sábado, 16 de agosto de 2014

ESTAÇÃO DE CAÇA


De alma em fuga, a duas pernas da aurora.(.. ) Ou felino tropel vencendo selva. Henri  Rousseau (1844-1910): O SONHO 
                                    (...) por exemplo: “A noite está estrelada,
                        e tiritam, azuis, os astros ao longe”.
                                                                       Pablo Neruda
De longe brasa, mas de perto gelo;
Rumor de água ao passar, ouro o cabelo.

De mármore, estatura de colosso,
A beleza do corpo; o rosto moço

Lima e esculpe espírito e inteligência.
No olhar esquivo, um vórtice, uma ciência.

De alma em fuga, as duas pernas da aurora
Rompem com passo rijo o afã do agora:

Cenário de ânsias e melancolias,
Ruído que é de augúrio, fatos e dias

 - o seu instante, na caverna lúcida.
Sol de galáxia me transfere luz, se da

Esguia taça de âmbar salpicada
De ardências me confunde e impõe-se fada

Arisca: rastro ágil de corça em relva,
Ou felino tropel rompendo selva.

Sobrevindo o fragor, estruge e planta
No imo do coração lodo de pântano.

Silencioso terror repele e ensombra
O que fora esperança, agora sombra.

Em rota de naufrágio, apalpo o escuro
No mar de seus olhos, onde procuro,

Perscruto acenos, véspera do abismo.
Venço o risco, respiro atalhos, cismo.

Logo estancas, como água de remanso.
Longe dos cactos, eu também me canso.

Franqueada a noite para céu risonho,
Escancaro as janelas de meu sonho:

Qual colibri que sorve a flor num beijo,
Desfolho-te, mulher, enquanto arquejo.


SSA, 13/01/2007 

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