quarta-feira, 24 de junho de 2015

FUGA

Expressionismo telúrico em pintura do sergipano-baiano Jenner Augusto, integrante da Geração Caderno da Bahia, s. d.

Por Florisvaldo Mattos

  Pensando, pensando, passara o pior. Poderia, é verdade, ter alugado um cavalo para levá-lo até a estação da estrada de ferro. Sabia que Banco do Pedro não estava longe. Subiria pela margem do rio, rumaria a oeste para a Barra do Zé-Bicho; sob o sol, a geografia acidentada deixava-lhe os pés em fogo, o que certamente retardaria a viagem. Mas não via cavalos. Não via nada, além de pastos e cercas. Ademais, não conhecia a região. O suor escorria pelo rosto em brasa, nos lábios um gosto de sal. Apressou o passo e, quase a correr, divisou a quinhentos metros um capo de mato.
           Aparício sentou-se à beira da estrada, fatigado. O vento levantava a terra amarela, fazendo poeira. Viu fumaça adiante. Levantou o chapéu, limpou a testa e a boca com a manga da camisa. Avistou um homem. Curvado, com uma vara juntava gravetos ao pé de um monte de troncos secos. Ergueu-se e correu para ele, atravessando uma cerca de varas, armada sobre troncos cruzados em X.
           - Meu senhor, boa-tarde. Se mal lhe pergunto, como posso chegar a Santa Cruz do Catolé antes da noite?
           - Só de animal - respondeu o homem, tirando o casquete de pano em forma de cuia.
           - Que distância faz?
           - Quatro léguas.
           - Como posso por aqui alugar um cavalo?
           - Aqui não tem. Mais adiante é possível, com os vaqueiros do coronel Hortêncio.
           - Vá com Deus, homem - afirmou o desconhecido, que via apreensão no rosto de Aparício.  Continuou de pé, encostado à cerca de paus roliços, mirando o viajante e seu rifle, que desapareciam na estrada, e voltou, silencioso e curvo, à coivara.
           O cavalo baio trincou os cascos nas pedras de Santa Cruz à boquinha da noite, no lusco-fusco.
           Dirigiu-se à casa do homem a quem deveria entregar o cavalo e os arreios - uma venda, miscelânea de secos e molhados, com três portas de entrada. Apeou-se, entrou e se identificou.
           - Pois não. Já estou acostumado - disse o homem de bigode, encostado ao balcão onde despachava fregueses. Vem de longe e está cansado. Não toma nada para quebrar o cansaço? - perguntou o comerciante.
           - Não, obrigado. Não bebo. Prefiro um cigarro.
           - Não, obrigado. Há cigarros?
           Um mulato forte, vestindo camisa de campanha, calça de mescla azul e chapéu de couro, sentado sobre um caixote de querosene, que olhava fixamente desde o momento em que Aparício entrou na venda, perguntou-lhe:
 
           - Você não bebe?
           - Em viagem não; não costumo - respondeu Aparício, fitando o homem e estranhando a familiaridade da pergunta.
           - Não tem medo de viajar só e desarmado? De onde vem e para onde vai?
           - Vou por aí; sei que vou por aí - respondeu Aparício, seco, cortando conversa.
           O comerciante acabara de despachar os fregueses. Chegaram outros. Acendeu um candeeiro de tubo, depois de limpar a manga com um pano que apanhara sob o balcão. Uma luz mortiça se espalhou pelo ambiente, subindo pelas prateleiras onde se arrumavam tecidos, garrafas e latas, artigos cujos conjuntos Aparício mal podia divisar à distância. Utensílios de cozinha, em alumínio e esmalte, pendiam do teto baixo pintado de um vermelho escuro.
           O homem de bigode, preparando-se para atender os novos fregueses, falou.
           - Quero pedir-lhe um favor se não for incômodo: entregue o cavalo a Zé Tropeiro, do outro lado do rio. Uns duzentos metros, à esquerda, existe uma ponte. Suponho que vai tomar o trem amanhã. O primeiro, descendo para Ilhéus, passa às sete. Para a noite, uma pensão abaixo da estação serve. Fica um pouco isolada, na estrada, depois do corte e antes do pontilhão. Lá encontrará cama, e comida que não é má.
           Aparício agradeceu e despediu-se. Ao sair, rumo ao mourão de cerca onde amarrara o cavalo com o rifle, sentiu alguém segurar-lhe o braço.
           - Honre o santo e beba uns tragos comigo. Você não terá despesa. Eu insisto.
           Era o mulato forte que se levantara, aproximando-se da porta com o chapéu de couro na mão. Aparício afastou-o, com o braço, abrindo caminho. O mulato encostou-se ao balcão e pediu um trago.
           A caminho da porta, não lhe saía da mente a figura do mulato; o semblante rude, a insistência, as mãos fortes. Súbito, um reflexo, um pressentimento: “Por que tanta insistência em saber se eu bebia, de onde vinha, para onde ia, se estava armado?” - perguntou-se. Avaliou as circunstâncias, e o corpo tremeu, num arrepio. Havia muita diferença entre a solicitude desconfiada do camponês monossilábico que lhe indicara como conseguir a montaria e a do mulato de chapéu de couro, na venda. Que queriam dizer suas palavras? E as que não disse, mas o olhar e a voz insinuavam? E o comerciante, não seria o mulato de mãos fortes capanga seu? Refletiu novamente. Não, não via no homem de bigode indícios que justificassem sua desconfiança; mas no mulato, sim.
           Revisou sua chegada à venda e lembrou que a primeira coisa que vira foram os olhos do mulato sentado no caixote, fitando-o. Algo o inquietava: não viu se o mulato levava arma. Sentou-se.
           “Não tive o cuidado de averiguar”. Esse pormenor provocou-lhe um novo estremecimento. “Não há tempo a perder, tenho que andar ligeiro”. Lembrou-se de Felinto, cabra corajoso, sempre prevenido, que morreu, quando atravessava o Ribeirão do Zé Bicho, com dois tiros, porque, fugindo, esquecera-se de investigar o canoeiro. “Ah! Vai me esperar no corte com certeza”, murmurou num lampejo.
           Esporeou o cavalo e atravessou a ponte a galope.
           Na volta, vindo pelo mesmo caminho, Aparício passou a uns trinta passos da venda. Havia ainda gente lá dentro, mas só uma porta permanecia aberta. Não viu nem o caixote nem o mulato. Escurecera quase de todo. “Ele vai me esperar no corte”. Segurou firme o rifle e apressou o passo, tomando a linha férrea. Cem metros adiante quase nada via à sua frente. Não quis olhar para trás. Seria um sinal de medo? Não haveria tempo de estar o mulato à sua frente. Também não tinha certeza. Lembrou-se apenas de que deixara o mulato bebendo.
           Entrou no corte. A escuridão aumentava. Vinte metros adiante, deixou a linha-férrea, galgou rápido a encosta, pela parte mais baixa, apoiando-se no rifle. Escolheu entre dois troncos um ponto de onde avistasse as duas entradas do corte, protegido por uma aba de jindiba. Sentou-se, com o rifle entre as pernas e esperou.
           Dali ouvia só a cantilena dos sapos na beira do Catolé e grilos. Nada mais. Não era a primeira vez que viajava só, em circunstâncias parecidas, mas em terras que conhecia, como tropeiro, vaqueiro, e até como mascate. Ali, tudo era diferente, não conhecia viv’alma. Lembrou-se de novo do negro Felinto, homem destemido. “Eu não me chamo Felinto. Estou vivo, e Felinto morreu”. Parecia-lhe que a dois passos via o riso maldoso do mulato, dentes brilhando. Olhou o céu, uma estrela luzia por entre folhas. Pensou em fumar um cigarro, mas o tornaria um alvo certo na escuridão. Uma temeridade, seria um homem morto. Melhor era ter calma e esperar.
           Súbito, viu algo mover-se à entrada do corte. Pouco podia distinguir no escuro. O vulto aproximava-se pisando os dormentes da linha férrea. Pouco abaixo de seu esconderijo o homem parou. Aparício alçou o rifle e armou-o. Um minuto, e o vulto subia a encosta fronteira, como se já conhecesse o lugar, como um natural costume. Um instante mais, o vulto acomodara-se defronte, um pouco de viés. Aparício encostou-se mais ao tronco e, silencioso, esperou que o vulto se movesse de novo. Os sapos coaxavam, os grilos trilavam na escuridão. Aparício não tirava os olhos do ponto onde o vulto parecia esconder-se; olho atento, dedo no gatilho. Nisso ouviu um estalo e, logo, a luz de um fósforo. Viu primeiro a roupa clara e depois o chapéu de couro. Aparício esperou que o vulto alçasse o fogo para acender o cigarro. Um tiro ecoou, um grito surdo de espanto e um tombo.
           Minutos depois, Aparício desceu do esconderijo, cruzou a linha e subiu a outra encosta, para saber se estava certo em sua premonição. Revirou o corpo, olhou o rosto. O mulato da venda estava morto.
  No outro dia, cedo, tomou o trem e partiu, sob uma chuva fina que deixava mais tristes as pessoas e a paisagem em volta da estação.
            Chovera. O vento forte derrubara as bananeiras e quebrara galhos nas laranjeiras do quintal, que Ângelo Marçal, enfezado, mirava pela porta da cozinha por onde Aparício tinha entrado, horas antes. O subdelegado de Rio do Braço estava furioso. Ruminava palavras rudes, contrariado. A história de Aparício o deixara irritado.
           Não era possível que, por ter contado, numa conversa sem maiores intenções, que fora expulso de sua terra, quando moço, por um sujeito inescrupuloso, que desejava tomar-lhe a terra deixada em herança por sua mãe, Aparício tomasse uma deliberação e, saindo às escondidas, viajasse para matar o homem em Sergipe, a mais de cinquenta léguas. O caso tinha mais de vinte anos, era inacreditável.
           Enquanto Marçal descarregava fúria no esbregue, Aparício, sentado junto à janela, enrolava um cigarro de palha.
           - Não tem esse mal todo, compadre. O homem não prestava.  Expulsou-o como a um cachorro, aproveitando-se de sua natureza, homem bom e pacato desde menino. Acho que ele tinha uma dívida, que o compadre nunca iria cobrar. Cobrei eu.
           - Não é justificativa. O homem não era seu inimigo. Você nem o conhecia - disse Marçal, encarando Aparício que, cigarro enrolado, riscava o fósforo.
           - Compadre, quando o senhor me contou essa história, eu li nos seus olhos a dor que a humilhação ainda lhe causava. Ali, tive ódio do homem. Não estou arrependido do que fiz, creia. É como se eu próprio tivesse levado a surra, sido enxotado de lá, para não morrer.
           Nos seus cinquenta anos de vida, Marçal ouvira muitas histórias, mas ali estava uma que o impressionava. Devotava admiração e cuidados de pai a Aparício, para ele um coração de criança, não obstante já ter mais de trinta anos, a serenidade, o equilíbrio emocional e a firmeza de caráter, que demonstrava. Por isso mesmo, era inconcebível que lhe saísse do juízo aquela maneira de expressar gratidão como prova da amizade que lhe dedicava.
           - Você andou mal, Aparício. Sua vida tem sido até hoje entrar e sair de encrencas. Ao tomar essa decisão, nem se lembrou de que está refugiado na casa de um subdelegado de polícia por causa de um tiroteio que resultou em duas mortes. A perseguição não parou, você sabe, e ainda ontem passaram por aqui um sargento e dois soldados, com ordens de levá-lo para Ilhéus, vivo ou morto. Graças a mim, como de outras vezes, você não está amargando cadeia. Compreenda, amigo: um dia isso tem de parar, em cadeia ou morte. Quem mata deixa o rastro.
           Considerando as preocupações de Marçal, Aparício achou que devia tranquilizá-lo.
           - Não se preocupe, compadre. Sossegue. Fiz tudo com muito cuidado; ninguém saberá jamais quem rifou o homem.
           Marçal olhava a terra molhada e pensava na história que Aparício recomeçara a contar: a chegada a Santa Rita, os dias de paciência para descobrir o homem, no lugar onde morava, a descoberta afinal do tal Pedro de Aurino. ”Dei com ele pelo meio-dia bebendo num bar.  Dei um tiro só e meti-me no meio do povo. Esperei e no outro dia, vi o enterro passar”. Lembrou-se da cara vermelha do homem já entrado na idade, do charuto que não largava, das botas. Lembrou-se de Aparício no dia da viagem, pedindo-lhe o revólver e o punhal, que estavam guardados. Ia visitar uns parentes em Jeremoabo. Não havia como desconfiar. Apenas lhe dissera que se cuidasse para não ser preso, bestamente.
           - “Fique tranquilo, compadre, quando saio, sei onde piso”, dissera.
           - Atirou com o revólver? - perguntou Marçal.
           - Foi, com o chimite.
           - E o rifle, como conseguiu?
           - Troquei pelo revólver, no caminho, para me livrar da arma.
           Pensou na longa viagem de regresso, fugindo, que Aparício lhe contara: o caminhão,  de noite, carregado de farinha e feijão, léguas e léguas de lapada, o cavalo alugado, o trem-de-ferro. Ficou sem saber a história do mulato, pois Aparício,  temendo contrariá-lo mais ainda, achou prudente deixar para contar depois.
           D. Josefa apareceu na porta da sala.
           - Venham logo, senão o café esfria - disse a mulher de Marçal.
  Aparício levantou-se e chamou o amigo que olhava pela janela o vento da manhã nas laranjeiras. A cara comprida e enrugada de Marçal, testa larga, seu gesto de morder a língua no lado esquerdo da boca, quando se inquietava, não era de esconder preocupação. No dia seguinte, chamou Aparício. Recebera um comunicado da central de polícia da Bahia, avisando-o da vinda próxima de um Delegado Especial à região com a missão de promover diligências. O governo já se mostrara apreensivo com as renitentes disputas entre fazendeiros por demarcação de terras; o rastro sangrento ecoara na Câmara dos Deputados com estardalhaço. A oposição bradava, exigindo do governo cada dia medidas drásticas.
           Nas denúncias, os deputados pintavam a situação com mão pesada: os tiroteios, nas notícias dos jornais, se tornaram corriqueiros, e o número de mortos, em escaramuças frequentes e tocaias, assustava. O governo decidiu por uma única medida para a manutenção da ordem: desarmar todo mundo e prender os jagunços, que circulavam por Rio do Braço, Pirangi e Água Preta, disfarçados de trabalhadores das fazendas. A ordem era eliminar quem resistisse. Mesmo quem trabalhasse nas fazendas de correligionários do governo tinha de ser desarmado.
           - Nessas condições, as coisas se complicam, tanto para você como para mim. Um delegado com poderes especiais, por mais que tenha política no meio, vai fazer o diabo por aqui. Virá certamente trazendo um batalhão de soldados, não ficará ninguém sem ser chamado e ouvido, nem lugar sem ser vasculhado. Provavelmente, já virá sabendo onde está o tumor, para rasgá-lo.
           Aparício, encostado à porta da sala de jantar, com as mãos nos bolsos, testa franzida, compreendia as inquietações de Marçal.
           - Na verdade, reconheço, como subdelegado, não tenho sido homem rigoroso por essas bandas, mesmo sem deixar de cumprir as obrigações básicas da função. Todos sabemos que dever é dever, mas nessas brenhas fazer justiça depende muito de tato. Que é manter a ordem senão fazer justiça? E, sabendo que essa está sempre do lado mais forte, tenho fechado os olhos a muita coisa. Vivo desse cargo e tenho mulher e filhos para sustentar.
           O rodeios de Marçal tinham em mira o caso de Aparício. Até ali, uma amizade de muitos anos tinha sido a razão de muitas de suas atitudes, fechando os olhos para uma estripulia aqui, outra ali, protegendo-o quando estava sob visível ameaça. Era seu portador e conselheiro na hora dos apertos. Não havia melhor esconderijo do que a casa do subdelegado, quando as coisas ficavam difíceis. E havia as missões que cumpria para o compadre.
           - Você não mata por desejo de matar; eu sei disso. Há sempre motivos relevantes e justificáveis - uma questão de temperamento e de caráter. Mas a minha conduta, em tais ocasiões, pode ser interpretada como conivência. É o caminho mais fácil para me tirarem o cargo. Ninguém quererá saber se você teve ou não razão, e acabarei aos olhos dos superiores poderosos como acobertador de crimes. Não faltará aqui mesmo quem me denuncie nessa condição. Durante toda a noite pensei no seu caso e tomei uma decisão.
           Aparício ouvia silencioso a conversa de Marçal. Arrastou uma cadeira e sentou-se. Ângelo Marçal fez o mesmo e continuou, apoiando as mãos nos joelhos:
           - Pensei muito e cheguei à conclusão de que sua permanência aqui poderá ter consequências de fácil previsão. Escondido aqui em casa, ninguém lhe porá mão, eu sei, mas é perigoso. No mínimo, se descoberto, você será preso e acabará os dias numa penitenciária. Quanto a mim, serei na certa demitido e, com isso, em dificuldades. São vinte anos de cargo. Não fui suficientemente hábil, ou talvez tenha sido por demais honesto, para conseguir minha independência financeira, enriquecendo à sombra do cargo. Essa casa, onde estou com mulher e filhos, é tudo quanto possuo. No resto, só fiz amigos e inimigos, esses em número sempre maior. Portanto, você passará uns tempos fora, até que as coisas se aquietem. Decidi mandá-lo para as terras de Sizenando. Fica a umas oito léguas daqui a Fazenda Cajazeiras. Vive ele com umas propriedades ameaçadas de invasão e precisa de homens como você para protegê-lo, enquanto rolam as questões na justiça. Levará uma carta minha, e tudo correrá bem.
           - Você está agindo certo, compadre. Eu já estava pensando, mesmo, em ir-me daqui. Não quero ser um entrave, ainda mais nessas circunstâncias. Gostaria apenas de saber o que irei fazer trabalhando com esse Sizenando. Você sabe que nunca fui capanga. Não faço empreitadas de morte. Quero saber quem é ele e como costuma proceder, pois não trabalho com homem de caráter duvidoso - disse Aparcio, sentado, com o cigarro entre os dedos.
           - Sizenando é um homem rico e poderoso, com muita influência política. Nada lhe acontecerá, estando com ele, fique certo. Creio que o problema dele agora é somente dispor de homens que mantenham a tranquilidade e segurança de suas terras. Homens de confiança, diga-se, como você.
           - Quem tem terra, compadre, gosta mais dela que de gente. Mas fique tranquilo. Amanhã mesmo viajarei.
  Marçal fitou Aparício com um sorriso, levantou-se, tomou-o pelo braço e falou:
           - As coisas nunca se passam como a gente sonha e deseja. Meu gosto seria você ficar aqui como de tantas vezes. Tenho-o como um filho, um irmão. Mas devemos agir com serenidade e cautela nessas ocasiões. É melhor prevenir do que remediar; você sabe tanto quanto eu.
           Junto à porta se separaram. Marçal foi para o escritório escrever a carta para Sizenando; Aparicio, para o quintal, escorar uma cerca que, pela força do vento, pendera sobre um pé de bucha, ameaçando cair.
  Noite alta, meses depois, pancadas nervosas na porta acordam Marçal. Pegou a lanterna e o revólver.
           - Quem é? - gritou.
           - Sou eu, compadre.
           Conhecendo a voz de Aparício, abriu a porta.
           - Que houve, amigo? Está fugido?
           - É. Que jeito?
           - Entre, amigo.
           Marçal acendeu o candeeiro, a sala se iluminou. Aparício sentado num banco de madeira pergunta por D. Josefa e pelos meninos.
           - Estamos todos bem por aqui. Conte o que houve.
           - Não venho para ficar, estou de passagem. Despachei a alma de dois e vi alguém atravessar a estrada, faz pouco, à minha frente, escondendo-se atrás de uma jaqueira, com um pano amarrado no queixo, e parecia um deles. Coisas da vida... Andavam me jurando, por causa de uma questão de Sizenando com o patrão deles, briga por roça de cacau. Um desses dias, foram me procurar lá em casa. Não me acharam e, como aviso, cortaram meu cachorro em três pedaços e largaram dentro de um saco no oitão. Quando cheguei, de tardinha, aquilo me entristeceu. Fui atrás deles. Encontrei-os, trocamos uns golpes de facão, e matei os dois. Agora a polícia está atrás de mim.
           - Quando foi isto?
           - Tresantonte. Hoje é quarta; no domingo.
           - E Sizenando, onde estava?
           - Viajando. Está há dias na capital.
          Marçal franziu o cenho e fitou Aparício.
          - O que o amigo quer que eu faça? Pode falar.
          - Pouca coisa e ao mesmo tempo muita, agora. Quero que me empreste um revólver e um punhal. Deixo com o senhor o facão. E, se possível, um cobertor para enfrentar o frio, daqui para a frente.
          Marçal mirou por um tempo a sombra que a luz do candeeiro deixava na parede, variando com os movimentos que ele ou o visitante fizessem, e falou.
         - É, compadre, nessas circunstâncias, é perigoso você ficar. Vou lhe dar o que pede.
         Entrou no quarto, Aparício ouviu D. Josefa, falando baixinho e murmúrios de Marçal, respondendo.
         - Estão aqui as armas e o cobertor; e uns cobres para as despesas. Que pensa fazer, amigo?
         - Seguir viagem e enfrentar a vida. Vou para longe. Ninguém me pegará.
         - Vá em paz e tenha cuidado; o que você viu na estrada, vem de seus miolos, pura impressão. Os que você encomendou não são mais ameaças para ninguém. Só os vivos são perigosos. Siga caminho, antes que amanheça.
         - Até, compadre. Deus lhe pague. Um dia apareço, para pagar o que levo. Dê lembranças.
         Despediram-se. Marçal ainda iluminou com a lanterna o caminho, até Aparício, de calças arregaçadas e alpercatas de couro, desaparecer na escuridão. Depois, entrou, fechou e trancou a porta, por onde a luz do candeeiro iluminava uma nesga de terreiro.


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Conto publicado no livro "Estação de Prosa & Diversos" (Salvador, Memorial das Letras, 1997). Republicado em 19/06/2015, na seção Literatura, do site bahianoticias.com.br, sob a direção do jornalista Carlos Navarro Filho, e no Blog do Dimitri, em 21 do mesmo mês e ano.
 

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