quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

JORGE AMADO NA ABL SOBRE "REVERDOR"

 

 “NEM PARECE REVERDOR COM LIVRO DE ESTREIA”

 

 Jorge Amado

 

Creio ser Reverdor o primeiro livro publicado pelo poeta Florisvaldo Mattos; não sei de volume seu anterior. Pois bem: à base desse único livro eu me arrisco a falar em grande poeta, pelo menos em grande poeta jovem e em poesia madura. Nem se parece Reverdor com livro de estreia, tal sua qualidade de forma e pensamento.

Tão trabalhado e obtido em sua busca, tão realizado em sua forma de evidentes exigências e duro labor, denso de um conteúdo vegetal e agrário, sendo livro de nosso tempo e nossa realidade, Reverdor situa de imediato e de vez, o poeta entre os primeiros de sua geração e não deixa momento de dúvida sobre sua vocação e sua permanência nos quadros mais altos de nossa poesia.

Visão agrária dos tempos da colônia (com os conquistadores, Garcia D´Ávila à frente do tropel e do galope; os seus monólogos são de uma beleza áspera e por vezes até cruel), visão de um País e do seu crescer de povo, vem ela até os nossos dias quando as ferrovias e os vagões, num tempo industrial, irrompem em angústia pelos campos e devassam a terra e os homens. Um livro onde cada palavra te seu lugar e cada sentimento se fez emoção poética e se fundiu na palavra justa. Não apenas um bom livro de poemas, não apenas uma estreia feliz; bem mais: um poeta em sua afirmação indiscutível de criador.

Não sou crítico literário, apenas leitor de poesia e leitor contente de ter se abeirado de um poeta verdadeiro, nem sempre fácil de ser descoberto em nossos dias de tanta facilidade e tamanho engano de rapazes tão sem verdade e sem força de criar. Florisvaldo Mattos começou em madurez de quem não teve pressa de vir a público. Vai crescer muito certamente, seu caminho é largo e também seu fôlego.

 

(Texto da apresentação de Reverdor, por Jorge Amado, em sessão da Academia Brasileira de Letras, reproduzido pelo Suplemento Dominical do Diário de Notícias (SDN), Salvador/BA, em 31 e 01.11.1965).

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

FLORISVALDO MATTOS, poesia.net nº 549

 

    Tarsila do Amaral, Cartão postal (1929)

 

Catorze janelas abertas



• Florisvaldo Mattos


poesia.net. nº 549. Salvador, 16 de abril de 2025

https://www.algumapoesia.com.br/poesia4/poesianet549.htm


A CABRA

Talvez um lírio. Máquina de alvura
sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório
sobre lajedo o casco azul polindo,
dominas suave clima em promontório;
cabra: o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me perdurando nos ouvidos,
laborado em marfim — luz e presença
de reinos pastoris antes servidos —

teu pelo, residência da ternura,
onde fulguras na manhã suspensa:
flor animal, sonora arquitetura.
(REVERDOR. Salvador: Edições Macunaíma, 1965)

DIAS DE 1942 (NA MATA)

    Ao tio José Matos, in memoriam

Na sala familiar, à luz sombria
do candeeiro, a mulher cose; o homem ouve
o rádio a urrar, na noite que prospera,
horrores de longínquo drama. Horrores.

“Há soldados e tanques na Bavária”,
anuncia o locutor de voz possante.
O pai rumina fainas de comércio;
preso ao chão, o olhar pastoreia números.

Lá fora pisca: é luz de vaga-lumes.
De dentro acaso espio a noite vasta,
que convida a sonhar com um novo dia.

O silêncio da mata abraça as árvores
e amortece o eco das calamidades,
enquanto escuto a voz de Orlando Silva.
(Poesia Reunida e Inéditos. São Paulo: Escrituras, p. 292, 2011)

VOZES DA MERCADORIA

Agora adeus às sensações bucólicas.
Agita-se o comércio; estou na vila.
Avisto ruas, becos, uma praça.
Na calçada de paralelepípedos,
abre-se o sol risonho do dinheiro.
Aqui, o recanto da veneração,
que se reserva às tropas de cacau,
ao som das estaladas dos tropeiros;
lá, o sacro império da mercadoria:
tabuletas retumbam seda e mescla,
calças de brim, o luxo dos sapatos;
ali fregueses para casimiras.
Caixeiros de camisa-manga-curta
vendem as novidades dos estoques.

SONETINHO CHISTOSO

Portei-me como um legítimo
rapaz em gozo de férias:
depois de almoçar com amigos,
sem dispensar umas taças
de portentoso chileno,
cortei cabelo no shopping,
percorri suas galerias,
parei lá para um sorvete
saboroso de goiaba.
E senti-me igual a Lorca,
quando conduzia ao rio,
fazendo sorrir os juncos,
a sua casada infiel;
como um cigano legítimo.
    Tarsila do Amaral, Antropofagia (1929)

SONETO DOS QUATRO ELEMENTOS

   A JC Teixeira Gomes, no dia dos seus 80 anos, 09/03/2016

Cansei-me de pensar no que era o dia,
se ele entre dois crepúsculos se evade.
Cansei de me perder nessa agonia,
fosse hora calma, fosse tempestade.

Juntei a vida inteira os Elementos
e a cada um dispensei olhar de justo.
Se regem mundos, regem os momentos,
não conseguem parar o sol injusto.

A Água, a Terra, o Ar, o Fogo, quatro deuses
que governam e nutrem a humanidade,
como me adverte o oráculo de Elêusis.

Não podemos mudar de itinerário.
Ao fim nos resta uma única verdade:
o nosso cabedal é o calendário.
(Estuário dos dias e outros poemas. Salvador-BA: Caramurê. p. 125, 2016)

VELHAS ESTAÇÕES DE TREM

Quando as vejo, assim, ao chão, perdidas
no abandono, quase sonhadoras,
lembro de almas, de vozes, outras vidas,
que contavam no pulso lentas horas.

Ó trilhos dispersados na saudade,
curvas que a mão dos anos enferruja!
Miro paredes gastas; já me invade
a doçura de um tempo sem mão suja.

Ainda vejo passar o maquinista,
o guarda-freios, lépido, o foguista,
a me acender a lenha da memória.

Elas contam um tanto desta história,
a que junta cacau com coronéis,
da passagem custando dois mil réis.
(Estuário dos Dias e outros poemas. Salvador-BA: Caramurê, p. 127, 2016)

    Tarsila do Amaral, pintora modernista paulista, E.F.C.B. (1924)

Amigas e amigos,

No início deste mês, completou 93 anos o jornalista, ensaísta, professor e poeta Florisvaldo Mattos (Uruçuca, 1932), um dos intelectuais mais queridos e celebrados da Bahia. Do alto de suas nove bem vividas décadas, Flori, como é carinhosamente tratado pelos seus próximos, também acaba de lançar o livro Catorze Janelas Abertas - Sonetos Reunidos, com Inéditos (1953-2023), publicado pela P55 Edição.

Trata-se de uma alentada reunião de sonetos colhidos em oito coletâneas de poemas do autor, acrescida de inéditos, como o próprio título indica. Não contei quantos poemas o volume contém (a inexistência de um sumário me desestimulou), mas é fácil estimar. O livro contém 232 páginas. Se subtrairmos prefácio, notas e homenagens, calculo que sobram cerca de 170 páginas para os poemas. Como, em vários casos, os poemas envolvem múltiplos sonetos, é de se esperar que haja no livro uma invejável coleção de pelo menos 150 sonetos! Ave, Florisvaldo!

•o•

De fato, há sonetos escritos em múltiplos padrões. Muitos deles, clássicos, fazem referências a deuses gregos e romanos. Outros se curvam aos deuses do jazz, uma conhecida devoção de Florisvaldo Mattos. Há também os que se voltam para o amor e suas peripécias. Portanto, é difícil fazer uma seleção. Então, estabeleci que deveria pinçar apenas seis poemas.

Pedestre que sou, preferi ficar com sonetos mais do chão. Sonetos nos quais Mestre Flori — longe das entidades greco-romanas e das fundas reflexões sobre a vida — trata de questões mais chãs e cotidianas. Passemos à leitura de nossa meia dúzia de sonetos selecionados.

•o•

O primeiro poema, “A Cabra”, é talvez o mais festejado de Florisvaldo Matos. Um soneto de alta expressividade lírica, no qual o poeta traça o retrato de um gracioso mamífero caprino. Destaco o terceto final: “teu pelo, residência da ternura,/ onde fulguras na manhã suspensa:/ flor animal, sonora arquitetura”.

Vem a seguir o soneto “Dias de 1942 (na mata)”, no qual o poeta registra como recebia, pelo rádio, no sul da Bahia, aos 10 anos de idade, as notícias da Segunda Grande Guerra, na Europa. Há soldados, tanques e combates na Bavária, mas ali perto, à luz dos vaga-lumes, “o silêncio da mata (...) / amortece o eco das calamidades / enquanto escuto a voz de Orlando Silva”. É a era do rádio, e nela brilha Orlando Silva (1915-1978), grande sucesso da época, largamente conhecido como “o cantor das multidões”.

•o•

O soneto seguinte, “Vozes da Mercadoria”, também faz parte das memórias do autor. São suas impressões de menino que vem da área rural e chega à vila de Água Preta (hoje cidade de Uruçuca) para fazer o curso primário: “Agora adeus às sensações bucólicas./ Agita-se o comércio; estou na vila./ (...) Na calçada de paralelepípedos, / abre-se o sol risonho do dinheiro”.

Em “Sonetinho Chistoso”, o poeta dá um salto no tempo e, já octogenário, empreende uma visita marota a um shopping center. “Portei-me como um legítimo/ rapaz em gozo de férias”, confidencia o poema. Após vagar pelas galerias do centro comercial, ele traz à lembrança o poeta Federico García Lorca: “E senti-me igual a Lorca,/ quando conduzia ao rio,/ fazendo sorrir os juncos,/ a sua casada infiel;/ como um cigano legítimo”.

E viva a imaginação poética. Só mesmo ela pode trazer os juncos da Andaluzia lorquiana para os nada líricos corredores de um shopping em Salvador. Só mesmo a jovialidade do poeta Florisvaldo para costurar de forma tão envolvente duas situações tão improváveis.

•o•

O quinto poema de nossa seleção é o “Soneto dos Quatro Elementos”. Aqui, o poeta se põe a refletir sobre a passagem do tempo e os quatro elementos clássicos da natureza: água, terra, fogo e ar. A conclusão é formidável: “Ao fim nos resta uma única verdade:/ o nosso cabedal é o calendário”.

Por fim, Em “Velhas Estações de Trem”, o poeta — que viu as ferrovias ainda em plena atividade — descreve com emoção a convivência com as gares de outrora. “Ó trilhos despertados na saudade, / curvas que a mão dos anos enferruja!”. Tem-se aí um soneto de feição inglesa (com dois últimos versos rimando entre si) que traz toda a poesia das velhas estradas de ferro que o Brasil, com os olhos tapados por interesses automobilísticos, simplesmente entregou à ferrugem do tempo. Mas o eu poético insiste: “Ainda vejo passar o maquinista,/ o guarda-freios, lépido, o foguista,/ a me acender a lenha da memória”.

•o•

Natural de Uruçuca, no sul baiano, Florisvaldo Mattos (1932-) formou-se em direito na Universidade Federal da Bahia, mas optou pelo jornalismo. Nos anos 60, fez parte do grupo nuclear da chamada Geração Mapa, artistas que se reuniam em torno da revista Mapa, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. Seu livro de estreia, Reverdor, saiu em 1965.

Em seguida, publicou Fábula Civil (1975); e A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996). Mares anoitecidos (Imago, 2000); e Galope amarelo e outros poemas (Edições Cidade da Bahia, 2001). Sua Antologia Poética e Inéditos, de 2017, foi antecedida pelo volume Poesia Reunida e Inéditos (Escrituras, 2011). O autor publicou ainda Cacaueiros - Poesia. Conto. Teatro (Mondrongo, 2022) e Catorze Janelas Abertas - Sonetos Reunidos, com Inéditos (1953-2023) (P55 Edição, 2024).

Florisvaldo Mattos é também ensaísta e publicou estudos como Estação de prosa & diversos (Memorial das Letras, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates (Assembleia Legislativa da Bahia/Academia de Letras da Bahia, Salvador, 1998); e Travessia de Oásis - a sensualidade na poesia de Sosígenes Costa (Sec. de Cultura da Bahia, 2004).


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


UMA CONVERSA COM TUNA ESPINHEIRA CINEASTA

 

    Tuna Espinheira, cineasta baiano, criador do filme CASCALHO


NÃO SE AVEXEM!

Por Jorge Alfredo Guimarães

Quem convive com o mestre Tuna Espinheira já se acostumou com essa espécie de bordão com que ele sempre termina suas intervenções ou mensagens na internet. Assíduo freqüentador das nossas reuniões, observa mais do que fala, mas nem por isso deixa de participar ativamente de todos os nossos inúmeros embates calorosos na APC, essa nossa empreitada associativa em que nos envolvemos para tentar abrir alas para o cinema baiano. Várias vezes lhe pedi para escrever algo para o Caderno de Cinema, já que ele alem de muito fluente na escrita, entre nós, é um dos que mais histórias tem pra contar. Mas confesso que tive muita dificuldade no início. Sempre que lhe pedia para que escrevesse um artigo, ele, meio maroto, desconversava e a minha curiosidade e desejo aumentavam ainda mais. Então lhe propus, um dia ao telefone, que a gente trocasse uns emails onde ele fosse me embasando sobre a sua trajetória, porque eu queria muito fazer um registro, uma grande matéria sobre ele. E aí citei Glauber Rocha; que dizia que o destino inevitável da nossa turma era fazer o necrológico um do outro;“um dia, o íntimo capota e é preciso fazer a página.” Não sei se esse argumento teve alguma importância, mas o fato é que aos poucos a nossa conversa foi fluindo e ele finalmente aceitou a minha proposta. E aí, munidos de uma cumplicidade amigável e afetiva acabamos desenvolvendo um jeito um tanto inusitado de fazer uma entrevista. Ou uma quase entrevista, já que ele não respondia propriamente as minhas perguntas e ia escrevendo o que lhe dava na telha... Mas, na sequência, foram se intensificando as trocas de mensagens e a coisa foi tomando prumo em conversas por telefone e presenciais e fomos juntando as peças desse vasto tabuleiro. Mesmo assim, preferi ao editar essa matéria, uma fórmula diferente; são excertos que irei publicando em partes, com a intenção de conseguir dele esclarecimentos que estão na minha lista de prioridades, mas deixando a coisa fluir com toda a leveza possível. E aí vou dividindo com vocês, leitores do Caderno de Cinema, a rica vivência desse amigo cineasta; Com vocês, em conta gotas, Tuna Espinheira.
Não se avexem...
🙌
Infância em Poções (BA), adolescência em Jequié (BA). Vivencia especiais: Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo (viagens diversas).
O cinema foi, é, a opção preferencial. Sou um cineasta bissexto. Documentarista por paixão; acho que este gênero não tem fronteiras, cabe tudo, é infinito. Sebastião Salgado, com um único fotograma, consegue emocionar, contar estória, perscrutar e analisar a realidade! O que não é possível ao documentário, com dezenas, centenas, milhares de fotogramas, com as asas do albatroz, botas de sete léguas, conseguir o impossível e passear nos Campos do Senhor e dar o seu recado?
Faço filmes como uma espécie de exorcismo, principalmente quando se trata de ficção, o roteiro é uma peça diabólica, se não for filmado, vira uma tentação, uma assombração, noites e dias, nada afasta esta condição agônica, só te uma saída, exorcizar o script o filmando, ou penar no ossuário geral das utopias.
Só a partir de 1963 tive conhecimento maior da Roma Negra, já que vim para estudar, no Colégio Central, ainda divisando alguma coisa que restava deste legendário educandário público. Já trazia a coceira do cinema no sangue. Aliás, deste os tempos de criança, ainda em Poções, os filmes foram a minha janela para o mundo, assim como os livros. Em Salvador a sétima arte fazia parte de todo diálogo inteligente, um verdadeiro frisson. O famoso “Ciclo do Cinema Baiano”, estava em curso. Portanto havia um entusiasmo geral, o cinema era coisa nossa.
Acontece que, em 1964, a famigerada ditadura, no começo dos seus malfeitos, colocou uma pá de cal, no movimento cinematográfico da terrinha. O último filme, totalmente produzido na Bahia, numa cidade do interior, Feira de Santana, foi o Grito da Terra, de Olney São Paulo. Mais de noventa por cento dos cineastas, sem escolha, tomaram o rumo de se exilar no sul maravilha. O norte para quem queria continuar no meio.
Em meados de 65, embarquei neste êxodo. Com uma carteira de estudante da Escola de Teatro (BA), me matriculei no Calabouço, um restaurante fantástico, com almoço e janta, de qualidade, para milhares de estudantes. Foi uma época franciscana, mas de grandes momentos, jamais deixou mágoas ou queixas. Vivíamos uma vida vibrante. Independentes. Da nossa sartreana escolha.
Nos derradeiros anos da década de sessenta, morei na rua, Prado Junior, (Copacabana), próxima do Túnel Novo, fronteira com o bairro de Botafogo. Como nunca fui muito ligado às areias da praia, passei a exercitar o meu cotidiano, atravessando, a pé, o dito túnel, adentrando na rua Alvaro Ramos. Lá reinava o Laboratório Líder, cercado por produtoras, pontos de alugueis de equipamentos cinematográficos. Ponto obrigatório dos viventes ligados a área do fazer imagem em movimento.
Minhas universidades de aprendizado (alô Gorky!) devo eu a esta rua milagrosa. Conheci gente das mais diversas áreas, ligados ao meio. Era um espaço livre, pode-se dizer democrático. Vi, ouvi muitas discussões, brigas, queixumes de uns, ufanismo de outros... Principalmente vi muitos copões, o material bruto das filmagens. Estranhavam esta minha mania. É um método confuso, mas me foi muito útil, pra mim era uma forma de mergulhar na construção do filme. Como tinha carta branca com os obreiros do laboratório, sempre era avisado das projeções dos copiões e dos filmes lapidados, já prontos, ao primo canto.
A Embrafilme, ao meu vêr, contando os prós e os contras, significou uma época de ouro. Sobretudo pela existência da sua sacrossanta Distribuidora. Responsável por finalizar e colocar na tela (pelo menos boa parte deles). Não é como hoje que, sem capital para bancar uma distribuidora, os filmes vão parar no ossuário geral das prateleiras. Vale lembrar o apoio desta empresa ao cinema de curta metragem. Este gênero sagrado, o primeiro passo, onde o cineasta se revela, se deslancha, na marcha para um lugar ao sol no escurinho do cinema. Cortando a conversa, a Embrafilme caiu mais pelos seus acertos que pelos seus erros (estou parafraseando um dito de Darcy Ribeiro, sobre a queda do Governo Jango).
A derrocada da Embrafilme (no Governo Collor), foi um Deus nos acuda! Um ensaio do fim do mundo! Anos intermináveis de vacas magras! Nada mais seria como dantes... Uma nova era, comandada pelas grandes agencias de publicidade, daria as cartas nas produções dos filmes. Afinal, elegem os políticos, logo tem o poder, gozam da intimidade com os donos do dinheiro, logo passeiam no vasto latifúndio das Leis de Incentivo... Fico por aqui, falar mais é cutucar marimbondos de fogo.
Obtive o abre-alas para o cinema, entre os anos de 67/68, quando participei do filme de longa metragem, “Um Sonho de Vampiros”, de Iberê Cavalcanti. Minha função inicial era a de assistente de produção. Na época era um cargo tipo “pau pra toda obra”. A parte mais difícil era arranjar, de graça, coisas ligadas à produção. É só reparar os letreiros dos filmes mais antigos, inclusive aqueles denominados de “chanchadas” (obras que costumavam ter um bom retorno nas bilheterias), para se ver os longos créditos de agradecimentos, era quase um Deus lhe favoreça!
O filme ao qual me refiro, começou a ser um e acabou mudando tudo e passou a ser outro, ou seja, foi interrompido, já com muitas filmagens realizadas. Tenho, por mim, que, um dos motivos principais foi a perda do ator principal, Grande Otelo, (ainda antes de começar a filmar) levado para o filme Macunaíma, de Joaquim Pedro.
Uma das minhas tarefas que deu fruto foi conseguir uma lente de contato azul, para ser usada pela personagem de Otelo. Processadas de graça pelas Óticas Fluminenses. Nesta época, Grande Otelo era um artista de grande popularidade, por onde passamos havia sempre uma estrepitosa reação das pessoas. Lamentei a perda da oportunidade de trabalhar com este gênio, ator dos sete instrumentos.
O fato da interrupção do filme e, ato contínuo, prosseguir com outro roteiro, rendeu para nós quase um ano de trabalho. Uma sorte para quem queria aprender cinema na prática. Estive envolvido, desde a pré-produção, na produção, no período das dublagens e finalização. Um perfeito curso intensivo. Devo, pois, muito a este filme.
Meu primeiro filme, como roteirista e diretor, “Luis Gonzaga – O Rei do Baião”, foi pensado, pesquisado, e filmado, em torno de 3 anos, com locações no Rio (Gonzaga morava na Ilha do Governador) e em vários pontos do sertão, principalmente em Exú (PE), terra natal do compositor.
Luis Gonzaga era um ídolo da minha geração. Ouvia -se, e via-se este artista inigualável. Não foi uma nem duas, as vezes que o “velho Lua” se apresentava, mesmo em lugares onde Judas perdeu as botas, como Poções e Jequié. Antigamente os grandes artistas do rádio, viravam o mundo, Brasil afora e adentro.
Através do seu canto suas músicas e criação de novos ritmos, “Gonzagão” levou ou trouxe nordeste, como um todo, (suas cores, seu cheiro, seu folclore, sua vasta cultura) no bico e no voo livre da Asa Branca, para o mundão do continente nacional, notadamente o Sul Maravilha. Ele foi um autêntico Borba Gato, numa cruzada às avessas.
A produção contou com muitos apoios de pessoas que faziam cinema, entre eles o Renato Newman, que bancou a maior parte dos serviços em laboratório. Eu e o Marcio Curi tocamos a produção. Foi num período dos dias de chumbo, o ato institucional número 5 já estava nas ruas. Mas o cinema brasileiro ainda vivia os últimos dias, do seu lado romântico. Com seus anjos da guarda de plantão! Conseguimos finalizar o filme, em 35 mm, 22 minutos! Sabe lá Deus como!
Acho que falei mais que a nêga do leite! (espero que esta frase não seja vista como politicamente incorreta).
Morando no Rio, participei da formação de uma produção destinada à feitura de 3 documentários na Bahia. Eu, Marcio Curi, Olney São Paulo e Júlio Romiti, seriam os produtores, os filme: Major Cosme de Farias, Cachoeira, documento da História e Castro Alves. Emanoel Cavalcanti, a convite nosso, rodaria o Castro Alves. Com uma câmera 35 mm, um gravador Nagra, uma Kombi bastante velha e a equipe, nós mesmos.
Era julho de 1971, rodamos tudo em Salvador e fomos prá Cachoeira, a parte do Olney. Quem pensa que no cinema tudo são flores, muito se engana, deste projeto, dois ficaram prontos, mas o do poeta teve um destino trágico, pelo que se tem notícia, os negativos foram destruídos, em resultado de desavença entre o Julio e Cavalcanti. Acontecimento doentio, da série dos que nem Freud explica.
Na III Jornada Brasileira de Cinema da Bahia, o nosso, “Cosme de Farias.. .” ganharia - o que significou grande força, para nós os produtores - o importantíssimo prêmio: Walter da Silveira, outorgado pela Associação Baiana de Imprensa (ABI).
Aconteceu o fato que, (quem sabe?) talvez mereça menção, quando fui receber o dito prêmio, explodiu uma grande vaia, ofuscando os aplausos. Muitos anos depois, fumando o cachimbo da paz, comentei com um dos pertencentes à turma daquela apoteótica vaia, nunca entendi porque vocês detestaram tanto aquele filme, a resposta veio pronta: a vaia foi pra você, não para o filme. Por incrível que pareça, eu entendi e fiz ver que tinha entendido. Teria ficado chateado, se a vaia tivesse sido mesmo para o filme, como foi para mim, assunto encerrado.
Na década de 70, tive participações diversas produções, entre as quais, como roteirista, diretor, montador e até pequenos papeis em filmes de longa metragem. Estar em frente da lente (de acordo com a listagem do currículo) deveu-se a amizade com os três Diretores a escolha (tirante o do filme francês, Marcel Camus, a quem eu fui levado e apresentado pelo meu amigo, Jôfre Soares). Embora eu tenha registro como ator (carteira de sócio remido no, SATED-Rio de Janeiro).
Como foram alguns curtas, da minha lavra realizados nesta década, vou pinçar dois, por terem estórias a contar. São eles: “Comunidade do Maciel - há uma gota de sangue em cada poema” e “Dr. Heráclito Fontoura Sobral Pinto - profissão advogado”, causaram algum rebuliço, mexendo com a censura e bate boca pela imprensa.
Passo a contar o caso, como o caso foi. Por ordem, a) Comunidade do Maciel. Fui convidado para registrar (em imagem em movimento), esta Comunidade, do (então existente na área do Pelourinho). Ali se fazia um precioso trabalho comandado pelo antropólogo Vivaldo Costa Lima e o sociólogo Gey Espinheira. Trabalhava-se como parte do projeto de recuperação do Pelourinho. Era a parte que tocava nos “Direitos Humanos”. A ideia era registrar a vida diária nesta comunidade sem qualquer roteiro prévio. Um tanto quanto à moda do Realismo Italiano (digo a grosso modo).
Com um orçamento franciscano, a escolha tinha de ser um filme em P&B, em 16 mm. Toda a equipe era composta de um Diretor e um Fotógrafo, respectivamente, eu e Roberto Gaguinho, o equipamento uma câmera Paillard Bollex, de corda, com capacidade de rodar até 30 segundos. Estando portanto, descartado planos de grande duração.
A área era habitada por diversos tipos de moradores marcados pela pobreza, abrigava também o meretrício já bastante decadente. Malandros, viciados, alcoólatras, biscateiros, os expulsos da “Sociedade Maior”. Como estratégia, passamos um bom tempo caminhando pelas ruas, parando nos botequins, às vezes, engolindo uns tragos, sempre procurando estar em companhia dos pesquisadores da Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia que, todos os dias coletava informações dos viventes do lugar.
O propósito era marcar as nossas figuras aos olhares de todos, com a nossa presença. Preparação tática, para o começo das filmagens. O que resultou em boa estratégia.
O filme ficou pronto, obteve a aprovação dos principais apoiadores da dita Fundação, foram feitas algumas projeções, com excelente recepção. Daí veio a Jornada Nacional (de Guido Araújo). De acordo com a praxe da época, todos os filmes selecionados teriam de passar pela censura. Aí o bicho pegou. Fui “convidado” a comparecer na sede da Polícia Federal, então sob o comando do Coronel Luis Artur de Carvalho. Guido Araújo, informado, fez questão de me acompanhar. Fomos atendidos pelo próprio censor, um ex padre. Tivemos de ficar horas a fio diante do censor, falando besteira e sempre frisando: “é o Coronel que vai falar com vocês”. Depois de um longo chá de espera, fomos chamados, conduzidos até a sala do inquisidor, sentado numa mesa grande com a lata do filme (o réu) exposta. Foi tudo muito rápido. Abre o pano: o Coronel fala, “o filme está censurada, não pode ser exibido no Festival, nem em local público. . .” Fiz menção de dizer alguma coisa... “ ele retomou: “ não há nada para se falar, já disse tudo”. ._ ato continuo, completou: podem levar o filme, assumindo cumprir a proibição... bateu forte a mão sobre a lata e a empurrou em minha direção.
Quando me aproximei para pegar a lata, consegui pronunciar; “só uma coisa Coronel, o que eu digo a imprensa?” Resposta: “você não tem que dizer nada, mande que eles venham me perguntar.”
Na época em Salvador havia várias sucursais de imprensa, Jornal do Brasil, Estado de São Paulo etc. A notícia da censura foi nacional.
Nos finais da década de 70, o filme, realizado em parceria de produção, com o Mestre Nelson Pereira dos Santos, Dr. Heráclito Fontoura Sobral Pinto, embora premiado do último Festival realizado pelo Jornal do Brasil, com ampla divulgação deste e demais segmentos da imprensa. Esbarrou com outro tipo de censura. Desta vez por um órgão de mídia cultural, a TV-E (Rio de Janeiro), então sob a Direção do Professor Gilson Amado.
Aconteceu que, o Departamento dirigido pela jornalista, Marta Alencar, ligado a difusão de filmes brasileiros, resolveu juntar os filmes Major Cosme de Farias e o Sobral Pinto, para formar um bloco, no seu programa, Coisas Nossas, exibido pela TV citada. Era um horário cativo da Embrafilme. Tendo sido surpreendentemente vetado.
Marta reagiu, levando este inexplicável ato de censura à luz da imprensa. Gilson Amado teve de se explicar e atribuiu ao seu ato proibitivo ao fato do filme não possuir as devidas qualidades técnicas que, em verdade o direto, Tuna Espinheira, havia se utilizado da figura impoluta, veneranda, de Sobral Pinto, para reforçar o mito do chefe comunista, Luis Carlos Prestes.
Ora, um dos fatos mais marcantes da história política do nosso país, foi justamente esta defesa do Prestes pelo Sobral. Ele relata, ao vivo, diante da câmera, este histórico acontecimento. Foi isto que enfureceu o conhecido educador, aqui atuando como censor.
O programa não foi ao ar, mas a ditadura que já começava a cair de podre, não conseguiu banir o filme.
Fecho aqui minhas proezas ok cinematográficas na década de 70.

José Antonio D'Andrea Espinheira (Salvador26 de dezembro de 1943 - Salvador, 28 de fevereiro de 2015), conhecido como Tuna Espinheira.
    Tuna Espinheira, em plena atividade de diretor de Cinema

Uma conversa com TUNA ESPINHEIRA
Caderno de Cinema, 29 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

RUY ESPINHEIRA FILHO, ENTREVISTA, 2008

 

ENTREVISTA RUY ESPINHEIRA FILHO
(POR LUCIANO LANZILLOTTI) em 2008
A primeira vez em que encontrei a poesia de Ruy Espinheira Filho foi na feira de livros realizada no Rio de Janeiro, Poesia Reunida e Inéditos. Lá se vão quase dez anos daquele primeiro contato. O mais surpreendente dessa história é que fui conhecê-lo pessoalmente alguns anos depois, na mesma feira itinerante de livros, no dia em que o poeta receberia o prêmio na ABL, pelo primoroso Elegia de agosto e outros poemas (2005). Naquele dia passamos a manhã conversando sobre livros e a vida; mas, na verdade, a conversa já se iniciara bem antes e continua até hoje. Durante este tempo tenho tido a felicidade de compartilhar da amizade de um poeta simples e humano, sempre disposto a um diálogo igualitário, sem o distanciamento muitas vezes estabelecido entre escritores e leitores.
Impossível ler seus poemas e não se sensibilizar diante dos questionamentos, pois são nossos também — compartilhamos das mesmas felicidades e agruras ao longo da vida. Assim, nada mais natural que ele fale de sentimentos humanos em linguagem humana, tal qual o fez Manuel Bandeira.
Nesta conversa o poeta nos esclarece seus principais campos temáticos e nos convida a visitar sua fabulista memória.
LANZILLOTTI: Heléboro — seu primeiro livro, publicado em 1974 — já traz várias tendências de sua poesia, sobretudo a contenção expressiva e o lirismo elegíaco. A divisão do livro nas seções “Longe de Sirius” e “Música pretérita” revela o mal-estar existente em relação ao que é inatingível como experiência tátil, mas que se busca pela junção entre memória e recriação. O passado acaba tendo, dessa forma, um lugar privilegiado. Qual a relação entre sua poesia e a passagem do tempo?
ESPINHEIRA: Jorge Luis Borges dizia que todos os animais são eternos, menos o homem, porque este possui o conceito de tempo sucessivo — ou seja, tem consciência da passagem do tempo, com o qual leva a vida. A vida, sim; não apenas as coisas — como escreveu Ovídio. Em outras palavras: nos leva à morte. E esta é nossa angústia maior: a consciência da morte. Assim, como todo o mundo, desde cedo me senti participante desse drama. E, como escrevo com a vida, é claro que a consciência do tempo teria de estar presente. Quanto ao passado, é a única coisa que realmente possuímos — e que a fabulista memória vai tornando mais preciosa. Enfim, escrevo com o que há de mais forte em mim: o sentimento do efêmero e a memória. Que é o que somos todos nós: nossa memória; nosso passado. Encerrei o poema “As meninas”, de Julgado do vento, com este verso: “O passado não passa”.
LANZILLOTTI: O senhor lançou livros de crítica sobre Jorge de Lima, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Qual a influência da leitura desses e de outros poetas em sua poesia?
ESPINHEIRA: Influenciaram-me muito os três, pois eram mestres de poesia. No caso do Mário, sua influência foi mais crítica, ensinando-me, por exemplo, que a originalidade está em nós mesmos. Jorge de Lima e Bandeira foram mais mestres de poesia propriamente dita. Mas recebi e recebo a influência de muitos outros autores — como Camões, Drummond, Vinícius, Cecília, Sosígenes Costa, Carlos Pena filho e até Olavo Bilac, para só ficarmos em alguns de Língua Portuguesa.
LANZILLOTTI: Ainda no que se refere à relação entre memória e passagem do tempo, o senhor, em “Insônia”, escreve “que lembrar é a minha natureza e às vezes/ um desespero”; já em outro poema, afirma que “mais pleno é o perdido, pois o resto/ ainda não se cumpriu”. A recordação de tudo que fora perdido é concomitantemente agonia e bálsamo?
ESPINHEIRA: Lembrar pode ser, mesmo, um desespero — sobretudo por não podermos assumir de forma total esse tempo contemplado, evocado, ou não suportar, como dizia Camões, a grande dor das coisas que passaram. E que, como já foi dito, porque passaram não passam nunca... Sim: a recordação é às vezes bálsamo, às vezes agonia. O outro verso que você citou ilustra o que falei há pouco sobre a memória e o passado: é claro que o que se foi é mais pleno, pois já está inteiramente realizado, cumprido; enquanto o presente e o que podemos chamar de futuro não chegaram a tal realização — ainda se encontram em processo ou apenas em estado de expectativa, anseio, sonho.
LANZILLOTTI: O poema “Elegia de agosto” fala da dor de Drummond diante da perda da filha. Manuel Bandeira publicou um poema homônimo. Coincidência ou não, sua obra poética, em alguns aspectos, evoca temas bandeirianos, partilhados também por outros poetas — quiçá, de toda a poesia. Até aí nada de novo... Enquanto Bandeira fala da vida que poderia ter sido, em sua obra perpassa, ao contrário, uma vida que foi e só volta a partir da recordação — seja esta real, seja fictícia. Qual o papel da recordação em sua poesia? Somente o que fora perdido é realmente nosso para sempre?
ESPINHEIRA: Esta é uma pergunta cheia de perguntas. Drummond viver mais alguns dias só para sofrer com a morte da filha única foi uma tragédia que me comoveu muito, daí o poema. Como o fato se deu em agosto, a elegia só poderia ser de agosto. O poema de Bandeira com título idêntico fala de coisa totalmente diversa e, a meu ver, sem valor poético: sua decepção diante da renúncia de Jânio Quadros. Creio que a segunda pergunta já está parcialmente respondida acima. Quanto a viver (ou reviver) pela recordação, direi que se trata de algo que acontece a todos os humanos. “Recordar é viver”, dizia o velho samba, repetindo um velhíssimo dito popular. Na verdade, todos os escritores, não apenas os poetas, escrevem muito mais com a memória do que com qualquer outro, digamos, encantamento.
LANZILLOTTI: A recordação da mulher amada, em alguns de seus poemas, trata ora de relações envoltas em dor, ora de perfis femininos que lembram semideusas. Outra vertente de sua poesia amorosa, entretanto, fala-nos de certa mulher tangível, humana, e vê o amor como o encontro entre os corpos. Essas duas vertentes caminham juntas no tema amoroso de sua poesia ou a tendência é uma suplantar a outra? É possível as almas se entenderem tão bem quanto os corpos?
ESPINHEIRA: Não me acho diferente dos outros no caso da poesia amorosa. O que acontece é que as mulheres são bruxas — como dizia Nikolai Gogol —, as quais tanto podem ser deusas, semideusas, quanto carne terrestre vibrante de sensualidade. Para mim, as mulheres são capazes de tudo, podem ser tudo, inclusive num só tempo. Sou grato a elas até pelos momentos de angústia, porque esses transes cruciantes também me enriqueceram. Quanto ao entendimento das almas, Manuel Bandeira achava que não era possível — e quem sou eu para discordar do mestre?
LANZILLOTTI: A infância em Jequié e Poções nos é passada como cercada de magia: lugar mítico onde a felicidade fora completa, sobretudo pela presença dos que hoje se encontram ausentes e pela liberdade das brincadeiras ao ar livre. Sobressai, entretanto, a impossibilidade de reviver aqueles momentos, instaurando-se, assim, a tristeza. A infância nessas cidades foi algo fundamental em sua vida, sobretudo como poeta? Qual sua relação com esse período da vida? O menino ainda existe no homem?
ESPINHEIRA: A infância foi em Poções; a adolescência, em Jequié. Houve magia, sim; e muita, nesses meus dois períodos de vida. Na verdade, houve magia em minha vida toda — e ainda há. Às vezes é uma magia cruel, mas magia; pois a vida não tem sentido, não tem lógica. Só a magia pode dar-lhe sentido — o sentido da magia. Nunca aceitei bem a separação que se faz entre sonho e realidade; sinto-me cada vez mais inclinado a concordar com Calderón de la Barca: “La vida es sueño”. Quem me prova que não é?
LANZILLOTTI: Alguns aspectos do pós-moderno estão incluídos em sua obra. Concorda com isso?
ESPINHEIRA: O que é mesmo o pós-moderno? Parece-me, mais do que qualquer coisa, uma dessas modas que de vez em quando assolam o mundo, especialmente as universidades. Moderno sempre foi, por definição, o que é atual, contemporâneo. Assim, se fôssemos pós-modernos, estaríamos vivendo depois da atualidade, adiante do nosso tempo. Fica fácil criar essas modas; é só mexer nas definições, nos conceitos, e inventar à vontade — como já inventaram até o fim da história... Se, como você diz, há aspectos pós-modernos em minha obra, gostaria muito de saber quais são — e certamente demonstrarei que são apenas coisas de meu tempo e minha vida, ambos anteriores a essa moda. De resto, como Octavio Paz, não gostaria de dizer aos meus descendentes que eles são pós-pós-pós...
LANZILLOTTI: Elegia de agosto foi premiado em 2006 pela Academia Brasileira de Letras, além de ter obtido o segundo lugar no Jabuti daquele ano. O que esses prêmios representam para sua poesia?
ESPINHEIRA: Creio que são um reconhecimento. Como não sou um poderoso na política da República das Letras, não passando de um nordestino que vive no Nordeste, devo concluir que a obra foi premiada unicamente por sua qualidade literária. Infelizmente, porém, tais premiações não ajudam em nada quanto à vendagem, o que é um fenômeno tipicamente brasileiro. Para piorar, estamos vivendo um tempo acrítico — quase não há crítica literária no país. Há resenhas, mas muitas vezes escritas por pessoas sem preparo para analisar e emitir opinião. E também há muita ação entre amigos — o que é ótimo para a promoção da mediocridade. Meu livro foi triplamente premiado — pois houve também uma Menção Especial da UBE-RJ — e só recebeu uma crítica: a de Miguel Sanches Neto, publicada na Gazeta do Povo, do Paraná, e no Jornal do Brasil. Aliás, Miguel foi também o autor das orelhas do livro. Como ele é um grande crítico — além de poeta, romancista, contista, ensaísta —, fiquei muito honrado com os dois textos. Considero-os, por partirem de escritor como ele, uma consagração.
LANZILLOTTI: Há pouca publicação de poesia no país. Quase sempre os novos escritores lançam seus livros por conta própria. Nada de novo até aí, já que muitos autores fizeram isso no passado, mas a poesia parece estar virando peça de museu. Isso se dá em decorrência da pouca publicação ou pela má qualidade da maioria do que é publicado?
ESPINHEIRA: Sim, alguns dos maiores começaram financiando os próprios livros — como Manuel Bandeira (dinheiro do pai, depois ajuda de amigos), Carlos Drummond de Andrade (descontando do salário) e Mário de Andrade (que pagou suas publicações até quase o fim da vida). Os problemas persistem hoje, pois poesia vende mal. Claro que há poetas que vendem bem — e não são necessariamente os melhores. Aliás, dos poetas que vendem bem, a maioria é de má qualidade. Acontece que o brasileiro não aprende a ler poesia; não sabe distinguir entre o bom e o ruim. Como geralmente o leitor não está preparado para a poesia maior, contenta-se com a menor. Contenta-se até com o que não chega a merecer o nome de poesia — não passando de um emaranhado de linhas irregulares, que esse leitor aceita como verso livre e que, na verdade, não é coisa nenhuma, oscilando entre conversinhas baratas de episódios domésticos, gracinhas, aventurazinhas sexuais e — em último caso — festivais escatológicos. Tudo isso em ritmo frouxo, sem nenhum artesanato, nenhuma técnica poética, nenhum talento. Em termos quantitativos, a má poesia — ou a não poesia — está vencendo. Para inverter esse resultado, seria necessário criar um público leitor mais exigente, o que nossa educação não vem fazendo. De modo geral, nossos leitores só conseguem ler — além de versos de segunda e terceira classes — manuais de autoajuda e best-sellers que repetem velhas fórmulas de sucesso popular. Enfim, os bons poetas dispõem de raros leitores — número insuficiente para comover as editoras... Não havendo uma mudança nessa triste realidade, sem dúvida a poesia — a que merece esse nome — vai mesmo acabar se transformando, neste país, em peça de museu.
LANZILLOTTI: A perda é uma constância em sua obra — diga-se de passagem, alguns de seus mais belos poemas tratam desse tema. Pessoas, sentimentos e espaços — tudo faz parte de um mesmo conjunto de ausências que é revisitado em sua poesia. Existe diferença entre viver e recordar?
ESPINHEIRA: Mais que em meus poemas, a perda é uma constância na vida de todos. Vamos vivendo e perdendo, o que é sempre uma experiência dolorosa. Mas o perdido, como já foi dito, não é o que se vai, o que desaparece; é o que permanece noutra dimensão. Faz pouco tempo, numa entrevista, disse que hoje convivo mais com mortos do que com vivos. Sim, tenho muitos mortos que sempre me visitam e comigo conversam. Não estou falando de espiritismo ou qualquer coisa de valor religioso; estou falando de memória, afeto e afinidades intelectuais e artísticas.
LANZILLOTTI: Bachelard escreveu, em a Poética do devaneio, que “Em sua primitividade psíquica, imaginação e memória aparecem em um complexo indissociável”; “[...] o passado rememorado não é simplesmente um passado da percepção. Já num devaneio, uma vez que nos lembramos, o passado é designado como valor de imagem”. Diante disso, podemos dizer que sua poesia, assim como a de outros poetas, tem raízes no pictórico? É possível diferençar recordação e imaginação?
ESPINHEIRA: Por que pictórico? Já na resposta à primeira pergunta, falei da fabulista memória, do que trata também gente como Bachelard, Proust e Borges. O que a memória não é mesmo é um retrato, pois sua natureza ficcionista está muito mais para recriação e até criação. Assim, a memória é uma contadora de histórias, muito mais um oceano em movimento do que uma pintura. Nunca achei que a memória me abastece com fatos — mas que, de maneira suave ou tempestuosa, amorável ou cruel, conta-me seus contos de Xerazade, em alguns dos quais sou o herói ou o vilão, ou apenas um pobre diabo que perdeu a oportunidade de ser feliz...
LANZILLOTTI: Em várias ocasiões sobressaem poemas em que o espaço fúnebre é utilizado como reflexão sobre a validade do estar vivo, já que todos caminham para o fim. Qual a relação entre a temática da morte e sua poesia?
ESPINHEIRA: Já disse que a morte é nossa angústia maior. Conscientes dela e não encontrando uma explicação para a vida, muito menos um sentido — tirante o sentido que damos a nós mesmos com nosso trabalho, nossos princípios, nossos sonhos etc. —, impossível evitar tais reflexões, questionamentos, perguntas dirigidas aos céus e aos abismos. Como sou poeta, é sobretudo na poesia que visito tais temas. Saio deles perplexo, sem certeza de nada; mas nunca disse, como Manuel Bandeira, que a vida não vale a pena e a dor de ser vivida. Aliás, o mesmo Bandeira escreveu que a vida é um milagre. E eu já falei das magias... E, se há magias, vale a pena, sim.
LANZILLOTTI: São muitos os casos de poetas que também são exímios prosadores; entretanto, uma parte de suas produções acaba suplantando a outra. Poucos sabem, mas Ruy Espinheira Filho é um profícuo escritor de prosa, com várias publicações. Há diferença entre ambas as escritas? Os temas de suas novelas e seus romances são os mesmos dos de seus poemas?
ESPINHEIRA: Escrevo prosa quando é prosa que me sopram as musas. Sou mais conhecido como poeta, mas a prosa está abrindo também seu lugar. Tenho até um prêmio nacional de romance — o Prêmio Rio de Literatura, pelo qual fiquei em segundo lugar (foram três premiados), em 1985, com Ângelo Sobral desce aos infernos. Recentemente, Um rio corre na Lua, que lancei em 2007, ficou entre os semifinalistas do Portugal Telecom. E meu último romance, De paixões e de vampiros: uma história do tempo da era, de 2008, foi considerado uma pequena obra-prima pelo crítico Wilson Martins, do Jornal do Brasil. O grande problema, neste país, é que o poeta não tem o direito de ser romancista — e vice-versa. É mesmo um complexo sul-americano, segundo Júlio Cortázar. Quer dizer: coisa de subdesenvolvido. O cidadão — e o crítico, o intelectual, até mesmo o escritor — vê um romance escrito por alguém que ele conhece como poeta e vai logo dizendo: “Um romance? Ora, mas ele é poeta...” E despreza o livro simplesmente porque é óbvio que o sujeito não pode fazer bem as duas coisas. Outra estupidez é comparar o romance do autor com sua própria poesia — em vez de compará-lo com outros romances, de outros autores, que é o que deve ser feito. Quanto às diferenças entre as escritas, há algumas, sim — sobretudo devido à mais longa duração de um romance e aos ritmos da prosa. Mas esta também vem das musas; é também misteriosa em sua origem. Quanto aos temas, creio que não há diferenças — são os do cotidiano...

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

PINTURA PRIMITIVISTA DA BAHIA - JOÃO ALVES

    João Alves, Cidade do Salvador, com o Elevador Lacerda, s/d.

https://gmepae.com.br/wp-content/uploads/2022/04/dissertacao_marciolima_compressed.pdf


MÁRCIO SANTOS LIMA

 

JOÃO ALVES, O PINTOR DA CIDADE

RELAÇÕES DIALÓGICAS ENTRE A PINTURA

“PRIMITIVA” E O MODERNISMO BAIANO

 

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Artes Visuais.

Área de concentração: História da Arte

Orientadora: Profa. Dra. Elyane Lins Corrêa

 

SALVADOR

2012

 

Não vejo nele nem o pitoresco nem a lenda, não vejo nele o curioso folclore para gaudio dos turistas, o ex-engraxate, e ex-vendedor de refrescos, sei lá o que, Deus meu! Vejo, sim, o pintor da cidade, de suas casas, suas ruas, sua gente miúda da festa do Bonfim e da eterna mulher-dama do Pelourinho, das noites de São João, do mágico carnaval dos afoxés, das areias sob a lua, e da cor desta cidade da Bahia, cor de João Alves, homem bom, de sofrida humanidade e generoso coração. Um homem do povo, nascido e plantado na pobreza e na grandeza das Portas do Carmo, um verdadeiro artista, um poderoso criador, um homem do povo e um mestre do povo, mestre da cidade e seu arquiteto, o pintor João Alves, um grande da Bahia.

Jorge Amado, 1964

 

RESUMO

 

Nesta pesquisa, tive como objetivo principal estudar e analisar a obra de um dos artistas autodidatas mais expressivos do período do Modernismo baiano, em meados do século XX: o pintor e ex-engraxate João Alves. As interações e as relações dialógicas entre sua pintura e o denominado Movimento Moderno oferecem um pano de fundo para a elaboração do texto, trazendo à discussão o contexto histórico e algumas implicações culturais, étnicas e socioeconômicas. Partindo do método histórico-biográfico, optei por adotar o uso de entrevistas, depoimentos e revisão literária, além da pesquisa bibliográfica. Cabe salientar que não havia, até a atual dissertação, qualquer obra biográfica do referido artista. Portanto, na pesquisa, busquei montar, através de depoimentos de artistas, colecionadores, escritores, catálogos, recortes de jornais, fotografias e documentos, a sua biografia. Para tanto, ressalto a relevância das palavras de Jorge Amado, em seus textos literários, os escritos dos críticos de arte José Valladares e Clarival do Prado Valladares, bem como as entrevistas realizadas com contemporâneos do artista e com Renot, dono da Galeria Querino, na qual João expôs. Destaco a importância das contribuições dos artistas plásticos Sante Scaldaferri, com depoimento e com sua coleção, e Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro Brasil, em São Paulo, com seu posicionamento crítico e combatente contra o emprego do termo primitivo para definir a arte de João Alves. Essa expressão foi questionada e problematizada no intuito de refletir sobre seu caráter evolucionista e, logo, preconceituoso de claro teor eurocêntrico. A falta de um arcabouço bibliográfico especializado na discussão sobre a pintura primitiva, no Brasil, foi o que me motivou para a organização e sistematização cronológica da investigação desse termo polissêmico no universo artístico baiano. Enfim, finalizei a pesquisa com a análise de pinturas de João Alves, que fazem jus ao seu título de Pintor da Cidade. Foram as obras que, tematicamente, versaram entre as igrejas de Salvador e os casarios do Pelourinho, representando com interpretação pessoal a Bahia, sua beleza, encanto e seus problemas sociais. Destaco também o enorme esforço para reunir, de maneira organizada, por tema e ano, a obra de João Alves que fora dispersa pelo mundo. Como resultados, as discussões não foram esgotadas nem conclusivas, foram propositivas e abriram possibilidades, quem sabe, para novas pesquisas e aprofundamentos futuros sobre referido tema e o artista João Alves.

Palavras-chave: Pintura “primitiva”. João Alves. Modernismo baiano. Pelourinho.

 

BREVE RELATO BIOGRÁFICO: DE IPIRÁ AO PELOURINHO

(Excerto)

 

 João Alves é o pintor da cidade, de suas casas, de suas ruas, de sua gente miúda, da festa do Bonfim, e da eterna mulher-dama do Pelourinho, das noites de São João, do mágico carnaval dos afoxés.

Jorge Amado

 

João Alves Oliveira da Silva (1906-1970) ainda não era capaz de viver de arte, embora suas telas fossem bem aceitas, sobretudo pelos turistas, assim, sua renda principal continuava sendo a de seu ofício de engraxate. Isso mesmo, o artista em questão foi um engraxate. Só mais tarde, depois da fama, conseguiu manter-se com a pintura. Afro-brasileiro, nascido em Ipirá - Bahia, em 1906, logo cedo, ainda criança, veio morar em Salvador. Segundo Ceres Coelho (1973), ao completar 19 anos, passou a exercer várias profissões, como qualquer batalhador de baixa renda vindo do interior para a capital do Estado. João Alves foi empregado doméstico, auxiliar de torneiro, carregador de caminhão, estivador, carroceiro e, por fim, engraxate, além de desenhista nas horas vagas, quando, com lápis de cor, rabiscava caixas de papelão. Adquiriu uma cadeira de engraxate num bazar de antiguidade, segundo Sylvia Athayde3. Para Milton Santos (2008), entre os moradores do Centro de Salvador, 60% eram de imigrantes rurais. Esse contingente de famílias vindas do interior do Estado pelo êxodo não dispunha de trabalho permanente, na maior parte dos casos uma forma de “subemprego” com salários quase miseráveis.

Entre os ofícios mais frequentes, encontramos sobretudo os seguintes: bicheiro, encanador, lavadeira, cozinheiro, bombeiro, pequeno funcionário, porteiro, engraxate, encerador, viajante comercial, tipógrafo, empregado doméstico, vendedor ambulante, chofer, condutor de ônibus, camelô etc. Em suma, são pequenos empregados ou pessoas sem uma ocupação permanente ou bem definida. Seu local de trabalho era, de preferência, no centro da cidade. (SANTOS, 2008, p. 172)

João Alves foi mais um naquele contingente rural que tenta a sorte na capital do estado. “Sem lenço e sem documento”, pode-se dizer, o que justifica a dificuldade e o insucesso na busca de registros documentais sobre sua existência. Nem mesmo no Arquivo Público do Estado da Bahia foi encontrada alguma nota de seu nascimento, nem de sua morte. Família não foi encontrada, sequer alguém com certo grau de parentesco. Por essa razão, na atual dissertação, considero as pesquisas oral e bibliográfica como fundamentais para a estrutura metodológica do João Alves foi mais um naquele contingente rural que tenta a sorte na capital do estado. “Sem lenço e sem documento”, pode-se dizer, o que justifica a dificuldade e o insucesso na busca de registros documentais sobre sua existência. Nem mesmo no Arquivo Público do Estado da Bahia foi encontrada alguma nota de seu nascimento, nem de sua morte. Família não foi encontrada, sequer alguém com certo grau de parentesco. Por essa razão, na atual dissertação, considero as pesquisas oral e bibliográfica como fundamentais para a estrutura metodológica do trabalho. É de real valor citar que a revitalização do Pelourinho, abordada acima, que retirou dezenas de famílias, dificultou a localização de antigos moradores, prováveis contemporâneos e vizinhos de João Alves. Muitos já devem ter falecido e outros, não há informações para onde foram deslocados.

Seguindo com o que pude encontrar, é certo, através de depoimentos e registros de exposição, que João Alves Oliveira da Silva nasceu no município de Ipirá, na Bahia. A cidade de onde vem o engraxate e artista modernista João Alves é um município a 209 km de Salvador, sertão baiano, com área de 3.049 km2 , que hoje4 tem uma população de aproximados 57.640 habitantes.

Ipirá localiza-se na Microrregião Homogênea e Administrativa de Feira de Santana e, do ponto de vista econômico, na Região do Paraguaçu. Segundo o sítio eletrônico ipiranegocios.com.br, na pecuária destacam-se os rebanhos de bovinos, suínos, equinos, asininos, caprinos e ovinos. No setor de bens minerais, é produtor de pedra. Seu parque hoteleiro registra 62 leitos. No ano de 2001, o município registrou 9173 consumidores de energia elétrica com um consumo de 13.893MWH. Segundo dados da SEI/IBGE, o PIB do município para 2003 foi de R$122,88 milhões, sendo 28,98% para agropecuária, 17,39% para indústria e 53,63% para serviços. A Indústria de couro é uma atividade secular, que tem importância fundamental na economia local, através da geração de emprego e renda. A feira livre da cidade é considerada a segunda maior do Nordeste. Ipirá situa-se com altitude em torno de 330 m. Mas desmembrou-se de Feira de Santana em 20 de abril de 1855, quando foi automaticamente emancipada pela resolução provincial de número 520. A partir do decreto 7.521 de 20 de julho de 1931, passa a se chamar Ipirá, palavra de origem Tupi que significa "Rio de peixe", fazendo relação com o rio que banha parte das terras locais, de mesmo nome.

Santana do Camisão, assim que era chamada no passado, mais conhecida como "Camisão", segundo o senso, ainda hoje, divaga no terreno das especulações a origem do nome da cidade. Várias são as hipóteses que explicam a origem do nome Camisão e, dentre elas, segundo o IBGE, por apresentarem resquícios de logicidade, destacam-se as duas histórias abaixo:

Conta-se que teria um velho desterrado português que era proprietário de um rancho e que por sua hospitalidade para com os que ali passavam e por vestir longas camisolas de algodão, ficou conhecido por todos como o Homem do Camisão, assim originando-se o nome.[...] Outra hipótese é de que o nome Camisão originou-se do Coronel Manoel Maria Camisão, entradista português homenageado pelo Governador Geral do Brasil ao dar seu nome ao aglomerado de ranchos existentes na região. O mesmo é descendente do herói da retirada de Laguna durante a Guerra do Paraguai, tenente Coronel Carlos de Moraes Camisão.5

    João Alves, Largo do Pelourinho

É importante destacar que a própria fonte, o IBGE, declara que não há provas documentais tanto para a primeira como para a segunda hipótese. É bem provável, então, que João tivesse saído de lá quando a cidade ainda era conhecida por esse curioso nome, Santana do Camisão. Mesmo deixando sua terra natal ainda muito novo, é perceptível, em alguns quadros do artista, a memória de sua infância na referencialidade do sertão, da festa de São João, nos trens que circulavam os interiores do estado etc. Neste estágio, a pesquisa não conseguiu dados documentais, registros comprobatórios do nascimento de João, assim como sua família.

Como já vimos, o professor Milton Santos considera o crescimento demográfico da cidade do Salvador à vinda de uma população de origem rural e que, “atraídos pela miragem da grande cidade tentacular, vieram morar nos velhos casarões da Sé e do Passo, bem como nos da Cidade Baixa” (SANTOS, 2008, p. 174). Foram atraídos por outras pessoas naturais de suas regiões que já tinham chegado na capital primeiro, “chamados por uma espécie de simpatia, característica aliás da distribuição espacial dos habitantes nos centros metropolitanos” (SANTOS, 2008, p. 174).

Na capital do estado, João chega a morar nos bairros de Cosme de Farias, Nazaré e Pelourinho, mais precisamente, na esquina da Rua das Laranjeiras com a igreja de São Domingos, onde, no final desta rua, existia uma “casinha, como um subterrâneo” com escadaria, ali ele residia segundo relato de Sante Scaldaferri (2010)6 . Sua cadeira de engraxate ficava instalada na Praça da Sé, ao lado do Palácio do Arcebispado e próximo ao Cinema Excelsior, onde existia uma oficina de um judeu ourives. Ali ele pintava.

É importante reforçar a informação de que não há qualquer texto com aprofundamento, substancialmente, biográfico sobre João Alves Oliveira da Silva. Sua família é desconhecida, assim como parte de sua história. Quase uma lenda do Pelourinho, o engraxate-pintor ficou conhecido pelo seu prestígio com os intelectuais de sua época. Sua obra foi dispersa por todo o mundo. Turistas domésticos e fluviais7, colecionadores e amigos, todos eram clientes do homem simples, afrobrasileiro, pobre e trabalhador, que reinventava o que via, muitas vezes em cunho social, a partir de sua pintura.

Tive dificuldade, confesso, em encontrar alguém que tivesse conhecido “Seu João”, muitos de seus contemporâneos já não estão mais entre nós. Muito menos, alguém que reivindicasse qualquer tipo de parentesco com o artista. João Alves morreu em 28 de junho de 1970, na cidade do Salvador-Bahia, e parece que ele não deixou herdeiro. Sim, herdeiro porque, apesar de pobre, ele deixou um tesouro incalculável para a cultura baiana, representativo de um período áureo das artes plásticas na Bahia, do século XX. Período este, que carece de um aprofundamento histórico e teórico, que traga questões e reflexões sobre a arte popular para os dias de hoje. Tempo de efervescência cultural jamais presenciado no Estado e que, hoje, nos perguntamos quando ocorrerá algo parecido novamente, ou, pelo menos, que movimente o circuito das artes plásticas na Bahia, com a valorização de seus artistas e obras, com o respeito e o reconhecimento que lhes é devido.

    João Alves, o pintor da cidade: Incêndio em Salvador, s. d.

Atualmente, o cenário parece estar estagnado artisticamente, decorrente da falta de investimentos públicos na cultura, fomento e incentivos de projetos artísticos, resultando na pouca produção cultural em artes plásticas na Bahia. Isto nos faz olhar saudosos para dias de destaque e respeito na esfera intelectual da sociedade, quando o cuidado e a atenção para esse ramo da cultura baiana era valorado com dignidade e considerável apoio. Dias em que, na Bahia, foram sediadas duas Bienais Nacionais de Artes Plásticas, as quais serviram como afirmação do panorama artístico local em resposta à produção nacional, ou seja, uma espécie de descentralização do Sudeste brasileiro, que ditava e concentrava a produção plástica do país. Mas, por razões, supostamente, mesquinhas e questionáveis deixaram de existir a partir do fechamento truculento da II Bienal, em 1968 pelas forças militares.

Falar sobre João Alves é reviver esse momento, e ao mesmo tempo, é reclamar uma prestação de contas, uma liquidação de uma pequena parte do débito que a História da Arte tem com aqueles, subestimadamente, conhecidos por primitivos modernos, que foram decisivos, desde a influência à construção da arte que hoje chamamos de contemporânea. Portanto, devo começar a abordagem destacando o valor desse gênero da arte e, com um olhar centrado naquilo que mais discursa sobre o artista – sua obra, farei uma análise de sua condição socioeconômica e cultural, questões étnicas que podem ter interferido diretamente em sua maneira de representar e ressignificar o que via a partir de sua pintura.

 

3 Diálogo informal com Athayde, diretora do Museu de Artes da Bahia, em agosto de 2010.

4 Fonte: IBGE. Dados do Censo 2010 publicados no Diário Oficial da União do dia 04/11/2010.

5 Fonte: IBGE. Dados do Censo 2010 publicados no Diário Oficial da União do dia 04/11/2010.

6 Entrevista realizada especialmente para esta pesquisa em abril de 2010 7 Termos utilizados atualmente pelos artistas do Pelourinho para identificar clientes locais – domésticos; e compradores estrangeiros europeus – fluviais.

João Alves, Lavagem do adro da Igreja do Senhor do Bonfim, s. d.