sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

VALDOMIRO SANTANA SOBRE POEMA DE FM

A PELE DAS COISAS

 

Lápis ou caneta e papel. Ou máquina datilográfica e papel. Ou computador. O que então acontece? Um nome, Água Preta, é escrito por Florisvaldo Mattos. Mas, muito antes da escrita desse nome, que é um topônimo, o nome de um lugar, razão pela qual o segundo vocábulo é grafado com inicial maiúscula, uma imagem se acende, a qual não é mais a que havia sido na infância (que, etimologicamente em latim, é “infantia”, do verbo “fari”, falar, em que “fan” significa falante e “in”, a negação – sendo, portanto, “infans” quem ainda não fala, já que só balbucia, murmura, grita, gagueja), que imagem é essa? A de um rio de água preta sobre o qual há uma ponte.

Imagem que vai persistir na retina (e se encadear com outras) como, por sua velocidade (24 fotogramas por segundo), persistem as que vemos no cinema, em cuja tela a percepção natural não é a percepção do movimento. Podemos então dizer que, muito antes da literatura (aqui, em uma de suas formas de expressão, a poesia), o cinema é o que está na origem do soneto “Água Preta”. Eis o texto:

 

Água Preta: debruço-me na ponte,

olho o rio que sangra minha infância;

me despeço de mim — lá, do que fui,

do que somente fui, não mais serei.

 

Na Rua do Apertucho, com tristeza,

me despeço de mim, dos meus amigos.

Imperceptível traço do destino,

com palavras escritas nas paredes,

 

resiste na água quieta (minha tia

Dasdores, debruçada na janela,

olha a chuva batendo nos gramados).

 

Do necessário roxo dos telhados

desce o gado manso do tempo, rumo

ao fundo do rio chifrando ausências.

 

O que é singular neste soneto: a imagem do rio de água preta vai devir outra, e outra, e outra, sem deixar de ser a do passado contraído que imperceptivelmente se distende; não a imagem que de fato é, ou foi. A imagem do rio e da cidade que tem seu nome. Imagem que, em sua origem, é imagem-movimento, a se desdobrar em imagem-percepção, imagem afecção e imagem-ação. Por isso vemos, em vez da reprodução do real desse rio, seus efeitos de realidade.

Já que o verbo evocar diz muito a Florisvaldo Mattos, evoquemos outro poeta lírico, Mario Quintana, que diz em “Parábola”:

“A imagem daqueles salgueiros n’água é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros”.

Experimentemos ler “Água Preta” como se assistíssemos a um filme, se víssemos um quadro, se ouvíssemos uma obra musical. Isto é possível? Sim, porque há uma comunidade das artes; elas dialogam, nenhuma delas está fechada em sua forma de expressão. Não há arte que não esteja na origem de outra arte ou com outra não faça um entrelace.

Então, digamos: “Água Preta” é um filme imaginário, puramente experimental, em cores, que se delineia, ganha corpo, flui (como o rio do lugar). Abre com um trecho do “Concerto para piano e orquestra, op. 42”, de Schoenberg, cuja emotividade é intensa, com dissonâncias extremas, mostrando imagens que vão se dissolvendo:

a do plano geral de um adolescente que se debruça na ponte para ver o rio; a do plano próximo desse adolescente e a do plano detalhe de seus olhos; a do enquadramento da água do rio vista de cima para baixo; a da Rua do Apertucho vista em profundidade de campo (som direto); as de flashes, nessa rua, em tom sépia, de amigos que já morreram e os ainda vivos;  a da água do rio que enche a tela e parece parada de tão quieta; as do close e do plano próximo de uma mulher de meia idade,  que, debruçada na janela, olha a chuva; a do plano de conjunto da chuva batendo na grama (som direto); as dos movimentos de câmera sobre os telhados que são vistos pintados de roxo; a da palavra FIM em branco sobreimpressa em fundo roxo, quando cessa a música expressionista de Schoenberg e ouve-se  um barulho suave, o dos murmúrios e submurmúrios do rio (som direto). 

Esse diálogo imaginário com o cinema vai dar origem a outro, também imaginário, o diálogo com a pintura, em que uma imagem, a do título do quadro, também puramente experimental, aparece metamorfoseada, primeiro em estilhaços, depois em seu todo, composta de linhas e cores ora saturadas, ora rarefeitas (o preto, o vermelho, o verde, o cinza, o terra de siena, o roxo). Volta-se a ouvir, durante o estilhaçamento da pintura e em seu todo, a música de Schoenberg.

Essa imagem pictórica vai suscitar outro diálogo, devir imagem de duas palavras – água e preta – que, na leitura do título do poema e antes da leitura de seu texto, se acoplam enquanto signos e fendem-se, mas o espaço entre elas é indeterminado, ora micro, ora imenso; espaço vazio, porém onde sensações de uma vida interagem intensamente, as do passado contraído e as de sua distensão no presente.

Disse André Bazin que os filmes de Jean Renoir são feitos com a pele das coisas. Assim como – digo, experimento, leio/vejo/sinto/penso – os poemas de Florisvaldo Mattos.

  

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