sábado, 18 de julho de 2015

HOMENAGEM À MEMÓRIA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO



AMIGOS QUE SE VÃO, SAUDADES QUE FICAM

por
Florisvaldo Mattos



Foto de Dadà Jaques




Este testemunho foi escrito por Florisvaldo Mattos em 18 de julho de 2014, no dia em que morreu o escritor João Ubaldo Ribeiro. Em exclusiva italiana vem sendo publicado junto com um soneto que Florisvaldo Mattos quis dedicar ao grande amigo em 2012, quando J.U. Ribeiro tomou posse na Academia de Letras da Bahia. O soneto foi publicado na Revista n. 52 da Academia de Letras da Bahia, permanecendo inédito em livro. Temos a honra de publicá-lo na Revista "Sarapegbe" e também em versão italiana (N.d.T)
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Hoje estou triste. Logo cedo, fui acordado com um telefonema de Luiz Antonio Cajazeira Ramos anunciando súbita morte de um amigo de grandes recordações, o escritor e membro da Academia Brasileira de Letras (e da baiana), João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores prosadores e romancistas brasileiros, com quem convivi intensamente, quando ele vivia em Salvador, nos anos 60 e parte dos 70.
Tenho a honra de, estando uma noite na sala de trabalho e leitura de seu apartamento na Rua Oito de Dezembro (Graça), ouvir, narrado por ele, o primeiro capítulo de seu primeiro romance, "Sargento Getúlio", para que eu dissesse o que pensava do que escrevera, que seria, logo que publicado, a sua primeira reconhecida obra-prima.
Lá, na sala, de silêncio e pouca luz, conversávamos bastante, em papos levados a uísque nacional, sobre literatura e assuntos vários, ouvindo Jazz, ou então uma gravação com o saudoso capoeirista Canjiquinha, da então Sutursa, cantando clássicos do folclore da capoeira baiana.
Era um dos integrantes da Geração Mapa, aderente ao movimento artístico e literário, por ser um dos bem mais jovens, mais jovem até do que Glauber Rocha, nosso líder. Ano passado, mandei-lhe um poema inédito, a ele dedicado, onde está: "A João Ubaldo Ribeiro". "Não existe poesia sem infância, ele disse". Recordava uma frase que ele dissera certa vez numa entrevista à revista "Playboy", que ele não mais lembrava... Grande escritor, grande saudade, de inesquecível amigo e de excelente "causeur", em papos infindáveis.
Ano passado fez um bonito discurso, ao tomar posse na Academia de Letras da Bahia, descrevendo o que era a Bahia e o sentir-se baiano. Este ano, em janeiro, houve festa na comemoração de seus 73 anos de idade, na sua amada Itaparica, seu ícone existencial. Que as luzes e a paz sejam o seu eterno emblema.


De esquerda para direita: João Ubaldo Ribeiro - Glauber Rocha - Calasans Neto - Sante Scaldaferri - Paulo Gil de Andrade Soares.(Acervo Fotografico de Sante Scaldaferri)
-----------------------------------------------------------------------
TARDE NA VÁRZEA COM CHUVA

por Florisvaldo Mattos

A João Ubaldo Ribeiro

(“Não existe poesia sem infância”, ele disse)


A chuva há de passar... De quando em quando,
um alarido vem pelo ar, fugidio.
Na tarde bruxuleante, além do rio,
Teles e Caboclinho estão jogando.

Não posso ver; a chuva me atrapalha.
Vestindo sedas, clamo aos ares, rogo.
Avanço a rua. Minha tia ralha
(Nada me ajuda): “Pare aí, é só um jogo!”

Raiva. Bato três vezes na madeira.
Será que vai chover a tarde inteira?
Digam como lá estão os litigantes.

É agosto, sim, e chove sem parar.
Dentro, o menino quer comemorar
logo. Atlanta e Palestra, dois gigantes.

Salvador, Bahia, 2012


-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
© SARAPEGBE
É proibida a reprodução, mesmo que parcial, dos textos publicados na Revista sem a explícita autorização da Direção.

Florisvaldo Mattos. Natural de Uruçuca, no sul do estado da Bahia (Brasil), é poeta e jornalista, professor aposentado da Universidade Federal da Bahia; exerceu cargos em vários jornais, entre os quais os de editor-chefe (“Diário de Notícias” e “A Tarde”, ambos de Salvador). Foi correspondente e chefe de sucursal na Bahia do “Jornal do Brasil” (RJ). Por mais de uma década, editou o suplemento semanal “A Tarde Cultural”, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), como o melhor do Brasil no quesito de Divulgação Cultural. Desde 1995, ocupa a Cadeira nº 31, da Academia de Letras da Bahia. Entre 1987-89 ocupou a presidência da Fundação Cultural do Estado (Funceb), Obras publicadas: Reverdor, 1965; Fábula Civil, 1975; A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior, 1996; Mares Anoitecidos, 2000; Galope Amarelo e Outros Poemas, 2001; Poesia Reunida e Inéditos,2011; Sonetos elementais – Uma antologia, 2012 (todos de poesia).Estação de Prosa & Diversos, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, 1998 e Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, em 2004 (os últimos de ensaio).

ESTE TEXTO FOI COPIADO DE SARAPEGBE, REVISTA ITALIANA VIRTUAL
http://www.sarapegbe.net/articolo.php?quale=89&tabella=nuovi_percorsi#portoghese
Postado pela jornalista e escritora Antonella Roscilli

Nenhum comentário:

Postar um comentário