chiste, mas o fato é que, lendo eu um poema de Ruy Espinheira Filho, deparei-me com uma estrofe em que ele invocava a sua memória juvenil, lamentando nunca ter ido à praia, nem tampouco visto o mar. Tão íntima confissão me tocou e, então, escrevi um poema celebrando o momento em que Ilhéus me proporcionou ver pela primeira vez o mar, aos 12 anos de idade.
Ei-lo, construído em sétimas e versos de sete sílabas.

A DESCOBERTA DO MAR

                              Não, não íamos à praia.
                                    (...)
                                    Pois é, também não víamos o mar
                                    E as lagoas não compensavam.
                                                           (Ruy Espinheira Filho)

Eu também não via o mar.
Via o ribeirão e o brejo.
Vi depois um manso rio,
Onde aprendi a nadar.
Sonhava noites a fio.
No fundo havia o desejo
De sair e ver o mar.

Foi graças ao trem-de-ferro,
Que um dia parou na praça,
Com intenção de me lançar
Por um caminho sem erro,
E me levou para o mar.
Até me dava de graça
O contrário de um desterro.

Falam mais alto o meu sonho
E toda a minha alegria,
Com gosto de navegar.
Levei um susto medonho,
Tamanho mesmo do mar;
Com cores de epifania,
Era maior que o meu sonho.

Meu pai levou-me a um bar,
Que não comporta miçanga
(Ardente nome: Vesúvio!),
Um éden diante do mar.
Corre pelo ar um eflúvio,
Traço um sorvete de manga,
Satisfaz-me o bom-mirar.

Vastidão de azul e verde,
A se perder no horizonte,
No rastro de branca espuma!
Quanta alegria em se ver
De longe o quanto se esfuma,
Qual doce correr de fonte!
Na vida quanto se perde...

Um dia escrevi louronda,
Palavra de amor concreto,
Em folha depois sumida,
Na esteira de doida onda.
Uma lição para a vida:
Hoje sei em que dialeto
Um dia escrevi louronda.

Água, terra, fogo e ar,
Trouxe ao menino a ciência,
E muito mais. Quando busco
Uma rima para mar,
Seja aurora ou lusco-fusco,
Cá me diz a experiência:
Não há melhor do que bar.

MUITO OBRIGADO.

Ilhéus: vista parcial,  em destaque a praça central, Catedral, o Bar Vesúvio, o Teatro Municipal e o Hotel Ilhéus Palace
Palestra pronunciada, na noite de 26.04.2017, no Teatro Municipal de Ilhéus, na abertura do II Festival Literário de Ilhéus, ao qual o palestrante compareceu, na condição de convidado e homenageado, seguindo-se uma mesa de debates sobre o tema “Caligrafia Poética Sul-baiana”, da qual também participou.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

VISÕES DE ÉDEN SÚBITO CONTEMPLADO

POR CAMINHOS DE ONTEM, COMO HOJE
Acordo em domingo de calor sob céu mormacento, após uma tarde e noite de três eventos cordiais e afetivos - almoço anual de confraternização do que resta da turma de formados na UFBA em Direito, deparando-me com a melancólica percepção de que, de 71, apenas 26 respiram, silenciosos ou sorridentes; lançamento de livro de um amigo baiano apaulistado (Roniwalter Jatobá), sob um toldo camarada de cerveja e vinho, na Confraria do França, e, por fim, o aniversário de uma estimadíssima cunhada -, vejo-me relendo um poema que escrevi, faz algum tempo, subitamente impelido por dois versos do simbolista francês Jules Laforgue (1860-1887), que me puseram a meditar sobre como teria sido o mundo (o céu, a terra, as águas), no tempo em que o homem ainda não existia. A vida é também forma de descobrir e inventar caminhos. E, na certeza de que caminhos se fazem ao andar, como garante o espanhol Antonio Machado, me vi subitamente transitando por essa espécie de senda onírica - sozinho no mundo, sem mais ninguém... Vai abaixo o texto, que consta de meu novo livro, cujo lançamento coincidentemente já não mais sonho em tempo de febris sensações natalinas, poema apropriado para ser ouvido ao som de um saxofonista de Jazz-fusion, como o do argentino Gato Barbieri, nesta gravação intitulada "El Sublime", aqui ilustrado com pintura de Paul Cézanne, em mais uma imagem de sua adorada montanha de Sainte Victoire, em sua Aix-en-Provence natal. (Facebook, 04.12.2016)
Paul Cézanne (1839-1906), Mont Sainte Victoire, 1902-1906


VISÕES DE ÉDEN SÚBITO CONTEMPLADO

Tout est vain, - et, là-haut, voyez, la Lune rêve
Aussi froide qu´aux temps où l´Homme n´était pas.*
Jules Laforgue (1860-1887)

Toda existência é ocasional regresso...
Ernâni Rosas (1886-1954)

...Circunvagante, a onda escura avançava
Ubíqua, rumo da terra, tocada de ventos músicos.
“Hino Homérico a Apolo Délio” (Ordep Serra, tradutor)

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.
Robert Frost (1874-1963)


Sonho-me aventureiro de outros sonhos.
De pés firmes, me apalpo e, calmo, sigo.
Abrisse uma cortina, não seria
de escuro firmamento o panorama.
Fontes murmuram, fresca brisa sopra.
Suspira o mar. Eu, soltos olhos ávidos,
vislumbro encostas e sobre elas abro
um caminho ondulante e pedregoso.
No silêncio, nas extensões desertas,
meus olhos tensos captam o que vibra.
Há o sol, o vento, rochas, lagos, rios;
bem perto ou longe, indecifrável fauna,
bosques de árvores densas, impassíveis,
de mãos nunca tocadas nem palpadas;
leito rico adiante de lama e argila,
e o mar, sereno, casto e palrador;
oceano nenhum de lava e ferrugem;
planos só de cascalho e rubra areia.
Assento os olhos em cipós trançados:
nada de Neandertais de ignotas fauces,
pisando crosta de solúvel ferro,
sinais de caça, faina, habitação.
Verdejo-me no sonho. Em rocha sento-me
de cimo que rodeiam ventos brandos;
vestindo-me de ar puro, paz e selva,
o céu, um pálio alto de azul intenso,
por onde o sol navega assiduamente,
gestando madrugadas e crepúsculos,
que um dia dirão de ouro, bronze e sangue,
nuvens reverberando luz constante;
adiante o mar, sonoro e ininterrupto,
saudando orla de areia minudente.
Tempo de não viver, só de existir;
rastro humano nenhum. De cima, a lua,
solene e vigilante quanto fria,
guarda o que passou, passa e passará.
Ninando a noite que parece dormitar,
ela, no alto, ainda paira (primeiro e único
sinal de amor no mundo) e, cá em baixo,
eu, na felicidade de estar só.
Só, na frígida noite que declina,
desvelo o tempo em que o homem não existe.
No céu a lua sonha; embaixo, apenas
obscuros rastros, calma e solidão.
Na certeza que os fados me reservam,
vou para um princípio que não tem fim
e, após ida colecionando assombros,
volto para um fim que não tem princípio.
Comigo o que alfarrábios me negaram:
pedra, metal, madeira, barro ou som,
tudo o que a mim agrada e fantasia.
Por pântanos transito e me pergunto
o que me faz estar nessas paragens,
no instante mesmo em que acorda o mito.
Sei que um dia isto nunca será descrito,
nunca visto será, nunca explicado.
Nunca, se nem mesmo há o pensamento,
o tempo numeroso, calendários,
as sensações, as convenções, os números;
signos, crenças, a exata ciência, os códigos,
vivências, falas, preces e caminhos;
nada que, vindo do homem, será do homem?
Solfeja o mar. No cadenciar das ondas,
versos compõe com sílabas de espuma.
Quero um instante na caverna entrar;
talvez lá pare e me ponha a desenhar,
escrever e narrar, com pau e pedra,
o que agora mais vejo à minha frente
passar, correr, saltar, morder, zumbir,
uivar, berrar, zurrar, bramar, cantar.
Por águas e ares vou, pelas clareiras,
para a sombra que seja, ou para o nada.
O corpo me convida a repousar.
Deito. Levanto e indago em derredor
se haverá sempre essa noite e esse dia.
Miro a rua liberto de vaidades.
Da janela, a manhã me justifica,
imaginando o que pensou Laforgue,
na sua perfeição antropomórfica,
em noite de gelado Carnaval.

SSA/BA, 14/02 (sábado de Carnaval);11/03/2015
Florisvaldo Mattos, Estuário dos dias e outros poemas (no prelo).

*Tudo é vão, - e, lá no alto, vede, a Lua sonha
Tão fria como no tempo em que o Homem não existia.
(LAFORGUE, trad. nossa)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

TERCETOS SENSORIAIS

                                                             Imagem: Apollonia Saintclair


Honorino Rial



La mer, la mer, toujours recommencée!
           O recompense après une pensée
           Qu´un long regard sur le calme des dieux!
                                                                       (Paul Valéry)
À l'austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle,
"Quelle est donc cette femme?”, et ne comprendra pas...
                                                           (Félix Arvers)
Crede mihi, non ulla tuae est medicina figurae
   nudus Amor formae non amat artificem. 
                                                           (Propércio)
Omnia vincit Amor: et nos cedamos Amori.
                                                            (Virgílio)
           As mãos liriais, / Os braços divinais / O corpo algo sem par / (...) / Enfim eu vi nesta mulher /             Uma perfeita Vênus.
                                               (Benedito Lacerda e Aldo Cabral)

Imagem: Apollonia Saintclair

Não és Marie e nem és Mennessier,
E não serás tampouco Nodier,
Como eu nunca serei Félix Arvers.

A vida tem mistérios e segredos.
Não se pode viver de sonhos ledos,
Se a mente se escancara para os medos.

Penso que meu destino é sem remédio.
Abro a porta, surpresa: um corpo nédio,
Que surge para sepultar meu tédio.

Dizem: na encruzilhada, o Cão atenta,
Com todo o turbilhão que o tempo inventa.
Miro-te o rosto: uma ave na tormenta.

Em dias que se vestem de mormaço,
Sopras tua candura neste espaço
E à cobiça te expões de um sol devasso.

Ou por outra, sentada em um jardim,
De olhar tão longe e tão perto de mim,
Vieste, gasta de noites do sem-fim.

Silêncio é tudo que não nega sendas
E não exige que se ponham vendas
Em quem parece vir de antigas lendas.

Não posso te dizer o que ora sinto.
Se a outros, louco, disser, dirão que minto.
Nem é para mim solução o absinto.
Gustave Moreau: Salomé Dançando para Herodes

Até penso que és mito, deusa ou fada.
Vontade de deixar-te embriagada,
Hoje, não amanhã, diva sonhada!

Ah, ponho-me de fauno na clareira
Urbana. Logo um vulto, alvissareira
Imagem; para mim, Ceci trigueira.

Contemplo-te do fundo de meus ais:
Uma estátua, mas não de mãos liriais.
Ah, boneca tu não serás jamais.

Em meu desvairo, perdido e sem nexo,
Vendo em ti do sol vívido reflexo,
Pergunto-me como será o teu sexo.

Tu nada tens de Laura, nem de Ofélia;
Nada de flor, bem mais tens de bromélia.
Não és Cíntia, nem Lia, jamais Amélia. 

Pra mim és Salomé de Sá-Carneiro, 
Dançando e contorcendo-se - um salseiro! -,
A me fazer sonhar o dia inteiro.

Vejo a morena coxa – quanto brilha! -,
Tanto quanto brilhou Ninon Sevilla,
Numa sonora mexicana trilha.

Talvez até Kiki de Montparnasse,
Coração de vanguarda; outra, que trace
Em mim caminhos, medre e me ultrapasse.
Kiki de Montparnasse. Lucien Mandel, 1923

Tens um livro na mão. A mente aflita,
Curiosa, indaga: "Não será Lolita?"
Ânsia maior talvez de quem cogita.

Choras porque perdeste a virgindade,
Por uma distração de pouca idade,
Com um noturno assaltante da cidade.

Sorris dessas lembranças da alvorada,
E de outras, que não servem para nada.
Hoje, mulher, não queres ser manada.

Os dias sem nenhuma maquilagem
Passas, a idade não exige; a imagem
Só precisa de um ato de coragem.

Quando os fados atingem belas almas,
Deuses vêm e lhes oferecem palmas.
Eu te ofereço mel, em tardes calmas.

Tu me pertences; ouve esse ditame.
Encaro a rosa. Pedes-me que te ame.
Beijo-a. Se recuso, serei infame.

Entre lençóis ou no sofá da sala,
És a luz que me espera. A Lua fala.
Sonoro vento sopra em céu de opala.

Subo e chego ao pedestal dos seios;
Percebo lentamente os teus gorjeios.
Se desço em disparada, perco os freios...


Tens no corpo talvez um tino sábio.
Ainda mais ambicioso chego ao lábio,
Adornado de flor, meu astrolábio.

Mordes-me e, de teus antes ternos
Olhos, ora de fogo e brasa internos,
Fluem ardências semelhando infernos.

Beijo-te. Tu me lambes, eu te lambo 
Sexo e pernas, e os seios cor de jambo.
Dali saímos para dançar um mambo.

Quando vejo na praia os claros seios,
De suavidades e beleza cheios,
O idioma deles soletrando, leio-os.

Na praia azul, em tarde de preamar,
Nua, vais; mas percebo um risco no ar,
De eu ir atrás e me perder no mar.

Sentamo-nos à beira do caminho.
Hebe nos serve taças de bom vinho.
Brindamos. Eu te cubro de carinho.

Tens uma lua de ouro dentre as pernas.
Levas-me a ela, com mãos leves e ternas.
Rasgam-me o corpo sensações eternas.


Na plenitude desse instante raso,
Vibras: és como uma água a encher um vaso.
Nem mesmo ramos fazem pouco caso.

Súbito, deste-me a rosa, e eu beijei-a.
A rosa rubra de uma vã sereia,
Estendida na minudente areia.

Eu, de novo, te lambo e tu me lambes,
Neste paraíso em que somos dois bambis.
Sol, sê testemunha, antes que descambes!

De cima a baixo, ó tempora, ó mores!,
E eu, a sentir que vem de teu clitóris
Uma doçura de ambrosia... Ó flores!

Abres-me o sonho em púrpura de flor,
De fruto mesmo, doce e multicor;
De canto em ramo, vésperas de amor.

Pele em brilho auroral de sóis amenos,
 
Os seios fartos de florais acenos,
Cubro-te, como as águas cobrem Vênus.

Teu corpo esbelto, longe de conselhos,
Faz acordar em mim uns sonhos velhos,
E eu, sobre teu ventre, a apanhar de relhos...

Imagem: Apollonia Saintclair

Ávido, baixara eu do seio às coxas,
Ante um crepúsculo de nuvens roxas,
Que a ti me aprisionava como a rochas.

Miro do mar os pontos luminosos,
Das gaivotas os voos sinuosos,
E em teu corpo faróis de ardentes gozos.

Para aplacar o caos que me atordoa,
Saímos os dois e vamos para Goa,
Com caravela e mar de sorte boa.

Camões estará lá com seus sonetos,
De almas gentis, sonhos e amor repletos,
Sem que ventos e céus imponham vetos.

Oh! Musa de um sonhar primaveril,
Por que acendes em mim furor viril,
A enredar-me em lascívias cor de anil?

Contigo, só meu sonho era o sublime
Manter intacto, que ele a mim redime,
No íntimo, porque amar nunca foi crime.

As palavras enganam, bem sabemos.
Para seguir, precisarei de remos,
Sujeito a me bater com polifemos.

Não podes ser Marie Mennessier,
Porque beleza hoje é só mais de ver.
Não é de imaginar, não é de ser.

Só não deixas meu coração em paz,
E, ante esses versos, ah! perguntarás:
"Que mulher será esta?" Descobrirás.

Sozinha, o mundo encaras, silenciosa.
És fruta e luz, em nada pedregosa;
Jamais contradição, somente rosa.

Deste sonho varonil me despeço.
Acordo. Vou à estante, leio e meço:
Não se resume a vida em ter sucesso.

À tarde, como se mirasse o mar,
As cortinas abro, de par em par.
Não há nada melhor do que sonhar!

(FM. SSA/BA, 15/07/2016)

Amedeo Modigliani (1984-1920), Nu Reclinado (1917)

GLOSSÁRIO

(Reporta-se aos nomes que figuram ou são aludidos no poema, pela presença nos versos).

Marie Mennassier-Nodier (1811-1893). Trata-se da figura, dama da alta sociedade francesa, casada, que a maior parte da crítica admite ter sido a musa oculta, inspiradora de um célebre soneto de autoria do poeta Félix Arvers, a ela sigilosamente dedicado.

Félix Arvers
 (1806-1850). Poeta e dramaturgo francês do período romântico, que ficou mundialmente famoso pelo soneto (Le Sonnet d´Arvers) supostamente inspirado por Marie Mennessier-Nodier e a ela secretamente dedicado, que pôs meio mundo, ao longo de decênios, na detetivesca tarefa de desvendar a musa inspiradora, cujo terceto final está entre as epígrafes, que encabeçam o poema.

Ceci - Apelido carinhoso de Cecília de Mariz, famosa personagem do romance O Guarani, de José de Alencar (1829-1877), publicado em 1857 e visto como epopeia da nacionalidade, servindo depois de inspiração a Carlos Gomes (1836-1896) em ópera com o mesmo título, estreada em 1870. No célebre romance, Ceci é o amor do índio goitacá Peri, assim comumente descrita: "Ceci (Cecília): moça linda, de doces olhos azuis, gênio travesso, mas meiga, suave, sonhadora, herdeira da força moral interior de seu pai, D. Antônio Mariz". (Google). O personagem depois serviria de leit-motiv a filmes, histórias em quadrinhos, série de televisão e pinturas nacionais de linhagem figurativista, aparecendo ainda em criações de música popular, como na marchinha carnavalesca A História do Brasil, de Lamartine Babo, sucesso do Carnaval de 1934, na voz de Almirante, na qual "Ceci beijou Peri / Ao som do Guarani", entre outras adaptações.

Laura – Personagem do teatro do espanhol Calderon de la Barca (1600-1681), que aparece em um soneto de Olavo Bilac, o XXIII da Via-Lactea, cujo primeiro quarteto assim a celebra:

Laura! Dizes que Fábio anda ofendido
E, apesar de ofendido, enamorado,
Buscando a extinta chama do passado
Nas cinzas frias avivar do olvido.

Ofélia – Personagem da tragédia Hamlet, de Shakespeare, arquétipo da donzela indefesa, consagrada pelas artes plásticas, especialmente entre os românticos (Millais, Delacroix), pelo tanto que simbolizava o seu suicídio.

Cíntia – Amante e musa inspiradora do poeta romano Sexto Propércio (47 a.C-16 a.C), essencialmente lírico, que, protegido de Mecenas, atuou no período do imperador Augusto, tendo como companheiros de vida literária os poetas Tibulo e Ovídio. A ela dedicou suas três primeiras séries de poemas intitulados Elegias. Tradução dos versos de Propércio, na epígrafe:

Crê-me: nenhum cosmético é necessário ao teu semblante;
O amor é nu e não ama os artifícios da beleza.
                                                             (Elegias)

Lia – Personagem bíblica, filha mais velha de Labão, de beleza simplória, dada por este, numa tramoia, em casamento a Jacó, que preferia a bela Raquel, irmã mais nova dela, episódio consagrado por Camões num clássico soneto, cujo segundo quarteto registra:

Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia. 

Amélia – A “que era mulher de verdade” num célebre sucesso carnavalesco, o samba, “Ai que saudades da Amélia” (1942), de Ataulfo Alves (1909-1969), em parceria com Mário Lago (1911-2002), a que “não tinha a menor vaidade”, símbolo de consciência e probidade, na relação com o parceiro.
Salomé - Personagem bíblica, cujo nome deriva do hebraico Shalom, significando Paz, embora tenha ficado famosa pela degola de São João Batista, para atender à sua mãe, Herodias, que o odiava, episódio do Antigo Testamento, ocorrido na corte de Herodes Antipas (20 a.C.- 39 d.C), tetrarca da Galileia, a quem Salomé fez o pedido, após ele, encantado com a beleza de sua dança, num banquete, prometer dar-lhe o que pedisse, até mesmo a metade de seu reino, segundo a lenda. E a cabeça de São João saldou a dívida.

Ninon Sevilla (Emelia Pérez Castellanos, 1929-2015). Bela atriz e dançarina mexicana, nascida em Cuba, de corpo escultural eroticamente celebrizado em filmes mexicanos das décadas de 1950-1960, dançando sensual e fogosamente mambos e rumbas.

Kiki de Montparnasse (pseudônimo de Alice Prin, 1901-1953). Atriz, dançarina e modelo, foi um dos símbolos da emancipação feminina do início do século XX, com destaque no período das vanguardas artísticas, envolvendo literatura, artes plásticas, música, dança, teatro, cinema e moda, em momento de revolução modernista, com sua fase áurea nas décadas de 1920 e 1930. Fez parte do conjunto de mulheres que deram uma nova fisionomia à presença feminina na cultura e na sociedade, em tudo pioneiras. Como modelo ou amante, manteve relação com vários artistas, tanto expressionistas, como surrealistas, entre os quais Chaïm Soutine, Tsuguharu Foujita, Francis Picabia, Jean Cocteau, mas sua relação mais duradoura se deu com o pintor e fotógrafo americano Man Ray, uma das figuras mais destacadas do surrealismo, que dela realizou centenas de fotos, algumas consagradas.

Lolita – Personagem de famoso romance de Vladimir Nabokov (1899-1977), que, editado primeiramente em Paris (1955), depois em Nova York (1958) e, por fim, em Londres (1959), projetou internacionalmente e consagrou o seu autor, tornando-se um marco da ficção no século XX, pela ousadia dramática e comportamental com que tece a sua trama, sendo adaptado sucessivamente para o teatro, o cinema e outras linguagens.
  
Sá-Carneiro (Mário de, 1890-1916) – Poeta e prosador, figura relevante do Modernismo português, amigo de Fenando Pessoa (1888-1935), cuja poesia sugere perturbações interiores, a refletir uma hiper-sensibilidade às vezes alucinada de voluntário desregramento sensorial, com ressonâncias de Rimbaud, na esteira do decadentismo de Antônio Nobre (1867-1900) e Camilo Pessanha (1867-1926). Ficaram dele dois livros de poemas: Dispersão (1914), coletânea ainda publicada em vida, e o póstumo Indícios de Oiro (1937). Encerra famoso soneto em que evoca a imagem sensual da bíblica Salomé dançando, aqui aludido, com este terceto:

Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...

Vênus – Nome latino da grega Afrodite, deusa do amor e da beleza, uma das 12 divindades do Olimpo, nascida da espuma formada sobre o mar do sêmen de Urano (o Céu), que fora mutilado por Cronos (Saturno).
Hebe – Na mitologia grega, filha de Zeus e Hera, surge como a personificação da juventude; pertence à família divina e tem a função celestial de servir néctar aos deuses. Neste papel, aparece em um soneto do parnasiano Raimundo Correia (1860-1911):

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
As taças estendiam-lhe, ruidosos,
ela, passando, as taças lhes enchia...

Virgílio (70 a.C-19 a.C) – Omnia vincit Amor: et nos cedamos Amori. (Bucólicas, III, 69), Tradução: “O amor tudo vence, e cederemos ao amor”. (Virgílio, Bucólicas. Brasília: Editora Universidade de Brasília / Melhoramentos, 1982. Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).



Honorino Rial é poeta e professor aposentado do Instituto Brasileiro de Grafologia.