“NEM PARECE REVERDOR COM LIVRO DE ESTREIA”
Jorge Amado
Creio ser Reverdor
o primeiro livro publicado pelo poeta Florisvaldo Mattos; não sei de volume seu
anterior. Pois bem: à base desse único livro eu me arrisco a falar em grande
poeta, pelo menos em grande poeta jovem e em poesia madura. Nem se parece Reverdor com livro de estreia, tal sua
qualidade de forma e pensamento.
Tão trabalhado e obtido em sua busca, tão realizado em sua
forma de evidentes exigências e duro labor, denso de um conteúdo vegetal e
agrário, sendo livro de nosso tempo e nossa realidade, Reverdor situa de imediato e de vez, o poeta entre os primeiros de
sua geração e não deixa momento de dúvida sobre sua vocação e sua permanência
nos quadros mais altos de nossa poesia.
Visão agrária dos tempos da colônia (com os conquistadores,
Garcia D´Ávila à frente do tropel e do galope; os seus monólogos são de uma
beleza áspera e por vezes até cruel), visão de um País e do seu crescer de
povo, vem ela até os nossos dias quando as ferrovias e os vagões, num tempo
industrial, irrompem em angústia pelos campos e devassam a terra e os homens.
Um livro onde cada palavra te seu lugar e cada sentimento se fez emoção poética
e se fundiu na palavra justa. Não apenas um bom livro de poemas, não apenas uma
estreia feliz; bem mais: um poeta em sua afirmação indiscutível de criador.
Não sou crítico literário, apenas leitor de poesia e leitor
contente de ter se abeirado de um poeta verdadeiro, nem sempre fácil de ser
descoberto em nossos dias de tanta facilidade e tamanho engano de rapazes tão
sem verdade e sem força de criar. Florisvaldo Mattos começou em madurez de quem
não teve pressa de vir a público. Vai crescer muito certamente, seu caminho é
largo e também seu fôlego.
(Texto da apresentação de Reverdor, por Jorge
Amado, em sessão da Academia Brasileira de Letras, reproduzido pelo Suplemento
Dominical do Diário de Notícias (SDN),
Salvador/BA, em 31 e 01.11.1965).
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