quinta-feira, 27 de julho de 2017

SOTERUMANIDADE

A imagem pode conter: atividades ao ar livre
Imagem: Salvador, BA, Pelourinho. Foto de José Spínola, s.d.
Por Florisvaldo Mattos
Esta foto postada pelo dinâmico construtor Eduardo Bandeira, de tão visualmente expressiva como memória urbana e cultural, animou-me a reproduzir um poema, que publiquei lá pelas comemorações dos 500 anos do Descobrimento, cuja verbalização e imagética convergem totalmente para o Centro Antigo de Salvador, dedicado a um saudosíssimo boêmio, grande poeta encantador de serpentes femininas.
Segue abaixo.
SOTEROLIMOS
A Jeovah de Carvalho
A cidade distende o couro crespo
imerso nos gemidos dos telhados;
janelas e portas (fanais da noite),
despejando lamentos sobre pedras,
saem do escuro por uma luz sonora
por onde viaja a goiva do grave Hansen,
retorcem-se cruciais chapas de Mário,
ladeiras onde versos de Godô
formam lagos de esperma flutuante.
Bordéis que torres sacras abençoam
nas horas silentes, escoando clamor,
soluço e preces sobre frontes boêmias;
serenas lanças de astros que ornamentam
recintos de dolente passar, ó
pontas soberbas contra o choro agudo
de sacrossantos rostos mendicantes,
faces roídas de infinita espera.
Eretas torres de azulejaria
enferma (e as luxuriosas cornijas?),
que perscrutais pelo céu de amaranto
para antepasto na manhã de ausências?
Que anseios guardais em pedra de lioz?
Aspa da noite, deusa de chavelho,
a lua vem com o ventre pressuroso,
as ladeiras se enroscam e há um torpor
que amortece o tambor nos cabarés.
Tudo isto é obra do oceano que lá embaixo
rola parlamentando com os rochedos.
Lixo da rua, o mesmo dos navios
que lançam do mar tudo que emporcalha
a fímbria muda, a fímbria que admiramos,
dos administradores prometidos
gestos nos poupa, e que só morte esconde.
Tudo é inexorável, e nós sabemos:
um pedaço de mar é o que nos sobra.
A cidade adormece. Lábios boêmios
se cruzam sob marquises enfeitadas
com a luz que salta da burocracia.
Lentos lagos ali de morna esperma,
corredores de espelhos, qualquer coisa
que venha e nos livre das asperezas.
E logo esta mulher que está de costas,
lábios partidos, ombros nus, cidade
descarnada, a pele colada aos ossos.
O clamoroso ventre da montanha,
na noite de gemidos, no cassino,
mulheres seminuas, apostas altas;
na rua iluminada, bondes rangem,
levando bêbados; as rotativas
despacham o noticiário em pacotes:
povos guerreiros de sangrentas vozes,
os pobres nas manchetes de polícia,
As miúdas intrigas de governo.
A vida civilizada de uns poucos
o porto despeja em caixote e pipa.
Sabemos quem são os ricos, o infeliz
amanhã e o próximo morto; sabemos
que tudo permanecerá, ninguém
(gente ou jornal) pergunta se há razão.
Passa a noite, e a manhã há de passar.
A tarde trará cores renovadas,
afastando o que dantes era dúvida.
Os habitantes abandonarão
a pompa dos festins; a roleta, o álcool.
Saímos todos a praticar esportes.
Os capitães estão em polvorosa:
arquivaram as velhas ambições,
o momento não era para festas.
Apenas a cidade amanhecera,
navios foram na costa afundados.
É a manchete do dia, certamente.
(Florisvaldo Mattos, "Mares anoitecidos", 2000)

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