quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ÁGUA PRETA


Imagem aérea parcial de Uruçuca, antiga Água  Preta


Água Preta: debruço-me na ponte,
olho o rio que sangra minha infância;
me despeço de mim – lá, do que fui,
do que somente fui, não mais serei.

Na Rua do Apertucho, com tristeza,
me despeço de mim, dos meus amigos.
Imperceptível traço do destino,
com palavras escritas nas paredes,

resiste na água quieta (minha tia
Dasdores, debruçada na janela,
olha a chuva batendo nos gramados).

Do necessário roxo dos telhados
desce o gado manso do tempo, rumo
ao fundo do rio chifrando ausências.


(1954)

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