quinta-feira, 30 de abril de 2015

LAMPIÃO NA PASSARELA - A cultura do espetáculo no banditismo do Nordeste

Maria Bonita, companheira de Lampião, denotava um culto pela aparência realçada pelo vestuário e o uso cotidiano de joias

Florisvaldo Mattos

Os cangaceiros, cuja história de façanhas e crueldades inspirou conceituações diversas – símbolos do mal, como criminosos frios e sanguinários, para as autoridades e classe média, principalmente do litoral; heróis, homens bravos e destemidos a serviço da defesa da honra, para os camponeses, principalmente o sertanejo habitante dos descampados -, dormem na memória e no esquecimento, mas às vezes despertam por repentinos sacolejos da estética e da comunicação.
Houve época (anos 60/70) em que nas universidades estudos de pós-graduação e pesquisas se interessaram por eles como uma saga de rebeldia social de fundo primitivo; reportagens descobriram no nordeste, centro-oeste e oeste idosos remanescentes de bandos desaparecidos havia décadas; livros se escreveram e publicaram, ensaios e romances se reeditaram; filmes foram realizados recontando a história em nível ficcional; peças foram encenadas, o figurativo das artes plásticas os reviveu.
De raro em raro a febre evocativa retorna, em filme, poesia ou ensaio. Como agora, pela agudeza historiográfica da francesa Élise Jasmin, especialista na análise de fenômenos históricos, sociais e culturais por meio da fotografia, voltada em grande parte para o Brasil, com o que arrebatou em 2001 o prêmio Le Monde de Pesquisa Universitária com o livro Lampião, Vies et Mors d´un Bandit Brésilien.
Agora, aparece no Brasil com o volume Cangaceiros, publicação da editora Terceiro Nome (SP, 154), baseado na edição francesa, cujo projeto gráfico segue, preparada para coincidir com o Ano do Brasil na França, evento realizado em 2005.
O livro, diga-se a bem da verdade, apresenta-se de saída com o duplo selo da originalidade – no seu objetivo estético e no caráter revelador de um universo cênico. Pretende narrar a aventura trágica do cangaceiro Lampião e seu bando e a repressão contra eles movida através da fotografia. De início, que se saiba, é a primeira vez que, de forma organizada, estruturada e pesquisada, intenta-se uma incursão por este vasto território visual, num trabalho de arqueologia icônica que traz à tona do espaço impresso, além de material já conhecido, dezenas de fotos somente conhecidas e mantidas por colecionadores dedicados à história do cangaço no Brasil.
Compõe-se a obra de uma introdução a cargo do historiador Frederico Pernambucano de Mello, autoridade em estudos do cangaço, um ensaio da autora tratando dos significados de seu trabalho e 85 enfileiradas fotografias (das págs. 36 às 120), divididas em duas partes: as de Lampião e seu bando, em vários momentos desde 1926, quando estiveram em Juazeiro, no Ceará, para encontrar-se com o Padre Cícero, quando Lampião recebeu a patente de Capitão dos Batalhões Patrióticos, formados para dar combate à Coluna Prestes, e de vários grupos de forças volantes, que se formaram para perseguir e eliminar cangaceiros.
Não faltam nem mesmo fotos de cabeças cortadas, na repugnante escatologia da exibição delas como prova soberba de êxito na perseguição e até de corpos empilhado no massacre de Angicos, na Bahia, em 28 de julho de 1938, além da famosa coleção arrumada de cabeças antes do envio para estudos lombrosianos no Instituto Nina Rodrigues, de Salvador, onde permaneceram para opróbrio da inteligência baiana até 1969, quando foram enfim sepultadas no cemitério das Quintas dos Lázaros, por pressão de intelectuais, jornalistas, professores e estudantes.
Na verdade uma reportagem litero-visual de estrutura livre, mas de conteúdo distribuído em inter-títulos temáticos, embora não cite uma única vez Charles Sanders Peirce (1839-1914), o criador da teoria geral dos signos, nem mesmo os que posteriormente, à base de seus princípios, abriram novos campos à linguagem (Jean Piaget, A. J. Greimas, J. Kristeva e Roland Barthes), Élise Jasmin realiza no seu ensaio um estudo de semiótica aplicada, mostrando a personalidade de Lampião, a mulher dele, Maria Bonita, e seus seguidores na plenitude do culto à pela aparência, que vai das formas de comunicação e animação, gostos, hábitos, peculiaridades, teatralidade dos gestos, sem se recusarem a atitudes de extravagância, enfim uma sociologia e uma antropologia envolvidas num cenário de clandestinidade.
E o que se vê, pelas fotografias, reproduções e descrições, é um Lampião prazeroso do luxo de existir, na medida de seu mundo demarcado pelas solidões do agreste profundo, árido e catingueiro, exibindo seus múltiplos anéis, armas, bandoleiras e cartucheiras cravejadas de outro e prata, chapéus de couro, cuja estética rústica ganhou alma no cinema, roupas de cores fortes e camisas listradas ou estampadas com botões especiais. Ninguém melhor que Jasmin para descrever Lampião no seu culto da aparência.
“Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua imagem – e aí reside sua grande originalidade. Teatralizou sua vida, utilizou modos de comunicação da modernidade que não faziam parte de sua cultura original, principalmente a imprensa e a fotografia. Vestidos de maneira extravagante, com roupas de cores berrantes, chapéus imensos, enfeitados com medalhas, exibindo anéis, colares e broches, Lampião e seus cangaceiros sempre manifestaram o gosto ela ostentação”.
Registra o prazer de Lampião, toda vez que aparecia numa cidade em que tinha acolhida pacífica ou impunha sua ação bandoleira, em desfilar pela rua com seu grupo exibindo sua imagem e o que melhor arrecadasse no botim.

Jasmin parece ter razão, pois eis uma descrição que dele faz o folclorista cearense Leonardo Motta (1891-1948), com base em seu trânsito pelo interior do Ceará:
“Amulatado, estatura meã; magro e semi-corcunda; barba e nuca ordinariamente raspadas e sempre que é possível perfumadas; (...) o olho direito branco e cego, escondido pelos óculos pardacentos, de aros dourados; mãos compridas que se assemelham a garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cor berrante, preso ao lado por valioso anel de doutor em direito; sobre o peito, medalhas do padre Cícero, escapulários e saquinhos de "rezas fortes", chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turma de curiosos; folgazão, quando entre poucos estranhos ou no meio de comparsas; (...) paletó de camisa de riscado, claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhozes amarelos; a tira-colo, 2 pesados embornais de balas e bugingangas, protegidos por uma coberta e chales finos; tórax guarnecido por 3 cartucheiras; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos um fuzil; à cintura duas pistolas "parabellum" e um punhal de 78 centímetros de lâmina”.
Fotos individuais, de duplas ou de grupos atestam no livro de Jasmin esta fartura de flagrante exibicionismo. E há no livro algumas revelações. Por exemplo, a perícia de Lampião na costura de roupas, alinhavando e costurando as suas próprias vestes numa máquina marca Singer, traço de personalidade que a própria autora alude ter sido motivo para que a propaganda anti-cangaço pusessem em dúvida a virilidade do cangaceiro. A responsabilidade de Lampião por introduzir a figura da mulher no cangaço, a partir de 1930, algo que jamais acontecera a qualquer bando anterior. A influência dos dotes criativos de Dada (Sérgia Maria da Conceição), mulher de Corisco, na mudança radical nos motivos e confecção do guarda-roupa dos cangaceiros, ao ingressar no grupo.
Cite-se mais uma vez Jasmin: “A partir de 1932, lançou a moda dos motivos bordados em couro branco sobre os chapéus, das flores em tecido colorido bordadas sobre as bolsas, dos peitorais e dos cinturões largos. Desde então, todos os cangaceiros vestiam-se com esses novos trajes”. Questão de talento, vê-se.
Por essa descrição e pelo exposto nas fotografias, pode-se observar, na parte reservada a documentar os aspectos dos grupos repressores, quanto as forças volantes imitaram os cangaceiros, não apenas no trajar, mas também nas posturas, inclusive nas poses para fotografias. Não está lá, mas me atrevo a uma suposição, para tais atitudes. Tudo faz crer que se ligam à necessidade de obterem as volantes para sua empresa aval de simpatia dos habitantes do meio rural distante, onde os cangaceiros, por motivos sedimentados nas suas origens – pobreza, miséria, injustiça, defesa da honra, vida agrária -, com seus atos e presença, possuíam boa acolhida e até proteção. As volantes precisavam parecer com eles, uma tática de publicidade, baseada em signos ícones e indiciais.
E, surpresa das surpresas – se não se trata de um devaneio parisiense -, Élise Jasmin revela uma faceta desconhecida deste chefe do cangaço – a de Lampião leitor. Além de incluir uma foto dele lendo um exemplar da revista O Cruzeiro, outra com um de O Globo na mão e uma terceira com ele recolhido à calma leitura de um livro, informa a preferência de Lampião por romances de aventura e ficção policial, sendo leitor de Edgar Wallace e Georges Simenon.
Jasmin destaca o papel do fotógrafo Benjamin Abraão, de origem libanesa ou palestina, no melhor da documentação visual sobre Lampião e seu bando, quando conseguiu, obtendo a confiança dele e do grupo, realizar fotografias e até um filme, hoje preciosidade rara dessa parte da história do Nordeste brasileiro, não só pelo que produziu como pelo arriscado feito, tanto que, por causa disso (encontrou-se com Lampião de 1934 até quase perto da morte deste) e pela repercussão de suas fotos publicadas em jornais do litoral e do Sul do País), Abraão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas (PE), em maio de 1938. A maior parte das fotos do livro são reprodução de fotogramas do documentário de Abraão, no que diz respeito a Lampião e seu bando.
Outros fotógrafos registraram imagens das ações do bando de Lampião e da repressão, na sua movimentação por estados do Nordeste, como Lauro Cabral, no Ceará, e amadores, como Eronildes de Carvalho, em Sergipe. Além de um monumento visual, o livro de Élise Jasmin é também um ensaio sobre o banditismo como fenômeno social, que no Brasil só aconteceu no Nordeste, por motivos mais que óbvios. Merece as estantes de todas as bibliotecas públicas.

 
Maria Bonita e Lampião, que também cultivava a leitura
  

Aspereza e solidão são os substantivos que, de logo, vêm à mente de quem estuda o banditismo como fenômeno social no Nordeste e a figura de Lampião a movimentar-se em um cenário de violência e tragédia, individual e coletiva. Hoje, com a distância dos conflitos sociais e as paixões políticas que dominaram a cena brasileira da República Velha, marcadas ainda pelo provincianismo do Império, é possível encara-los com uma visão menos maniqueísta.
Aliás, talvez por influência do historiador inglês Eric J. Hobsbawn - Bandidos e Rebeldes Primitivos – Estudos sobre formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX, com traduções no Brasil -, muitos estudiosos brasileiros, a partir dos anos 60 (Rui Faço, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Nertan Macedo, Cristina Matta Machado, Estácio de Lima, Aglae Lima de Oliveira, Rodrigues Carvalho, Eduardo Barbosa) passaram a analisar o banditismo, notadamente na sua forma de cangaço nordestino, senão com um olhar magnânimo, com uma visão científica, fundada na sociologia e na história social, despida de preconceitos, sem a velha atitude de justiciamento, amparada na criminologia.
Com efeito, essa mudança de ângulo propicia melhor compreensão das épocas de banditismo do passado, sem transformar o bandido (no caso, o cangaceiro) em herói, mas também sem lançá-lo no poço da condenação pura e simples como criminoso comum. A tendência foi considerá-lo protótipo de uma rebelião social de nível primário, nas formas que existiram, não só no Brasil, mas no México e na Itália. Nenhum deles com organização de conteúdo político, embora possam ser utilizados como instrumento pela política.
Se na Itália houve o famoso Bandido Giuliano, agindo no sul com o seu bando, cuja história alcançou as telas cinematográficas, no Brasil houve o bando de Lampião, mas antes dele o de Jesuíno Brilhante (Jesuíno Alves de Melo Calado), atuante no último quartel do século 19, no Rio Grande do Norte, o de Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais), com ação em Pernambuco, entre 1896 e 1914 (morreu em 1944) e Sinhô Pereira (Sebastião Pereira da Silva), agindo de 1916 a 1922.




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