terça-feira, 27 de junho de 2017

LAMPIÃO E BANDO NA PASSARELA

Maria Bonita, companheira de Lampião, em foto sem data, colorizada por Rubens Antonio

A cultura do espetáculo no banditismo do Nordeste

Por Florisvaldo Mattos

Os cangaceiros, cuja história de riscos, façanhas e crueldades inspirou conceituações diversas – símbolos do mal, como criminosos frios e sanguinários, para as autoridades e classe média urbana, principalmente do litoral; heróis, homens bravos e destemidos a serviço da defesa da honra, para os camponeses, principalmente o sertanejo habitante dos descampados -, dormem na memória e no esquecimento, mas às vezes ressurgem por repentinos sacolejos da estética e da comunicação.
Houve época (anos 1960/1970) em que nas universidades estudos de pós-graduação e pesquisas se interessaram pelo cangaço como uma saga de rebeldia social de lastro primitivo; reportagens descobriram no nordeste, centro-oeste e oeste idosos remanescentes de bandos desaparecidos havia décadas; livros foram escritos e publicados; ensaios e romances, reeditados; filmes recontaram sua história em nível ficcional, peças foram encenadas; o figurativo das artes plásticas os trouxe de volta.
De raro em raro, a febre evocativa retorna, em filme, poesia ou ensaio. Como agora, pela agudeza historiográfica da francesa Élise Jasmin, especialista na análise de episódios históricos, sociais e culturais por meio da fotografia, voltada em grande parte para o Brasil, com o que arrebatou em 2001 o prêmio Le Monde de Pesquisa Universitária com o livro Lampião, Vies et Mors d´un Bandit Brésilien.
Agora, aparece no Brasil com o volume Cangaceiros, publicação da editora Terceiro Nome, de São Paulo, baseado na edição francesa, cujo projeto gráfico segue fielmente, preparada para coincidir com o Ano do Brasil na França, evento realizado em 2005.
O livro, diga-se a bem da verdade, apresenta-se de saída com o duplo selo da originalidade – tanto como objetivo estético, como no caráter revelador de um universo cênico. Pretende narrar, através da fotografia, a aventura trágica do cangaceiro Lampião e seu bando, assim como a repressão movida contra eles. De início, que se saiba, é a primeira vez que, de forma organizada, estruturada e pesquisada, intenta-se uma incursão por este vasto território visual, num trabalho de arqueologia icônica que traz à superfície do espaço impresso, além de material já conhecido, dezenas de fotos somente conhecidas e mantidas por colecionadores dedicados à história do cangaço no Brasil.
Compõe-se a obra de uma introdução a cargo do historiador Frederico Pernambucano de Mello, autoridade em estudos do cangaço, um ensaio da autora tratando dos significados de seu trabalho e 85 enfileiradas fotografias (das págs. 36 às 120), que se dividem em duas partes: as de Lampião e seu bando, em vários momentos desde 1926, quando estiveram em Juazeiro do Norte, no Ceará, para encontrar-se com o Padre Cícero e Lampião receber a patente de Capitão dos Batalhões Patrióticos, formados para dar combate à Coluna Prestes, e as de vários grupos denominados  forças volantes, que então se formavam para perseguir e eliminar cangaceiros.
Benjamin Abrahim, Maria Bonita e Lampião

Não faltam nem mesmo fotos de cabeças cortadas, na repugnante escatologia da exibição delas como prova soberba de êxito na perseguição e até de corpos empilhados no massacre de Angicos, na Bahia, em 28 de julho de 1938, além da famosa coleção arrumada de cabeças antes do envio para estudos lombrosianos no Instituto Nina Rodrigues, de Salvador, onde permaneceram para opróbrio da inteligência baiana até 1969, quando foram enfim sepultadas no cemitério das Quintas dos Lázaros, por pressão de intelectuais, jornalistas, professores e estudantes.
Em verdade, numa narrativa litero-visual de estrutura livre, mas de conteúdo distribuído em inter-títulos temáticos, embora não cite uma única vez Charles Sanders Peirce (1839-1914), o criador da teoria geral dos signos, nem mesmo os que posteriormente, à base de princípios teóricos, abriram novos campos à linguagem (Jean Piaget, A. J. Greimas, J. Kristeva e Roland Barthes), Élise Jasmin realiza no seu ensaio um estudo de semiótica aplicada, expondo a personalidade de Lampião, a da mulher dele, Maria Bonita, e de seus seguidores, na plenitude de seu culto à aparência, que vai das formas de comunicação, animação, gostos, hábitos, peculiaridades à teatralidade dos gestos, sem se recusarem a atitudes que refletissem extravagância, enfim uma sociologia e uma antropologia mergulhadas num cenário de clandestinidade.
E o que se contempla, através das fotografias, reproduções e descrições, é um Lampião prazeroso do luxo de existir, na medida de seu mundo demarcado pelas solidões do sertão profundo, árido e catingueiro, a exibir múltiplos anéis, armas, bandoleiras e cartucheiras cravejadas de ouro e prata, chapéus de couro, cuja estética rústica ganharia alma e fulgências no cinema, roupas de cores fortes e camisas listradas ou estampadas, com botões especiais. Ninguém melhor que Jasmin para descrever Lampião no seu culto da aparência.
“Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua imagem – e aí reside sua grande originalidade. Teatralizou sua vida, utilizou modos de comunicação da modernidade que não faziam parte de sua cultura original, principalmente a imprensa e a fotografia. Vestidos de maneira extravagante, com roupas de cores berrantes, chapéus imensos, enfeitados com medalhas, exibindo anéis, colares e broches, Lampião e seus cangaceiros sempre manifestaram o gosto ela ostentação”.
Registra a autora o prazer de Lampião, toda vez que aparecia numa cidade em que gozava de acolhida pacífica ou se impunha sua fama de bandoleiro, em desfilar pela rua com seu grupo exibindo sua imagem e o que melhor arrecadasse no botim.

Élise Jasmin parece ter razão, ante uma descrição que dele faz o folclorista cearense Leonardo Motta (1891-1948), com base em seu trânsito pelo interior do Ceará:
“Amulatado, estatura meã; magro e semi-corcunda; barba e nuca ordinariamente raspadas e sempre que é possível perfumadas; (...) o olho direito branco e cego, escondido pelos óculos pardacentos, de aros dourados; mãos compridas que se assemelham a garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cor berrante, preso ao lado por valioso anel de doutor em direito; sobre o peito, medalhas do padre Cícero, escapulários e saquinhos de "rezas fortes", chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turma de curiosos; folgazão, quando entre poucos estranhos ou no meio de comparsas; (...) paletó de camisa de riscado, claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e chales finos; tórax guarnecido por 3 cartucheiras; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos um fuzil; à cintura duas pistolas "parabellum" e um punhal de 78 centímetros de lâmina”.
Lampião costurando em máquina de mão da marca Singer

Fotos individuais, de duplas ou de grupos imprimem ao livro de Jasmin uma fartura de flagrante exibicionismo. E há no livro algumas revelações. Por exemplo, a perícia de Lampião na costura de roupas, alinhavando e costurando as suas próprias vestes numa máquina marca Singer, traço de personalidade que a própria autora alude ter sido motivo para que a propaganda anti-cangaço pusesse em dúvida a virilidade do cangaceiro. A responsabilidade de Lampião por introduzir a figura da mulher no cangaço, a partir de 1930, situa-se como ideia que jamais acontecera a qualquer bando anterior. A influência dos dotes criativos de Dada (Sérgia Maria da Conceição), mulher de Corisco, como costureira, na mudança radical nos motivos e confecção do guarda-roupa dos cangaceiros, ao ingressar no grupo, seria de importância capital.
Quanto ao papel desempenhado por Dadá, observa Élise Jasmin: “A partir de 1932, lançou a moda dos motivos bordados em couro branco sobre os chapéus, das flores em tecido colorido bordadas sobre as bolsas, dos peitorais e dos cinturões largos. Desde então, todos os cangaceiros vestiam-se com esses novos trajes”. Questão de talento, vê-se.
Por essa descrição e pelo visual das fotografias, pode-se observar, na parte reservada a documentar os aspectos dos grupos repressores, quanto as forças volantes imitavam os cangaceiros, não apenas no trajar, mas também nas posturas, inclusive em poses para fotografias. Não está lá, mas me atrevo a uma suposição, para tais atitudes. Tudo faz crer que se ligam à necessidade de obterem para sua empresa o aval de simpatia dos habitantes do meio rural distante, entre os quais os cangaceiros, por motivos sedimentados em suas próprias origens – pobreza, miséria, injustiça, defesa da honra, vida agrária -, com seus atos e presença, gozavam de boa acolhida e até de proteção. As forças volantes precisavam parecer-se com eles, uma tática de publicidade, baseada tão somente em signos ícones e indiciais, que residiam na aparência.
E, surpresa das surpresas – se não se trata de um devaneio parisiense de Élise Jasmin: a revelação uma faceta desconhecida do mais afamado entre chefes do cangaço – a de Lampião leitor. E, além de incluir uma foto dele a ler um exemplar da revista O Cruzeiro, de outra com um de O Globo na mão e uma terceira com ele recolhido à plácida leitura de um livro, informa a preferência de Lampião por romances de aventura e ficção policial, sendo até leitor de Edgar Wallace e Georges Simenon.
Élise Jasmin também destaca o papel do fotógrafo Benjamin Abraão, de origem libanesa ou palestina, no melhor da documentação visual sobre Lampião e seu bando, quando conseguiu, obtendo a confiança dele e do grupo, realizar fotografias, e até um filme, hoje preciosidade rara dessa parte da história do Nordeste brasileiro, não só pelo que produziu como pelo arriscado do feito, tanto que, por causa disso (encontrou-se com Lampião de 1934 até quase perto da morte deste) e pela repercussão de suas fotos publicadas em jornais do litoral e do Sul do País), Abraão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas (PE), em maio de 1938. A maior parte das fotos do livro são reprodução de fotogramas do documentário de Abraão, no que diz respeito a Lampião e seu bando.
Outros fotógrafos registraram imagens das ações do bando de Lampião e da repressão a ele feita, na sua movimentação por estados do Nordeste, como Lauro Cabral, no Ceará, e amadores, como Eronildes de Carvalho, em Sergipe. Além de um monumento visual, o livro de Élise Jasmin é também um ensaio sobre o banditismo como fenômeno social, que no Brasil só aconteceu no Nordeste, por motivos mais que óbvios, e por isso tem merecido figurar nas estantes de todas as suas bibliotecas públicas.
 
Cangaceiro Corisco e costureira Dadá, sua mulher
Aspereza e solidão são os substantivos que, de logo, vêm à mente de quem estuda o banditismo como fenômeno social no Nordeste e a figura de Lampião, a movimentar-se por um cenário de violência e tragédia, individual e coletiva. Hoje, com a distância dos conflitos sociais e as paixões políticas que dominaram a cena brasileira na República Velha, marcadas ainda pelo patriarcalismo e provincianismo do Império, é possível encará-los com uma visão menos maniqueísta.
Aliás, talvez por influência do historiador inglês Eric J. Hobsbawn - Bandidos e Rebeldes Primitivos – Estudos sobre formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX, com traduções no Brasil -, muitos estudiosos brasileiros, a partir dos anos 1960 (Rui Facó, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Nertan Macedo, Cristina Matta Machado, Estácio de Lima, Aglae Lima de Oliveira, Rodrigues Carvalho, Eduardo Barbosa), passaram a analisar o banditismo, notadamente na sua forma de cangaço nordestino, senão com um olhar magnânimo, com uma visão lastreada na ciência, pela porta da sociologia e da história social, despida de preconceitos e sem a velha atitude de justiciamento, amparada na criminologia.
Com efeito, essa mudança de ângulo propicia melhor compreensão das épocas de banditismo do passado, sem transformar o bandido (no caso, o cangaceiro) em herói, mas também sem lançá-lo no poço da condenação pura e simples, como um criminoso comum. A tendência foi considerá-lo protótipo de uma rebelião social de nível primário, nas formas que existiram, não só no Brasil, mas no México e na Itália; nenhum deles com organização de conteúdo político, embora possam ser utilizados como instrumento pela política.
Se na Itália houve o famoso Bandido Giuliano, agindo no sul com o seu bando, cuja história alcançou as câmeras e as telas cinematográficas, no Brasil houve o bando de Lampião, mas antes dele vingaram o de Jesuíno Brilhante (Jesuíno Alves de Melo Calado), atuante no último quartel do século 19, no Rio Grande do Norte, o de Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais), com ação em Pernambuco, entre 1896 e 1914 (morreu em 1944, aos 68 anos) e Sinhô Pereira (Sebastião Pereira da Silva), agindo de 1916 a 1922.
Lampião, o primeiro sentado, à esquerda, e cangaceiros, em foto colorizada por Rubens Antonio



segunda-feira, 12 de junho de 2017

SIMANCA EXPLICA DEMISSÃO DE "A TARDE"

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Nota de esclarecimento sobre a minha demissão de “A Tarde”
Serei sempre muito grato pela oportunidade que tive, quando há mais de 15 anos comecei a trabalhar em “A Tarde”, periódico com uma tradição jornalística de mais de 100 anos. Foi sem dúvida uma honra publicar, aprender e aperfeiçoar-me com meus caros colegas e amigos. Durante minha estadia no diário ganhei importantes prêmios nacionais e internacionais e meus desenhos publicados originalmente em “A Tarde” foram, frequentemente, reproduzidos por outros jornais e revistas ao redor do mundo.
Depois da penúltima mudança na direção do jornal comecei a ser questionado sobre o conteúdo das minhas charges, sendo algumas delas censuradas. Estes desenhos proibidos foram reproduzidos com grande sucesso em outras mídias. Havia muito tempo que textos e matérias completas dos meus colegas eram cortados, mas não a charge. A charge era um pequeno oásis num deserto de tesouras.
É difícil ter liberdade sem independência econômica. A maior parte da imprensa sempre dependeu da propaganda dos governos. Isto não seria problema caso estes governantes não pressionassem jornais e jornalistas, e se jornalistas e jornais democráticos não se deixassem pressionar para escrever elogios ou críticas desmerecidas. Nosso rumo deve ser sempre definido pela ética e pela virtude, coisas raras nestes tempos sombrios, cheios de ódio e intolerância. Dizia Joseph Pulitzer: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.
Com a última mudança na direção do jornal, as pressões aumentaram ao ponto que tive que explicar o que era uma charge, e qual era o papel da sátira política em uma sociedade democrática e na imprensa livre. Fui indagado sobre quem me dava as pautas ao que respondi que as pautas eram os fatos, os quais pesquisava em profundidade, consultando várias fontes e colocando minha opinião na forma do jornalismo gráfico, caracterizado pela charge ou caricatura política. Fui advertido para não mexer em determinados temas e personagens, uma tarefa impossível no meio da putrefação política e ética em que se encontra o Brasil.
Quero agradecer às demonstrações de solidariedade de meus colegas, amigos e leitores por referencia a minha demissão sem justa causa e cuja verdadeira causa, de maneira resumida, expliquei neste texto.
Termino aqui, com este pensamento de Eurípedes:
“Todo o céu é da águia o caminho,
Toda a terra é do homem nobre a pátria”
Osmani Simanca

Facebook, 11.06.2017 - 14 h
uma das charges censuradas.


Abaixo texto de compartilhamento de Florisvaldo Mattos no Facebook, em 12/06/2017, segunda-feira, 05h30m:

Sem mais palavras, apenas lamentando ser doravante obrigado a prescindir do alto visual, do traço sugestivo e do sensível humor, que Simanca imprimia em suas charges, para mim um artista completo a atuar no ramo do cartunismo no Brasil. Que siga seu caminho com a altivez de sempre.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

FLORISVALDO MATTOS - POEMAS EM MALLARMAGENS.COM-JUNHO/2017

EM TEMPO: Veja-se a informação abaixo, por favor.

O baiano Carlos Machado, editor do site Poesia.net me forneceu o link que melhor facilita o acesso à postagem de poemas de minha autoria na revista digital mallarmagens.com. Ei-lo abaixo.
Muito grato pela atenção e interesse.
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http://www.mallarmargens.com/2017/06/a-poetica-de-florisvaldo-mattos-poemas.html

domingo, 28 de maio de 2017

SANTE SCALDAFERRI TRANSVANGUARDISTA


Por Florisvaldo Mattos
Seja por impulso afetivo e geracional, seja por juízo crítico quanto à obra do artista, a personalidade de Sante Scaldaferri sempre suscitou definições. Atado por laços de cotidiana e sincera amizade, Paulo Gil Soares viu no moço quieto, franco, prestativo e sorridente um "coração aberto a todas as dores do mundo que não deviam ser suas". Com olhar ativo e perscrutante de cineasta ainda por estrear, Glauber Rocha percebeu na linguagem de sua pintura uma "cor Bahia", que a um só tempo concentrava atmosfera, luz e "pathos bahianos", a denotar um fundamento de raízes distante do figurativismo decorativo de fácil transposição, síntese que, à época, de tão precisa e inventiva, para o crítico Clarival do Prado Valladares, dispensava explicações.
Em mais de uma apreciação, Wilson Rocha viu na aparência fantástica e na visão dramática do mundo biomórfico de Sante uma prova de "honradez pictórica"; uma visão poderosa de artista maior "que acompanha a aventura do homem no mundo e observa os absurdos da existência humana", cuja deformação se impunha pela dura verdade do conteúdo, expressa por "uma dramaticidade de acentos irônicos e brutais".
Para Ferreira Gullar, pela "atitude irreverente e corajosa", Sante era "o boca do inferno da pintura baiana", fiel a uma arte de desmistificação que punha "a nu todas as hipocrisias e pretensões, tanto sociais, quanto artísticas", enquanto José Roberto Teixeira Leite reconheceu na "dura realidade" geográfica que seus quadros espelhavam "o severo cotidiano de muitos milhões de brasileiros". Além de atestar "um modo próprio de organizar o universo visual", a um mesmo tempo carregado de significações, Gullar encara os personagens de Scaldaferri, como "saídos de uma iconografia que a cultura urbana submete e marginaliza"; contrariamente ao belo, refinado e transcendente, apontam para baixo, para o popular, que, na obra do artista, "se identifica com a feiúra e a rudeza das figuras e das cenas".
Já numa clave que o desvia dos acenos da circunstância, Walmir Ayala não titubeia em descrevê-lo como "um pintor próximo da massa, do sofrimento indefeso dos desfavorecidos", refletindo o universo cultural de um povo, mas, consciente das suas contradições, "onde a pobreza canta e dança nas ruas", realizando "uma pintura que contesta a diluição provocada pelo consumo turístico".
Eu próprio, ao deparar-me com seus vaqueiros e cangaceiros de fundas e vastas olheiras, seus rebanhos de bois e beatos - signos que chamaria de cor-Nordeste, projetando intensos verdes, vermelho, ocre e sépia -, recriados e tratados com humanidade sobre tela ou madeira, tomei-os em lavra poética como "cintilação campestre" de um universo patriarcal, que aprisionava o tempo e colhia "a rosa alvaçã", na "pelagem do incontemplado".
Foi justamente esta predominante fixação na figura humana, já agora construída com elementos de deformação, decomposição e desarticulação, segundo Teixeira Leite, "com evidentes intenções expressivas", que irá representar um salto na arte de Sante Scaldaferri. Embora confesse, por mais de uma vez, em depoimentos e entrevistas à imprensa, ter evitado vincular-se a escolas ou correntes pictóricas, não resta dúvida de que o impulso e a espontaneidade com que desde jovem abraçou a arte moderna, livrando-se das peias do receituário acadêmico, levaram-no a descobrir a fecunda trilha da cultura popular.
Sante Scaldaferri ante sua pintura A Flagelação do Beato

Aferra-se com seriedade e responsabilidade à essência de signos populares e, daí, a uma nova atitude artística em relação à figura - principalmente a figura humana -, que abre seu espírito à estética do expressionismo, tantas são as identidades com as suas propostas e intenção revolucionária de olhar o mundo "por trás da aparência das cores" - um de seus ditames. Assim, opta por um vocabulário plástico de deliberada simplificação, formas reduzidas ao essencial, corpos distorcidos, até se confrontar com certa obsessão pelo grotesco, o satírico e o caricatural, sem com isso estar traindo – muito pelo contrário - aquela representação do pathos baiano que Glauber Rocha de início nele identificou.
Quanto a isto anota Teixeira Leite: "Essa tendência a pintar o ser humano como é por dentro não permite dúvidas: Sante é um expressionista, e sua arte, como toda arte expressionista, resvala para a sátira e para a farsa, para a caricatura e a imprecação". E, pela perspectiva do não convencional e do grotesco, não se recusa a suscitar um parentesco com o alemão Hieronymus Bosch (1450-1516), a que se poderia acrescentar o Goya dos Caprichos (1799), a série de 82 gravuras que retrata um universo de pesadelos e ataques ferozes aos costumes, isto é, à hipocrisia da circunstância. O crítico descreve-o como um "pessimista incorrigível" descrente da nobreza do homem, encarando-o "como um animal depravado e imperfeito", cujo exterior grotesco apenas reflete o seu interior deformado pelas paixões, os vícios e a ânsia de prazer e poder. Assim, o artista vê o ser humano no seu trânsito social.
Nesse aspecto, há clara similitude entre o baiano e personagens de proa do expressionismo alemão, a exemplo de Franz Marc, na sua opção conceitual por uma pintura animalista, sob o argumento de que a impureza dos homens que o rodeavam não lhe despertava os verdadeiros sentimentos, pois, enquanto via só feiúra nas pessoas, os animais lhe pareciam mais belos e mais puros, como diz numa carta à mulher (1915), enviada do teatro da Primeira Guerra Mundial (1914-18), na qual veio a morrer.
Embora suponha que nenhum deles "importou vanguardas estrangeiras", nem se submeteu a modismos internacionais, não há como negar que é também pelo visor expressionista que o poeta e crítico de arte Theon Spanudis mira Scaldaferri, ao unir sua arte, pela originalidade e autenticidade temáticas, à de dois outros baianos, Rubem Valentim e Raimundo de Oliveira. No primeiro, o misticismo e o simbolismo religioso de fundo afro-brasileiro; no segundo, o catolicismo popular bíblico, focado na ingenuidade. "Sante se interessa pelo povo nordestino, seus dramas, paixões e vitalidade", sublinha Spanudis, agarrando-o pela geografia. Com variações de temas – no caso de Valentim, o construtivismo simbólico das crenças de origem afro -, arrisco-me a dizer que os três são tributários daquele despojamento rude e elementar de cores fortes e saturadas, aplicadas com pincel grosso, para sugerir ou definir figuras num espaço repleto de vibração interior, marca do expressionismo - lógico que mais acentuado no caso de Scaldaferri, cujo parentesco artístico na Bahia, a meu ver, o alinha com Mário Cravo e, no Brasil, com Iberê Camargo.

Eis Aqui Meu Amor, óleo de Sante Scaldaferri

Sem ser um especialista, mas insistindo na tecla da codificação pictórica do expressionismo, que, pela violenta deformação da figura, o elemento fisiológico, o corporal e a obsessão pelo corpo humano - e, porque não dizer, por um ainda persistente vínculo com a cultura européia -, o aproxima da arte de Munch, Kirchner, Egon Schiele, Heckel, Ensor e, mais recentemente, Francis Bacon, sou tentado a ver em Sante, principalmente no que vem construindo desde a segunda metade dos anos 80, que culmina nestas obras expostas pela Galeria Paulo Darzé, a buscar inter-relação de sua arte com a representativa dos movimentos de pós-vanguarda ou transvanguarda, que vicejaram, persistem e se desdobram na Alemanha, Itália, Estados Unidos e outros países.
Não tenho dúvidas de que é nesta saga estética de ousadias figurativas que se encaixa confortavelmente Sante Scaldaferri. A refinada afetação (roçando o excessivo e o vulgar), o gosto por efeitos espaciais desconcertantes, a intensidade emocional derivada das formas distorcidas, as desproporções, a maestria no manejo das técnicas da pintura, as excitantes e eróticas alusões, a tendência à exuberância e ao monumental, a marca de desespero e manifesto horror, a secreta irracionalidade - enfim, toda uma arqueologia visual da transvanguarda, que, segundo a crítica, evoca o maneirismo de Pontormo, Parmigianino, Bronzino e El Greco, sendas do barroco, e, cogito – porque não? -, do romantismo libertário, de Goya, e visionário, de William Blake. Pela tendência à narração insubmissa e satírica, pejada de ironia, a habilidade e variação no uso das técnicas da pintura, recorrendo entre outras até à
quase pré-histórica encáustica, de suportes e materiais (madeira, borracha, pano, plástico), além da vitalidade e independência do vigoroso desenho -, com a propositada malícia que levou Umberto Eco a vislumbrar em quadros seus "uma sombra pop"-, vejo em Sante um artista mais identificado com a rebeldia estética de alemães, como Georg Baselitz, Anselm Kiefer, Jörg Immendorff. A. R. Penck, Sigmar Polke, Walter Dahn; os italianos Sandro Chia, Francesco Clemente, Enzo Cucchi, Mimmo Paladino; os americanos Julian Schnabel, David Salle, Cindy Sherman e, em certo sentido, por indícios mais recentes, com a rudeza de desenho e grafismo de Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, e outros mais, todos legítimos representantes do que desde os anos 80 se passou a chamar de transvanguarda, pelos laços com as vanguardas de inícios do século passado e suplantação de seus processos e desdobramentos.

Como eles, sem se recusar até mesmo ao apelo à caricatura (afinidade possível com o traço satírico de George Grosz), em essência, Scaldaferri pinta visões, as suas, de um mundo torto, execrável, no seu secreto ou exposto horror. Gostaria de reformá-lo; não podendo, escarmenta-o, denuncia, ironiza, satiriza. Como? Pela distorção, pela vigorosa e contundente expressão do grotesco, contra o totalitarismo subliminar da sociedade em que vive, a sua desigualdade, a miséria explícita e invencível. Muitos se recusariam a pôr um quadro dele na parede da sala-de-estar, não por alegada feiúra, mas por outras obsessões, uma delas a hipocrisia.
Conheci Sante por volta de 1956 (não sou forte em datas), pela mão de Glauber Rocha, no instante mesmo em que um punhado de jovens de mente lúcida e febril começava a agitar o meio cultural baiano (entre os quais, além dele e GR, Paulo Gil, Fernando da Rocha Peres, Calasans Neto, Fred Souza Castro, João Carlos Teixeira Gomes, Carlos Anísio Melhor, Ângelo Roberto), a partir das sessões de poesia dramatizada, levadas no auditório do então Colégio da Bahia (depois Central), sob o mítico e lúdico nome de Jogralescas, no movimento que depois se rotularia vagamente de geração Mapa, seguindo um hábito do tempo. Acostumei-me, a partir daí, a conviver com este monumento de fraternidade, que já ostentava o sorriso largo, o bigode mexicano, a barba à época acastanhada e a luminosa e irrefreável calvície. Acostumei-me também a admirar um artista cuja obra se afirma, em suas várias fases, na busca de horizontes mais amplos, de essência perdurável, em conteúdo e forma, rumo à universalidade que lhe apontam suas inquietações interiores, sua visão de mundo e suas emoções.
Acompanhei essa árdua prova de fidelidade a um sacerdócio, de incontestável amor à arte. Por isso, mesmo ante uma crítica mais purista, higiênica e depilada, atuante no Rio e São Paulo, que, no dizer de Frederico Morais, exerce uma ditadura no país, torcendo o nariz a exemplos de sinceridade e imaginação como este, de Sante Scaldaferri, ele segue impávido seu caminho, sua devoção. E, ante tais mostras de covardia e intencional descaso, a cada exposição, catálogo ou livro de arte que publica, ao sair de cada um desses eventos, esse grande artista baiano ostenta no rosto e no riso uma expressão de radiante e sonora felicidade, que é uma lição de bravura, para a arte e para os artistas, e de vida, para todos os que o conhecem, cuja obra não se desmerece ante nenhum grande pintor brasileiro.


Florisvaldo Mattos é poeta e jornalista, com livros de poesia e ensaios publicados, sendo o último “Estuário dos dias e outros poemas”, lançado em 06/04/2017. Faz parte da Academia de Letras da Bahia.

sábado, 13 de maio de 2017

NÃO CONSIGO EXPULSAR OS HOLANDESES

Por Florisvaldo Mattos
(Postado no Facebook em 10.05.2017)

Transcorreram ontem, 9 de maio, 393 anos que soldados e mercenários da esquadra holandesa desembarcaram de madrugada na praia do hoje Porto da Barra para ocupar a então Cidade da Bahia e dominar tanto ela como o seu Recôncavo e litoral, durante um ano e dois meses, até serem expulsos em julho de 1625. 
Esqueci-me da data, logo eu que em 2000 publiquei um livro de poemas ("Mares anoitecidos", Rio, Imago Editora), tomando como tema a tessitura heroica desse malogro, que os colonizadores portugueses registraram como glória, embora a façanha da expulsão dos chamados invasores se deveu a um nobre espanhol, Dom Fradique de Toledo Osório, que agia sob as ordens de Felipe IV, rei da Espanha, à época ainda mantendo Portugal sob seu domínio.
Publico abaixo um dos enunciados constantes desse livro, narrando justamente o momento da morte do general Johann Van Dort, então governador e comandante geral, surpreendido em Água de Meninos pelas forças que vinham combatendo os depois chamados invasores. A singularidade desses versos reside na montagem de seis sonetos monoestróficos, sem rima, com o general holandês narrando a própria morte, em que adoto a mesma técnica usada pelo argentino Jorge Luis Borges, em seu "Poema conjetural", do livro "El otro, el mismo" (1964), que por sua vez a copiou do inglês Robert Browning, em suas "Dramatis Personae", segundo revelou o uruguaio Emir Rodriguez Monegal. 
Embora atrasado em relação à data, segue abaixo o poema, que é também uma conjetura, registrando o momento em que Van Dort sucumbe sob uma tempestade de espadas, lanças e balas de mosquete, com epígrafe tirada do poema de Borges; aqui ilustrado com uma pintura que marca a chegada dos holandeses às então chamadas Índias Ocidentais.

ESTRADA DE MONTE SERRAT

“Pisan mis pies la sombra de las lanzas
que me buscan.”
(Jorge Luis Borges)

Atacado em Água de Meninos, o general flamengo Johann Van Dort, governador e comandante geral, vendo sumir o sol numa tempestade de espadas, lanças e balas de mosquete, antes de morrer, cogita de sua sorte:

I
Mal me distingue e afaga a luz primeira
da manhã, quando me ponho de surpresa
a ver a fortaleza São Felipe.
Por caminhos de pedra e matos íngremes,
de regresso, afastando-me da escolta,
armada de escopetas e pistolas,
qual penetrasse estreito labirinto,
o troar de um tropel demais severo
de portugueses, de índios e de pretos,
de mui ervadas flechas de repente
sobre nós derrubasse temeroso
céu de balas, espadas e azagaias,
em chuva celerada, trespassando
tanto quanto cavalos e trombetas.
II
Zune o tempo de horror, o instante último
do bom negócio e jogo de cobiça,
que me impeliu a essas obscuras águas,
a combater nas fontes de riqueza
as potestades do ibero inimigo,
e até a Serra Leoa fui perseguir
barcos negreiros, ou farto butim
de especiarias por todos cobiçado.
Mergulho na razão de tais destrezas,
que me põem a pelejar contra desertos,
rudimentares formas de viver;
cogito do ouro louco que essas lanças,
essas balas, essas espadas guardam
e vêm agora emoldurar-me a hora última.
III
Cristãos-novos, sabei que nós flamengos,
de tanto traficar sonhos translúcidos,
costumamos lavrar os horizontes
com a mesma mão que sagra nossas preces.
Cristãos-novos, sabei que costumamos,
bem mais que organizar tropas e frotas,
bem mais que perseguir Marte e Netuno,
prezar a natureza por primeiro;
em terra ao mar subtraída, bem mais que a ouro,
cultivamos tulipas e jacintos,
bem mais doamos ao chão apetecido:
campo iriado de luas pastoris.
Gente sublimamos e ao mundo rotas
abrimos de galhardas esperanças.
IV
Ignoro essas paragens. Eu, de bruços,
antes que à noite funda me arremessem,
me volto para o céu indecifrável,
miro a armada de nuvens aportando,
com mensagens que omitem meu destino;
eu que me alimentei de sal batavo,
de celtas e germanos tenho o sangue,
a fala de seus sons contaminada;
eu, Johann Van Dort, general flamengo,
conhecedor de códigos e cânones,
provados na gerência de um exército,
sob um céu fibroso como de sombras,
quedo, decifro gumes que me aguardam.
V
Cruzei os oceanos com minha sombra
a vagar suspeitosa de meus dias
por campos e montanhas, por estradas,
no encalço de um Aquiles incansável,
que se ofusca no espelho da distância.
O dia avança, enquanto some a fina
malha de luz que tece meu destino
na areia fúlgida onde impera a fúria
do ferro que me alaga o suor de sangue.
E fujo para dentro de mim mesmo
em busca de razões vertiginosas,
que expliquem meu passado e meu presente:
apenas vejo um porto, uma cidade
e um rosto moço a olhar o mar defronte.
VI
Armas, gentes de cenho atormentado,
que não fabricam máquinas nem aram
o pensamento além de manuscritos,
cortinas abrem só para o passado,
mais que a da prata e do ouro mercantil,
idade só do ferro experimentam,
fecham-me o caminho, o peito afundam
com a desmedida sombra de seus passos.
Por última vez fito o claro céu,
agora imerso em vaga bruma, na hora
em que recebo a última cutilada.
Está escrito nos livros: todo brioso
marinheiro tem sua enganosa ilha
e todo lutador, suas Termópilas.

(Florisvaldo Mattos, "Mares anoitecidos", 2000).


sexta-feira, 28 de abril de 2017

II FESTIVAL LITERÁRIO DE ILHÉUS, palestra de F. Mattos

Ilhéus: Florisvaldo Mattos e Tica Simões, escritora e professora da UESC,  falam sobre "Caligrafia Poética Sul-baiana"
II FESTIVAL LITERÁRIO DE ILHÉUS (26.04.2017)

Palestra de Florisvaldo Mattos

Nesta navegação de longo curso para uns e curto para outros, que é o ato de publicar livros, acabo de lançar o meu oitavo livro de poesia, portando 97 inéditas elocuções de fundo lírico e outras tinturas que namoram afoitamente o épico. Embora a idade não me justifique, sou de publicar livros minimamente, quase esporádicos. Depois de Poesia Reunida e Inéditos, em 2011, e Sonetos elementais, em 2012, resolvi invocar novamente a paciência dos meus raros leitores com novo volume de versos, intitulado Estuário dos dias e outros poemas, fruto dessa longa, porém magra aventura editorial.
Há poucos meses, postando eu alguns inéditos na internet, o poeta Antônio Brasileiro, um dos astros da geração posterior à minha, externando a cordialidade e a generosidade que lhe favorece o recanto bucólico onde vive, em Feira de Santana, sua pátria sertaneja, dizia-se surpreso de meu desígnio em não me afastar por completo da poesia.
- “Oitentão que é, isso é mais que admirável” - espantava-se ele.
Perdoando-lhe o excesso, curvei-me, sensibilizado, diante da bem-humorada gentileza, ao ver ali quase repetir-se atitude benigna de Jorge Amado, 61 anos antes, quando publiquei Reverdor, meu primeiro livro, ao confessar, em comentário lido durante sessão da Academia Brasileira de Letras, quão contente se sentira com a descoberta, segundo ele, de um poeta e uma poesia, num tempo “de tanta facilidade e tamanho engano de rapazes tão sem verdade e sem força de criar”.
Não sei se o futuro absolveu a opinião do grande romancista, para muita honra meu conterrâneo grapiúna. A sorte fora lançada.
Ao longo da vida, tenho sido mesmo um tanto avaro em publicar, tanto quanto em escrever literatura. Se cuidadoso na poesia, ainda mais o fui em relação a outros gêneros literários, pois, em prosa, só escrevi e publiquei um conto e uma peça de teatro, esta levada em 1974, no Teatro Vila Velha, em Salvador, pelo saudoso diretor Sóstrates Gentil, versando um tema alojado justamente na remota atmosfera de lutas de coronéis e jagunços em terras do cacau. Abri uma exceção, assim mesmo parca, apenas para a ensaística em literatura, arte e questões sociais.
Ultimamente, tenho me fixado mais na poesia, e em leituras e releituras do que me agrada. Ao longo do tempo, fui para com ela um tanto adúltero, escudado e insuflado por duas razões básicas: a primeira teve como marca indevassável o grau de autocrítica de que desde jovem me tomei, diante da ânsia de escrever o que pensava e sentia. Repetindo o argentino Jorge Luís Borges, creio que a poesia e o poema se apresentam ao poeta e ao mundo como uma forma de magia. Como ambos dependem da linguagem, casam-se pensamento e imagem por meio da palavra para alcançar a emoção, que é, por fim, o que aguarda o leitor, sem que com isso se despreze a forma.
Dizia Ezra Pound que a técnica é a prova da sinceridade de um poeta. Concordando com ele, tenho para mim que sinceridade e qualidade se completam no fazer poético.
A outra razão que me pôs a poesia em plano secundário foi o absorvente mergulho de 53 anos no exercício cônscio e fiel do jornalismo profissional, desde que, no mesmo dia da solene formatura em Direito, frustrando os sonhos de meu saudoso pai, um denodado comerciante rural que exercia seu oficio no fundo de matas e roças de Itacaré, eu já compunha a redação de um novo jornal, que surgira em Salvador, o Jornal da Bahia, optando por ser jornalista, como uma fatalidade, para toda a vida.
Por fidelidade a uma profissão, optei por ser, assim, durante anos, em matéria de poesia e literatura, embora persistente leitor, um quase criador secreto, desses que levam a vida esmerando-se em guardar o que escrevem, elegendo uma gaveta como o seu mais paciente e fidedigno leitor, ou como outros que se conformam, resignadamente, em publicar um único livro em vida, como foi o caso de um de nossos maiores poetas, nascido em Belmonte, mas por muitas décadas vivendo em Ilhéus, o saudoso Sosígenes Costa. Pronuncio esse nome e me vejo compelido a abrir um parêntese, para evocar e registrar quão proveitosa foi para mim, ainda jovem, a relação de admiração, aprendizagem e amizade que travei com Sosígenes Costa, nesta cidade, que, para ele, brilhava “qual grande búfalo fosfóreo”.
Completado o curso de ginásio, vinha eu de Itabuna, para atender a duas imposições do momento: prosseguir nos estudos e cumprir o serviço militar obrigatório. Foi quando, já escrevendo e publicando poemas, em jornais, mas de fundamento romântico e rabiscos parnasianos, colegas e amigos me advertiram da existência em Ilhéus de um dos maiores poetas da Bahia e, logo, me emprestaram uma antologia de poesia baiana, editada no bojo das comemorações do quarto centenário de fundação da Cidade da Bahia, que trazia poemas dele. Lendo-o, fiquei curioso e empolgado e, logo, também, ansioso por conhecê-lo.
Quero aqui apenas relembrar o que foram essas amenas tardes de frequência na plácida sala de trabalho de Sosígenes Costa, como secretário da Associação Comercial de Ilhéus, abrindo-me os horizontes não só para outras esferas da poesia nacional, especialmente o modernismo, como para a poesia em si, e quanto disso dependeram as minhas opções futuras, dele auferindo um rico e vasto cabedal de experiência e saber que me chegava por meio de lúcidas palavras.
Esses momentos de tranquila conversação com o bardo de Belmonte foram resumidos em um capítulo de meu livro Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, publicado em 2004. A título de reminiscência, aqui transcrevo parte dessa convivência, mostrando fielmente o que significou para mim dialogar com um grande poeta em carne e osso.

“Tímido, penetrava eu naquele edifício de sóbria arquitetura e arremedos neoclássicos da veneranda Praça Eustáquio Bastos, para visita-lo, e lá permanecia seguidas horas. Mostrava-lhe poemas que escrevera ou publicara no Diário da Tarde, onde me acolhia a generosidade quase paternal do jornalista Octávio Moura, então diretor do órgão que ajudou a construir e propagar o prestígio da região do cacau. Ouvia seus comentários, suas ponderações, transmitindo-me conhecimento da arte da poesia e, principalmente, fazendo-me perceber maneiras de como melhor trabalhar com o verso.”
“Alto, aprumado e hígido, sempre de terno e gravata, em sua poltrona, tranquilo e reservado, nessas ocasiões, Sosígenes mais parecia um sacerdote em trajes profanos, a discorrer pausadamente sobre literatura e poesia. Por uma janela, à minha esquerda, o frescor da brisa que vinha do mar em direção à praça invadia a sala, com os perfumes de um pequeno jardim, onde eu supunha cultivasse ele as rosas, os crótons e os antúrios que minha vista alcançava.”
“De quando em vez, animado pelo clima da conversa, meu interlocutor abaixava-se, abria uma gaveta à direita de sua escrivaninha e de lá arrancava maços de papel amarelecido e gasta datilografia, alguns em manuscrito, e lia belos sonetos, todos àquela altura inteiramente inéditos em livro, embora andasse o poeta beirando, em 1951, já então os 50 anos. E, com alento, completava a leitura, levantando-se e dirigindo-se à biblioteca que organizara para a entidade, mas, no fundo, sempre supus, para si próprio, e de lá vinha sobraçando dois ou três livros de arte ou história da arte, em cujas páginas se detinha, comentando reproduções de obras de artistas de diferentes estilos, escolas e épocas.”
“Perplexo e enlevado, com os poemas que ouvia e lia, em manuscritos ou datilografados, auferindo sua linguagem e força imagética, e, também, com os livros de arte, cujo conteúdo e aparência eram para mim novidade. Apreciava e dali saía convencido dos rumos que deveria seguir doravante, em matéria de poesia e literatura, bem diversos das oportunidades de leitura e estudo, que, até bem pouco tempo antes, tivera, a apenas trinta quilômetros de distância, na cidade de Itabuna, de prósperos comércio e vida rural, porém de quase nenhuma ilustração estética. Afora o esporte, presidindo ao princípio do mens sana in corpore sano, a arte deveria ser algo estranho àquelas plagas de hábitos e costumes ainda rústicos.”

Aproveito para ler aqui um dos poemas dele, que constavam da antologia, justamente um dos emblemas de sua lavra poética, com a reiteração de versos, que é uma das marcas de sua criatividade, sem em nada prejudicar a expressão lírica, segundo o crítico José Paulo Paes, que editou sua obra completa, postumamente.

CREPÚSCULO DE MIRRA

Sosígenes Costa (1901-1968)

A tarde fecha a cintilante umbela.
Vêm os aromas como uma grinalda
ornar a sombra arroxeada e bela
e ungir os nossos sonhos de esmeralda.

Nuvens de mirra e oriental canela
formam na sombra a singular grinalda.
A tarde fecha a cintilante umbela
e o vento as asas do dragão desfralda.

A própria lua vem lançando aroma.
Nasce vermelha como a flor de um cardo
e sobre a mirra dos vergéis assoma.

E a noite chega no seu grifo pardo,
cheirando a incenso como o rei de Roma
e como Herodes recendendo a nardo.

(1927)

Após as obrigações de estudo e serviço militar, parti para Salvador com a mente prenhe de novas ideias e aspirações, e o corpo tomado de ânimos. E foi quando, após algum tempo, já na universidade, me engajei nas aspirações estéticas e vivenciais do grupo que iria depois chamar-se Geração Mapa, publicando poemas inicialmente na então aclamada revista Ângulos, produto das lucubrações estéticas do que restava do movimento Caderno da Bahia (1948-1955), que vigorara na década anterior, e também em jornais.
Esse movimento, cujo nome advinha da revista intitulada Mapa, que passou a editar, tinha como proposta básica consolidar o que não conseguira a geração anterior, que era, além de romper com a inércia cultural, cevada na renitência do conservadorismo, varrer, de uma vez por todas, o bolodório e o preconceito vigente contra a arte moderna, tendo como baliza a nova realidade nacional e internacional, defrontada com o esmaecimento dos reflexos do pós-guerra mundial e surgimento de um novo patamar na condução dos conflitos entre países. O mundo se pautava agora pela Guerra Fria, no confronto entre Estados Unidos e União Soviética.
Diferentemente de movimentos anteriores, o grupo de Mapa se abria também, sob a liderança de Glauber Rocha, para outras amplitudes, pois, além de poesia, literatura, artes plásticas e jornalismo, cultivava outras linguagens artísticas, como cinema, teatro, dança, editoração e arquitetura, e com esse fôlego firmou-se no cenário cultural baiano, mergulhando, com ações, criações e posturas, na caudal impelida pelas reformas que a administração do reitor Edgar Santos, então, fins dos anos 50, inícios dos 60, imprimia na Universidade da Bahia, possuindo contornos de uma verdadeira revolução cultural.
Atuando em várias frentes, além da revista Mapa, o grupo criou seu próprio selo editorial, as Edições Macunaíma, que publicava livros, álbuns e plaquetas;  fundou uma companhia cinematográfica, a Iemanjá Filmes, que abriria caminho ao movimento do Cinema Novo, projetando-o nacionalmente, em ousado e fecundo processo que desaguaria na realização de filmes paradigmáticos, como Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, já antes autor do longa Barravento e do curta O Pátio; assim como outras realizações de destaque neste segmento cultural, entre as quais o documentário Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, que escreveu também uma peça de teatro, Evangelho de Couro, versando sobre a tragédia de Canudos, marco e exemplo do apoio e incentivo do grupo ao pioneirismo vitorioso da Escola de Teatro da Universidade da Bahia. No campo das artes plásticas, organizou exposições de pintura, escultura e gravura, não só de seus próprios artistas, como de outros, contribuindo para o incremento não só do mercado de arte como para o surgimento de várias galerias de arte em Salvador.
Hoje, confesso sentir imenso orgulho por pertencer a esta geração, cujo início de atividades dentro da cena cultural baiana completa redondos sessenta anos, neste 2017, com os espetáculos de poesia teatralizada levados no auditório do Colégio da Bahia, as chamadas Jogralescas, que açularam os ânimos, tanto de progressistas, como também os de espíritos ainda presos a um passado, que desejavam jamais devesse passar.

Direi algumas palavras sobre esta minha magra trajetória editorial.
Meu primeiro livro, Reverdor, publicado em 1965, por incentivo e empenho de companheiros de geração compreendia uma coletânea de poemas em que eu advertia de entrada que tinham sido reunidos para publicação, “tendo em vista uma unidade temática de base agrária”, querendo com isso transmitir a ideia de que a poesia deveria se distanciar das angústias, tormentos e atribulações urbanas, buscando purificar-se com o que emanava da vida rural e atividades agrárias. Estava imbuído da ideia de que a vida urbana começava então a ser fonte de perturbações mentais, mais apropriadas ao tratamento psicanalítico. As palavras deveriam transmitir um estado de pureza na formulação do poema. Com isso, deixei de fora poemas de produção anterior, que só iriam aparecer como parte de um terceiro livro, sob o título de Noticiário da aurora.
Leio um poema deste primeiro livro.

A CABRA

Talvez um lírio. Máquina de alvura
sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório
sobre lajedo o casco azul polindo,
dominas suave clima em promontório;
cabra: o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me perdurando nos ouvidos,
laborado em marfim – luz e presença
de reinos pastoris antes servidos –

teu pelo residência da ternura
onde fulguras na manhã suspensa:
flor animal, sonora arquitetura.

(1965)

No segundo livro, Fábula civil, de 1975, opera-se um salto, impulsionado pelo cenário de trevas e opressão que se estabelecera no país, sob o guante da ditadura, instalada em 1964. Não havia então outra saída. Espelho de uma realidade pulsante, mas embebida no martírio, a poesia irá refletir o que a censura permitiria perceber-se, pela voz da mídia e pelo trânsito dos assombros, projetado eficazmente no espaço urbano, prevalecendo uma entonação entre o dramático e o épico, mas sem perder de vista a pulsão lírica, em versos medidos e formas fixas. E, como em todos esses casos, a construção poética se funda mais no alusivo do que no descritivo, num jogo de equivalências intuitivas, por se tornar o poeta uma soma das contingências em que se misturam o tempo, a terra e as gentes.
Leio o poema que inicia Fábula civil.

CLARO
           
Pelas tardes de fogo homens
pedras movem com capacetes
de sombra mergulhados
em ruas de verão e sal.

Nada me diz que as coisas
se passam como me dizem
além
da parede de vidro que nos divide
aquém
das algemas de sono que nos unem.

Sou como posso fiel
a meu projeto mesmo
que de pronto não o achem
meus olhos – anônimos
minhas mãos – rachadas
meus lábios – rebeldes

nos espaços burocráticos
nas relações de amizade
nos desertos duros da fome.

Liberdade é meu ser
e tempo. É o meu nome.
Razão – o meu sobrenome.

(1975)


O terceiro livro, A caligrafia do soluço e poesia anterior, só aparecerá quase 20 anos depois, em 1996, sem perder de vista a memória de tempos sombrios e as experiências amargas, mas com a inclusão de poemas publicados anteriormente que lhe conferiam uma atmosfera de animação e esperança.
Mares anoitecidos, meu quarto livro de versos, cuja publicação em 2000 integrou a série de iniciativas editoriais voltadas para os 500 anos do Descobrimento, reúne poemas de conotação dramática e histórica, centrados no princípio de inspiração clássica de que há mais poesia na história dos vencidos, isto é, na tessitura de um malogro, do que nas alegrias e fosforescências dos vencedores. Então, preferi ver o episódio que marcou dramaticamente a história da Bahia, nos anos 1624 e 1625, mais pelos olhos dos derrotados e expulsos holandeses que dos vitoriosos portugueses, situação que, a meu ver, na época, não apresentava diferença, desde que os portugueses, antes, tinham sido também invasores da chamada Terra Brazilis.
Leio um poema de Mares Anoitecidos.

ROCHEDOS

Meu coração agora te pertence
lua que vaga sobre esses rochedos,
eles mesmos reflexos de longínquos
muros, agora esfinges a espreitar
distâncias, a arrimar arquitetura
nostálgica de cercos, a exumar
brasão latino ou artifício mouro.
Meu coração agora vos pertence,
graves rochedos, arsenal de fúrias,
que são artes do tempo, vosso algoz:
em quieta hora da tarde ou noite morna,
decreto imemorial que a espuma lavra,
a ruína e morte, e a solidão, alude
o som da água que ruge a vossos pés.

(2000)

Em 2001, publiquei uma antologia intitulada Galope amarelo e novos poemas, para em 2011 dar a público Poesia Reunida e Inéditos, em volume de quase 400 páginas, a que se seguiu o de Sonetos elementais – Uma antologia, em 2012, e, por fim, agora, Estuário dos dias e outros poemas.

Creio que devo referir-me um pouco a esses meus exercícios de magia verbal. Sempre escrevi poesia, além das cogitações que me são próprias, à luz de grandiosos exemplos, na presunção de que, manejando com palavras, o poeta não pode dispensar o som e o ritmo, que lhes são próprios; e por isso ainda vejo como não superada a recomendação de Ezra Pound de que o poeta, além da obrigação de ir direto ao objeto cogitado, deve inundar seu enunciado de palavras carregadas de significado, eliminando todo e qualquer elemento supérfluo, sem descuidar-se da cadência musical. Isto é, para mim, a ressonância de advertência contida em verso famoso do francês Verlaine, - “de la musique avant toute chose” (“a música antes de tudo”). Dentro dessa moldura, ouso defender que a elocução em poesia é basicamente rítmica, com uma inclinação para o musical, no encadeamento e na entonação das palavras.

Em relação a meu último livro, Estuário dos dias e outros poemas, constituído em grande parte de poemas lavrados em versos decassílabos, gostaria de transcrever palavras da apresentação, que lhe fiz, em muito justificadoras de meu processo criativo, que consiste em escrever versos sempre levando em conta o som e o ritmo das palavras.

“Embora possa a muitos parecer uma excentricidade ou, talvez, uma nostalgia de abominado rastro parnasiano-simbolista, considero-o uma espécie de tributo à forma, pois alimento intimamente a convicção de que, originário da Itália, foi o verso decassílabo que civilizou a poesia, não apenas a portuguesa ou a hispânica, mas ocidental. Dentro do universo lusófono, este verso possui extraordinária longevidade, desde o momento em que Sá de Miranda, numa época de sagas cavalheirescas, voltando de uma temporada na Itália (1521-1526), introduziu a forma do soneto em Portugal e trouxe o decassílabo como seu leal escudeiro.”
A esse respeito, subscrevo o que diz o excelente jornalista e ensaísta João Carlos Teixeira Gomes, meu companheiro de geração e confrade na Academia de Letras de Bahia, por sinal, também poeta e exemplar sonetista, que classifica, em recente livro, este consagrado verso como “um operador poético poderoso”, pelo tanto que possui de “harmonioso e melódico”. E assim o justifica: “No restrito espaço das dez sílabas, o decassílabo se expande na direção de um universo de modulações rítmicas e melódicas que parecem infindáveis”.

No encerramento desta minha fala, quero ler um poema ainda inédito, que, no fundo, é o modo com que procuro me redimir de, tendo escrito poemas de fundo memorialístico em homenagem a Uruçuca e a Itabuna, jamais ter escrito um que reverenciasse a cidade de Ilhéus, onde vivi e tive momentos de alegria e felicidade juvenil. Pode parecer um chiste, mas o fato é que, lendo eu um poema de Ruy Espinheira Filho, deparei-me com uma estrofe em que ele invocava a sua memória juvenil, lamentando nunca ter ido à praia, nem tampouco visto o mar. Tão íntima confissão me tocou e, então, escrevi um poema celebrando o momento em que Ilhéus me proporcionou ver pela primeira vez o mar, aos 12 anos de idade.
Ei-lo, construído em sétimas e versos de sete sílabas.

A DESCOBERTA DO MAR

                              Não, não íamos à praia.
                                    (...)
                                    Pois é, também não víamos o mar
                                    E as lagoas não compensavam.
                                                           (Ruy Espinheira Filho)

Eu também não via o mar.
Via o ribeirão e o brejo.
Vi depois um manso rio,
Onde aprendi a nadar.
Sonhava noites a fio.
No fundo havia o desejo
De sair e ver o mar.

Foi graças ao trem-de-ferro,
Que um dia parou na praça,
Com intenção de me lançar
Por um caminho sem erro,
E me levou para o mar.
Até me dava de graça
O contrário de um desterro.

Falam mais alto o meu sonho
E toda a minha alegria,
Com gosto de navegar.
Levei um susto medonho,
Tamanho mesmo do mar;
Com cores de epifania,
Era maior que o meu sonho.

Meu pai levou-me a um bar,
Que não comporta miçanga
(Ardente nome: Vesúvio!),
Um éden diante do mar.
Corre pelo ar um eflúvio,
Traço um sorvete de manga,
Satisfaz-me o bom-mirar.

Vastidão de azul e verde,
A se perder no horizonte,
No rastro de branca espuma!
Quanta alegria em se ver
De longe o quanto se esfuma,
Qual doce correr de fonte!
Na vida quanto se perde...

Um dia escrevi louronda,
Palavra de amor concreto,
Em folha depois sumida,
Na esteira de doida onda.
Uma lição para a vida:
Hoje sei em que dialeto
Um dia escrevi louronda.

Água, terra, fogo e ar,
Trouxe ao menino a ciência,
E muito mais. Quando busco
Uma rima para mar,
Seja aurora ou lusco-fusco,
Cá me diz a experiência:
Não há melhor do que bar.

MUITO OBRIGADO.

Ilhéus: vista parcial,  em destaque a praça central, Catedral, o Bar Vesúvio, o Teatro Municipal e o Hotel Ilhéus Palace
Palestra pronunciada, na noite de 26.04.2017, no Teatro Municipal de Ilhéus, na abertura do II Festival Literário de Ilhéus, ao qual o palestrante compareceu, na condição de convidado e homenageado, seguindo-se uma mesa de debates sobre o tema “Caligrafia Poética Sul-baiana”, da qual também participou.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

VISÕES DE ÉDEN SÚBITO CONTEMPLADO

POR CAMINHOS DE ONTEM, COMO HOJE
Acordo em domingo de calor sob céu mormacento, após uma tarde e noite de três eventos cordiais e afetivos - almoço anual de confraternização do que resta da turma de formados na UFBA em Direito, deparando-me com a melancólica percepção de que, de 71, apenas 26 respiram, silenciosos ou sorridentes; lançamento de livro de um amigo baiano apaulistado (Roniwalter Jatobá), sob um toldo camarada de cerveja e vinho, na Confraria do França, e, por fim, o aniversário de uma estimadíssima cunhada -, vejo-me relendo um poema que escrevi, faz algum tempo, subitamente impelido por dois versos do simbolista francês Jules Laforgue (1860-1887), que me puseram a meditar sobre como teria sido o mundo (o céu, a terra, as águas), no tempo em que o homem ainda não existia. A vida é também forma de descobrir e inventar caminhos. E, na certeza de que caminhos se fazem ao andar, como garante o espanhol Antonio Machado, me vi subitamente transitando por essa espécie de senda onírica - sozinho no mundo, sem mais ninguém... Vai abaixo o texto, que consta de meu novo livro, cujo lançamento coincidentemente já não mais sonho em tempo de febris sensações natalinas, poema apropriado para ser ouvido ao som de um saxofonista de Jazz-fusion, como o do argentino Gato Barbieri, nesta gravação intitulada "El Sublime", aqui ilustrado com pintura de Paul Cézanne, em mais uma imagem de sua adorada montanha de Sainte Victoire, em sua Aix-en-Provence natal. (Facebook, 04.12.2016)
Paul Cézanne (1839-1906), Mont Sainte Victoire, 1902-1906


VISÕES DE ÉDEN SÚBITO CONTEMPLADO

Tout est vain, - et, là-haut, voyez, la Lune rêve
Aussi froide qu´aux temps où l´Homme n´était pas.*
Jules Laforgue (1860-1887)

Toda existência é ocasional regresso...
Ernâni Rosas (1886-1954)

...Circunvagante, a onda escura avançava
Ubíqua, rumo da terra, tocada de ventos músicos.
“Hino Homérico a Apolo Délio” (Ordep Serra, tradutor)

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.
Robert Frost (1874-1963)


Sonho-me aventureiro de outros sonhos.
De pés firmes, me apalpo e, calmo, sigo.
Abrisse uma cortina, não seria
de escuro firmamento o panorama.
Fontes murmuram, fresca brisa sopra.
Suspira o mar. Eu, soltos olhos ávidos,
vislumbro encostas e sobre elas abro
um caminho ondulante e pedregoso.
No silêncio, nas extensões desertas,
meus olhos tensos captam o que vibra.
Há o sol, o vento, rochas, lagos, rios;
bem perto ou longe, indecifrável fauna,
bosques de árvores densas, impassíveis,
de mãos nunca tocadas nem palpadas;
leito rico adiante de lama e argila,
e o mar, sereno, casto e palrador;
oceano nenhum de lava e ferrugem;
planos só de cascalho e rubra areia.
Assento os olhos em cipós trançados:
nada de Neandertais de ignotas fauces,
pisando crosta de solúvel ferro,
sinais de caça, faina, habitação.
Verdejo-me no sonho. Em rocha sento-me
de cimo que rodeiam ventos brandos;
vestindo-me de ar puro, paz e selva,
o céu, um pálio alto de azul intenso,
por onde o sol navega assiduamente,
gestando madrugadas e crepúsculos,
que um dia dirão de ouro, bronze e sangue,
nuvens reverberando luz constante;
adiante o mar, sonoro e ininterrupto,
saudando orla de areia minudente.
Tempo de não viver, só de existir;
rastro humano nenhum. De cima, a lua,
solene e vigilante quanto fria,
guarda o que passou, passa e passará.
Ninando a noite que parece dormitar,
ela, no alto, ainda paira (primeiro e único
sinal de amor no mundo) e, cá em baixo,
eu, na felicidade de estar só.
Só, na frígida noite que declina,
desvelo o tempo em que o homem não existe.
No céu a lua sonha; embaixo, apenas
obscuros rastros, calma e solidão.
Na certeza que os fados me reservam,
vou para um princípio que não tem fim
e, após ida colecionando assombros,
volto para um fim que não tem princípio.
Comigo o que alfarrábios me negaram:
pedra, metal, madeira, barro ou som,
tudo o que a mim agrada e fantasia.
Por pântanos transito e me pergunto
o que me faz estar nessas paragens,
no instante mesmo em que acorda o mito.
Sei que um dia isto nunca será descrito,
nunca visto será, nunca explicado.
Nunca, se nem mesmo há o pensamento,
o tempo numeroso, calendários,
as sensações, as convenções, os números;
signos, crenças, a exata ciência, os códigos,
vivências, falas, preces e caminhos;
nada que, vindo do homem, será do homem?
Solfeja o mar. No cadenciar das ondas,
versos compõe com sílabas de espuma.
Quero um instante na caverna entrar;
talvez lá pare e me ponha a desenhar,
escrever e narrar, com pau e pedra,
o que agora mais vejo à minha frente
passar, correr, saltar, morder, zumbir,
uivar, berrar, zurrar, bramar, cantar.
Por águas e ares vou, pelas clareiras,
para a sombra que seja, ou para o nada.
O corpo me convida a repousar.
Deito. Levanto e indago em derredor
se haverá sempre essa noite e esse dia.
Miro a rua liberto de vaidades.
Da janela, a manhã me justifica,
imaginando o que pensou Laforgue,
na sua perfeição antropomórfica,
em noite de gelado Carnaval.

SSA/BA, 14/02 (sábado de Carnaval);11/03/2015
Florisvaldo Mattos, Estuário dos dias e outros poemas. Salvador: Caramurê Publicações, 2016, p. 95).

*Tudo é vão, - e, lá no alto, vede, a Lua sonha
Tão fria como no tempo em que o Homem não existia.
(LAFORGUE, trad. nossa)