quarta-feira, 13 de agosto de 2014

PRIMEIRA FACE DO ENIGMA

Pablo Picasso (1881-1973): Moça Diante do Espelho (detalhe), 1932

           
                                              
Na vasta sala, em vidros refletido,
de luz (ouro em madeixas) encimado,
heleno corpo trafega, eclipsando,
ali, interdito em veste, o derredor.
Sem grinaldas de jacinto, sandálias
com rosáceas, somente o etéreo corpo:
tez debuxada em quase madrepérola,
olhos de messe em mar ou brando céu.

Qual escultor remoto o modelou?
Simetria de braços, pernas firmes,
passa, delgada como garça. Mãos
sem pressa o talhe ergueram, soberano;
ternura e fogo, os olhos, que contrastam
límpido rosto, sugerindo fugas,
tudo que impele impávido, no olhar,
sonho e adejo de carne clamorosa.

No fundo de meus olhos adormecem
ruínas (rastros outros de beleza),
enquanto na vigília, fatigados,
aguardam desvendar o que defendem
os lábios silenciosos, o semblante.
Penso que navego em círculos. Sísifo,
talvez carregue o mármore de um corpo,
que o habita por trás do seu enigma.


(SSA, 22 fev. 2005)

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