sexta-feira, 22 de maio de 2015

PRESENÇA DO HUMANISMO MILITANTE NA POESIA DE JACINTA PASSOS

Jacinta Passos mãe, aqui com a sua filha Janaína Amado, criança, fruto de sua relação conjugal com o escritor James Amado

Florisvaldo Mattos

            Na introdução à segunda edição de Canção da Partida (Salvador: Fundação das Artes, 1990), José Paulo Paes lamentou estivesse a poesia de Jacinta Passos (1914-1973), àquela altura, “ausente das livrarias”, desde a publicação de sua última coletânea de versos, Poemas Políticos, 39 anos antes, precisamente em 1951. Atribuía tal ausência a “razões de vária ordem”, como “o reconhecido descaso do leitor brasileiro” então pelos livros de poesia, o que os condenava, “com raríssimas exceções, a uma vida editorialmente curta”, e a problemas de saúde que afetaram a vida da poeta.
            Ponho-me a cavaleiro desse vexame editorial, já que coube justamente a mim, por razões que atribuo à ingerência dos fados, então na presidência da Fundação das Artes (1987-1990, atual Fundação Cultural do Estado da Bahia - Faceb), no governo Waldir Pires, o privilégio de apoiar e favorecer as iniciativas que resultaram na segunda edição de Canção da Partida, de cuja organização e estudo crítico se incumbira José Paulo Paes.
            Atendendo a um gentil convite de Janaína Amado, sua única filha, volto agora a me encontrar com a poesia de Jacinta Passos. E não poderia imaginar quanto me iria oferecer de aprendizagem e deleite espiritual essa auspiciosa homenagem. Primeiro, retirando-me do desconforto de leitor de um único livro da poeta, o já citado Canção da Partida, em sua edição baiana; depois, por me permitir a leitura de outros, desde o inaugural, Momentos de Poesia, 1942, a própria Canção da Partida, na edição de 1945, com ilustrações a bico-de-pena de Lasar Segall, Poemas Políticos, de 1951, e a sua poesia de nítido vinco ideológico de A Coluna, de 1957.
            Confesso que saí dessas leituras sumamente reconfortado, como que liberto de uma culpa, e enriquecido pelo que me trouxe a ampla gama de significados presentes no corajoso lirismo de Jacinta Passos. E foi percorrendo as latitudes deste estuário que atentei para as singularidades de um norte temático, responsável por rupturas na criação poética, para as quais o ano de 1939 se oferece como ponto de partida, justo com o poema intitulado “Campo limpo”, quando paulatinamente começa a desaparecer de sua poética o que José Paulo Paes chamou, em seu estudo, de “flexão verbal da súplica”, elemento condutor de símbolos por meio dos quais anteriormente se o espírito religioso e o temperamento místico de Jacinta Passos.
            “Campo limpo” parece estabelecer um divisor. A índole poética como que, gradativamente, se desvia, se exila das invocações místicas, em busca de outras cogitações, outros cenários, onde o nome de “Senhor”, conquanto presença ainda não indispensável, vai se ausentando, substituído por outras formas de satisfação espiritual e existencial.
Poemas são janelas, e poetas, faces, prontas para descobertas, há de ter pensado Jacinta, em fins de 1939, provavelmente quando redigiu este poema, que a fez vislumbrar, primeiramente, o ardor da “natureza viva”, brotando do ardor da seiva de campos, a ondular ante novo olhar de assombro para as formas da existência real. Vê profundidades de noites e estrelas, num esplendor de beleza, que a faz perceber em si “uma estranha alegria” – a terra, os campos, a paisagem, como pedaços vivos de si própria, vibrações de uma vida que amanhecia.
Realmente, amanhece ali outra Jacinta Passos, e logo se produz um encadeamento vibrante de temas na sua poética. No primeiro poema de 1940, “Alegria”, mente alerta a perscrutar, a poeta descobre o “irmão desconhecido e anônimo”, cuja “face marcada pelo sofrimento” tem o “traço de semelhança” com a verdadeira “face perfeita de todos os homens”.
Tudo doravante torna-se matéria de descoberta. Neste mesmo ano, já com a guerra de Hitler avançando – “A guerra”, “Poema” -, veredas de amor e ternura se abrem pela via mais larga da solidariedade humana; o olho e o olhar se aproximam de seres humanos carentes de cuidado e afeto.
            Simplesmente,
            Tranqüilamente,
            Eu me abandonarei a ti num gesto de oferenda.
Encontrarás no meu olhar a compreensão das palavras que não disseres.” (“Poema”, Momentos de Poesia)

            A virada se acentua em 1941 com a assunção plena da consciência solidária, a introspecção reflexiva mostrando o sentido da vida em favor de outrem, em poemas como “Compreensão” (Esquecida/ de todas as dores do mundo, do mal profundo da vida), “Mensagem aos homens” (Inteira, pura e livre como a luz, a livre luz das alvoradas), “Mistério carnal” (Corpos humanos que a morte tocou. / Por que esperam os corpos abandonados/ na branca solidão do vasto cemitério?).

           
Jacinta Passos elegante por volta dos anos 30
No processo de libertação da transcendência para a progressiva assunção de uma consciência social, antes mesmo de firmar-se uma opção de cunho ideológico sob os ditames de uma agremiação política (sabe-se que ela em 1945 filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro), Jacinta Passos começa a delinear um panorama temático com a sensibilidade voltada para uma gama de preocupações e anseios que futuramente se vão desdobrar e se firmar, a par com as marchas e contramarchas de um processo político, através de movimentos, campanhas, organizações, bandeiras, cuja força de atuação irá se afirmar e crescer, abarcando sucessivos decênios, à medida que o século XX avança, para se transformar em uma quase neurose, ao irromper o XXI.
            Esse amálgama ideológico que busca se definir numa contracorrente das mudanças políticas cristaliza-se em torno de um feixe temático que, agindo como doutrina de múltiplas faces, vai concentrar-se em fenômenos sob a forma de lutas em defesa da cidadania, do meio-ambiente e da internacionalização de propostas globais de total afirmação das potencialidades do humanismo.
            Tenho para mim que esse painel temático se escalona, arbitrariamente, na seguinte ordem:
            1 - a mulher, a condição feminina, inserida num processo de afirmação e ascensão;
            2 - a criança, que desperta a confiança no futuro, a merecer atenção, sendo até objeto de projetos e programas, em escala mundial, que impeçam venha ela mergulhar no desamparo;
            3 - a natureza, expressada como um bem a serviço da felicidade geral dos homens, refletindo-se em todos os passos da existência humana, o que pressupõe uma luta permanente pela sua preservação;
            4 – finalmente, eleição exaltada das manifestações populares como refúgio dos desassistidos e vencidos pelos desajustes da própria ordem opressora, na qual se inserem todas as vitimas das desigualdades sociais.
            Configurando o que já era uma tendência no livro anterior, Canção da Partida se apresenta como uma síntese do engenho antecipador desse humanismo militante, que, por vezes, na dimensão das ações práticas, toma a forma de humanitarismo. Ao longo deste livro, a poeta constrói poemas, que vão acumulando, concentrando as potencialidades de uma energia humanista, que não seria demasiado chamá-la de raiz precursora de atitudes, comportamentos, posturas e ações, englobadas sob os rótulos de cidadania, ambientalismo e internacionalização de hábitos e signos culturais.
            Instala-se um campo magnético de implementação de vontades, na esfera de criação, de aspirações positivas, de ações em defesa dos mais carentes e mais fracos, símil daquele momento posterior à Segunda Grande Guerra, que fez acender ânimos e crenças – aquele suelo de creencias, vislumbrado por Ortega y Gasset -, ao tempo em que se desmoronavam velhas e caducas formas de afirmação e poder, sob o pálio de novas idéias e padrões de convivência humana e social. Ruem os modelos de dominação do homem pela porta do individualismo, instalando-se uma nova ordem pontuada pelas idéias de liberdade, democracia e socialismo.
            Hoje, ao fim de uma trajetória que levou de roldão mitos e crenças, alçam-se bastiões de propagação das criações do espírito, como a se instalar um estado de necessidade regido pela lucidez, cujo universo se manifesta e se codifica por meio de novas palavras, novos signos, novos gestos, propagados como compromisso de teor universal.
            Em face disto, numa linha de premonição, a poesia de Jacinta Passos distingue-se como uma luz precursora de etapas e realidades futuras e se afirma, apesar de editorialmente curta, como um farol, a iluminar múltiplas sendas, planaltos e planícies, onde se vão empreender marchas fatigantes, porém essenciais.

            Vejamos como se apresenta a poesia de Jacinta Passos nesta sugerida grade temática.
            Três poemas de Momentos de Poesia – “Mulher”, “Mistério carnal” (ambos já anteriormente aludidos) e “Canção simples” – deflagram o processo em que a condição feminina rompe o grilhão da religiosidade, a que a poeta se filiara por doutrinação espiritualista e inclinação mística, para adquirir expressão de independência em “Três canções de amor”, “Canção da alegria” e, principalmente, num poema de mais fôlego estrutural, “Chiquinha” – todos de Canção da Partida.
            No primeiro dos três últimos, valendo-se de reiterações de uma cantiga de roda do folclore infantil, no ato de oferecer o corpo de mulher ao amado,  porque assumida a condição com naturalidade, sabe que “amar é doce”, enquanto o efeito da entrega “agora muda o sol”, que “muda a terra”, ela e também o parceiro, para ambos virarem passarinho, símbolo de pureza e liberdade. E logo a série de perguntas emblema:
                                   Cadê a Princesa?
                                   A Princesa fugiu?
                                   A terra tremeu?
                                   A torre caiu?
            O amor é grande, porém ainda sobram determinações, regras. Logo a poeta decide mandar, e é uma ordem:
                                   Abra a porta,
                                   queremos entrar!
                                   (...)
                                   Que porta pesada.
                                   Que porta caturra!
                                   Empurra!
                                   (...)
                                   Já cresce o gigante
                                   maior que o mar.
                                   A porta de bronze
                        vai arrombar!

No segundo poema, “Canção da alegria”, elementos do folclore infantil de matriz rural se unem no ato de fazer para sugerir um outro fabrico, além da farinha, quando a urupemba, de tanto peneirar, não resiste, e logo sobrevém o aviso, o grito:
                        Olhe o rombo
                        olhe o rombo
                        olhe o rombo arrombou!
                        olhe o cisco
                        olhe o risco
                        urupemba furou!
                        (...)
                       
Escorra! Escorra!
                        Tirai essa borra!

E restará no fim:
                        Farinha fininha
                        Peneiradinha!
                        Ai! vida, que vida
                        minha! nuinha!

Vida igualzinha à da “Nêga Fulô”, de Jorge de Lima.

            Dedicado a sete mulheres – todas certamente de linha participante, como a poeta -, o poema “Chiquinha” tematiza a condição feminina numa perspectiva histórica que enfileira geografias e impérios remotos, séculos, humanidades e conflitos, rumo à libertação do indivíduo mulher em plena sociedade burguesa capitalista, onde a máquina, símbolo de escravização mecânica, se torna o instrumento ideal de, por artes da perseverança e da determinação, alcançar-se a salvação.
            A máquina, típico meio de extensão de braços e mãos, depois do inexorável passar de sofrimentos e humilhações, liberta na mulher operária o corpo “de serva doméstica” e, arrancando-a de casa, “derruba paredes/ limites, fronteiras/ do lar, doce lar/ - prisão milenar”.
            E um corpo liberto constrói o mundo, pela dignidade do trabalho, bom e valoroso – o bastante para a poeta proclamar e concluir, indagando afirmativamente:
                                   Chiquinha
                                   tu sabes que a máquina
                                   que move
                                   o mundo moderno
                                   te vem libertar?

Escola Normal da Bahia onde Jacinta Passos estudou de 1927 a 1933
            
Em “Canção simples”, o recurso ao verso em redondilha patenteia vontade de alteração, de mudança, com um dinamismo rítmico que acondiciona o impulso de vencer a adversidade da submissão feminina, refletida comparativamente na imagem da “flor caída no rio, que a leva para onde quer”, como fatal destino. Mas, encadeando paralelismos, a poeta maneja uma dialética em que subsiste a idéia da “mulher semente”, da entrega da virgindade como uma divisão que não deixa resto, das confissões masculinas de amor infinito que contrastam com a finitude da vida, para por fim rotular a submissão chancelada pela relação sexual como expressão da “fraqueza humana”.
            Não sem razão, José Paulo Paes, em seu estudo crítico, invoca observação de Sérgio Milliet, que ressaltava, em Jacinta Passos, uma sensibilidade “marcadamente feminina”, a abrir-se para “uma visão crítica da condição da mulher rara de encontrar-se na poesia brasileira” até ali, basicamente por meio da criação poética projetada na Canção da Partida.

“Cantiga das mães”, de Momentos de Poesia, encara o tema da criança numa clave de fatalidade, subjacente na inevitável perda maternal do filho, por efeito de um determinismo existencial, imposto pela ordem natural das coisas.
                                               Fruto quando amanhece
                                               cai das árvores no chão
                                               e filho depois que cresce
                                               não é mais da gente não.

            Porém, não é a cadeia do afeto possessivo, supervisionada por um desígnio da natureza, capaz de impedir que filhos cresçam – “antes ficassem meninos/ os filhos do sangue meu”, geme o coração materno -, pois quem leva o filho não é a morte, mas a própria vida, na dialética de uma realidade cíclica.
            Amargamente, para a mãe, os filhos partiram - “foram viver seus destinos,/ isto sempre foi assim”, consente a razão conformista - longe, bem distante de “berço, riso/ coisas puras,/ brigas, estudos, travessuras/ tudo isso já passou”, rematando com o doloroso refrão:
                                               Foi a vida que roubou.

            Depois da “Canção para Jana” (Poemas Políticos), na qual, ferida no mesmo bordão de perda irrecusável - “Flor buliçosa/ rosa crescei” -, suspira a incerteza da volta, para agasalhar-se “na sombra aqui destas asas/ um dia”, é na “Canção de brinquedo” que o estado de resignação se impõe, na certeza de que “no riso da terra/ riso será”, riso que (avisa) “não é de graça”, porque para a “flor de sangue” invocada (a criança) “tempo virou/ tempo virá”. E mostra a linha de risco, marco de desafio, já que a menina não é “flor sozinha”, logo novo aviso:
                                   Um olho aceso
                                   entre as mulheres
                                   criatura minha.

E então manda o destino de ser liberto, que segue (a menina) puxando o novelo:
                                   Agora sim.
                                   Flor no cabelo
                                   entra na roda e dança, ó jasmim.

            Obra seminal desta antecipação de temáticas que irão proliferar num contexto de humanismo universalista, Momentos de Poesia apresenta o poema que traduz o sentimento inaugural de devoção e reconhecimento do primado da natureza – “Campo-Limpo”, justamente o nome da fazenda onde nasceu Jacinta Passos, nas proximidades de Cruz das Almas, no Recôncavo baiano.
            É lá que, nos seus “campos banhados de sol”, literalmente viceja “o ardor da seiva rebentando nessa natureza viva”, propagado em doçura de céu crepuscular, árvores frondosas “que se alongam como fantasmas quando a noite desce”, cujo esplendor de beleza provoca “uma estranha alegria”, por de lá provirem “sombra e flor e fruto” - paisagens que fazem reviver “interiormente, “todos os instantes perdidos para sempre”, ocultos, de uma infância já morta, mas conservada no ser profundo.
            Nessa poética de descortino virtual do mundo, o amor livre, presumido e desejado em canção, não acontece apenas com o despir da roupa da mulher, mas no instante em que o “corpo é fruto” (“Canção do amor livre”). Traduzido em escrita despojada:
                                               Peixe e pássaro, cabelos
                                               de fogo e cobre. Madeira
                                               e água deslizante, fuga
                                               aí rija
                                               cintura de potro bravo.

            E o corpo masculino aflora como

                                               Relâmpago depois repouso
                                               Sem memória, noturno.

            A predisposição de amar, de dar-se ao amor (“Chamado de amor”), não se consuma como exorcismo carnal, mas como forma delineada a partir de potencialidades da natureza que se manifestam:

                                                Tanta laranja madura
                                               ai tanta!
                                               que aroma vem do quintal.   
                                               A maré já deu passagem
                                               cresce meu canavial.
                                               (...)
                                               Jasmim da noite floriu.
                                               Jasmim.
                                               Acabou-se o bem e o mal.

            Desde o recurso à inserção de formas líricas oriundas do universo infantil, usando refrões de cantigas de roda - Passa/ passa/ passará/ derradeiro ficará (“Canção da Partida”); Eu fui por um caminho. / Eu também ./ Encontrei um passarinho./ Eu também  (“Três canções de amor”);
Su su su/ neném mandu/ quem dorme na lagoa/ é sapo cururu (“Cantiga de ninar”) -, de formas folclóricas (samba-de-roda), até toadas de trabalho – Urupemba/ urupemba/ mandioca aipim! / peneirar/ peneirou/ que restou no fim? (“Canção da alegria”), como observa José Paulo Paes, a poesia de Jacinta Passos avança para latitudes criativas em que ressaltam preocupações com as adversidades do ser humano, centradas no sofrimento e em estados de infortúnio que se apossam de almas desamparadas pela sociedade, de que são exemplos, para resumir, os poemas “Navio dos Imigrantes”, “Sangue Negro” e “Carnaval”.
            O primeiro deles, dedicado ao pintor Lasar Segall, que ilustra a primeira edição de Canção da Partida, exalta a triste saga aventurosa de seres humanos impelidos aos quadrantes do mundo por vicissitudes diversas, como “corpos largados/ desamparados, / límpido tempo/ de primavera/ mora no fundo/ de vossa espera”.
                                   Corpos humanos
                                   suportam corpos
                                   seus desenganos.

                                   Corpo, cansaço
                                   longa viagem,
                                   busca um regaço
                                   terra ou miragem.

            O segundo, “Sangue Negro”, lavrado em vertente nitidamente social, irradia um halo de confiança plena na extinção do flagelo da miséria que se abate sobre seres humanos, através de forças latentes criadoras do progresso material, como no fazer jorrarem as reservas petrolíferas das profundezas do solo baiano – “sangue negro da cor da noite/ da cor do negro africano”, em alusão ao braço que muito deu à terra de que foi escravo -, energia libertadora, que impulsiona transformações múltiplas, refletida até mesmo no aboio de indício mutante do vaqueiro nordestino – “O homem tira da terra/ a chuva que o céu não dá”. E até, com a alma transbordante de fé,

                                   O lavrador
                                   largará a enxada que dos pais recebeu
                                   e moverá os arados mecânicos
                                   que os homens de outras terras lhe ensinaram
                                   através da distância e dos ventos oceânicos.

            Em “Carnaval”, manejando o verso-livre - uma particularidade formal da poética modernista - a linguagem se solta, variam timbre e ritmos, aflora um estado de ânimo que, penetrando numa expressão da vida popular, acompanha o seu desenrolar, impelido pela imaginação plural, em flagrante manifestação de liberdade ao longo dos espaços urbanos, chancelado pela mistura de raças e classes, cores e ritmos, própria da cultura da Bahia.
            É ali que, pelos cantos e batuques, o “negro é rei”.

                                   Negro é rei
                                   no carnaval,
                                   tem manto, tem cetro,
                                   e o chapéu de sol
                                   é pálio real.

            É no carnaval que “gritos humanos, interjeições, / lança-perfumes, desejos sem rumo (...)/ um cheiro forte de todas as raças,/ vibram no ar.”
                                   Uma massa humana,
                                   todas as cores,
                                   todas as raças,
                                   todas as classes,
                                   em confusão.
                                   De que sub-solo irrompeu, informe, nua,
                                   essa nova realidade sem nome que dança na rua?

            E prossegue a poeta, registrando em versos a mistura sem fim – homens, mulheres chiques que têm amantes, vagabundos elegantes, literatos de academia, gente graúda, gente pobre, louro estrangeiro, ondas humanas, cuja voz se perde na multidão e no asfalto.
                                   Um povo surgiu, surgiu não sei donde
                                   dançando, cantando, um povo surgiu.

            Universo de símbolos em que se reflete a alma de Jacinta Passos, porque a um só tempo está no seu sangue, em que se concentram sementes de vida popular.

                                   No meu sangue,
                                   as raças,
                                   as classes,
                                   os povos
                                   misturam-se.
                                   Eu sou a Bahia.
                                   Viva o Rei Momo!
Hoje é seu dia.

            A permanência da poesia de Jacinta Passos há de ser analisada pelas virtualidades que antecipa o seu humanismo militante em relação a temas hoje mundialmente disseminados sob rótulos e bandeiras diversas em defesa de princípios como cidadania, meio-ambiente e solidariedade internacional na luta contra a ignorância, a violência e a miséria, por efeito das palavras que usa para expressar seus estados de alma, na busca de si mesma.
            Desta maneira, poemas, versos, timbres e variados ritmos de sua obra, lastimavelmente curta, fazem-na uma precursora de idéias, movimentos e campanhas hoje agasalhados sob o vasto pálio da ação humanista patrocinada por organizações não-governamentais (ONGs), instituições nacionais e internacionais, em vários países, proclamados e consagrados como vias capazes de assegurar ao homem paz e sobrevivência produtiva na terra. Uma poesia que propaga sonhos e metamorfoses, pela força de seu lirismo.

_________________________
            Baiano de Uruçuca, Florisvaldo Mattos é poeta, jornalista e escritor. Professor aposentado da Universidade Federal da Bahia – Ufba; pertence à Academia de Letras da Bahia, onde ocupa a Cadeira nº 31. Entre outros livros, publicou A Caligrafia do Soluço e Poesia Anterior, 1996, Mares Anoitecidos, 2000 e Galope Amarelo e Outros Poemas, 2001, de poesia; e Estação de Prosa & Diversos, 1997, A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, 1998, e Travessia de Oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, 2004; Poesia Reunida e Inéditos, 2011; Sonetos elementais, 2012. Texto escrito especialmente para o livro Jacinta Passos, coração militante – poesia, prosa, biografia, fortuna crítica (Salvador-BA: Edufba / Editora Corrupio, 2010), tendo Janaína Amado como sua organizadora (págs. 521 a 531).

Operárias manuseando folhas de fumo em fábrica de charutos em Cruz das Almas, terra onde nasceu Jacinta Passos


POEMAS DE JACINTA PASSOS


Canção do Amor Livre

Se me quiseres amar, não despe somente a roupa
Eu digo: também a crosta feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti, pelo sangue recebida, tecida de medo
e ganância má. Ar de pântano diário nos pulmões.
Raiz de gestos legais e limbo do homem só numa ilha.
Eu digo: também a crosta essa que a classe gerou vil,
tirânica, escamenta.
Se me quiseres amar. Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos de fogo e cobre.
Madeira e água deslizante, fuga ai rija cintura
de potro bravo. Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.


Campo-Limpo
 Quando vejo, ondulando ante os meus olhos,
os teus campos banhados pelo sol,
o ardôr da seiva rebentando nessa natureza viva,
a doçura do teu céu na hora crespular,
a sombra negra das árvores que se alongam como fantasmas
quando a noite desce
a profundeza insondável das tuas noites estreladas,
quando vejo o esplendor de tua beleza,
sinto, inesperada, uma estranha alegria,
como se encontrasse
um pedaço vivo de mim mesma.

Campo-Limpo,
as tuas paisagens se identificaram
com todas as vibrações de minha vida amanhecente.
As tuas paisagens parecem humanas.
Parece humano o murmúrio do vento nas tuas árvores seculares
e a branca silhueta da velha casa antiga.
Tuas paisagens revivem a minha vida já morta,
todos os instantes perdidos para sempre
e que eu quizera integrados num momento eterno.
Como árvores que dá sombra e flôr e fruto
esconde as raízes na terra de onde veio,
estão mergulhadas no teu solo,
as raízes mais profundas do meu ser.

Diálogo na sombra
– Que dissestes, meu bem?

Esse gosto.
Donde será que ele vem?

Corpo mortal.
Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?


Canção atual
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.

Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.


1935
Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.


Canção da alegria
Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Peneira massa peneira,
peneira peneiradinha,
(Ai! vida tão peneirada)
peneira nossa farinha.

Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo arrombou!
olhe o cisco
olhe o risco
urupemba furou!

Eh! sai espantalho
da ponta do galho!

Escorra! Escorra!
Tirai essa borra!

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Farinha fininha
peneiradinha!

Ai! vida, que vida
nuinha! nuinha!


Os muros

                 
Minha cidade tem muros

de pedra, cimento e cal

tem muros que são tribunas,

painéis, cartilha e coral.


Quem de noite faz as letras

que aparecem de manhã?

Será a mão do poeta

ou a mão da tecelã?


Viva Luiz Carlos Prestes!

O petróleo é nosso!

Fora com os americanos!


A polícia apaga e as letras

aparecem de manhã.

Será a mão do poeta

ou a mão da tecelã?


Minha cidade tem muros

brancos, cinzentos, de cores,

riscos de pixe e carvão,

ó, pintores, vinde ver!


Vinde ler a história escrita

nos muros, cada manhã.

Será a mão do poeta

ou a mão da tecelã?


(São Paulo, 1953. Este poema, publicado no jornal comunista “Imprensa Popular“ em 25/07/1954, até então jamais havia sido republicado).

Ilustração sem indicação de autoria para poema político de Jacinta Passos

A Volta

Vigia os ventos do mar, marinheiro!
Eu nasci naquelas terras
que nunca viram este mar.
Um dia meu pai me disse:
vai menino
rebelde ah! deixa estar
escola de pobre é marinha,
aprende o jogo do mar.

Antonio! José! Berilo!
Vigia os ventos do mar!

Tua gente está falando: para onde?
Para onde vão te levar?

_ Na marinha, dura liça,
muito bravo conheci.
Meu avô sempre contava
a história que conto aqui.
Era o tempo do chicote
surrando marujo até
deixar caído no chão
mas um dia um batalhão
bradou:
marujo escravo não é!

Um negro então comandou.

Mil novecentos e dez.
Oh! água de Guanabara
quanto mistério guardou,`
muita cabeça cortada
por seu crime então pagou.
O gume das machadinhas,
oficiais, degolou.
A boca de dez canhões
a cidade ameaçou,
logo o governo fugiu,
João Cândido ganhou.

Tempos depois numa ilha
o governo se vingou,
duzentos marujos vivos
e bravos, ele queimou.

Ilha das Cobras!
Este nome nos ficou
desta história de marujo
valente e bom, como eu sou.

Vigia os ventos do mar, marinheiro!
Antonio! José! Berilo!

Vigia os ventos do mar!
Tua gente está falando: para onde?
Para onde vão te levar?
Segues rumo da Coreia? Marinheiro!
Vigia os ventos do mar!

Aqui te espera a morena
dos olhos cor de avelã.
Vigia: será o porto de Santos
ou dunas de Itapoã?

Tua gente está falando: para onde?
Por trinta milhões de dólares
os gringos vão te levar.

O coreano é trigueiro,
feito eu e tu, marinheiro.

Marinheiro, volta o leme
vigia as ondas do mar.

Aqui te espera teu povo,
a casa é tua. Podes entrar.
Os gringos governam a casa,
tu és um homem, não curvas à frente,
por isto deves voltar.

Antonio! José! Berilo!
Vigia os ventos do mar!
________________________          

Este poema foi publicado em “Literatura e Arte”, suplemento literário do jornal comunista Imprensa Popular, do Rio de Janeiro, em 30 de Setembro de 1951 e, até onde sabemos, jamais republicado.


(Seleção dos poemas de Florisvaldo Mattos)

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