terça-feira, 29 de julho de 2014

JAZZOLOGIA

Ben Webster, retrato do pintor Bruni Sablan

(À memória de Coleman Hawkins, Lester Young, Ben Webster, John Coltrane, Johnny Hodges e Charlie Parker, saxofonistas de Jazz)

Glória ao saxofone – I

Ben Webster, imagem do Google
   Sigamos os clamorosos ventos,
   sonoros ventos do Mississipi.
   Ganidos e estrondos de tambores
   sigamos em compulsiva marcha;
   por dentro do amanhecer, louvemos
   o velho rio de langor e cantos.

    Pelo espelho da água poderosa,
    porta que se abrisse a rudes golpes,
    passeia o fragor das engrenagens;
    há suingue e luta no steam-boat,
    tombadilho de selvagens ritmos.
    A tensão pulsante do mistério
    vibra sobre a pele; suor de portos
    serpeia urbes plantando luas.
 
    Retesados músculos laboram
    guitarra de avessos quase real.
    Rebenta-se a corda de algodão,
    desabrocha no matiz do sangue.
    A musculatura alude a enxuto
    dorso de lascívia. Em fileiras,
    a matilha das notas persegue
Ben Webster. The Frog
    na estralada de ecos fera tuba,
    um facho ali na luxuriosa selva.

    Sumarento proscênio onde luzem
    pautas da noite, o fulgor também
    do protagonista que recusa
    a glória confiado nos seus totens.
    Terroso alento metais domina;
    o enunciado e a coda perpetuam
    lábios de rústico vigor. Logo,
    sob neblina e rio, fanal da alma,
    o sax reluz dentro da escuridão.      
                                                                      

Glória ao saxofone – II

(Jam-session lunar com Ben Webster, The Frog)

O rosto iluminado do delírio
parece desertar de Manhattan;
faz de som andarilho o Rio Hudson
em palco acre de álcool e desperdício.

Escalando a montanha dos sentidos,
a solidão e os sonhos rebelados
voam por sobre o Harlem e vão tocar
e o Novilúnio a face enegrecida.

Logo o duelo do Santo contra Lúcifer
começa neste pasto de Centauros,
onde reluz o som mais primitivo
Que o homem fez e ouviu, e o mais recente

que vem da geometria resplendente,
já descoberto o encanto da miragem,
celestial coda; é Ben Webster, claro,
soprando a ponta do quarto crescente.

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