quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

JORGE AMADO NA ABL SOBRE "REVERDOR"

 

 “NEM PARECE REVERDOR COM LIVRO DE ESTREIA”

 

 Jorge Amado

 

Creio ser Reverdor o primeiro livro publicado pelo poeta Florisvaldo Mattos; não sei de volume seu anterior. Pois bem: à base desse único livro eu me arrisco a falar em grande poeta, pelo menos em grande poeta jovem e em poesia madura. Nem se parece Reverdor com livro de estreia, tal sua qualidade de forma e pensamento.

Tão trabalhado e obtido em sua busca, tão realizado em sua forma de evidentes exigências e duro labor, denso de um conteúdo vegetal e agrário, sendo livro de nosso tempo e nossa realidade, Reverdor situa de imediato e de vez, o poeta entre os primeiros de sua geração e não deixa momento de dúvida sobre sua vocação e sua permanência nos quadros mais altos de nossa poesia.

Visão agrária dos tempos da colônia (com os conquistadores, Garcia D´Ávila à frente do tropel e do galope; os seus monólogos são de uma beleza áspera e por vezes até cruel), visão de um País e do seu crescer de povo, vem ela até os nossos dias quando as ferrovias e os vagões, num tempo industrial, irrompem em angústia pelos campos e devassam a terra e os homens. Um livro onde cada palavra te seu lugar e cada sentimento se fez emoção poética e se fundiu na palavra justa. Não apenas um bom livro de poemas, não apenas uma estreia feliz; bem mais: um poeta em sua afirmação indiscutível de criador.

Não sou crítico literário, apenas leitor de poesia e leitor contente de ter se abeirado de um poeta verdadeiro, nem sempre fácil de ser descoberto em nossos dias de tanta facilidade e tamanho engano de rapazes tão sem verdade e sem força de criar. Florisvaldo Mattos começou em madurez de quem não teve pressa de vir a público. Vai crescer muito certamente, seu caminho é largo e também seu fôlego.

 

(Texto da apresentação de Reverdor, por Jorge Amado, em sessão da Academia Brasileira de Letras, reproduzido pelo Suplemento Dominical do Diário de Notícias (SDN), Salvador/BA, em 31 e 01.11.1965).

 

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