A PELE DAS COISAS
Lápis ou caneta e
papel. Ou máquina datilográfica e papel. Ou computador. O que então acontece?
Um nome, Água Preta, é escrito por Florisvaldo Mattos. Mas, muito antes da
escrita desse nome, que é um topônimo, o nome de um lugar, razão pela qual o
segundo vocábulo é grafado com inicial maiúscula, uma imagem se acende, a qual
não é mais a que havia sido na infância (que, etimologicamente em latim, é
“infantia”, do verbo “fari”, falar, em que “fan” significa falante e “in”, a
negação – sendo, portanto, “infans” quem ainda não fala, já que só balbucia,
murmura, grita, gagueja), que imagem é essa? A de um rio de água preta sobre o
qual há uma ponte.
Imagem que vai
persistir na retina (e se encadear com outras) como, por sua velocidade (24 fotogramas
por segundo), persistem as que vemos no cinema, em cuja tela a percepção
natural não é a percepção do movimento. Podemos então dizer que, muito antes da
literatura (aqui, em uma de suas formas de expressão, a poesia), o cinema é o
que está na origem do soneto “Água Preta”. Eis o texto:
Água Preta: debruço-me na ponte,
olho o rio que sangra minha infância;
me despeço de mim — lá, do que fui,
do que somente fui, não mais serei.
Na Rua do Apertucho, com tristeza,
me despeço de mim, dos meus amigos.
Imperceptível traço do destino,
com palavras escritas nas paredes,
resiste na água quieta (minha tia
Dasdores, debruçada na janela,
olha a chuva batendo nos gramados).
Do necessário roxo dos telhados
desce o gado manso do tempo, rumo
ao fundo do rio chifrando ausências.
O que é singular
neste soneto: a imagem do rio de água preta vai devir outra, e outra, e outra,
sem deixar de ser a do passado contraído que imperceptivelmente se distende;
não a imagem que de fato é, ou foi. A imagem do rio e da cidade que tem seu
nome. Imagem que, em sua origem, é imagem-movimento, a se desdobrar em
imagem-percepção, imagem afecção e imagem-ação. Por isso vemos, em vez da
reprodução do real desse rio, seus efeitos de realidade.
Já que o verbo
evocar diz muito a Florisvaldo Mattos, evoquemos outro poeta lírico, Mario
Quintana, que diz em “Parábola”:
“A imagem daqueles
salgueiros n’água é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também
uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros”.
Experimentemos ler
“Água Preta” como se assistíssemos a um filme, se víssemos um quadro, se
ouvíssemos uma obra musical. Isto é possível? Sim, porque há uma comunidade das
artes; elas dialogam, nenhuma delas está fechada em sua forma de expressão. Não
há arte que não esteja na origem de outra arte ou com outra não faça um
entrelace.
Então, digamos:
“Água Preta” é um filme imaginário, puramente experimental, em cores, que se
delineia, ganha corpo, flui (como o rio do lugar). Abre com um trecho do “Concerto para piano e
orquestra, op. 42”, de Schoenberg, cuja emotividade é intensa, com dissonâncias
extremas, mostrando imagens que vão se dissolvendo:
a do plano geral de
um adolescente que se debruça na ponte para ver o rio; a do plano próximo desse
adolescente e a do plano detalhe de seus olhos; a do enquadramento da água do
rio vista de cima para baixo; a da Rua do Apertucho vista em profundidade de
campo (som direto); as de flashes, nessa rua, em tom sépia, de amigos que já
morreram e os ainda vivos; a da água do
rio que enche a tela e parece parada de tão quieta; as do close e do plano
próximo de uma mulher de meia idade,
que, debruçada na janela, olha a chuva; a do plano de conjunto da chuva
batendo na grama (som direto); as dos movimentos de câmera sobre os telhados
que são vistos pintados de roxo; a da palavra FIM em branco sobreimpressa em
fundo roxo, quando cessa a música expressionista de Schoenberg e ouve-se um barulho suave, o dos murmúrios e submurmúrios
do rio (som direto).
Esse diálogo
imaginário com o cinema vai dar origem a outro, também imaginário, o diálogo
com a pintura, em que uma imagem, a do título do quadro, também puramente
experimental, aparece metamorfoseada, primeiro em estilhaços, depois em seu
todo, composta de linhas e cores ora saturadas, ora rarefeitas (o preto, o
vermelho, o verde, o cinza, o terra de siena, o roxo). Volta-se a ouvir,
durante o estilhaçamento da pintura e em seu todo, a música de Schoenberg.
Essa imagem
pictórica vai suscitar outro diálogo, devir imagem de duas palavras – água e
preta – que, na leitura do título do
poema e antes da leitura de seu texto, se acoplam enquanto signos e fendem-se,
mas o espaço entre elas é indeterminado, ora micro, ora imenso; espaço vazio,
porém onde sensações de uma vida interagem intensamente, as do passado
contraído e as de sua distensão no presente.
Disse André Bazin
que os filmes de Jean Renoir são feitos com a pele das coisas. Assim como –
digo, experimento, leio/vejo/sinto/penso – os poemas de Florisvaldo Mattos.
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